sexta-feira, 30 de maio de 2008

TAPETE TESTEMUNHA

- Sei que sua resposta será "não", mas você quer namorar comigo?
Perguntei.
- Se sabes que a resposta é "não", por que perguntas?
- Porque preciso ouvir de você. De mim eu já cansei de ouvir.
- Está preparado então?
- Sim. Pode falar.
- Sim, eu quero namorar você, seu bobo.
Michele respondeu aquilo enquanto mascava um chiclete.

Michele e eu tínhamos 15 anos. Estávamos no auge de nossa ociosidade naquele dia. Estávamos de férias. Era o um mês repleto de festas juninas e o inverno, sempre o inverno, deixava aquelas tardes ainda mais atraentes. Semanas antes de eu receber aquele "sim" com gosto de menta eu notava que não era por falta de casaco que Michele ia para rua tremendo de frio. Eu sempre oferecia o meu moletom para ela. Eu ficava com frio, lógico, mas achava uma gracinha quando ela se encolhia sob aquelas mangas enormes e ficava elogiando o amaciante que minha usava para lavá-lo. Só um idiota não entenderia que era do meu cheiro que ela gostava. Mesmo assim, o "não" se repetia em meus momentos de reflexão.

Depois daquele "sim" eu me sentia mais feliz. As festas de rua tinham outro sabor. A companhia de Michele esquentava aquele frio. Depois daquele "sim", passava a conhecer os casacos de Michele. Ela passou a usá-los. Ela me conquistou com aquela imagem dela cheirando meu agasalho e depois, que já me tinha nas mãos, achava melhor ficar cada um com o seu. Ela sabia como me atrair. Ela sabia que a figura minúscula de seu corpo de 1,57m atrairia o meu de 1,78. Ela sabia que eu a pediria em namoro. Ela só não sabia que minha consciência me dizia lá no fundo que "não". Mas Michele disse "sim" e era o que importava.

Ganhávamos horas e horas ouvindo os discos da coleção de serestas do meu pai. A gente deitava no chão da minha sala e ficávamos rindo das capas e das canções. Ela brincava de imitar o Nelson Gonçalves. Eu ria muito naquelas tardes. Imaginávamos como seria o nosso namoro se fosse há décadas atrás. É claro que aquele tapete da sala presenciava coisas que a mãe de Michele jamais poderia saber. Éramos dois adolescentes descobrindo tanta coisa. Desde a voz do Nelson até os calafrios de quando nos acariciávamos.
- Eu te amo sabia?
Eu dizia.
- Não sabemos o que é o amor ainda.
- Como não? Os filmes me dizem que é exatamente assim que acontece. Você não me ama?
- Gosto muito de você, Douglas, mas não sei é amor. Sei que é muito forte.
- Diz que é amor.
- Eu digo. Eu te amo.
- Mesmo que não saibamos se é realmente amor, vamos dizer isso um para o outro sempre. Eu te amo. OK?
- OK.
Ela ria e emendava um refrão do Nelson Gonçalves.
- Boba demais você.
Eu ria também.

Até a volta às aulas ainda faltavam alguns dias. O querer de ficar naquele tapete até o fim dos dias era gigante, tanto em mim quanto nela.
- Poderia morar nesse tapete com você, Douglas.
- Eu também.
- Sua mãe já saiu?
- Já.
- Então vem cá.
Ela me puxava pelo mesmo casaco que tanto já lhe havia agasalhado e vinha com sua mão gelada até meu tórax. Arranhava-me como delicadeza e me mordia a orelha como que num pedido mudo para que eu a possuísse. E era o que eu fazia. Sempre. Colocava-me sobre seu corpo com cuidado e a deixava meio presa e meio solta. Em poucos segundos o frio já dava lugar a um calor que nem o verão mais forte era capaz de nos proporcionar. Vinha de dentro. As nossas roupas ficavam ali junto ao tapete a testemunhar nossa inexperiência. Não chegávamos nunca aos finalmente. Michele tinha medo. Eu quase morria ao ser impedido, mas o meu amor me fazia entendê-la. Michele ria ao me ver ir ao banheiro todas às vezes depois daquele calor.
- Lá vai ele.
Ela ria de mim.
- Vai rindo. Um dia não me seguro.
- É? Passará por cima do meu medo?
- Do nosso medo.
- Você também tem medo de fazer?
- Tenho. Tenho medo de um dia esse tapete contar para nossos pais.
- Seu bobo. Estou falando sério. Tem medo?
- Tenho.
- De quê?
- Diz você primeiro. De que você tem medo?
- De doer e da minha mãe.
- Eu tenho medo da sua mãe, da minha mãe e de um bebê.
- Eu também.
- Temos muito medo.
- É. Não vai ao banheiro?
- Vou.
Eu ia. E lá eu acabava com o que acabava comigo em poucos minutos.

As aulas voltaram. Como ela estudava em outro colégio, passamos a nos ver menos. Um certo dia ela me aborda na frente do meu prédio.
- Douglas. Preciso lhe contar uma coisa.
- O que houve?
- Precisamos terminar por aqui.
- Por quê? Não me ama mais?
- Não sei. Estou confusa. Eu sempre fui apaixonada por um garoto lá na escola. Nessas férias você me fez esquecê-lo sabia?
- Tudo bem. Eu fui um passa-tempo. Eu entendo.
- Não fale assim.
- Como você quer que eu aja? Você termina um “namoro” de dez dias dessa forma e como você quer que eu aja?
- Não estávamos namorando.
- Mas e aquilo tudo no tapete? Eu sonhei?
- Preciso ir, Douglas. A gente conversa.
- OK.

Eu estava chegando do colégio. Entrei na sala e dei falta do tapete da sala.
- Mãe.
- Oi filho.
- O que houve com o tapete?
- Mandei lavar. Estava imundo.
- OK. Devia estar mesmo. Imundo de mentiras.
- O que disse, Douglas?
- Nada.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

QUEM VOCÊ QUISER II

Naquela noite, de fato Laura se mostrou completamente oposta a Sheila. Vulgar. Quase animal. Rodamos alguns bares, caminhamos, nos pegamos, mas no fim de tudo acabamos no meu apartamento. Meus 30 anos quase pediram pinico para os seus 22. Era uma profissional?
- Você é profissional?
- Quer que eu seja?
- Quero você como você é. É profissional?
- Eu sim.
- Por que essa resposta? Já sei. Sheila não é profissional.
- JÁ TE DISSE PARA NÃO FALAR DELA ENQUANTO ME PEGA!
- Desculpe.
Ela continuava seu “trabalho”.

Pela manhã, levantei primeiro que ela. Fui preparar o café pensando quem se levantaria daquela cama. Laura ou Sheila. Confesso que eu queria muito a Sheila para balancear as emoções daquela noite voraz. Preparei umas torradas, leite e chocolate. Logo ela acordou.
- Bom dia.
- Bom dia.
- Estou exausta.
- E por que levantou? Podia ficar mais na cama. Hoje é sábado.
- Não. Já vou andando.
- Não vai tomar um café? Para que a pressa, Sheila?
- Tenho que estudar.
Notei que de fato era a Sheila que estava ali.
- Então é com a Sheila mesmo que estou falando.
- Sim.
Ela riu.
- Era você quem eu queria ontem. Sabia?
- Por que não disse?
- É que por algum motivo também me simpatizei pela Laura.
- Foi quando ela levantou o vestido, não foi?
- Foi.”Ela”.
Ri.
- O que foi?
- O modo como você se refere a seu outro lado.
- Não sou eu. É ela.
- Que seja. Isso me atrai, sabia?
- O quê?
- O fato de estar diante de duas mulheres ao mesmo tempo.
- Nunca terá as duas ao mesmo tempo. Ou uma ou outra.
- Quero você.
- Sheila.
- Você.
- Sheila.
- Sheila e Laura.
- Laura você pode ter também, mas nunca quando a mim tiver.
- Confuso. Mas eu topo. Quando nos vemos de novo?
- Sabe onde me encontrar. Aquela campanha do refrigerante ainda durará algumas semanas.
- Mas eu quero saber onde moras.
- Saberá. Agora não. Beijos.

Nos beijamos e eu fiquei ali de pé no meio da cozinha assistindo aquele corpo perfeito sumir pela porta. Notei na Sheila uma certa vergonha em acordar aqui em casa e com as roupas da Laura. Ela puxava o vestido para baixo e se mantinha atrás da bancada enquanto falava comigo. Comi as torradas e tomei o chocolate sozinho. Pensei o quanto estava amarrado àquela história louca de dois lados. Laura, Sheila.

Na quarta-feira, eu voltei à Estação Carioca do metrô. Ela estava lá, como disse.
- Sheila?
- Oi Jorge.
- Almoças comigo?
- Claro. Saio às 13h.
- Tudo bem, eu espero ali.
- OK.

Sentamos num restaurante no Centro do Rio e começamos a conversar. A relação com Sheila era bem mais tranqüila. Ela parecia mais centrada. Eu só não entendia como ela conseguia se dividir tão bem entre as duas. Ser Sheila sem dar indícios de Laura e vice-versa.
- Como consegue?
- Consigo o que?
- Ser duas.
- Não sei.

Notei em seu crachá o nome Sheila Miranda de Lima. Sinal de que estava diante dela em seu estado natural. Era de fato Sheila quem estava ali. Em carne, osso e alma.
- O que vai fazer hoje à noite?
- Estudar.
Ela respondia com o rosto em direção ao prato.
- Por que quase não olha nos meus olhos, Sheila?
- Vergonha.
- De que? Esteve na minha cama na sexta passada.
- Eu não. Laura esteve. E sinto vergonha por ela.
- Não sinta. Você não esteve em minha cama ainda. Então não há motivos para vergonha.
Sentia-me agora um perito em dois lados. Já sabia até me expressar diante do fato. Notei que naquele momento eu queria que Laura não mais voltasse. Queria que Sheila fosse Sheila para sempre e ao meu lado. Mas como confiar na Laura? Aquela putinha.

- Tenho que ir.
- Mas você nem terminou o almoço.
- Preciso voltar. Só tenho trinta minutos de almoço.
Peguei-a pelo braço e beijei-a. De pé, no meio do restaurante, nos beijamos loucamente. Sua mão correu meu abdômen para o sul. Senti que havia algo ali que não era de Sheila.
- Calma Sheila. Estamos no meio de um restaurante.
- Me chame de Laura e me leve para o seu apartamento agora.
- Meu Deus.
Levei.

Chegando lá, Laura pára na porta.
- O que foi? Não vai entrar, Laura?
- Sheila.
- Sheila?
- Mas...
Fiquei irritado.
- Olhe aqui Sheila, não brinque mais. Entendeu? Isso está me deixando confuso. A Sheila não transa? É isso?
- Transa. Mas não desse jeito.
- E de que jeito “ela” transa?
- Assim.
Começou a me beijar e me fazer carícias como uma namoradinha que tive na adolescência. A inocência de Sheila conseguia ser mais atraente que a voracidade de Laura. Era isso que eu queria desde o início. Consegui. Ela trazia na bolsa uma saia e uma camiseta de ficar em casa. Ela já sabia que estaria aqui de novo. Trocou-se.

Depois de muito carinho, tirou minha roupa devagar. Tirei a dela com o mesmo cuidado. A transa levou horas, porém, as horas mais românticas da minha vida. Eu estava diante da Sheila que eu queria quando a vi pela primeira vez na Estação.

Não transamos. Fizemos amor. Estávamos enfim amando um ao outro.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

AQUELA PELE

Foi daquele ponto de ônibus que eu via uma única vez entrar na condução aquela que talvez tenha mexido em meu peito de forma que nenhuma outra havia mexido, pelo menos à primeira vista. Os fios negros e molhados do banho matinal deixavam aqueles cachos mais longos. Sua pele branca e nitidamente bem cuidada ficava agora bem perto de mim. É que com a mão direita ela se apoiava na alça do meu assento fazendo seu braço ficar bem próximo ao meu rosto. Ela viajava de pé, pois não havia mais lugar para sentados. Sua pasta cheia de cadernos eu fiz questão logo de alcançar.
- Quer que eu segure?
- Sim. Obrigada.
Dava um breve sorriso e voltava ao seu estado normal. Séria. Seus olhos se perdiam nas imagens que passavam depressa na janela. Ela nem se dava conta de que eu não tirava os olhos de sua boca. Sem batom ou qualquer outro tipo de maquiagem, aquela menina me fez parar no tempo daquela viagem. Seu abdômen ficava à altura de meus olhos. Uma pinta um pouco acima da cintura também me chamava bastante atenção. A vontade era de abraçá-la e sentir aquela pele fresca de quem acaba de sair de um bom banho.

O seu telefone tocava. “Só falta agora ela ter uma voz linda”, pensei.
- Alô.
Que voz linda. A mais linda.
- Sim. Eu estou no ônibus já. Logo estarei aí. Beijos.
Pronto. A perfeição visual acabava de se completar. Ela era linda e sua voz não era diferente. Vontade de abraçá-la veio de novo. Controlava-me. O telefone dela tocava novamente.
- Alô. Oi amor. Não. Estou indo para a faculdade. Por que?
Aquilo me broxava. Um namorado?
- Está bem. Eu também te amo. Beijo.
Finalizava.
Desligava o telefone e mordia os lábios sorrindo por dentro com uma cara de quem estava muito a fim.

Desviava meu olhar. Afinal, eu estava num ônibus e diante de uma menina comprometida. Que chance teria? Tentava me distrair ao som do rádio da condução, mas não dava. Toda vez que ela movia o braço me chagava uma fragrância quase que alucinógena. Era delicioso demais o cheiro que vinha daquele corpo.

Ela coçava então a cintura na altura da barra da calça com um dos dedos e sem querer assume uma calcinha branca de elástico azul claro. Já a imaginava nua. O lance foi rápido, mas minha mente parecia congelar aquela cena. Ela voltava a coçar e a calcinha voltava a aparecer, dessa vez o elástico se dobrava e exibia uma pele ainda mais alva e atraente. Algum mosquito muito meu amigo parecia me ajudar naquele ônibus.

Naquela altura, eu já não sabia se rezava para que uma freada brusca a lançasse sobre meu colo ou para que chegássemos logo ao centro da cidade. Ela dava o sinal.
- Minha pasta. Vou descer.
Eu entregava a pasta. Via que a menina desceria uns cinco pontos antes do meu. Descia atrás dela.
- Eu também vou descer.
Ela ria, por educação, provavelmente.

Pelo ponto em que ela desceu, eu já podia saber em qual faculdade ela estudava. Na verdade eu nem sabia o que eu estava pretendendo ao segui-la. Talvez eu quisesse sentir um pouco mais daquele cheiro. Que pele. Mas para minha surpresa ela passou direto pela instituição. E eu continuava a seguir. Não havia outra faculdade num raio de quilômetros dali. Não fazia sentido ela saltar naquele ponto e continuar a pé o restante enorme do possível percurso. Continuava seguindo-a.

Depois de uns trezentos metros após a faculdade, um homem digno de suspeita a aborda.
- Trouxe?
Ele dizia.
- Trouxe. Espere.
Eu escutava o início do diálogo, mas não podia parar ali. Seguia em frente. Virava a próxima esquina e me posicionava de forma estratégica. O que eu fazia ali? Parecia agora um investigador. Talvez eu fosse bom nisso. Via a menina tirando uma boa quantia em dinheiro da carteira e entregando àquele cara. “Viciada”, pensei.
- Agora me deixe em paz!
- Em paz? Você é quem me procura, garota.
- Não vou mais procurar. Não tenho mais grana e preciso parar com essa porra.
- Largar você não larga e você sabe que não é só com grana que se paga as contas, Larissa.
Descobria da pior forma o nome dela.
- Deus me livre. Nunca mais faço aquilo.
- Nunca diga nunca. Agora vai pra sua aula.
Ela mordia os lábios novamente, mas de maneira aflita. Até que pergunta:
- Você tem aí?
- Mas você não acabou de dizer que não queria mais saber disso?
- Anda logo. Tem ou não, Gustavo?
Descobria agora o nome dele. O que eu estava fazendo ali? Meu Deus.
- Sabe que sempre tenho, mas, dinheiro na mão, neném.
Ela sacava uma nota de dez e pegava de maneira louca um saco de pó.
- NÃO SE META COM ESSAS PORCARIAS!
Gritava eu. Definitivamente, o que estava fazendo ali?
- Quem é esse cara, Larissa?
- Não sei. Não conheço.
O olhar de Larissa se lançava ao meu. Ela parecia lembrar de mim. Omitia.

O tal Gustavo colocava a mão na cintura e eu não ficava para conferir o que viria dali. Corria depressa pela transversal. Ele dobrava a esquina e aproveitava a rua ainda deserta para largar uns tiros. Três deles atingiram minhas costas e um em cheio o meu crânio. Eu morria ali sem chances. Nunca mais veria Larissa. Nunca mais sentiria o cheiro de sua pele. Uma lona negra me cobria minutos depois. O que eu estava fazendo ali?

Aquela pele.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

QUEM VOCÊ QUISER

Os postes dançavam de tanto calor. Cada um passo em direção à sombra era dado com dificuldade e ansiedade. Gotas de suor minavam de meus poros. Elas caíam e evaporavam sobre o solo que fervia sob aquele fevereiro escaldante. Eu odiava cada dia daquele verão. Daquele e de todos os que cismavam em dar as caras antes de dezembro. As cores das meninas eram de fato um ponto positivo naquele inferno. As marquinhas de biquínis exibidos com malícia por aquelas que faziam parte daquele cenário urbano amarelado me fazia pensar que tal estação nem era tão ruim assim, mas era.

Os trabalhos no escritório se multiplicavam naquela época do ano. Parecia praga. Eu não parava um só minuto. Fedelhos entupiam as calçadas em seus passeios de férias enquanto suas mães derretiam suas maquiagens mesmo sob as marquises da cidade. Eu fazia entregas o dia inteiro. Documentos, projetos, etc. Eu pingava. Naquele dia, eu me deliciava no ar condicionado do metrô quando a minha estação infelizmente chegava. Carioca. Saltei. Em direção à saída, podia ver a claridade acima do normal que adentrava pela escada rolante. Foi quando:
- Oi senhor.
Abordava-me uma jovem linda. Estatura mediana, cintura fina. Ela usava uma calça jeans tão apertada que parecia que iria rasgar sobre aquelas médias nádegas empinadas. Ela era do tipo de menina em que tudo está no lugar certo e na medida exata. Nada sobra nem falta.
- Senhor? Eu? Estás no céu, por favor.
- Desculpe. Qual seu nome?
- Silva. Jorge Silva.
Eu adorava a forma como os americanos dos filmes pronunciavam seus nomes.
- Bom dia, Jorge. Você gostaria de receber um brinde como esse?
Ela apontava para um adesivo de uma nova marca de refrigerantes.
- Ou como este?
Apontava agora para um chaveiro com a mesma marca.
- Vem o seu telefone num desses brindes?
Perguntava.
- Não. Mas você vai experimentar o mais saboroso refrigerante.
Ela se saía bem.
- Eu já conheço esse refrigerante.
- Já? E o que achou?
- Parece com os concorrentes.
- Então. Gostaria de responder a uma pequena pesquisa? Ganhará os brindes.
- OK. E depois dos brindes? Ganho seu telefone?
- É só ir até aquela mesa ali. A Gabriela lhe fará algumas perguntas e lhe dará os brindes.
- Você não me disse seu nome.
Ela parava por alguns segundos e:
- Sheila.
- Quero seu nome verdadeiro.
- Senhor...
- Senhor está no céu. Já disse. Seu nome?
- OK. Laura.
Confessava com um pequeno sorriso.
- Agora sim. Vou até ali pegar meus brindes.
- Como quiser, Jorge.

Fui até a Gabriela.
- Pois não, senhor.
- Senhor está no céu.
- Perdão. Qual seu nome?
- Silva. Jorge Silva.
- OK. Responda minhas perguntas e receberá um brinde. OK?
- OK.
- Já conhece o refrigerante...
- Já.
- O que achou?
- Igual aos outros concorrentes.
- E o preço?
- Foi mais barato que os concorrentes.
- Quando comprar outro refrigerante, você vai optar por ele?
- Vou.
- Por quê?
- Porque é mais barato que os concorrentes.
- O que achou do nome, do rótulo...
- Previsível.
- E o que você mudaria?
- Nada.
Totalmente desanimada com a função que exercia e com as respostas dadas por mim às suas perguntas, a tal Gabriela me dava um adesivo e um chaveiro.
- Muito obrigada.
- OK.

Retornava à Laura.
- Oi.
- Oi senhor. Digo, Jorge. Respondeu a pesquisa?
- Sim.
- Recebeu seus brindes?
- Sim.
- OK. Passar bem.
- Quero seu telefone, Laura.
- Passar bem, Jorge.
- Quero seu telefone, Laura.
- Por quê?
Respondia ajeitando o cabelo.
- Porque você é a menina mais linda que cruzou o meu caminho desde que o verão começou e não tem sequer uma marca de biquíni.
- O que tem as marcas de biquíni? Não gosta?
- Gosto, mas cansei de vê-las desde novembro. Você não as tem e mesmo assim é tão linda.
- Eu tinha até o mês passado.
- Ainda bem. Seu telefone?
- Você cismou.
- Sim. Seu telefone?

Ela me deu enfim o número do telefone dela. Ia para casa pensando em seu semblante e imaginando o quão babaca eu fui. Era lógico que aquele número não era dela. No mínimo ela contou o número de idiotas lhe deram a mesma cantada e trocou os últimos dois dígitos por essa quantidade.

Às 22h, eu discava aquela fantasia.
- Alô.
- Laura?
- Sou eu.
- É o Jorge. Do metrô. Lembra?
- Claro. Estava esperando você ligar. Sheila me disse que ligaria.
- Sheila?
- Sim. Sheila. A moça que lhe abordou para a pesquisa.
- Se ela é realmente a Sheila, quem é você?
- Laura.
- Mas...
- Me encontre no Centro, agora. Pode ser?
- Mas...
- Me espere em frente ao terminal rodoviário.
- OK.

Chegava ao local indicado pela tal Laura. Calor noturno. Avistava logo a menina que eu realmente queria ver. Só que a maneira comportada e atraente da mesma dava espaço agora a uma roupa vulgar e um olhar típico de uma prostituta.
- Oi Jorge.
- Que palhaçada é essa? Quem é você afinal? Sheila? Laura?
- Lá no metrô você conheceu a Sheila, mas você não acreditou. Então resolvi apresentar-lhe à Laura, que é esta que vos fala.
- Mas... São a mesma pessoa.
- Não. Mas o outro lado de uma mesma pessoa. Se você quer sacanagem, é como Laura que me apresento. Caso contrário, serei Sheila. Mas por favor, não cite meu outro nome enquanto me pega.

Peguei forte naquela bundinha firme.
- Prazer. Chame-me de Laura então.
Ela disse.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

SOL E CHUVA

A fila do banco era enorme. Já passava das 16h quando Sérgio, último da fila, preferiu sentar-se numa cadeira. Com o banco já fechado, não haveria mais ninguém para ser atendido depois dele. Era de fato o último. Rodando para lá e para cá naquela cadeira de rodinhas, onde só sentavam os clientes importantes, aqueles que tinham algo a discutir com o gerente. Sérgio achava atraente a frase “vou consultar ao gerente da minha conta”, mas como não possuía conta alguma, restava-lhe apenas repeti-la ao vento enquanto andava pela rua com uma enorme quantidade de serviços bancários sob as axilas.

Olhando para a mesa à sua frente, reparava que se tratava de uma gerente. Talita Vasconcelos Nunes Corrêa era o nome dela. Estava escrito sobre a mesa. Uma bela mesa. Sérgio ficava tentando imaginar a cara da baranga. “Talita – pensou – é nome de baranga”. Continuava rodando com a cadeira. A fila permanecia do mesmo tamanho. Voltava a olhar para o nome da gerente. Contava quantas letras tinha o nome dela. Vinte e oito letras. Depois tentava ler de trás para frente o nome dela. “Aêrroc Senun Solecnocsav Atilat”. Ria.

Sérgio ouvia um assobio de volume crescente, assim como um barulho de salto alto no piso elevado do banco. Via-se diante da mais bela dama que já tinha visto. Num terno azul marinho, aquele pedaço se aproximava de Sérgio.
- Boa tarde.
- Boa.
Respondia Sérgio àquela escultura.
Ela se sentava de maneira elegante e jogava os cabelos ondulados castanhos como se fosse tudo pensado para deixar quem estivesse por perto louco de paixão.
- Você é a gerente?
Perguntou Sérgio.
- Sim. Em que posso ajudar?
- Acho que em nada. Eu só estou aguardando a fila. Eu não possuo conta.
- Tudo bem. Pode ficar aí. Ninguém usará essa cadeira mais por hoje.
- OK.
Sérgio pensou.
- Você é a Talita?
- Sim. Por quê?
- Nada. Vi seu nome.
- Ah.

Sérgio não conseguia parar de olhar para aqueles vinte e poucos anos de aparência à sua frente. Tentava manter ela falando para reparar a pinta que ela possuía no canto dos lábios. E os olhos? Duas bolas verdes. Mas ela respondia a Sérgio olhando para uns papéis que assinava. Parecia apressada.
- Quantos anos você tem?
- 28.
- Nem parece.
- Obrigada.
- Eu tenho 18.
- Ah.
- Gosta de ser gerente?
- Gosto.
- Gosta desse banco?
- Gosto.
- Sempre cheio não é?
- É.
- O tempo escureceu lá fora. Acho que chove.
Sérgio não poderia ser menos previsível.
- É. Eu vi. Vim lá de fora. E nem trouxe guarda-chuva hoje.
- Eu trouxe.
- Que bom.
- Quer emprestado?
Isso aí, Sérgio! Grande!
- Como?
- Perguntei se não quer meu guarda-chuva emprestado.
Talita achava a pergunta um tanto quanto estranha, mas respondia.
- Não. Obrigada.
- OK.
- Mora onde?
- Olha aqui, menino. Você está me atrapalhando. Preciso acabar com esses papéis aqui e você não pára de me fazer perguntas. Pode ficar na cadeira se quiser, mas quietinho, por favor.
- Está bem.
- Obrigada.
Sérgio não se contentava. “Ela me responde olhando para os papéis”.

Sérgio estava cansado de observar cada traço do rosto de Talita, que por sua vez, não olhou sequer para o rosto de Sérgio.
- Você pode olhar para mim? Só uma vez.
Talita pára de escrever, respira fundo, solta o ar, larga a caneta na mesa, joga mais uma vez os cabelos para o lado e finalmente olha para Sérgio. Gosta do que vê. Sérgio era um rapaz de traços finos e de uma feição bastante simpática. Solta um sorriso lindo, embora sem graça, e diz:
- Desculpe. Fui grossa?
- Não. Não foi não. Só que observei que você não tirou os olhos dessa papelada um instante sequer. É assim sempre?
- De vez em quando sim. É estressante às vezes.
- Mas me disse que gostava daqui.
- Disse?
- Disse. E que gostava de ser gerente também.
- Disse?
- Disse.
- Eu realmente gosto, mas confesso que respondi automaticamente. Desculpe. Preciso de férias sabia?
- É a primeira vez que falou comigo querendo.
- Sim. Desculpe novamente.
- Tudo bem. Eu é que tenho que perder essa mania de perguntar tudo aos outros.
- Você de certa forma me fez bem.
- É? Por quê?
- Porque me fez parar o que estava fazendo e só agora me dei conta de que precisava respirar e conversar algo que não fosse sobre esses papéis.

Naquele momento um estrondo do lado de fora do banco anunciava uma tremenda chuva.
- Vai aceitar o meu guarda-chuva agora?
- Você chegou a me oferecer?
- Sim. E você negou.
- Mas onde está ele?
- No escritório. Posso passar aqui e lhe dar uma carona sob ele.
- Na verdade eu precisaria dele sim, mas só até o estacionamento do outro lado da rua. E não acho que será necessário se abalar por isso. Alguém aqui nesse banco terá um guarda-chuva também. Mesmo assim, agradeço.
- OK. Ah. Chegou a minha vez.
- Sua vez?
- Na fila.
- Ah. Sim. Então vai lá.
- Foi um prazer.
- O prazer foi meu.

Sérgio levantava se achando o mais imbecil do mundo. “Onde já se viu? Oferecer carona de guarda-chuva. Você foi demais hoje, Sérgio”, pensou.
- Menino!
Chamava-o Talita.
- Oi.
- Acho que aceitarei a sua carona. Pode ser?
- Claro. Até o estacionamento?
- É.
- Que horas passo aqui?
- Às 18h.
- Fechado.
Às 18h Sérgio estava lá, na porta do banco. A chuva já havia terminado.
- Menino! Você veio? Mas a chuva já se foi.
- Eu não trouxe o guarda-chuva. É que no meio da chuva eu vi um sol nascer para nós. Vamos?
Sem saber o que dizer e tentando disfarçar o sorriso, Talita deu a mão a Sérgio e ambos atravessavam a rua.