sexta-feira, 7 de maio de 2010

A DECLARAÇÃO SEGUNDO LUIZA

Leia antes A Declaração Segundo Caio

Era como um ritual. Chegar da faculdade, tomar um bom banho, fazer um lanche bem gostoso e sair correndo para o curso de inglês. Logicamente que não era pelo fato de eu ter de sair “correndo” que eu deixaria de perder alguns minutos para me arrumar. É que lá no curso tem um rapaz, o Caio, que fazia questão de elogiar os meus vestidos, meus sapatos... Até os meus brincos ele reparava. Não, não se trata de ego inflado, nada disso. É que era tão fofo da parte dele... Ele achava que eu não via, mas ele me observava bastante. O pior é que eu gostava, e muito.

O Caio é aquele tipo de cara que mexe com você nos gestos mais simples, sabe? Ele vinha com sua estatura mediana, vestindo sempre uma malha de estampas engraçadas, um jeans e um tênis, como quem não quer nada, e, de repente, soltava um “que perfume gostoso, vem de ti?”. Eu desmontava. Disfarçava. Mas desmontava. A maneira como ele deixava o cabelo desarrumado lhe dava um ar despojado, mas no exato limite da tolerância feminina. Isso! O Caio é aquele tipo de homem que te ganha por andar no limite das impressões, entende? Ele sabe cativar uma mulher, mas sem ser um grude chato. Ele sabe ignorar também, quando quer, mas sem magoar profundamente. Seus olhos castanhos claros, da mesma cor do cabelo, me olhavam sempre com muito carinho; eu sentia isso. Mas o fato é que ele mantinha um namoro de mais de cinco anos, se não me engano. Sendo assim, nunca demonstrei o meu real interesse. Não acho certo.

O meu medo maior era o de Caio e eu nos tornarmos muito amigos, a ponto de nunca termos a chance de... nos beijarmos. Sim, eu sabia que um relacionamento de cinco anos era um rival e tanto, e em nenhum momento lutei para que Caio o terminasse. Eu apenas, digamos assim, me sentia disposta a acolhê-lo imediatamente após um possível fim daquele namoro. Mas eu sentia que nossa amizade só tendia a aumentar a cada dia. O Caio era um fofo, meu Deus, e eu, sim, estava me apaixonando por ele a pequenas doses diárias, não minto. “Se ele um dia se declarasse...”, eu pensava.
.
Foi quando tive o desprazer de encontrar, pela primeira e única vez, a tal namorada do Caio, a Daniele. Não sei como ela me achou. Só sei que estava eu na cantina do curso quando:

- Luiza? – dizia Daniele.

- Sim.

- Conhece o Caio?

- Que estuda aqui?

- Sim. Ele mesmo.

- Sim, o conheço. Por quê?

- Eu sou a Daniele, namorada dele, e precisava lhe entregar um bilhete.

Daniele me entregava um pedaço de papel escrito à caneta. E saía sorrindo.

Confusa, rapidamente li o bilhete.

O Caio pensa que eu não sei. Fique longe dele, Luiza. Está me causando problemas.

Daniele.


Gelei. Não sabia o que fazer. A Daniele agiu de forma tão fria e estranha. Naquele momento eu só pensava em me distanciar daquilo tudo. Pedi um suco de laranja e fiquei a esperar o Caio – ele sempre me encontrava por ali, antes de subirmos para a sala.

- Olá – dizia Caio ao chegar.

- Que bom que chegou cedo, Caio. Precisava mesmo falar contigo – eu dizia.

- Pois não. Diga.

- Eu não sei bem como dizer, sabe? Eu tenho muito medo do que pode vir a acontecer depois desse nosso papo.

- Nossa! Fiquei curioso. Prossiga.

- É o seguinte: eu sei que você morre de amores pela sua namorada, a...

- Daniele – ele me completava.

- Isso, a Daniele. E eu, pelo amor de Deus, Caio, acredite em mim, não quero jamais estragar um relacionamento tão bacana.

- Ora, mas por que diz isso?

- Bem, vou direto ao assunto. Acho melhor nos distanciarmos, Caio.

- Por que isso? Ainda não entendi. Somos amigos, não somos?

- Caio, eu não sei como dizer. Só sei que será melhor para nós dois.

- Luiza, o que é isso? Não está sendo leal comigo. Diga-me realmente o que sente. Só assim poderei aceitar ou não esse distanciamento. Você está gostando de mim? É isso? Pois fique sabendo que eu estou perdidamente apaixonado por ti, Luiza! E nada, nem mesmo a Daniele será capaz de apagar o que sinto.

Meu Deus! Quando ele falou aquilo eu não acreditei. Por que esperou tanto pare se declarar? Por que esperou a Daniele me ameaçar para dizer isso? Eu estava tão nervosa que, indo contra tudo o que planejei para um momento como esse, dizia:

- Ficou maluco, Caio?

- Sim! Maluco por ti!

- Ah... Mas... Não é nada disso, Caio. O que sinto por ti é a mais pura amizade. Eu... Ai, meu Deus... Queria me distanciar de ti porque sua namorada esteve aqui e me deixou esse bilhete.

Sem jeito, eu me levantava, jogava o bilhete sobre a mesa e saía. Ainda o vi lendo o bilhete e passando a mão sobre a cabeça.

De lá para cá, não falei mais com o Caio direito. Ainda o quero, sei disso, mas não estou a fim de me meter em confusão. A Daniele me pareceu uma psicopata. Tive medo, muito medo.

Enquanto a Daniele estiver na vida dele, prefiro direcionar meus sorrisos a direções incertas. Embora meu coração ainda esteja disponível a uma segunda tentativa por parte dele...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A DECLARAÇÃO SEGUNDO CAIO

O fim de tarde era sempre o início. O início de mais uma chance de dizer à Luiza o tamanho da reviravolta que me causava. É que todos os dias, das seis da tarde às oito da noite, eu me sentava ao seu lado, no curso de inglês. Eu, que namorava a Daniele seriamente havia cinco anos, me via, naquele momento, tomado por sentimentos que, sei lá, não sei explicar... Queria Luiza para mim. Sabia disso. Apesar de um amor ainda enorme à Daniele, queria Luiza para mim!

Descrever Luiza não é fácil. Com sua estatura baixa e medidas perfeitamente distribuídas, Luiza compactava em si as mais singelas qualidades que uma mulher poderia ter. Quando sorria, assemelhava-se a uma criança; quando séria, mostrava a mulher madura que seus vinte anos muitas vezes escondia. Enquanto assistia às aulas, por vezes me pegava a observá-la. É que seus olhos negros e bem desenhados, num misto de atenção e curiosidade, junto àquele semblante meigo e àquela pinta próximo ao canto da pequena boca, me hipnotizavam. Quando ela surgia envolta num vestido florido – o meu preferido –, ficava ainda mais difícil prestar atenção à minha volta; meus olhos eram seus. Os cabelos lisos e cortados na altura do ombro não possuíam um desenho elaborado, mas não me importava com isso. Debaixo daqueles fios eu me perderia por completo em sua nuca coberta de mais pintinhas como a do canto da boca. Na ponta das orelhas, um par de brincos tão meigos quanto a dona – geralmente com frutinhas – era a cereja do bolo.

O meu medo maior era o de com Luiza evoluir uma amizade que não coubesse uma declaração apaixonada de minha parte. Eu tinha a convicção de que, até o final do curso, eu iria me declarar. Mas me frustraria profundamente receber em troca uma gargalhada fofa, daquelas que só ela era capaz de soltar. Mas como controlar uma aproximação quando o desejo de se dizer futuramente o real sentimento se choca a vontade louca de ser amigo, irmão e pai daquela pessoa? Ao mesmo tempo em que eu procurava não me transformar no “melhor amigo” de Luiza, agia como se já o fosse de fato. “Eu preciso dizer logo o que sinto”, eu pensava. Mas e o medo de tudo até ali acabar de repente? – a amizade de Luiza, mesmo que limitando o meu sentimento mais profundo, era muito importante para mim.

Certo dia, já cansado de todo o fim de tarde dar início à minha confusão noturna, segui para o curso confiando ser aquele o “Dia D”. “De hoje não passa”, eu pensava e, pelo caminho, chegava a dizer a mim mesmo em voz alta. Cheguei até a notar que, durante o trajeto, o semblante de Daniele não me surgira. Aliás, fazia alguns dias que não conseguia pensar em Daniele, embora, repito, eu ainda a amasse. Amava? É que o foco ali era Luiza, entende?. Eu tinha que estar entregue, de corpo e alma, àquela conquista. Foi quando pensei: “E se Luiza disser ‘sim’, o que eu faço?”. Bem, embora fosse este o meu objetivo, eu notava que realmente não havia pensado em tal possibilidade. Terminaria tudo com Daniele?

Chegando ao curso, me deparava com Luiza ocupando uma cadeira na cantina, como sempre, a saborear um atraente suco de laranja.

- Olá – eu dizia.

- Que bom que chegou cedo, Caio. Precisava mesmo falar contigo – dizia Luiza séria.

Criativo, pensei: “Já pensou se ela se declara antes de mim?”.

- Pois não. Diga.

- Eu não sei bem como dizer, sabe? Eu tenho muito medo do que pode vir a acontecer depois desse nosso papo.

- Nossa! Fiquei curioso. Prossiga.

- É o seguinte: eu sei que você morre de amores pela sua namorada, a...

- Daniele – eu a completava, enquanto pensava “ela vai se declarar, ela vai se declarar”.

- Isso, a Daniele. E eu, pelo amor de Deus, Caio, acredite em mim, não quero jamais estragar um relacionamento tão bacana.

- Ora, mas por que diz isso?

- Bem, vou direto ao assunto. Acho melhor nos distanciarmos, Caio.

- Por que isso? Ainda não entendi. Somos amigos, não somos?

Estava na cara. Luiza notara que estava apaixonada por mim, e, com medo de não ser correspondida, devido ao meu relacionamento com Daniele, queria se distanciar.

- Caio, eu não sei como dizer. Só sei que será melhor para nós dois.

- Luiza, o que é isso? Não está sendo leal comigo. Diga-me realmente o que sente. Só assim poderei aceitar ou não esse distanciamento. Você está gostando de mim? É isso? Pois fique sabendo que eu estou perdidamente apaixonado por ti, Luiza! E nada, nem mesmo a Daniele será capaz de apagar o que sinto.

Pronto. Naquele momento, eu, contrariando todo um planejamento, me declarei. Senti-me leve e ao mesmo tempo certo de que me enganava em relação ao que sentia por Daniele. Ninguém, que amasse realmente, seria capaz daquilo. É como se em questão de segundos eu descobrisse um amor e um desamor ao mesmo tempo.

- Ficou maluco, Caio? – dizia Luiza.

- Sim! Maluco por ti!

- Ah... Mas... Não é nada disso, Caio. O que sinto por ti é a mais pura amizade. Eu... Ai, meu Deus... Queria me distanciar de ti porque sua namorada esteve aqui e me deixou esse bilhete.

Luiza, nitidamente sem jeito, jogava o bilhete sobre a mesa e saía. Eu, surpreso e confuso com tudo aquilo, o li:

O Caio pensa que eu não sei. Fique longe dele, Luiza. Está me causando problemas.

Daniele.


Como Daniele havia chegado até Luiza? Eu devo ter dado alguma bandeira, sei lá. Quem sabe até dito o nome de Luiza ao pé do ouvido de Daniele. O fato claro é que Luiza já tomara mais espaço em minha vida do que eu imaginava.

Hoje, minha relação com Luiza está péssima. Ela mal fala comigo. Duro é aceitar que seus sorrisos contagiantes, que antes eram meus, já se mostram sem uma direção certa.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

EM MEIO AO CAOS

Segunda-feira. Já se passava das dez da noite quando tomei o ônibus debaixo de um temporal atípico. O Centro da cidade se mostrava mais uma vez precário em relação àquele fenômeno natural. As ruas alagadas em poucos minutos de chuva tratavam de dar ao transporte a lentidão que precisávamos naquela situação. Tudo parou.

A chuva, como que num querer de mostrar o seu poder, martelava o teto do ônibus com uma violência crescente e ininterrupta. A impressão era a de que a qualquer momento aquele teto cederia sobre todos nós. Quantos ali não pensaram no famoso ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, hein? Antes fosse mole a água que nos atingia. Antes fosse de pedra aquilo que nos protegia.

Ao meu lado, uma mulher, aparentando quase trinta, levava as mãos à testa e orava em voz baixa. A ação daquela mulher contrastava com todo o seu redor: pessoas completamente desesperadas a falar em voz alta e sem parar. Eu apenas encostava a cabeça no vidro da janela e observava o nível da água a subir e subir e subir...

- Vamos sair dessa – eu dizia à mulher ao meu lado, mas sem olhar para ela exatamente.

- Sei que vamos – ela respondia sem parar a oração.

Não se tratava de fé. Não de minha parte. Tratava-se de convicção mesmo. Estava disposto a usar toda minha força para sair daquela situação, caso a água invadisse aquele veículo. E a salvar aquela mulher também, por que não? Ela, apesar daquela fé que já me incomodava, me passava uma sensação boa. Sensação esta que meu peito abriu espaço para sentir em meio aquele prenúncio de tragédia.

O nível da água já alcançara a lataria do ônibus, o que fez com aquela mulher orasse ainda mais fervorosamente. É difícil explicar a uma pessoa cristã o que se passa na cabeça de um ateu nessas horas. Eu não sei. Só sei que não coloco a minha salvação nas “mãos” de algo que eu nem sei se existe. Confio em mim. Durante o tempo que aquela mulher perdia jogando frases ao vento, eu estudava uma maneira de nos tirar dali.

Foi quando a água começou a balançar levemente o veículo que as pessoas entraram realmente em pânico. Em algumas janelas já era possível notar riscos d’água a invadir os assentos. As pessoas fechavam os vidros às pressas. Mas o que quase ninguém notou foram as enormes poças já formadas sob nossos pés.

Quando a água atingiu uns cinco centímetros acima do nível das janelas:

- Vamos sair daqui! – eu dizia àquela mulher ao meu lado.

- Eu sei que vamos!

- Não estou dizendo para esperarmos uma ação de seu Deus, moça! Estou dizendo para sairmos daqui! E agora!

- O meu Deus é o seu Deus também, rapaz!

- Eu não tenho Deus algum!

- Então pode ser que não saia daqui!

- Isso é o que vamos ver!

Abri a janela com força, fazendo com que um grande volume de água invadisse o ônibus – para desespero geral. “Você ficou maluco?”, gritavam. Não sei o que deu em mim, mas senti que o único jeito seria nadar até um ponto seguro.

Nas primeiras braçadas que dei, ainda sem saber para onde ir, eu senti a correnteza me levar para trás do ônibus. Fui arrastado por aquela água suja até conseguir me agarrar num poste, uns cinquenta metros depois.

No poste permaneci. Abraçado, concluía aos poucos que não fora uma boa ideia. Mas ali fiquei.

Alguns minutos se passaram até que a chuva, abruptamente, cessava. Mais alguns minutos depois o nível da água, que cobrira os carros, baixava, revelando os estragos.

Com a água na canela, vi descerem os passageiros do ônibus em que eu estava. Caminhei até eles. Mais especificamente até aquela mulher que sentava ao meu lado.

- Está tudo bem? – eu perguntava.

- Sim, graças a Deus.

- Talvez seja graças a Ele mesmo.

- Que bom que agora crê.

- Não, não creio. Apenas respeito sua fé.

- Que bom, mesmo assim.

- Vai ser difícil caminhar até em casa, não?

- Sim, será. Nem sei o que fazer – dizia aquela mulher, que me aparecia ainda mais linda depois de molhada – Pego dois ônibus para chegar em casa, e...

- Eu moro aqui perto. Se você quiser, pode ficar por lá. Eu...

- Imagina. Não precisa se preocupar.

- Bem. Vamos andando. Até lá você decide. Pode ser? Não há problema algum para mim.

Caminhamos até a minha casa. E ela, depois de muito eu insistir, resolvia ficar. Acho que porque ela notou que minha mãe me aguardava na janela. Que perigo um homem que ainda morava com a mãe poderia oferecer?

- OK. Eu vou ficar. Fico muito grata.

* * *
Bem mais tarde, minha mãe, depois de muito paparico, ia para a cama. Aquela mulher e eu ainda ficaríamos por horas conversando à mesa da cozinha.

Prometemos não entrar no assunto religião, mas não me contive em comentar a beleza de seus olhos castanhos enormes e de seus cabelos curtos e ondulados. Até que:

- Engraçado você não acreditar em Deus – dizia ela.

- Por quê?

- Fala de minha beleza como se ela nascesse de onde?

- Ora, eu sei lá de onde?

- Só uma força maior seria capaz de criar tudo isso. A beleza, o sentimento...

- Prometemos não falar de religião, lembra?

- Não estou falando de religião. A religião, na maioria das vezes, estraga tudo. Estou falando de fé!

- Mas você não vai à igreja? Não tem uma religião?

- Não. Por quê? Porque eu orei naquele momento?

- Ué...

- Não preciso da igreja. Preciso da minha fé.

- E eu preciso de um beijo seu.

- E o que o faz acreditar que eu o beijaria?

- Não sei. O meu poder de sedução, talvez...

- Pode ser. Mas eu prefiro acreditar que Deus o colocou no meu caminho.

- Acredita que o seu Deus causou toda essa tragédia para que nós nos encontrássemos?

- Por que não? Acredite! Nesse exato momento, várias pessoas devem estar mortas. Mas, em meio ao caos, várias pessoas estão nascendo também. Eu me sinto assim...

quinta-feira, 25 de março de 2010

ENCANTO (Parte Final)

No dia seguinte, Patrícia e Marcos seguiam para o escritório. Pelo caminho, uma longa conversa. Marcos estava determinado a manter sua decisão de demitir Matheus, porém, Patrícia insistia em tentar fazer com que Marcos separasse mais as coisas. A verdade é que Patrícia não viu mal algum nas atitudes de Matheus, levando em consideração de ser ele apenas um jovem, um jovem apaixonado, talvez.

Depois de muito ouvir Patrícia, Marcos decide repensar o assunto e, consequentemente, manter Matheus na empresa. Mas com a condição do rapaz se manter longe de Luana. Patrícia não concordou muito com tal condição, mas viu progresso na situação.

Chegando ao escritório, Marcos avistou Matheus no balcão do setor de RH, como ele mesmo ordenara na noite anterior.

- Matheus! – disse Marcos ao vê-lo.

- Sim, Marcos.

- Venha até a minha sala, por favor.

- OK.

Matheus, sem expressar o mínimo de tristeza diante da demissão, se sentava frente a Marcos e cruzava as pernas com elegância.

- Matheus, eu queria te pedir desculpas por ontem. Acho que passei dos limites diante da situação e...

- Está tudo bem, Marcos.

- Você não agiu certo, convenhamos, mas eu não soube dividir as coisas. Então desconsidere a demissão. Você tem se mostrado um excelente funcionário e não quero perdê-lo.

- Fico grato, Marcos.

- Mas tem uma condição, Matheus. Vou lhe pedir que se mantenha...

- Longe da Luana, não é? Eu sabia!

- Não foi legal o que você fez, Matheus! Nós temos regras aqui. Você violou uma delas e...

- A regra é não mentir ou não chegar perto de sua filha, Marcos?

- Para você? As duas!

- OK. Vou voltar ao RH para concluir o processo de demissão!

- Já disse que é para você ficar!

- Mas dessa forma eu não quero!

- Ah! Então está me dizendo que, fora daqui, continuará a se aproximar de Luana?

- Por que não? Lá fora não há “regras”.

Matheus saiu da sala de Marcos e foi direto ao RH. Marcos o assistiu sair e pensou: “Ele me desafia enquanto minha filha diz que está gostando dele...”.

* * *
À tarde, Celeste já havia recebido uma ligação de Marcos na qual frisava a proibição de Matheus naquela casa.

- Ele não trabalha mais comigo, mas deixou claro que continuará atrás de Luana, Celeste. Não deixe esse garoto entrar! E se ele aparecer por aí, me ligue imediatamente, OK?

- Sim, Marcos, pode deixar!

O que Celeste não sabia é que Luana já estava no portão com Matheus.

- O que você está fazendo aqui, garoto? – dizia Luana sorrindo.

- Vim te ver! Preciso!

Luana então ouvia de Matheus as palavras mais bem pensadas que um homem poderia dizer num momento de conquista. Luana sentia uma vontade enorme de saltar nos braços de Matheus. Essa era a verdade.

Matheus conseguia o que queria: deixar Luana num estado de paixão talvez jamais vivido por ela. E de fato Luana sentia que o desejo que sentia por Matheus se mostrava muito mais intenso que quando por Rômulo.

Concluía ali que seu relacionamento com Rômulo, apesar de digno de um conto de fadas, comparado a este, era como uma criança inocente. O que Luana sentira por Rômulo foi um amor muito forte, mas o que chegava a sentir agora por Matheus era um misto de paixão e tesão até.

Depois de falar bastante:

- Quero um beijo seu! – dizia Matheus.

- Eu também quero...

Os dois se beijaram.

Matheus a beijava com a experiência de um adulto, claro, o que deixava Luana com os lábios completamente entregues aos dele. Até que:

- Estou te amando – dizia Matheus – Estou te amando de novo, Beatriz!

- Beatriz? – dizia Luana sem entender.

- Ah?

- Você me chamou de Beatriz, Matheus!

- ...

- Que belo começo, Matheus!

- Calma, calma! Eu posso explicar.

Matheus então contava sua história:

- Luana, desde a primeira vez que a vi, não te tirei da mente um só minuto! Houve uma Beatriz na minha vida, sim, mas não há mais! É... Eu tenho uma foto dela aqui, deixa eu te mostrar...

- Não quero ver, Matheus! Ficou maluco?

- Se eu te mostrar vai me entender!

Matheus então retirava da carteira a foto de sua ex-namorada Beatriz. Para a surpresa de Luana, a menina era “a cara” dela. A cor da pele, os olhos puxadinhos, os lábios, o cabelo, tudo.

- Mas... – não sabia o que dizer Luana.

- Pois é. Parece contigo, não? Então... Beatriz faleceu faz uns dois anos. Estávamos namorando na época, e...

- Eu também perdi um namorado para a morte, Matheus! Mas eu não saio por aí procurando um outro Rômulo! Não quero ser sua nova Beatriz! Você não se apaixonou por mim, mas pela minha aparência! Vá embora!

- Por favor, Luana...

- Não estou pronta para isso, Matheus! Por favor, vá embora.

Sem dizer palavra, Matheus dava meia volta. Levava de Luana apenas um beijo. O beijo mais intenso que já dera em alguém, mas apenas um.

Após ver Matheus sumir no horizonte, um sol voltava a brilhar para Luana. É que seu celular vibrara no bolso do short jeans a trazer uma mensagem de Giovanna.

Deu tudo errado aqui na Bahia, Luana!
Estamos voltando na semana que vem, amiga!

Beijos!

Luana esquecia os arrepios causados pelo beijo de Matheus. A amizade de Giovanna quebrava de vez aquele encanto.

Luana dava um salto de alegria.

Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo
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segunda-feira, 22 de março de 2010

ENCANTO (Parte 5)

Patrícia chegava até seu quarto e encontrava um Marcos bastante bravo, que andava para lá e para cá em volta da cama. O sentimento de ter sido enganado por Matheus o incomodava ainda mais do que o fato de seu presente ter sido “sabotado”. As possíveis intenções de Matheus com Luana, na verdade, ocupavam o menor espaço na cabeça de Marcos. A ira era mesmo pela mentira de seu estagiário. Sentia-se um tolo.

Patrícia chegava até Marcos com calma. Entendia perfeitamente o lado de seu marido, mas entendia também as atitudes de Matheus – achava-o corajoso e romântico até. Não seria fácil acalmá-lo, mas Patrícia era, talvez, a pessoa mais centrada daquela casa; a única capaz de tal tarefa.

- Marcos, também não é para tanto, vai – dizia Patrícia.

- Como não, Patrícia? Como não? Aquele moleque me engana daquela forma! E a fim de dar em cima da minha filha! Era só o que me faltava.

- Marcos, o Matheus é jovem e, no meu ponto de vista, está, sei lá, apaixonado por Luana. O que você queria que ele fizesse? Se ele abrisse o jogo contigo, você o deixaria vir e presenteá-la?

- Por que não?

- Ah, Marcos, conte outra...

- Queria que ele agisse como homem, Patrícia! Depois dessa, eu não sei se quero um moleque namorando minha filha. E vou além: não sei se quero esse mesmo moleque resolvendo a parte jurídica de meus negócios!

- Aí você está indo longe demais, Marcos. O Matheus tem se mostrado um excelente funcionário. Não misture as coisas.

- Excelentes funcionários não mentem como ele mentiu!

- Mas Marcos, pelo amor de Deus, você não vê o lado bacana disso tudo? Analise o que esse rapaz fez! Ele só deu sinais de que realmente gosta de sua filha, Marcos! Outro cara, ou melhor: um “moleque”, como você mesmo diz, não teria atitude tão romântica.

- Romântica? Ah, Patrícia...

Luana escutava da sala algumas palavras do diálogo entre o pai e Patrícia. Não se lembrava de ter visto o pai tão bravo alguma vez. Sentia medo, mas não do que poderia acontecer a si – até porque não teve culpa alguma do que ocorrera –, mas ao Matheus.

No quarto:

- Eu vou ligar para o Matheus é agora – dizia Marcos.

- Para quê?

- Ora, quero ouvir o que ele tem a dizer!

Marcos pegava o celular e discava com a força de um leão.

- Alô.

- Matheus?

- Sim, Marcos, pode falar.

- Soube que você esteve aqui em casa, é verdade?

- É... – Matheus pensava um pouco – Sim, Marcos, estive. Peço desculpas se...

- Olha aqui, rapaz, eu não gostei nem um pouco de sua atitude! Para mim, você não passa de um moleque! Onde já se viu? Contar-me uma mentira para sair mais cedo a fim de dar em cima da minha filha! Onde já se viu?

- Desculpe-me, Marcos, é que...

- Você mostrou que não merece estar na minha equipe, rapaz. Muito menos ser namorado de minha filha! Amanhã, Matheus, por favor, vá direto ao RH e resolva sua papelada de estagiário, OK? Passar bem!

- Você não vai me ouvir? Eu o ouvi. Pode me ouvir também?

- Sim, claro – dizia Marcos respirando fundo.

- Não quero me defender. Sei que errei e assumo isso. Mas errei apenas no que diz respeito à empresa! Menti, sim, porque, naquele momento, vi apenas a mentira a favor do que sinto pela sua filha, Marcos.

- Não me venha...

- Eu ainda não terminei. Vou lhe fazer uma pergunta, Marcos, mas você, por favor, não me responda. Quero apenas que reflita. Você nunca usou de uma mentirinha para conseguir o que quer?

- Eu...

- Não responda! Apenas se lembre que o setor jurídico da empresa acata as suas vontades, Marcos. E, de vez em quando, a sua vontade é pela nossa mentira. Passar bem.

Matheus desligava o telefone.

Marcos ficava sem palavras diante daquilo. Não esperava tamanha maturidade de Matheus. Sentou-se na cama e começou, com calma, a analisar as atitudes de Matheus desde o dia em que ele pisou em seu supermercado. Concluía aos poucos que Matheus era um excelente funcionário e que tal mentira teria um peso muito inferior para competir com os serviços por ele prestados. Sentiu-se mal.

- O que foi que ele disse? – perguntava Patrícia.

- Nada demais. Vamos jantar.

* * *
Durante o jantar, ninguém emitia palavra. Até que Luana, morta de curiosidade, resolvia perguntar:

- Ainda está bravo, papai?

- Vai passar. Só não quero mais saber desse rapaz aqui em casa, OK?

- Mas papai, ele foi tão...

- Luana, se você me disser que ele foi romântico, assim como a Patrícia disse, eu vou me retirar dessa mesa.

- OK, papai, não precisa se retirar. Só escute uma coisa: eu ia dizer que ele foi sincero e que me respeitou todo o pequeno tempo que esteve por aqui. E eu acho que estou realmente gostando dele. Com licença.

Luana deixava a mesa sob o olhar assustado de Marcos.

- O que está acontecendo com Luana, Patrícia? – dizia Marcos – Ela não era assim!

- Marcos, a Luana cresceu. Nada mais óbvio de se esperar que ela comece a correr atrás de seus desejos.

Marcos respirava fundo.


[Continua]

Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo
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