Mostrando postagens com marcador Contos de Luana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos de Luana. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de março de 2010

ENCANTO (Parte Final)

No dia seguinte, Patrícia e Marcos seguiam para o escritório. Pelo caminho, uma longa conversa. Marcos estava determinado a manter sua decisão de demitir Matheus, porém, Patrícia insistia em tentar fazer com que Marcos separasse mais as coisas. A verdade é que Patrícia não viu mal algum nas atitudes de Matheus, levando em consideração de ser ele apenas um jovem, um jovem apaixonado, talvez.

Depois de muito ouvir Patrícia, Marcos decide repensar o assunto e, consequentemente, manter Matheus na empresa. Mas com a condição do rapaz se manter longe de Luana. Patrícia não concordou muito com tal condição, mas viu progresso na situação.

Chegando ao escritório, Marcos avistou Matheus no balcão do setor de RH, como ele mesmo ordenara na noite anterior.

- Matheus! – disse Marcos ao vê-lo.

- Sim, Marcos.

- Venha até a minha sala, por favor.

- OK.

Matheus, sem expressar o mínimo de tristeza diante da demissão, se sentava frente a Marcos e cruzava as pernas com elegância.

- Matheus, eu queria te pedir desculpas por ontem. Acho que passei dos limites diante da situação e...

- Está tudo bem, Marcos.

- Você não agiu certo, convenhamos, mas eu não soube dividir as coisas. Então desconsidere a demissão. Você tem se mostrado um excelente funcionário e não quero perdê-lo.

- Fico grato, Marcos.

- Mas tem uma condição, Matheus. Vou lhe pedir que se mantenha...

- Longe da Luana, não é? Eu sabia!

- Não foi legal o que você fez, Matheus! Nós temos regras aqui. Você violou uma delas e...

- A regra é não mentir ou não chegar perto de sua filha, Marcos?

- Para você? As duas!

- OK. Vou voltar ao RH para concluir o processo de demissão!

- Já disse que é para você ficar!

- Mas dessa forma eu não quero!

- Ah! Então está me dizendo que, fora daqui, continuará a se aproximar de Luana?

- Por que não? Lá fora não há “regras”.

Matheus saiu da sala de Marcos e foi direto ao RH. Marcos o assistiu sair e pensou: “Ele me desafia enquanto minha filha diz que está gostando dele...”.

* * *
À tarde, Celeste já havia recebido uma ligação de Marcos na qual frisava a proibição de Matheus naquela casa.

- Ele não trabalha mais comigo, mas deixou claro que continuará atrás de Luana, Celeste. Não deixe esse garoto entrar! E se ele aparecer por aí, me ligue imediatamente, OK?

- Sim, Marcos, pode deixar!

O que Celeste não sabia é que Luana já estava no portão com Matheus.

- O que você está fazendo aqui, garoto? – dizia Luana sorrindo.

- Vim te ver! Preciso!

Luana então ouvia de Matheus as palavras mais bem pensadas que um homem poderia dizer num momento de conquista. Luana sentia uma vontade enorme de saltar nos braços de Matheus. Essa era a verdade.

Matheus conseguia o que queria: deixar Luana num estado de paixão talvez jamais vivido por ela. E de fato Luana sentia que o desejo que sentia por Matheus se mostrava muito mais intenso que quando por Rômulo.

Concluía ali que seu relacionamento com Rômulo, apesar de digno de um conto de fadas, comparado a este, era como uma criança inocente. O que Luana sentira por Rômulo foi um amor muito forte, mas o que chegava a sentir agora por Matheus era um misto de paixão e tesão até.

Depois de falar bastante:

- Quero um beijo seu! – dizia Matheus.

- Eu também quero...

Os dois se beijaram.

Matheus a beijava com a experiência de um adulto, claro, o que deixava Luana com os lábios completamente entregues aos dele. Até que:

- Estou te amando – dizia Matheus – Estou te amando de novo, Beatriz!

- Beatriz? – dizia Luana sem entender.

- Ah?

- Você me chamou de Beatriz, Matheus!

- ...

- Que belo começo, Matheus!

- Calma, calma! Eu posso explicar.

Matheus então contava sua história:

- Luana, desde a primeira vez que a vi, não te tirei da mente um só minuto! Houve uma Beatriz na minha vida, sim, mas não há mais! É... Eu tenho uma foto dela aqui, deixa eu te mostrar...

- Não quero ver, Matheus! Ficou maluco?

- Se eu te mostrar vai me entender!

Matheus então retirava da carteira a foto de sua ex-namorada Beatriz. Para a surpresa de Luana, a menina era “a cara” dela. A cor da pele, os olhos puxadinhos, os lábios, o cabelo, tudo.

- Mas... – não sabia o que dizer Luana.

- Pois é. Parece contigo, não? Então... Beatriz faleceu faz uns dois anos. Estávamos namorando na época, e...

- Eu também perdi um namorado para a morte, Matheus! Mas eu não saio por aí procurando um outro Rômulo! Não quero ser sua nova Beatriz! Você não se apaixonou por mim, mas pela minha aparência! Vá embora!

- Por favor, Luana...

- Não estou pronta para isso, Matheus! Por favor, vá embora.

Sem dizer palavra, Matheus dava meia volta. Levava de Luana apenas um beijo. O beijo mais intenso que já dera em alguém, mas apenas um.

Após ver Matheus sumir no horizonte, um sol voltava a brilhar para Luana. É que seu celular vibrara no bolso do short jeans a trazer uma mensagem de Giovanna.

Deu tudo errado aqui na Bahia, Luana!
Estamos voltando na semana que vem, amiga!

Beijos!

Luana esquecia os arrepios causados pelo beijo de Matheus. A amizade de Giovanna quebrava de vez aquele encanto.

Luana dava um salto de alegria.

Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo
Mais contos de Luana
aqui.

segunda-feira, 22 de março de 2010

ENCANTO (Parte 5)

Patrícia chegava até seu quarto e encontrava um Marcos bastante bravo, que andava para lá e para cá em volta da cama. O sentimento de ter sido enganado por Matheus o incomodava ainda mais do que o fato de seu presente ter sido “sabotado”. As possíveis intenções de Matheus com Luana, na verdade, ocupavam o menor espaço na cabeça de Marcos. A ira era mesmo pela mentira de seu estagiário. Sentia-se um tolo.

Patrícia chegava até Marcos com calma. Entendia perfeitamente o lado de seu marido, mas entendia também as atitudes de Matheus – achava-o corajoso e romântico até. Não seria fácil acalmá-lo, mas Patrícia era, talvez, a pessoa mais centrada daquela casa; a única capaz de tal tarefa.

- Marcos, também não é para tanto, vai – dizia Patrícia.

- Como não, Patrícia? Como não? Aquele moleque me engana daquela forma! E a fim de dar em cima da minha filha! Era só o que me faltava.

- Marcos, o Matheus é jovem e, no meu ponto de vista, está, sei lá, apaixonado por Luana. O que você queria que ele fizesse? Se ele abrisse o jogo contigo, você o deixaria vir e presenteá-la?

- Por que não?

- Ah, Marcos, conte outra...

- Queria que ele agisse como homem, Patrícia! Depois dessa, eu não sei se quero um moleque namorando minha filha. E vou além: não sei se quero esse mesmo moleque resolvendo a parte jurídica de meus negócios!

- Aí você está indo longe demais, Marcos. O Matheus tem se mostrado um excelente funcionário. Não misture as coisas.

- Excelentes funcionários não mentem como ele mentiu!

- Mas Marcos, pelo amor de Deus, você não vê o lado bacana disso tudo? Analise o que esse rapaz fez! Ele só deu sinais de que realmente gosta de sua filha, Marcos! Outro cara, ou melhor: um “moleque”, como você mesmo diz, não teria atitude tão romântica.

- Romântica? Ah, Patrícia...

Luana escutava da sala algumas palavras do diálogo entre o pai e Patrícia. Não se lembrava de ter visto o pai tão bravo alguma vez. Sentia medo, mas não do que poderia acontecer a si – até porque não teve culpa alguma do que ocorrera –, mas ao Matheus.

No quarto:

- Eu vou ligar para o Matheus é agora – dizia Marcos.

- Para quê?

- Ora, quero ouvir o que ele tem a dizer!

Marcos pegava o celular e discava com a força de um leão.

- Alô.

- Matheus?

- Sim, Marcos, pode falar.

- Soube que você esteve aqui em casa, é verdade?

- É... – Matheus pensava um pouco – Sim, Marcos, estive. Peço desculpas se...

- Olha aqui, rapaz, eu não gostei nem um pouco de sua atitude! Para mim, você não passa de um moleque! Onde já se viu? Contar-me uma mentira para sair mais cedo a fim de dar em cima da minha filha! Onde já se viu?

- Desculpe-me, Marcos, é que...

- Você mostrou que não merece estar na minha equipe, rapaz. Muito menos ser namorado de minha filha! Amanhã, Matheus, por favor, vá direto ao RH e resolva sua papelada de estagiário, OK? Passar bem!

- Você não vai me ouvir? Eu o ouvi. Pode me ouvir também?

- Sim, claro – dizia Marcos respirando fundo.

- Não quero me defender. Sei que errei e assumo isso. Mas errei apenas no que diz respeito à empresa! Menti, sim, porque, naquele momento, vi apenas a mentira a favor do que sinto pela sua filha, Marcos.

- Não me venha...

- Eu ainda não terminei. Vou lhe fazer uma pergunta, Marcos, mas você, por favor, não me responda. Quero apenas que reflita. Você nunca usou de uma mentirinha para conseguir o que quer?

- Eu...

- Não responda! Apenas se lembre que o setor jurídico da empresa acata as suas vontades, Marcos. E, de vez em quando, a sua vontade é pela nossa mentira. Passar bem.

Matheus desligava o telefone.

Marcos ficava sem palavras diante daquilo. Não esperava tamanha maturidade de Matheus. Sentou-se na cama e começou, com calma, a analisar as atitudes de Matheus desde o dia em que ele pisou em seu supermercado. Concluía aos poucos que Matheus era um excelente funcionário e que tal mentira teria um peso muito inferior para competir com os serviços por ele prestados. Sentiu-se mal.

- O que foi que ele disse? – perguntava Patrícia.

- Nada demais. Vamos jantar.

* * *
Durante o jantar, ninguém emitia palavra. Até que Luana, morta de curiosidade, resolvia perguntar:

- Ainda está bravo, papai?

- Vai passar. Só não quero mais saber desse rapaz aqui em casa, OK?

- Mas papai, ele foi tão...

- Luana, se você me disser que ele foi romântico, assim como a Patrícia disse, eu vou me retirar dessa mesa.

- OK, papai, não precisa se retirar. Só escute uma coisa: eu ia dizer que ele foi sincero e que me respeitou todo o pequeno tempo que esteve por aqui. E eu acho que estou realmente gostando dele. Com licença.

Luana deixava a mesa sob o olhar assustado de Marcos.

- O que está acontecendo com Luana, Patrícia? – dizia Marcos – Ela não era assim!

- Marcos, a Luana cresceu. Nada mais óbvio de se esperar que ela comece a correr atrás de seus desejos.

Marcos respirava fundo.


[Continua]

Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo
Mais contos de Luana aqui.

quinta-feira, 18 de março de 2010

ENCANTO (Parte 4)

Marcos se despedia de seus funcionários e passava então na sala de Patrícia. Com muito cuidado para que sua esposa não visse o presente, bateu na porta e abriu apenas uma fresta.

- Vamos, amor? – dizia Marcos.

- Sim, vamos.

- Te espero no carro.

Marcos descia pela escada dos fundos do supermercado e se dirigia até o carro. Com a intenção de presenteá-la assim que ela descesse, posicionou o embrulho sobre o banco do carona.

Alguns minutos se passaram e Patrícia finalmente chega até o carro de Marcos. Ao abrir a porta:

- Meu Deus, hoje foi um dia cheio... – dizia Patrícia até notar o embrulho sobre seu assento – O que é isso, Marcos?

- Feliz aniversário de casamento, Patrícia.

- Ah, Marcos, que lindo! Você é um amor. E eu nem comprei nada...

- Não precisa, meu amor.

O casal se beija e segue para casa.

No caminho, Patrícia abria o presente e agradecia pelo perfume quando seu celular tocava. Era Luana.

- Diga, Luana!.

- Patrícia, você está perto do papai?

- Sim, por quê?

- Então não dê bandeira. Preciso te contar uma coisa, mas tem que ser agora!

- Sim, diga.

- Sabe o Matheus? O estagiário de vocês...

- Sim, claro.

- Ele esteve aqui hoje e me trouxe um perfume! Ele disse que papai não sabia de nada!

- E?

- Eu quero saber de você o que é que eu faço! Escondo do papai ou conto a ele? Responda “sim” para eu esconder ou “não” para eu contar tudo ao papai.

- Sim! Claro que sim, Luana! Estamos indo para aí. Beijos.

- Mas...

Patrícia desligava o telefone sem dar chances para maiores dúvidas por parte de Luana e esboçava um sorriso de admiração pela atitude de Matheus. Mas logo se desfazia do semblante animado para não dar brechas a possíveis perguntas de Marcos – que mesmo assim:

- O que Luana queria, Patrícia? – perguntava Marcos.

- Nada. Besteira. Uma opinião sobre corte de cabelo. Queria saber se eu aprovaria.

- Essa menina...

Luana, do outro lado da linha, ficava com o telefone na mão a pensar onde esconderia o presente de Matheus, mesmo sem saber se era ou não uma boa ideia. “No meu quarto, lógico, mas onde?”, pensava Luana.

A menina então corria até o seu quarto e escondia o perfume, com embrulho e tudo, debaixo da cama. O quarto de Luana é um território no qual Marcos dificilmente pisa. E quando pisa, é incapaz de vasculhar as coisas de sua filha.

Já chegando na rua de casa, Marcos dizia à Patrícia:

- Eu acabei comprando um perfume também para Luana. Essa semana eu a ouvi dizendo que seu perfume estava no fim. Eu pedi ao Matheus que comprasse. Você nem percebeu, não é?

- Ah! – respondia Patrícia pensativa – Eu? Não, não, nem percebi nada... – começava a juntar as peças do presente de Matheus.

- O Matheus só conseguiu comprar um, mas acabei dando uma fugidinha até a outra filial da perfumaria, no shopping, e consegui.

- Ah, que ótimo, amor! Ela vai... Vai adorar...

* * *
Luana descia as escadas com o semblante de uma menina que não conseguia conviver com a mentira. Seus olhos levemente puxados davam lugar a esbugalhados círculos. Patrícia, ao avistar o rosto assustado da enteada, foi rapidamente até ela e:

- Tudo bem?

- Tudo, Patrícia – respondia Luana ainda insegura.

- Filha – dizia Marcos –, trouxe uma coisa para você.

- O que é, papai?

- Seu perfume estava acabando não é?

- Sim, sim. Eu acho que sim... - respondia Luana num auge de aflição.

- Então tome aqui – Marcos lhe entregava o perfume à filha.

- Ah, papai, obrigada!

Foi quando Marcos avistou, próximo ao sofá da sala, um cordão decorativo idêntico ao dos embrulhos dos presentes dados à Patrícia e Luana.

- Ué! Que terceiro cordão é este no chão? – perguntava a si mesmo, em voz alta, um observador Marcos.

- Não tem “terceiro cordão”, Marcos – dizia Patrícia –, foi o meu que caiu.

- Não, não! O seu está aí com o seu presente, assim como o de Luana. Aquele ali é um terceiro cordão! Luana, alguém... esteve aqui?

- Não, papai... Que dizer... Sim, mas...

Marcos não tinha conclusão alguma sobre aquilo, mas passou a mão sobre a cabeça e começou a pensar.

- O que está acontecendo, Luana? – perguntava Marcos.

Patrícia olhava para a menina com um olhar que dizia “que bandeira, Luana”. Vendo-se em tal situação, Luana abria o jogo:

- Foi Matheus, papai. Ele... Ele também me trouxe um perfume. Mas foi só isso, papai. Ele esteve aqui e me deu o perfume. Só.

- Só? Mas... – Marcos ficava nervoso – Mas quem esse moleque pensa que é? Espere aí... Agora eu entendi tudo! O fato dele não achar o seu perfume quando o pedi para comprá-lo... O fato de pedir para sair mais cedo... Mas que filho da mãe!

- Não foi nada demais também, papai! Foi só um presente...

- Sim, filha, mas a forma como ele agiu foi ridícula e mentirosa! Ele vai se ver comigo amanhã!

Marcos saía da sala em direção ao seu quarto cuspindo fogo. Patrícia olhava para Luana e:

- Luana! Que bandeira! Não notou o cordão no chão?

- Como ia notar, Patrícia? Estava tão nervosa! O será que papai vai fazer?

- Não sei, Luana. Não sei. Vou lá tentar acalmá-lo.

[Continua]

Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo
Mais contos de Luana aqui.

segunda-feira, 15 de março de 2010

ENCANTO (Parte 3)

Matheus esperava por Luana num misto de medo e ansiedade. Mal conseguia se manter sentado naquele sofá, é verdade. Queria, com a vontade de mil apaixonados, rever o semblante daquela menina. Nas mãos, um presente resultante de uma aventura, de um risco até mesmo de perder sua vaga de estagiário. Mas quem se importaria com isso naquele momento?

Mais cedo não pensara; agira unicamente com o coração. Mas agora, passado um tempo, refletia sobre sua atitude e pensava no quão bravo Marcos poderia ficar se soubesse de tamanha audácia. Durante aquele momento de angústia, alguns segundos de esperança lhe tocavam o peito ao avistar pela janela a quantidade enorme de árvores que sombreava a rua em frente.

Uns passos eram ouvidos por Matheus. E eles vinham da escada. Era Luana que descia, mas antes dela, chegava a Matheus o cheiro de um cabelo bem lavado. A pele de Luana, sempre muito bem cuidada, espalhava pela casa um cheiro de banho e, ainda mais que isso: de paixão ensolarada.

Na medida em que Luana se aproximava, os cheiros e sentidos agiam como uma espécie de encanto sobre Matheus. Aquele dia, pouco antes do Natal, no qual ambos se viram pela primeira (e única) vez, vinha à mente do rapaz com uma riqueza de detalhes absurda.

Gaguejou:

- Lu... Luana.

- Matheus.– dizia Luana sob uma blusa rosa pink e uma bermuda jeans. Nos pés, as sandálias de borracha de sempre – Tudo bom?

- Melhor agora. Eu... Eu te trouxe um presente. Eu... Eu espero que não repare...

- Presente? Mas...

- Por favor, aceite, Luana!

Luana recebia o embrulho, mas não o abria.

- Abra, por favor – insistia Matheus.

- OK.

Luana abria o presente e:

- Mas... Como sabes a marca do meu perfume? Quem te contou?

- É uma história engraçada, que, assim que tiver uma oportunidade, eu te conto.

- Obrigada, Matheus. Eu nem sei o que dizer. Eu...

Matheus chegou a dar um passo à frente, na intenção de alcançar os lábios de Luana, mas foi atingido no peito por um passo para trás dado pela jovem. Sem graça, o rapaz enfiou a mão no bolso e sorriu.

- Papai sabe que está aqui? – perguntava Luana.

- Não. Concorde que eu não poderia chegar para o Marcos e dizer “sairei mais cedo para presentear sua filha com um perfume”.

- Você tem razão, mas acontece que não tenho o costume de fazer nada longe dos olhos de papai. Ele saberá, mais cedo ou mais tarde, que esteve aqui. Como explicarei o perfume?

- Ora, Luana, uma mentirinha de vez em quando não faz mal a ninguém, vai.

- Olha, Matheus, eu não sou mais criança, nem você. Nós dois sabemos o motivo que nos levou a estarmos aqui de frente um para o outro. E se esse motivo tem realmente valor, não será segredo para meus pais, entende?

Matheus tremia por dentro “Que menina”, pensava.

- Então você quer dizer que você sabe sobre o que sinto por você, Luana?

- Posso não ter noção da profundidade de seus sentimentos, Matheus, mas, sim, claro que sei o que sentes.

“Que menina”, pensava novamente Matheus.

- Sinto encanto, Luana! Mas e você? O que sente?

- Ora, Matheus, eu mal o conheço...

- Mas o que sentes por este que mal conhece?

- ...

- Diga!

- Não sei. Não sei, ainda...

Silêncio.

- OK – dizia Matheus a olhar o relógio – Eu vou indo, Luana. Não quero que seu pai saiba que estive aqui. Não com ele cruzando aquela porta. Darei um tempo a ti. Mas se quer mesmo saber sobre a profundidade de meus sentimentos, pense no mar. Beijo.

Luana, muda e com o presente sobre os braços, assiste Matheus seguindo sozinho até o portão e, de lá, lhe mandar um beijo. O rapaz passou tão depressa que, na cozinha, nem Celeste o viu. A jovem permaneceu de pé a pensar se realmente precisaria de um tempo para entender o que sentia por Matheus. Um sorriso discreto se faz presente no cantinho da boca.

[Continua]

Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo
Mais contos de Luana
aqui.

quinta-feira, 11 de março de 2010

ENCANTO (Parte 2)

As amigas passaram a tarde inteira juntas, mas um telefonema da mãe de Giovanna tratava de apressar a partida da filha, já que havia “muita coisa a se encaixotar” para a mudança. A despedida das meninas, testemunhada pela profunda tristeza de Celeste, tomou aquele quintal de emoção. As lágrimas rolaram e a promessa mútua de futuros contatos por carta ou por Internet se fez presente. As duas se abraçaram forte. Luana abriu o portão e ali, na mesma posição, permaneceu até que Giovanna sumisse no horizonte.

Chegando na cozinha:

- É, Celeste, ela se foi – dizia Luana.

- Não fique triste, minha filha. Hoje em dia vocês podem se falar pelo computador, não é mesmo?

- É, claro, mas nunca será a mesma coisa.

Luana subia até o seu quarto e se deparava com Mimi a olhar fixamente para o celular, como se o mesmo tivesse acabado de tocar. E realmente tocara. Era uma nova mensagem de Matheus.

Não me respondeu, Luana. Estou sendo inconveniente?

Matheus.


Luana então o respondia.

Estava com uma amiga minha aqui em casa. Você não está sendo inconveniente, de forma alguma – Luana então pensou se realmente escreveria o que tinha em mente. Até que escreveu –
Também gostaria de te ver.

Beijos.

Luana.

* * *
Matheus, em meio a um monte de papeis e tarefas que só um estagiário é designado a se responsabilizar, recebia a mensagem de Luana no exato momento em que era solicitado à sala de Marcos – seu chefe e pai de Luana.

- Pois não, Marcos – dizia Matheus.

- Matheus, eu sei que não é responsabilidade sua, nem de seu setor, mas gostaria que me fizesse um favor.

- Pode dizer.

- Hoje eu faço aniversário de casamento e fiquei de comprar um perfume para Patrícia, mas estou atolado por aqui. Então, assim que tiver um tempinho, dê um pulinho naquela perfumaria ali em frente e me compre um frasco desse perfume – Marcos entregava a Matheus o dinheiro e um papelzinho com o nome da fragrância – Não esquece?

- Não, Marcos, pode deixar!

- Ah! Faz melhor: compre dois. A minha filha usa o mesmo perfume e...

- A Luana?

- Sim, só tenho uma filha. Você a conhece?

- Sim. Estive na sua casa no final do ano, não se lembra?

- Ah, é mesmo! – dizia pausadamente Marcos, com ar de desconfiança – Bem, estão é isso. Assim que comprar, me traga aqui, mas sem que Patrícia desconfie, OK?

- Pode deixar, Marcos.

Sem querer, Matheus descobria a marca do perfume de Luana, uma informação valiosíssima para a conquista que investia. Embora o rapaz já tivesse ouvido falar na superstição de não se dar tal presente à pessoa amada, com o risco de perdê-la ao fim do frasco, pensou que seria, mesmo assim, excitante.

Matheus então largou seus afazeres e foi correndo à perfumaria. O rapaz comprou, sim, os dois frascos, porém, um com a quantia de Marcos e o outro com o seu próprio dinheiro. Estava disposto a mentir para o chefe. Diria que havia apenas um frasco na loja e lhe entregaria o troco. No poder de um outro frasco, Matheus presentearia Luana.

No caminho até o escritório, Matheus pensava que teria de ser rápido na entrega do presente, já que Marcos poderia muito bem, naquela mesma tarde, ir até outra perfumaria e adquirir a fragrância de Luana.

Chegando à sala de Marcos:

- Marcos, trouxe o perfume – dizia Matheus.

- Ah, sim! Comprou os dois?

- Infelizmente, Marcos, só tinha um. Aqui está o troco.

- Puxa... Bem, fazer o quê? Obrigado, Matheus.

- Por nada – dizia Matheus que logo emendou – Marcos, eu poderia sair um pouco mais cedo hoje? É que tenho umas coisas para resolver na secretaria da faculdade.

- Sim, tudo bem. Só avise ao Dr. Castro que eu o liberei, OK?

- OK. Obrigado, Marcos.

Matheus então pegava seu paletó na cadeira e a embalagem que deixara sobre a mesa e partia em disparada para a casa de Luana.

Sem sequer saber como seria recebido – se é que seria recebido – por Luana, Matheus seguia no ônibus a calcular suas chances com a ausência de Marcos e Patrícia. O rapaz pensava que horas antes dissera à menina que somente apareceria por lá sob solicitação de Marcos, mas se via quebrando as regras e movido simplesmente pela vontade louca de rever o rosto de Luana – vontade esta que se tornou incontrolável ao descobrir a fragrância da menina. Matheus lembrava com detalhes o endereço do chefe, não foi difícil chegar até lá.

Ao pisar frente ao portão de Luana, ajeitou o nó da gravata, passou a mão sobre o paletó e chamou:

- LUANA!

Celeste avistava o rapaz pela janela da cozinha.

- Luana – dizia Celeste –, tem um rapaz de terno lhe chamando.

- De terno?

- É, vem ver só.

Luana tremia as pernas ao constatar o que já imaginava: Matheus estava lá a lhe chamar.

- Celeste, ele é um estagiário lá do supermercado de papai. Será que o papai sabe que ele está aqui? O que eu faço?

- Bem, parece que ele traz um presente. Acho melhor que o atenda, minha filha.

- Ai, meu Deus, eu preciso de um banho. Estou puro suor. Mande-o entrar, Celeste. Eu já desço.

Celeste segue as ordens de Luana e acomoda o rapaz na sala.

- Ela já desce, está bem? – dizia Celeste – Aceita um suco, ou uma água?

- Eu aceito uma água.

No banho, Luana era um misto de tudo ao mesmo tempo. Não conseguia se concentrar no que realmente estava acontecendo.

- Por que ele está aqui? Por que apareceu sem avisar? Por que estou tão nervosa com a presença dele, meu Deus? – perguntava-se Luana a se ensaboar.

Luana não sabia sequer como se comportar diante de Matheus. E se já não bastassem as mil dúvidas, ainda havia o medo de estar recebendo o rapaz em casa sem a ciência de seus pais – ainda mais por ser Matheus um empregado deles.

Enquanto isso, na sala, ansiosamente, Matheus a esperava.

[Continua]

Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo
Mais contos de Luana
aqui.

segunda-feira, 8 de março de 2010

ENCANTO (Parte 1)

O mês de janeiro, em forma de sorrisos e alegrias contagiantes, já jogava o seu charme pré-carnavalesco pela janela do quarto de uma Luana aparentemente anestesiada. É que um diferente bater no coração, uma espécie de flerte ensolarado, bem no finalzinho daquele dezembro passado, lhe deixara num misto de confusão e desejo. Atenta aos movimentos sutis de um pedacinho de papel que voava próximo à janela de seu quarto, Luana soltava alguns sorrisos confusos enquanto pensava na vida. Pensava em Matheus, é verdade.

O calor era insuportável, mas Luana, como de costume, apenas observava da janela as imensas sombras que as árvores de sua rua proporcionavam aos muitos outros jovens que por ali residiam. Estes, ao contrário de Luana, pareciam aproveitar o verão do início ao fim. Não adiantava o quanto Celeste, a empregada da casa, suplicasse, pois dificilmente Luana sairia de casa; sentia-se bastante à vontade na companhia de sua gatinha Mimi, de seus livros e CDs. É ali, naquele pequeno quarto situado no segundo andar da casa, que Luana gosta de permanecer e de pensar na vida. E como pensa na vida essa menina...

O ventilador ligado na velocidade máxima soprava forte, fazendo bailar a pelagem de Mimi e os cabelos de Luana – pelo menos os poucos fios que ainda permaneciam livres do suor. A larga camiseta de mangas e golas cortadas – uma das preferidas de Luana –, era ideal para que o vento percorresse todo aquele corpo livre de elásticos ou sutiã. As pernas descobertas da menina davam num fino quadril coberto por um pequenino short jeans – na verdade uma calça com as pernas cortadas um pouco abaixo da virilha. Assim, à vontade (afinal estava em seu quarto e na presença apenas de Mimi), Luana seguia em suas reflexões e conclusões – mesmo que ainda sem muitos fundamentos.

O celular de Luana tinha um toque especial quando a ligação era de sua amiga Giovanna. Assim que o aparelho soava os acordes de “The Next Time Around”, do Little Joy, a menina o atendia prontamente.

- Luana, tudo bom?

- Tudo, Giovanna! E você?

- Mais ou menos, amiga. Tenho uma notícia não muito boa. Na verdade, péssima.

- O que houve?

- Papai foi transferido. Vamos nos mudar, Luana, em poucos dias.

- Mas... Se mudar? Para onde? Muito longe?

- Bahia, amiga. Dá para acreditar?

- Ah, eu não acredito, Giovanna! E a gente? Como vou viver sem você por aqui?

- Nem me pergunte isso, Luana. E eu lá na Bahia?

- Pode vir aqui em casa agora?

- Sim, mas, provavelmente, já será para me despedir, Luana.

- Meu Deus...

Quase uma hora depois, Giovanna chegava à casa de Luana. Um abraço repleto de ternura já se fez presente logo no portão. Ambas choraram durante aquele carinho mútuo, pareciam não acreditar no que estava acontecendo. Giovanna, a mais velha, secava as lágrimas de Luana numa tentativa de demonstrar algum lado bom naquilo tudo, mas, diante de tamanha tristeza, falhava.

- Eu não sei o que dizer a ti, Luana, não sei mesmo... – dizia Giovanna a chorar.

- Ai, amiga, eu só tenho você – dizia Luana aos prantos.

Luana talvez só chorara daquela forma uma vez na vida, quando seu primo namorado Rômulo faleceu, em meados do ano anterior [vide Opus 1]. É que o sentimento de perda em relação à Giovanna era tão grande quanto fora em relação a Rômulo. Giovanna teve, sem dúvida alguma, importância ímpar na vida de Luana. Muito além de “melhor”, Giovanna era a única amiga de Luana.

As amigas foram direto para o quarto. Mas antes, na cozinha, Giovanna recebia um caloroso abraço de Celeste.

- Que Deus te abençoe, minha filha. Tudo de bom para você lá na Bahia – dizia a empregada com os olhos em lágrimas.

Chegando ao quarto, as duas conversaram bastante. Relembraram momentos marcantes de amizade tão sólida, riram muito e, claro, choraram muito também.

No meio daquela conversa repleta de emoções, o celular de Luana dava sinal de que uma mensagem de texto acabava de chegar. Luana, meio envergonhada e já sabendo o remetente, leu a mensagem com os olhos brilhantes e, ao fim, sorriu.

- Que sorriso é esse, amiga? – perguntava Giovanna.

- Ai, Giovanna, ainda nem te contei. É que, pouco antes do Natal, um estagiário que trabalha para o meu pai esteve aqui em casa [vide Um Natal Para Luana]. Foi uma visita rápida, a trabalho mesmo. Mas ele foi tão fofo, Giovanna! Eu confesso que não estava aberta a uma nova pessoa, pois a morte de Rômulo ainda é muito recente para mim. Mas o Matheus foi tão... sutil...

- E rápido também, pelo visto – dizia Giovanna a esboçar malicioso sorriso.

- É... – respondia Luana a morder os lábios com ar de sapeca.

- Posso ler a mensagem?

- Pode, claro.

Queria muito ver você. Mas acho melhor esperar que seu pai solicite minha presença por aí, como naquele dia. Não esqueci de cada detalhe seu, Luana.

Saudades já.

Matheus.


- Menina! – dizia Giovanna levando as mãos à boca – Está podendo, hein! Gata desse jeito também!

- Para! – Luana ria.

As meninas pulavam sobre a cama às gargalhadas. Mas embora estivessem as duas momentaneamente cobertas por certa euforia, depois de alguns minutos de sorriso seus olhares se encontraram de maneira séria.

- Vou sentir sua alta, Luana. Nem sei o quanto.

- Eu também vou, Giovanna. Meu coração já dói.

[Continua]

Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo
Mais contos de Luana aqui.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

UM NATAL PARA LUANA

Dezembro já batera à porta. O casal Marcos e Patrícia, numa das raras folga no escritório, conversava sobre o que deveria fazer naquele Natal. Aquela família, que incluía ainda a jovem Luana, filha de Marcos, se acostumara a Natais sempre muito corridos por conta da administração dos negócios – dois supermercados. “Nessa época do ano, as coisas fervem”, dizia Marcos. Sendo assim, em casa, aquela data passava quase que “em branco”.

Marcos lembrava que no último Natal Luana passara com os tios e os primos, mas que não tinha sido uma boa ideia [vide
O Natal de Luana e Gisele]. Mas Patrícia entendia que o Natal deste ano, pelo menos para Luana, deveria ser diferente. A menina perdera recentemente o primo-namorado de maneira trágica [vide Opus I], não poderia ser somada a mais tristeza, apesar de há poucos dias Luana ter demonstrado uma melhora considerável em seu estado emocional [vide A Última Despedida].

- Mesmo que trabalhemos no dia 24, Marcos. Neste Natal, deveríamos dar uma atenção especial à Luana. Essa época do ano é terrível para os sentimentos, sabia? Tive lendo que a tendência à depressão é enorme. Tenho medo da menina ter uma recaída, Marcos.

- Acho que você tem razão. Que tal começarmos de hoje, Patrícia? Uma árvore! Que tal? Compraremos uma árvore e a enfeitaremos os três juntos; Luana, você e eu. O que acha?

- Excelente ideia!

Durante a hora do almoço, Marcos e Patrícia saíram à busca de uma árvore de Natal. Compraram a maior que puderam, a fim de que o tempo preciso para enfeitá-la fosse o maior possível.

- Acho que essa está boa, Marcos! – dizia Patrícia entusiasmada.

- Será essa!

À noite, ao chegarem em casa, Luana e sua gatinha de estimação Mimi assistiam Celeste, a empregada, a preparar o jantar. Celeste, sempre muito bem-humorada, contava histórias de seu passado. Luana, como sempre, se divertia.

- Oi, gente! – dizia Marcos ao cruzar a porta.

- Oi, papai! Oi, Patrícia! – dizia Luana – Que caixa enorme é essa?

- Uma árvore de Natal, filha! Vamos montá-la depois do jantar?

- O que deu em vocês? O máximo que faziam eram colocar aquela arvorezinha na mesa de centro.

- Pois é – dizia Patrícia –, fazíamos. Esse Natal será diferente. Passaremos mais unidos. Que tal?

- Eu ia adorar.

- Pois será assim! – dizia Marcos.

Luana, embora recebesse bem a notícia, sorria, mas, talvez, não tanto quanto o esperado pelo casal. A verdade é que Luana se recuperava muito lentamente da perda de Rômulo. Já não permanecia na cama o dia inteiro, verdade, mas ainda se notava na menina uma saudade dolorida, que vez em quando se manifestava num fio de lágrima.

A ideia de Marcos e Patrícia com a árvore era a de descontrair Luana; fazer com que suas presenças, aos poucos, suprissem a falta de Rômulo naquele pedacinho de vida.

- Não me parece tão feliz, filha – dizia Marcos.

- Mas estou, papai. Pode ter certeza. – dizia Luana se soltando um pouco mais.

Após o jantar, como combinado entre os três, a montagem da árvore se iniciava. O mastro central, montado, media quase dois metros de altura. Luana se surpreendia ao imaginar a árvore completamente enfeitada. “Ela é enorme, papai”. Enquanto Marcos e Patrícia montavam o restante da base, Luana tratava de desembalar as bolas e todos os outros enfeites. Ao pegar uma bola de cor prata, se viu refletida. Maravilhada com a beleza do ornamento, soltou um suspiro: “Que linda...”. Marcos e Patrícia não podiam deixar de notar o comportamento de Luana, que mais parecia uma menina de cinco anos.

- Você se lembra, minha filha – dizia Marcos –, de quando você era bem pequena? Nós tínhamos uma árvore também. Mas foi um ano só que a montamos.

- Não, não me lembro, papai.

- Pois é. Você adorava.

Naquele momento, o telefone tocava. Marcos soltava as peças da árvore e pensava: “Aposto que é trabalho. Nem montar uma árvore de Natal com a minha família eu posso”.

- Alô. (...) Oi, Matheus, diga. (...) Ah! Sim, claro, eu já ia me esquecendo! (...) Pode, pode sim! Inclusive, eu tenho mesmo uns papéis aqui que eu quero que você leve junto. (...) OK! Estou te esperando. Anote o endereço...

Segundos depois:

- O que o Matheus queria, Marcos? – dizia Patrícia.

- É que amanhã, logo bem cedo, ele está indo ao litoral levar uns documentos. Sobre aquela mulher que processou o supermercado, lembra?

- Sim, lembro.

- Então. Eu esqueci de assinar a procuração. Ele vai passar aqui para que eu a assine.

- Quem é Matheus, papai? – dizia Luana.

- É um estagiário de Direito que eu admiti há alguns dias. Ele está ajudando na parte jurídica dos supermercados.

- Ah, sim.

Minutos depois, Matheus estava ao portão.

- Luana – dizia Marcos –, vai lá e abra o portão para o Matheus. Peça que ele entre e me espere aí na sala. Vou pegar uns papéis no escritório.

- OK.

Luana calçava as sandálias ao mesmo tempo em que, meio desengonçada, corria até o portão. De cabeça baixa, tentando ainda encaixar os pezinhos nas sandálias, sequer olhou o rapaz. Mas ao chegar ao portão, com os fios de cabelo embaraçados sobre o rosto, o viu.

- Calma, menina! – dizia Matheus rindo.

- Oi... – ela ria da situação – É que papai pediu que entrasse, e...

- Tu és filha do Marcos? Não sabia que ele tinha uma filha tão crescida. Ele sempre fala em “Luaninha”, “minha menininha”.

- Ora, o Papai... Entre, entre...

Matheus era um rapaz muito simpático. Ele vestia no momento um terno que lhe caía muito bem. Matheus então seguia Luana até a sala. Um pouco mais alto que Luana, o rapaz tinha os cabelos castanhos bem curtos, porém, cultivava os fios do alto, que, charmosamente, lhe caiam sobre os olhos esverdeados.

- Oi Matheus, tudo bom? – dizia Patrícia – Sente-se. O Marcos já vem.

- OK! Que árvore enorme, hein? – brincava Matheus.

- É mesmo. Vai ficar linda!

- Eu adoro montar árvores! Lá em casa, minha mãe deixa sob minha responsabilidade os enfeites natalinos.

- Hum... Que prendado! – brincava Patrícia.

Luana, já ajoelhada a separar os enfeites da árvore, sorriu, mas manteve os olhos nos enfeites.

Matheus, enquanto aguardava Marcos, acabou ajudando Luana a separar as bolas. “Essas bolinhas menores, você coloca na parte de cima da árvore...”. Luana aceitava a ajuda de Matheus com breves sorrisos.

- PATRÍCIA! – gritava Marcos do escritório – AJUDE-ME A PROCURAR ESSES DOCUMENTOS... VENHA CÁ!

- JÁ VOU! Já volto, Matheus – saía de cena Patrícia.

Na sala, Matheus continuava, mesmo ainda sentado no sofá, a ajudar Luana nos enfeites. O rapaz, na verdade, não tirava os olhos do rosto da menina, que por sua vez, não o olhava. Até que:

- Quantos anos você tem, Luana?

- Dezessete...

Matheus se assustava, pois a graciosidade rara de Luana não condizia com a sua idade. De fato o rapaz estava longe de, ali, naquele momento, constatar a maturidade daquela menina (que também não condizia com os dezessete anos), mas, diante do que tinha em vista, era apenas uma menina. Mas uma menina apaixonante.

- E você? – perguntava Luana.

- Tenho vinte e um.

- Está gostando de trabalhar com meu pai?

- Muito. Estou aprendendo bastante lá. Sou estagiário, sabe como é.

- Entendo...

Nessa conversa sem muitas pretensões – pelo menos naquele momento –, os dois jovens pareciam se conhecer um pouco mais. Muito pouco, é verdade, mas o suficiente para deixar Matheus em estado de encantamento. O rapaz sorria abobalhado ao ver Luana dando muito mais atenção àquela árvore que às suas frases.

Luana vestia um short jeans cuja bainha trazia “Ramones” escrito à caneta.

- Gosta dos Ramones? – perguntava Matheus.

- Sim! Muito!

- Eu também!

Pronto. O primeiro (e tão simples) ponto em comum fazia de Matheus o cara mais esperançoso do universo – seus olhos brilhavam.

Minutos depois:

- Aqui estão, Matheus – dizia Marcos –, os documentos. Deixe-me assinar a procuração.

- Aqui.

Terminadas as burocracias. Marcos acompanha Matheus até o portão.

- Bonitinho ele, não, Luana? – dizia Patrícia.

- Não reparei.

- Ih! Essa caneta aí no chão é do Matheus, não é?

Luana a pegava e constatava que sim, por conta de seu nome gravado.

- É dele mesmo! Vou lá entregar.

Da mesma forma que na primeira vez, Luana corria a tentar encaixar os pezinhos nas sandálias. Marcos já cruzava a porta da cozinha, quando Luana quase o atropela.

- Ele esqueceu a caneta, papai.

- Ah, sim, ele ainda deve estar na rua. Corre lá, faz favor.

Luana chegava até o portão e: “MATHEUS”. Mas o rapaz já a esperava próximo à caixinha de correspondências.

- Minha caneta, não é?

- Sim... Mas... Você já estava esperando?

- Sim. Eu a esqueci de propósito, Luana.

- Ah?

Matheus pousava suas mãos sobre as de Luana e:

- Bem, eu não tive como dizer lá dentro... Eu poderia lhe roubar um beijo, se fosse um louco e não merecesse um simples olhar de sua parte, mas prefiro, pelo menos nesse nosso primeiro contato, lhe dizer que você é a coisa mais linda que eu já vi. Espero, do fundo do meu coração, que possamos nos ver mais vezes.

- ...

- Um “Feliz Natal” seu, no dia 24, me dirá tudo. Ou nada. Beijo.

Matheus lhe entregava um papel com o número de seu celular e sumia em direção à rua principal. Luana, anestesiada num misto de constatações e conflitos, apenas sorria de forma discreta.

* * *
Durante todo o dia 24 de dezembro, Marcos, Patrícia e Luana, conforme combinado, permaneceram juntos e felizes. A enorme árvore enfeitava a sala e, de certa forma, contribuía para a união daquela família. Luana se mostrava muito feliz com a presença do pai, da madrasta e de sua gatinha.

Próximo à meia-noite, Luana, que durante semanas sentia que as palavras de Matheus não lhe deixavam em “paz”, corria para o seu quarto atrás do celular para de escrever uma mensagem de Natal à Giovanna, sua melhor amiga. Ao fim, resolvia mandar mais outra mensagem.

Feliz Natal, Matheus.

Luana, ainda sem saber o que realmente acabara de fazer, abria sua janela e sorria, mas sem que nenhum vento se manifestasse em seu semblante.

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.
Mais contos sobre Luana em
LUANA, DUAS, O NATAL DE LUANA, GISELE, JANEIRO MEU, VERDADES DE LUANA, MINHA PRIMA LUANA, OPUS I e A ÚLTIMA DESPEDIDA.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A ÚLTIMA DESPEDIDA

Deitada em sua cama, de barriga para cima, aquela menina de alma dilacerada, quieta, observava o teto de seu quarto, o que representava o mais completo e mórbido vazio. Retiradas já algumas folhas do calendário preso à parede daquele cômodo triste, a dor da perda no coração de Luana não se fazia presente na mesma intensidade; mas ainda estava lá. Perder o namorado para os braços da morte de forma tão estúpida era demais para os seus dezesseis anos.

Quando a lembrança resolvia lhe pregar uma peça, seja com um sorriso ou até mesmo com a voz de Rômulo a lhe dizer palavras de beleza ímpar, Luana fechava os olhos a fim de esquecer de tudo. Mas era impossível ainda tão recentemente golpeada pelo destino cruel e sem explicação cabível. A menina rezava com o rosto afogado ao travesseiro, o que não ajudava em muita coisa, já que seu pensamento estava além de suas forças; focava em Rômulo, sim, com saudades dolorosas.

Marcos e Patrícia, pai e a madrasta de Luana, tentaram de tudo naqueles meses de pranto. Fazer a menina voltar a sorrir já não era mais por uma questão emocional, mas de saúde. Aquele corpo, antes já tão delicado e frágil, agora estava ainda mais magro, expondo o seu luto interno em ossos sobressaltados e rosto abatido. Luana, menina sempre de pouquíssimas palavras, tornava-se agora quase muda.

Patrícia resolvia subir até o quarto de Luana para mais uma tentativa.

- Luana, meu amor, está bem?

- Estou...

- Posso entrar?

- Pode...

- Não quer comer alguma coisa? Celeste preparou aquele bolo que você adora...

- Não. Estou sem fome...

- Luana! Você já se pesou essa semana? Minha filha, olha o seu braço! Você vai ficar doente desse jeito! Já se passaram três meses, e...

- Patrícia, eu só quero ficar quieta...

- Mas até quando?

- Eu não sei...

- Bem, eu telefonei para a sua amiga, a Giovanna. Pedi que ela desse um pulo aqui para ter ver, OK?

- Por que fez isso?

- Porque será bom para você! Espero que ela consiga te tirar dessa cama, eu sei lá, dar um passeio... – dizia Patrícia com os olhos cheios de lágrimas.

Luana notou o estado da madrasta e pensou no quão infantil deveria estar sendo preocupando daquela forma aqueles que a amavam. Marcos chegava ao quarto de Luana logo em seguida trazendo Giovanna.

- Filha, olha quem veio te ver!

Marcos e Patrícia deixavam Giovanna e Luana a sós.

- Luana, por favor, sai dessa cama! – dizia Giovanna.

- Giovanna, se fosse tão fácil assim!

- Mas claro que é, Luana! Você só tem dezesseis anos! Não morreu! Eu entendo a tristeza que deva estar sentindo, mas precisa lutar contra ela, não? Estás deixando a dor tomar conta de você, amiga? Está um dia lindo lá fora! Vamos dar uma volta, que tal?

- Ai, Giovanna, eu...

- Ande! Levante dessa cama! Já!

Giovanna levantava Luana pelos braços resultando num forte abraço. Giovanna não pôde deixar de notar a magreza da amiga, que por sua vez, encabulada, soltou-se do abraço.

- Vai voar no vento, hein! – brincava Giovanna.

- Não brinque... Não consigo comer quase nada...

- OK, mas você continua uma gracinha, sabia?

- Boba!

- Tome seu banho. Eu te espero aqui no quarto!

- Está bem...

Luana já ia escolhendo a roupa de qualquer maneira, mas Giovanna, notando tal desleixo, correu para ajudar; escolheu roupas de cores vivas. “Essas aqui! Veste essas”. Luana obedecia calada e seguia até o banheiro.

Do andar de baixo da casa, Marcos, Patrícia e Celeste puderam ouvir o bater de uma porta e a queda d’água do chuveiro. “Luana deve sair com Giovanna”, pensavam sorridentes.

* * *
Enfim, as meninas desciam as escadas.

- Vamos dar uma volta, gente! – dizia Giovanna aos pais de Luana.

Luana, quieta, esboçava um sorriso mínimo. Vestida com uma camiseta amarela, uma bermuda jeans e sandálias brancas, a menina aparentava pelo menos um pouco de vontade de se recuperar. Patrícia abria um sorriso imenso ao constatar que a visita de Giovanna estava funcionando.

Ao pisarem os pés na calçada, Luana se mostrou um pouco incomodada com a luminosidade do sol. Pôs então a mão sobre os olhos e disse “mas que sol é esse, meu Deus?” à Giovanna.

- Estamos em novembro, Luana! O que queria? Vamos para debaixo de uma árvore, pode ser?

- Prefiro!

As duas foram até a árvore mais próxima e se sentaram sobre a grama.

- Está sendo tão difícil, Giovanna. Sabe quando tudo parece ter perdido a graça, o sentido? Mesmo sabendo que sou muito nova para pensar dessa forma, a impressão que me dá é a de que a minha alma se foi junto com a de Rômulo; como se estivesse aqui apenas o corpo. Entende o que quero dizer?

- Entendo, amiga, claro que entendo.

Ali, as duas conversaram até que o sol guardasse os seus raios. Algumas estrelas já se faziam presentes naquele céu limpo quando um vento forte passou então a se manifestar. Luana deitava na grama e deixava que aquele sopro a tomasse por completa. “Adoro esse vento”, ela dizia. Giovanna observava que um sorriso lutava contra a tristeza da amiga; e acabava por vencê-la. Luana finalmente sorria enquanto passeava as mãos pelos braços e, principalmente, pela nuca.

- Você está sorrindo, Luana... – dizia Giovanna.

- É que esse vento me toca como se fosse o Rômulo. Sempre o associo à presença de Rômulo... Por várias vezes abri a janela de meu quarto e, ao pensar nele, esse vento vem e me acaricia.

- E isso te faz bem?

- Muito... Mas é um bem instantâneo e que sempre precede um sofrimento sem igual. Por isso sei que devo esquecê-lo.

No momento em que o verbo esquecer é dito por Luana, aquele vento, de forma súbita, se vai. Os olhos puxados de Luana se transformam então em duas bolas imensas. Um vazio lhe toma o peito como se tivesse vivido ali, naquele momento, a última das despedidas; o último adeus de Rômulo. Giovanna observava calada, mas resolveu cortar:

- Vamos entrar, Luana?

- Sim... Sinto-me melhor. Bem melhor.

- Que bom!

Como se virassem pesada página na vida de Luana, as duas caminhavam para casa. Giovanna, na sua condição de amiga mais velha, beijava a testa de Luana e lhe abraçava de forma acolhedora.

- Dorme aqui essa noite, Giovanna? Amanhã é domingo mesmo... – dizia Luana a sorrir.

- Claro, claro...

* * *

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

OPUS 1 - Final



No dia seguinte, a casa de Luana era tomada pelo mais mórbido silêncio. A menina, que não dormira, permanecia na cama. “Não há motivos para me levantar daqui”, dizia a si mesma. Da cozinha, no andar de baixo, vinha o barulho dos talheres. Era Celeste servindo o café de Marcos e Patrícia. Já se passavam das dez horas, mas quem “acordaria” Luana?

- Marcos, por que você não sobe? Vá ver se está tudo bem com Luana – dizia Patrícia.
- Eu posso imaginar o estado de minha filha, Patrícia. Melhor não incomodá-la.
- Não se trata de incomodar, Marcos, mas de acolher. Ela precisa de nós nesse momento. Afinal, foi por conta disso que não fomos trabalhar hoje!
- Você tem razão. Vou até lá.

Marcos subia as escadas pensando no que dizer à Luana. Um “Está tudo bem, filha?” não seria nada acolhedor. Era lógico que não estava nada bem!

Bateu na porta:

- Luana?
- Oi.
- Não vai tomar café? – dizia Marcos achando ser a melhor frase.
- Não. Estou sem fome, papai.
- Eu posso entrar, filha?

Marcos esperava por um “um minuto” ou um “não”, já que a menina, fazia alguns meses, não mais trajava roupas de dormir na sua frente. “Minha menina mal cresceu e já vive experiência tão brutal”, pensava ele.

- Pode, papai.

Marcos estranhou, mas, ao abrir a porta, entendeu a resposta positiva de Luana; a menina ainda estava com a mesma roupa da noite anterior.

- Minha filha! Passou a noite em claro? Estás com a mesma roupa!
- Passei, papai!

Os olhos puxados da menina se mostravam ainda menores de tão inchados. O tórax, ainda úmido, dava sinais de um pranto longo e de término recente. Marcos concluía que a filha chorara por toda a noite passada.

- Papai, parece que estou começando a cair na real, sabe? O Rômulo se foi...
- Acalme-se, Luana.

Marcos sentava-se à beira da cama da filha e:

- Deixe-me lhe contar uma coisa, Luana: Rômulo foi um rapaz maravilhoso para você. Eu, como pai, vi o quão mais feliz você se tornou após a chegada dele. Patrícia e eu, em nossas conversas, imaginávamos vocês dois juntinhos para sempre. Sei que eram muito jovens, mas, não sei, tudo em vocês era muito sincero; muito inocente também, mas muito real. Foi uma experiência muito linda a que viveu com ele, não foi?
- Foi... Foi inesquecível, papai.
- Então! Tente guardar contigo, Luana, as lembranças boas que esse namoro lhe rendeu. Pense que o romance de vocês foi tão perfeito, digamos assim, que sequer deu chance para que o tempo o desgastasse.
- O sorriso dele não me sai da cabeça.
- Isso é bom, Luana. Lembre-se sempre desse sorriso.
- Sabe a que horas exatamente será o enterro, papai?
- Sim. Jânio me ligou mais cedo para dizer que o velório terá início às duas.
- Não sei se quero ir.
- Eu também prefiro que não vá, Luana. Mas é você quem decide, OK?
- Tudo bem.

* * *
Por volta de uma da tarde, Marcos e Patrícia terminavam de almoçar. Luana aparecia no pé da escada; vestia uma calça jeans escura, e um casaco xadrez. A menina não comera nada desde a noite anterior.

- Vou com vocês – dizia Luana.
- Tem certeza, Luana? – perguntava Marcos.
- Tenho, papai.
- OK. Patrícia e eu vamos nos aprontar.

* * *
Conforme combinado, lá estavam Marcos, Patrícia, Celeste – que fizera questão de comparecer, afinal gostava muito do rapaz – e Luana no velório de Rômulo.

Luana estava abatida e sem palavras. Parecia tudo ser uma grande brincadeira, um pesadelo, ou, talvez, um enterro mesmo, mas de uma outra pessoa, não de Rômulo. Ao avistar a urna, coberta por uma quantidade enorme de flores, Luana aperta com força o braço do pai. Naquele instante, sentiu-se fraca diante do fato. Marcos e Patrícia procuravam os pais do menino em meio aos outros familiares.

“Fora de órbita”, a menina sentia um toque nas costas e, ao virar lentamente o rosto, recebia os cumprimentos de Gisele, também prima de Rômulo, com quem tivera, havia cerca de um ano, diversas guerras. [vide O Natal de Luana, Gisele e Verdades de Luana].

- Eu sinto muito, Luana! Muito! – dizia Gisele.

As duas se abraçavam e, num misto de tristeza e perdão, choravam. Gisele se apresentava completamente curada de suas obsessões e problemas psicológicos. Mais calma, foi quem durante todo o velório se manteve abraçada com Luana. Uma cena quase impossível anteriormente.

A urna de Rômulo não permitia uma visão do rosto ou do corpo por parte dos presentes. Jânio explicava que o acidente tornara irreconhecível a face do rapaz. “...queremos ficar com a lembrança de um Rômulo feliz, alegre e sorridente, como ele sempre foi...”, dizia aquele pai choroso pouco antes de seguirem todos para o enterro.

- Você vem, Luana? – perguntava Marcos.
- Não. Não quero vê-lo sendo enterrado.
- OK. Patrícia ficará aqui com você, está bem?
- Não precisa. Eu queria ficar sozinha.
- Luana?
- Por favor, papai. Por favor, Patrícia.
- Está bem, filha. Não demoramos.

Luana se sentava no mesmo banco de concreto onde, anos atrás, sentara-se com Rômulo, no enterro de sua prima Arlete. Tudo vinha à tona. Chegou a sentir a presença de Rômulo ao seu lado. Lembrava-se das palavras trocadas naquele dia também chuvoso:

- Posso te dizer uma coisa? - perguntava Rômulo.
- Diga.
- Há muito não sinto vontade de ter alguém como sinto agora.
- O quê?
- Luana envergonhava-se, porém, demonstrava agrado ao ouvi-lo em tal afirmação.
- É sério. Luana, isso pode parecer esquisito, por conta de toda essa situação, mas eu já estou com saudades de você só de pensar que amanhã não lhe verei.
- Poxa, Rômulo. Não sei o que dizer. Eu...
- Não precisa dizer nada. Apenas contribua para o cessar dessa saudade.


Ela abaixava a cabeça quando:

- Luana? – dizia um senhor de voz mansa.

- Oi, senhor. Como sabe meu nome?
- Eu estava no velório, meu anjo. Eu me chamo Vicente.
- S. Vicente? O professor de piano de Rômulo?
- Exatamente.
- Ele me falava muito no senhor. O tinha como um ídolo.
- O Rômulo era um menino muito bom. Talentosíssimo.
- É...
- Bem. Eu tenho uma coisa aqui que eu acho que lhe pertence.
- O que é?
- Isto!

Vicente lhe entregava um CD.

- O que tem nesse CD?
- Poucos minutos antes de falecer, Luana, Rômulo esteve lá em casa.
- Sim, eu soube.
- Então! Lá, ele me mostrou uma peça para piano que fora composta inspirada em ti. E – como faço sempre que meus alunos me mostram uma composição original – eu gravei sua execução numa fita cassete sem que Rômulo soubesse; a fim de mostrá-lo mais tarde, quando a composição já se mostrasse pronta.
- Não me diga que...
- Sim! Nesse CD está registrado três dos quatro movimentos do que seria “Luana - Op.1”.
- Meu Deus, S. Vicente! Não sei o que dizer! Muito obrigada!
- A gravação não está das melhores, por conta do cassete, mas...

* * *
À noite, em seu quarto, Luana colocava o CD para tocar. A peça começava exatamente como Rômulo a mostrara na noite do sequestro; uma melodia linda e alegre. O segundo movimento trazia notas fortes e tensas, que faziam Luana lembrar justamente da ação dos sequestradores. O terceiro movimento voltava, de maneira mais sutil, à melodia do primeiro. Dessa vez, era a união do casal chegando ao ponto mais extremo daquele amor o que vinha à mente da menina.

Antes de começar o quarto movimento, ouve-se na gravação a voz de Rômulo dizendo “esse movimento eu ainda não terminei, S. Vicente, mas será mais ou menos assim...”.

O que sucedia era uma melodia ainda mais rica e feliz, porém, logo interrompida pela voz do rapaz, que dizia “...é isso. Ainda falta terminar esse último movimento. O que achou, S. Vicente?”.

Com os olhos em lágrimas, Luana prendia o cabelo num elástico e abria a janela de seu quarto. Num pensamento saudoso e ao mesmo tempo reflexivo, a menina comparava aquela obra inacabada à própria vida de Rômulo; à sua própria vida ao lado dele: ambas interrompidas, talvez, em seus melhores momentos.

O vento forte, então, fazia com que adentrasse ao quarto de Luana, pela janela, uma folha avermelhada, que logo tratou de pousar entre a gola do casaco e a nuca da menina. Um prazeroso arrepio se fez presente; sucessivamente, um suspiro:

- Rômulo...

[Fim]

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.
Trilha Sonora: The Great Gate Of Kiev – Modest Mussorgsky.
Mais histórias sobre Luana em:
LUANA, DUAS, O NATAL DE LUANA, GISELE, JANEIRO MEU, VERDADES DE LUANA e MINHA PRIMA LUANA.

OPUS 1 - Parte 9



Já era noite quando o telefone da casa de Luana soou. Celeste, já pronta para ir embora, ainda fez questão de atendê-lo. “Pode deixar, S. Marcos”, disse ela. Era o pai de Rômulo a fim de falar com Marcos. A empregada sentiu que Jânio trazia certo desespero no falar; pressentia que aquele telefonema não traria boa notícia. Celeste, curiosa, fingia checar algo na cozinha, esperando, assim, Marcos terminar a ligação.

“Meu Deus do céu!”, dizia Marcos com a mão na testa. O tom de sua fala atraia a atenção de Patrícia, que rapidamente ia do quarto para a sala.

- O que houve, Celeste? – perguntava Patrícia.
- Não sei, D. Patrícia. Sei que é o pai de Rômulo quem está no telefone.

Patrícia, vendo os olhos de Marcos se encherem de lágrimas, preparava-se para as piores das notícias. Celeste, diante disso, aguardava, agora sem disfarce algum, o que Marcos teria para contar.

Marcos desligava o telefone. Seu pranto vinha como uma avalanche. Patrícia chegava até o marido e, ainda sem saber o porquê de tal desespero, tentava acalmá-lo.

- Acalme-se, Marcos. O que houve?
- Rômulo, Patrícia! Você não vai acreditar! O garoto foi atropelado e...
- E o quê, meu Deus!
- Morreu na hora, Patrícia! Morreu!

Celeste se sentava em uma das cadeiras da cozinha e, de um jeito muito sutil, chorou. Patrícia e Marcos estavam agora mergulhados em um único pranto.

Luana, no segundo andar, em seu quarto, dedilhava seu violão, enquanto Mimi, como sempre, permanecia deitada sobre a cômoda; numa tristeza fora do comum, a gata olhava para a rua através da janela.

A menina pode ouvir um soluçar que vinha da sala. Não soube distinguir de quem, mas havia a certeza do pranto alheio. Então, largou o violão e desceu correndo.

Diante de Celeste, Marcos e Patrícia às lágrimas, Luana, sem ao menos imaginar os minutos futuros, perguntou:

- O que aconteceu, gente?

Os três se olharam e tiveram a sensação de seus desesperos aumentarem ao cubo. Quem daria tal notícia à Luana? Marcos lembrava-se das últimas frases de Jânio ao telefone: “Por favor, Marcos, dê você essa notícia à Luana. Terás mais tato que eu”. O pai de Luana se via na obrigação de tal atrocidade. Patrícia era a madrasta; Celeste a empregada. Sobrara para ele, como pai, a difícil tarefa de desmontar todo o castelo da filha.

- Luana, minha filha, sente-se aqui – dizia Marcos.

A menina, em passadas lentas, seguia até o sofá.

- O que houve, papai?
- Filha, me promete que será forte?
- Está me deixando preocupada, papai! O que houve?
- Uma tragédia, Luana.

Nesse momento, Patrícia teve suas lágrimas somadas a soluços ainda maiores e, por conta disso, correu para o seu quarto. Não queria presenciar aquele informe catastrófico. Luana observava a fuga de Patrícia e:

- Tragédia com quem, papai? Fale!

Marcos, depois de pausar choro e fala, num único suspiro:

- Rômulo, filha.
- O QUÊ?
- Jânio me ligou agora me dizendo que ele foi atropelado. É tudo o que sei...
- NÃO PODE SER, PAPAI! – gritava Luana – ERA O S. JÂNIO MESMO? NÃO ERA UM TROTE? PODEM SER OS SEQUESTRADORES! OUTROS SEQUESTRADORES, PAPAI! ELES ESTÃO QUERENDO NOS DESESTRUTURAR!

Luana perdia a noção de lógica; sentia-se como se a mente e o corpo estivessem anestesiados. Não conseguia aceitar tal notícia.

- Filha...
- NÃO ERA O S. JÂNIO! RÔMULO NÃO MORREU, PAPAI! ELE ESTÁ EM CASA! VAMOS LIGAR PARA ELE, PAPAI!

Celeste chorava ainda mais diante do desespero de Luana.

- Filha...
- ELE NÃO MORREU, PAPAI! NÃO... MORREU... NÃO... MORREU...
- Fique calma, Luana – dizia Marcos abraçando-a.

Celeste preparava um copo de água com açúcar para a menina, que derramava um pranto feroz sobre o peito do pai.

Marcos a abraçava como que numa vontade de fazê-la sumir em seu corpo, pelo menos por alguns dias. Sumir daquela situação. A filha mal se recuperara de um sequestro e já tinha de encarar a morte trágica de um amor tão significativo.

* * *
Minutos depois, um pouco mais calma, Luana dizia:

- Eu quero vê-lo, papai! Quero ver o Rômulo!
- Filha, ele será sepultado amanhã à tarde e...
- Não quero esperar até amanhã, papai! Quero vê-lo! Saber o que houve, quando, como!
- Jânio só me disse que ele foi atropelado por um ônibus quando vinha da aula de piano, Luana. Eu não sei se conseguirá vê-lo. Depende do estado como ele... ficou...

Luana voltava a chorar e:

- Podemos ir até a casa dos pais dele?
- É mesmo isso o que você quer, Luana? Por que não descansa para amanhã? Os pais dele estarão lá e...
- Tudo bem... Será em que cemitério, papai? Você já sabe?
- Provavelmente no mesmo em que enterramos minha prima Arlete, filha [vide DUAS – Parte 4 – Má Notícia]. Você se lembra?
- Como esqueceria? Foi lá onde conheci Rômulo, papai [vide DUAS – Parte 5 – Tudo Ao Mesmo Tempo].

Luana jamais esqueceria aquela capela e aquele banco de concreto onde se deixara levar apaixonadamente por palavras que culminaram com um beijo; o seu primeiro beijo.

Por mais que a menina já até perguntasse ao pai sobre detalhes do sepultamento, por dentro, ainda não acreditava que não teria mais o carinho de Rômulo. Por momentos chegou até a pensar que tudo aquilo se tratava de uma tristeza que se findaria na sexta-feira, quando Rômulo cruzasse o portão de sua casa. Demoraria até Luana entender que justamente a ausência permanente de seu amor era a causa de seu presente penar.

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.
Trilha Sonora: Caprice N.º 4 In C Minor – Paganini.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

OPUS 1 - Parte 8



Na tarde do dia seguinte, Rômulo chegava à casa de seu professor de piano; um velhinho chamado Vicente. O rapaz tinha enorme orgulho de poder estudar com um dos mais competentes pianistas do país. Vicente já se apresentara nos mais importantes teatros do mundo, mas com o peso de seus oitenta e cinco anos, se dedicava então apenas ao ofício de mestre.

Vicente era um senhor de estatura baixa, cabelos brancos como algodão, olhos verdes e de fala bem mansa. Era mundialmente conhecido como Vicente Lago. Quando se sentava ao piano, não havia quem não se emocionasse com suas composições e interpretações. Usava sempre um número mínimo de notas, que, cuidadosamente pensadas, valiam mais do que milhares delas em outras mãos.

- Olá, Rômulo. Entre. – dizia Vicente.
- Tudo bom, S. Vicente?
- Tudo sim. Fiquei sabendo da confusão em sua casa, meu filho.
- Pois é.
- Li no jornal. O mundo anda muito violento, meu Deus...
- É, mas, graças a Deus, tudo acabou bem.
- Nem tudo, não é, meu filho? Aqueles sequestradores perderam a vida...
- É... Eu também lamento por eles, apesar de tudo, mas eram eles ou todos ali. A situação estava bem complicada.
- Eu posso imaginar. Bom, acredito que não tenha tido cabeça para estudar, não é?
- Para estudar não, mas compus algumas coisas, S. Vicente.
- Que maravilha! Até que enfim, Rômulo!

Vicente sempre incentivou o aluno a compor, já que sentia naquele rapaz um grandioso talento. Porém, Rômulo, quando compunha algo, ou não mostrava a Vicente, ou simplesmente rasgava as partituras após algumas semanas.

- Bem – continuava Vicente –, mostre-me primeiro o que você compôs. Depois eu lhe dou uma boa notícia.
- Ah? OK! – respondia um Rômulo curioso.

* * *
Luana conversava na cozinha com Celeste, que preparava um delicioso bolo de chocolate para o lanche. As duas papeavam sobre coisas sem importância. É que Celeste, a pedido de Marcos e Patrícia, evitava tocar no assunto do sequestro. Aquele episódio de terror, segundo eles, deveria ser esquecido por Luana o mais breve possível. Mas a menina, após alguns segundos de silêncio de ambas, perguntava:

- Celeste, o que você achou daquilo tudo?
- Daquilo tudo o quê?
- Do sequestro!
- Ah, Luana, já passou. Vamos mudar de assunto, pode ser?
- Mas é que...
- Você precisa esquecer isso, meu anjo. Sei que ainda está impressionada com tudo aquilo, mas a vida segue! Afinal, você correu sérios riscos ali, mas está aqui, vivinha!
- Sim, mas... Os policiais precisavam mesmo ter executado aqueles bandidos?
- A Polícia sabe o que faz, minha filha. Isso é um problema deles. Você não tem culpa alguma na morte daqueles rapazes.
- Eu sei, mas me sinto como tivesse.
- Mas não tem! E vamos mudar de assunto? Rômulo! Fale sobre o seu namoro, meu anjo! Nunca mais me contou sobre. Eu gosto de saber. – dizia Celeste a sorrir, a fim de quebrar o clima.
- Está bem, Celeste! Está bem! O Rômulo... Ai, o Rômulo, Celeste! Eu estou completamente entregue, entende? Estou nas mãos desse garoto!
- Ah!? Vá com calma, Luana! Com calma!
- Como assim? Estou apaixonada, Celeste! Quando digo que estou “entregue”, quero dizer...
- Quer dizer “entregue”, ora! Foi o que disse! E o foi o que quis dizer, Luana! Só que você precisa entender que, na sua idade, as coisas, às vezes, fogem de nosso controle. Está me entendendo onde quero chegar?
- Entendo. Fora de controle. É como eu me sinto quando...
- Quando?
- Quando ele me beija a nuca, Celeste! – dizia Luana ligeiramente encabulada.
- Ih... Já vi tudo... Vá com calma, minha filha! Com calma!

* * *
Vicente ouvia com atenção a composição inacabada de Rômulo. Foram ao todo três movimentos completos e um quarto por terminar. O professor ficava maravilhado com a carga sentimental presente naquelas melodias. Por diversas vezes sorriu silenciosamente a fim de não atrapalhar a execução do aluno.

- ...e é isso – dizia Rômulo – Ainda falta terminar esse último movimento. O que achou, S. Vicente?
- Estou muito emocionado, Rômulo! Sabia que era capaz de compor, mas não fazia ideia do quanto! Essa obra está linda, meu filho!
- Obrigado, S. Vicente!
- Trata-se de sua primeira obra, pelo visto!
- Mais ou menos. Eu já compus algumas valsas, mas não registrei nenhuma delas. Eram horríveis, para falar a verdade – Rômulo ria de si.
- E essa maravilha que acabou de me mostrar já tem nome?
- Tem sim. “Luana”.
- Hum... Sua namorada?
- Sim.
- Muito bom. Na sua idade, eu também compus algumas coisas inspiradas em uma namoradinha que tive.

Eles riam.

- Mas, S. Vicente, que boa notícia era aquela que tinhas para mim?
- Ah, sim, ia me esquecendo! É que, na semana passada, recebi esta carta! Trata-se de um convite para o XXI Concurso de Piano Clássico Johann Sebastian Bach, no qual há várias categorias; entre elas, “composições originais”. Que tal?
- Nossa! Acha que tenho chance?
- Lógico! Por que estaria lhe contando isso?
- Mas minha obra ainda não está pronta...
- Ainda não está! Mas estará! Você tem até o início do mês que vem para inscrevê-la! O que acha?
- S. Vicente – dizia Rômulo a catar suas partituras –, preciso ir!
- Que pressa é essa, meu filho!
- Preciso terminar essa composição já!
- Isso é um “sim”, então?
- É um “claro que sim”, S. Vicente!
- Fico feliz!

Rômulo saía da casa de Vicente a passos largos, que logo davam lugar a uma ansiosa corrida. O rapaz, em alta velocidade, sorria, pois, em sua mente, logo surgiam algumas melodias que concluiriam o movimento inacabado de sua obra. Rômulo era um misto de alegrias; tudo vinha como um emaranhado de sentimentos e lembranças. Luana, o concurso, as novas melodias, as folhas que voavam lhe abrindo caminho para sua corrida.

Ao dobrar uma esquina, pendurava-se com a mão desocupada em uma placa de trânsito e, antes de completar a curva, dava umas duas voltas ao redor do poste. Algumas partituras se soltavam da outra mão, mas Rômulo apenas sorria diante da bagunça que provocara. Sem parar de sorrir, catava pela calçada e pela rua as suas pautas. Uma menina que passava resolvia ajudá-lo e:

- Menino – dizia a jovem a catar as partituras –, o que te faz tão feliz? Suas folhas estão todas voando!
- Tudo! Nesse momento, tudo me faz feliz! – respondia Rômulo num sorriso que encantava a menina.

Foi quando um dos seus escritos voou para o meio da rua. Rômulo, num êxtase musical, corria até lá. O sorriso encantado da menina que o ajudava dava lugar a um grito agudo que rasgava a tarde fria:

- CUIDADO!

Era tarde. Um ônibus que vinha em alta velocidade acertava Rômulo em cheio. Seu corpo, já sem vida, voava por metros até rolar por vezes sobre aquele asfalto. Findavam ali um sonho, um amor, uma felicidade e uma obra que resumiria tudo isso.

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.
Trilha Sonora:
Dance Of The Adolescents – Stravinsky.
Mais histórias sobre Luana em:
LUANA, DUAS, O NATAL DE LUANA, GISELE, JANEIRO MEU, VERDADES DE LUANA e MINHA PRIMA LUANA.

OPUS 1 - Parte 7



Durante aquela tarde, depois de quase implorar a Marcos, Rômulo pôde ficar algumas horas ao lado de Luana. A menina deitava-se no sofá da sala e, fazendo das pernas do namorado um confortável travesseiro, assistia a monotonia da TV. O rapaz, vivendo o ápice daquele amor, apenas a observava e a acariciava o rosto. Na verdade ainda não acreditara que tudo estava bem novamente.

O telefone tocava e Celeste, naquele caminhar preguiçoso como aquela tarde fria, o atendia.

- Alô!
- Celeste? É a Giovanna! Tudo bom?
- Oi, menina! Tudo bem, sim, e você?
- Também! A Luana está?
- Ela está deitada.
- Dormindo?
- Não, não. Descansando. Espere aí.

Antes que Celeste dissesse algo:

- É Giovanna? – dizia Luana.
- É sim, minha filha.
- Eu atendo!

Celeste passava o telefone para Luana e voltava para a cozinha.

- Oi, Giovanna, tudo bom?
- Sim, e você?
- Sim! Pelo menos agora.
- Por que “pelo menos agora”? Aconteceu algo? Não te vi nesse final de semana.
- Pois é, Giovanna. Você não vai acreditar no que aconteceu no domingo...

Luana contava todo o ocorrido à amiga. Giovanna se espantava a cada frase. Não conseguia acreditar que de fato ocorrera tudo aquilo.

- ...e foi isso, Giovanna.
- Meu Deus! E como você está agora, Luana?
- Bem. Só precisando descansar um pouco. Rômulo está aqui comigo.
- Novidade... – dizia Giovanna sorrindo.
- Foi à escola hoje?
- Fui sim. Não te vi por lá, por isso te liguei. À noite lhe faço uma visita, pode ser?
- Deve!
- OK!

* * *
Mais para o fim da tarde, Rômulo se despedia de Luana. Um aperto no coração do rapaz o fazia abraçá-la como se jamais fosse a ver novamente.

- Fica bem, meu amor! – dizia ele.
- Impossível!
- Por quê?
- Sem você não fico bem!
- Diga isso ao seu pai... – ele ria.
- Pois é... Você vem amanhã?
- Seu pai não vai gostar... Lembra da regra? Só nos fins de semana!
- Eu sei, mas é um caso especial. Eu preciso de cuidados.
- Sei... Espertinha! Deixe-me ir. Eu te ligo!
- Espere eu te ligar, pode ser? Giovanna vem aqui mais tarde.
- Ah, sim, é mesmo! Então, eu espero!

Luana, ainda deitada sobre o sofá, recebia de Rômulo um beijo de despedida. Beijo esse que o rapaz fazia questão de caprichar, pois sabia que Luana, após um beijo como aquele e o ausentar do namorado, ia às nuvens; e assim ela ficava por horas.

Já por volta de oito da noite, Giovanna chegava à casa de Luana. As amigas se abraçaram por quase um minuto. Celeste, que presenciava a cena, sorria diante de amizade tão sólida. Marcos e Patrícia saíam do quarto para cumprimentar a menina, que era praticamente a única amiga de Luana e, por isso, muito querida naquela casa.

Luana subia com Giovanna para o seu quarto. Mimi ia atrás, como sempre.

- Que bom que veio me ver, Giovanna. Precisava mesmo te contar uma coisa.
- Mas não me contou tudo ao telefone? Aconteceu mais alguma coisa?
- Não “aconteceu”, mas “está acontecendo”.
- O que foi?
- Estou me sentindo muito estranha depois disso tudo.
- Como assim?
- Eu estou me sentindo muito culpada pela morte dos sequestradores.
- Mas...
- Eu sei, eu sei! Eles podiam ter matado a mim e a todos naquela casa, mas...
- Mas?
- Mas não mataram! E morreram! Faz ideia? Morreram! Foram exterminados!
- Mas, Luana, entenda o lado daqueles policiais! Eles tinham de salvar vocês! Os criminosos eram eles!
- Eu tenho noção de tudo isso, Giovanna, mas me dói muito saber que eles foram mortos.
- Olha o que eles fizeram na sua cabeça, Luana! Isso não te revolta?
- Um pouco, sim, mas eu estou aqui, viva!
- Porque merece!
- E eles não mereciam?
- Não, ora! Eram criminosos! Eles a matariam se fosse preciso. Tem dúvida disso?
- Não... Pior é que não tenho.
- Então!

Luana baixava a cabeça e em seguida olhava, pela janela de seu quarto, o vento que balançava as árvores e anunciava mais chuva. Os dias cinzas, que sempre lhe trouxeram tantos sentimentos bons, eram associados, a partir de então, àquele episódio de medo na casa de Rômulo. Luana nunca desejara tanto o fim de uma frente fria.

Rômulo quebrava o silêncio de sua casa com suas notas musicais. Decidia que se dedicaria por inteiro à composição daquela obra para piano. Alguns movimentos já estavam prontos e, naquele momento, o rapaz começava a criação da parte que expressaria o sofrimento de Luana naquele sequestro. Eram melodias melancólicas, mas não menos lindas que as das outras partes da obra. De certa forma aquele piano cheio de vida ajudava a trazer de volta a alegria em sua casa. Jânio e Lúcia apreciavam em silêncio da cozinha.

- Mas me diga! E você e o Rômulo? – perguntava Giovanna – Isso deve ter os unido ainda mais, não?
- E como... Pouco antes dos sequestradores chegarem, Rômulo estava me mostrando uma peça para piano que ele está compondo inspirado em mim, Giovanna! Dá para acreditar nisso?
- Jura?!
- O movimento que mostrou é tão lindo... A mais linda das melodias, amiga!
- Ai, Luana, sem inveja! No bom sentido! Rômulo parece um rapaz raro, não? Acha mesmo que exista outro igual?
- Imagina! Deus rasgou a receita!

As duas riam. Era a tentativa de Giovanna fazer Luana esquecer, pelo menos aos poucos, dos momentos do domingo. Aquele papo gostoso entre amigas se prolongaria aos risos até bem tarde da noite.

Lá de baixo, na sala, Marcos e Patrícia ouviam as gargalhadas das duas.

- Luana e Giovanna são inseparáveis! Isso é incrível! – dizia Patrícia.
- É. Gosto dessa menina. É uma ótima amizade para Luana.
- E é a única, Marcos. Você sabia?
- Eu imaginava. Mas por que Luana possui apenas uma única amiga, Patrícia? Por que não pode ser como todas as outras?
- Não posso afirmar o motivo, Marcos, mas o que vejo é que Luana não é menos feliz por conta disso. Todos precisamos de amigos. Luana também precisará. E, acredite, ela saberá a hora exata para isso.
- Eu espero que sim, Patrícia. Espero que sim.

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.
Trilha Sonora: Ballade N.º 1 - Op. 23 – Chopin.