sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

AMOR DE QUATRO DIAS

As rodoviárias lotadas, as estradas engarrafadas, os expedientes suspensos, o sol forte, os corpos queimados, os suores, a euforia, os anúncios, as praias, os turistas, os blocos, as correrias, as despedidas, os reencontros, os planos... Tudo ao mesmo tempo. Era o início de mais um Carnaval.

Longe de todo esse tumulto, meu bairro se preparava para tal festividade. O palco já se encontrava montado desde a segunda-feira anterior; um palco pequeno como o próprio bairro. Ali, por enquanto, apenas as crianças, que corriam e brincavam sobre um tablado já gasto de outros eventos.

Na sexta-feira, a praça, já enfeitada – nunca a vira tão colorida –, acomodava um público local já contagiado por toda aquela ornamentação. Aquele Carnaval, todos os anos, fazia a alegria daqueles que, por força maior ou por escolha mesmo, não se deslocavam para a Região Oceânica. Fazer o quê? Eu, como nunca tive tal destino, fazia do Carnaval do meu bairro o meu Carnaval. Eu não gostava de agitação, mas me sentia bem a observar os foliões. Tudo o que eu queria era tomar algo gelado, me sentar e observar. Somente.

Logo no primeiro dia de atrações, sábado, tive a sorte de, antes mesmo da noite cair por completa, me deparar com uma figura cativante e animadora. A princípio, enxergava um palhaço, que brincava com as crianças e espirrava água nos rostos alheios. Em poucos minutos, um volume enorme de crianças seguia aquele ser de andar propositalmente engraçado. Um verdadeiro "barato".

Eu, sentado numa mesa a admirar não apenas o brincar daquele palhaço, mas também o lindo e quente anoitecer, sentia em mim uma gota de inveja. Inveja por não ter a ideia daquele palhaço. Devia ser legal demais causar tanta alegria como ele.

O palhaço se aproximava de minha mesa; as crianças também. A cada passo à minha direção, notava que...

- Mas não pode ser – eu dizia a mim mesmo.

Não era um palhaço. E sim, uma palhaça! E linda! Ela brincava com a minha cara de desânimo. Fazia gestos para as crianças como se tentasse espantar minha aparente depressão Carnavalesca. Ela não dizia palavra; era ótima nas mímicas. Como se puxasse suposta tristeza de minha cabeça, ela gesticulava com as mãos bem próximas à minha testa. As crianças riam e eu também.

Eu olhava fixamente nos olhos daquela mulher. Dentro de mim, surgia a impressão de conhecê-la. Enganava-me. No fundo dos meus arquivos cerebrais não me vinha ninguém com aquelas características. Cabelo, rosto. Ela não usava máscara, apenas um nariz vermelho e maquiagem. Seria fácil reconhecer qualquer folião numa fantasia como aquela.

Ela e as crianças davam voltas e mais voltas naquela praça e, por muitas vezes, paravam na minha mesa aparentemente melancólica. Ela fazia mímica representando insatisfação em relação à minha pose – estava sempre sentado. Com um braço apoiando o queixo, eu sorria. Queria demonstrá-la que não estava triste, mas apenas observando a alegria alheia. Ela, por sua vez, fazia cara de zangada.

Depois de passar pela minha mesa por mais de sete vezes, se não me engano, eu a pegava pelo braço:

- Quando termina o seu turno?

E pela primeira ela vez emitia palavra:

- Não entendi.

Sua voz era doce e juvenil.

- Quero saber a que horas terminará com as crianças.

- Ora, é Carnaval. Sei lá que horas. Por quê?

- Não quer conversar?

- Ah, não tem cabimento um palhaço se sentar à mesa para “conversar”.

- E o que os palhaços fazem, além de nos tirar sorrisos?

- Brincam, pulam, dançam... Se quiser me acompanhar...

- Não. Prefiro ficar por aqui mesmo.

- Você é quem sabe.

E se foi.

No segundo dia de Carnaval, lá estava ela novamente. As crianças – as mesmas do sábado – pareciam esperar por aquele momento. Corriam em direção àquela alegria em forma de palhaço e recomeçavam, então, toda a brincadeira.

Eu, na mesma mesa, obtinha a mesma felicidade daquelas crianças. Eu olhava para o relógio a fim de marcar a hora certa de sua aparição – seis da tarde. Outro belíssimo fim de tarde. Ao som de marchinhas empoeiradas, a alegria pedia passagem.

Como no sábado, aquela mulher novamente chegava até a mim. As crianças já sabiam o itinerário daquela brincadeira. Ela não daria sequer uma volta naquela praça sem que antes passasse à minha mesa e fizesse algumas gracinhas. Eu lhe emitia o mesmo sorriso, porém, desta vez, um sorriso enamorado. E ela sorria de volta. Naquele dia, ela resolvia unir a fala às mímicas.

- Olhem que moço triste! Será que hoje eu consigo o colocar para pular?

- Sim! – dizia a criançada.

- Será que ele vai sair desta mesa?

- Sim!

Daí, ela chegava bem perto de meu ouvido e:

- Se você der uma única voltinha conosco, converso com você após a sétima volta.

- Fala sério?

- Palavra.

- E palhaço lá tem palavra?

- Palavra de mulher, então!

- Fechado.

Eu levantava e, com minha latinha de cerveja à mão, seguia com um bando de crianças barulhentas e um palhaço cativante. Ela me rodeava a jogar serpentinas e confetes sobre mim. Era impossível não se contagiar. Sem perceber, completava mais de oito voltas com eles.

Antes da nona:

- Cumpri mais que o prometido – eu dizia.

- Sinal que foi bom!

- Sim. Foi. Mas falta você cumprir a sua parte.

- É. Você tem razão.

Ela se despedia de uma criançada já morta de cansaço e se sentava comigo

- Bebe algo? – eu perguntava.

- Água.

- OK.

Eu pedia uma água para ela.

- Vejo o quanto gosta de Carnaval – eu dizia.

- Eu amo.

Ali começava uma rotina que se repetiria pelos outros dois dias restantes do Carnaval: Às seis horas ela chegava; brincava com as crianças até umas oito e meia e, depois, já esgotada, se sentava comigo. Conversávamos muito e, no meio de tantos assuntos, me via sem espaço para dizer que estava de fato apaixonado. Fazia apelos para ver o seu rosto sem maquiagem, mas recebia como resposta “um dia, quem sabe?”.

O prefeito de nossa cidade já informara que, em todos os bairros, os eventos carnavalescos teriam o seu fim à meia-noite de terça para a quarta-feira. Após esse horário, os mascarados deveriam se revelar. Caso contrário, a polícia teria carta branca para agir.

- Mas eu não uso máscara – dizia ela.

- Eu sei, mas essa maquiagem é um tipo de máscara.

- O máximo que tirarei será o nariz. Apenas o nariz.

- Mas por quê? Hoje já é terça de Carnaval e não sei sequer o seu nome. Eu preciso dizer que...

- Diga.

- Dizer que eu acho que estou te amando!

- Não me amas. Amas uma fantasia.

- Não! Amo você! Amo a mulher que conversa comigo após a folia!

- Mas quem conversa contigo não sou eu, mas minha fantasia.

- Então, quer me dizer que mentes?

- Não exatamente.

- Quero lhe ver na quarta-feira! Sem fantasia! Aqui, em frente a este poste, às seis da tarde!

- Como quiser.

Após tal frase, ela corria em direção à multidão. Eu a perdia de vista.

Na quarta-feira de cinzas, como combinado, às seis da tarde, em frente aquele poste, eu a esperava. Pontualmente, ela aparecia. Demorava a aceitar que era a mesma mulher que durante todo o Carnaval se vestia de palhaço. Com um semblante sério, tão sério que me assustava, ela:

- Oi.

- Oi. É você mesmo?

- Claro que sim. Marcamos, não foi?

- Mas é que me parece tão...

- Tão?

- Diferente. Tão séria.

- Eu disse... Você está apaixonado por uma fantasia. Eu não sou aquilo. Eu aproveito o Carnaval para incorporar uma pessoa que eu não sou.

- Sim, mas foi capaz de me causar sentimento tão profundo que...

- Que o quê?

- Que eu sugiro que seja palhaço todo o tempo.

- Que piada.

- Não precisa de um nariz e de uma maquiagem para dar um sorriso.

- Preciso. E preciso até mais do que isso.

- Então, precisa de quê?

- De alguém que me ame como eu realmente sou.

- Mostre-me quem realmente você é e eu lhe direciono o meu amor. Que tal?

Nosso romance não deu certo. Ela era uma mulher cheia de manias, paranóias... Era pessimista, rancorosa. O extremo oposto daquela figura circense que encontrei nos dias de Carnaval. Nós nos afastamos naturalmente. Porém, decidimos que namoraríamos seriamente nos próximos Carnavais.

Há mais de uma década, quatro dias por ano, a gente vive um amor inesquecível.

* * *
Foto da Capa: Fabiana Romeo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O CONVITE

Punha meu pé no primeiro degrau da escada rolante, provavelmente, no mesmo momento que ela. Sendo que eu subia e ela descia. Olhamos rapidamente um para o outro. Pá! Séria, demonstrava neutralidade diante de minha pessoa. De gênio difícil, eu fazia o mesmo. Olhava para o nada para não entregar meu real sentimento, porém, apaixonava-me. Voltava a olhá-la.

A medida em que as escadas nos levavam a um ponto comum, onde nossos olhares estariam num mesmo nível, minha imaginação cuidava de me sugerir o que ela vestia da cintura para baixo. Uma saia, talvez. Uma saia minúscula, na verdade era o que eu queria. O que estava da cintura para cima os meus olhos tratavam de constatar. Um lindo abdômen à mostra, para começar. Uma camisetinha que tapava seios maravilhosos. Não eram grandes, nem pequenos, nem médios. Eram perfeitos! Nunca vira igual. Logo acima deles, os ombros delicados. Ela trazia em seu pescoço um colar desses de artesanato. Os cabelos estavam presos numa trança enorme. Podia ver sua ponta na altura do cóccix. Confesso que, a partir daí, eu ficava curioso pelo tamanho de seus fios. A escada me levava.

Aproximávamos um do outro. Ela voltava a me olhar. O rosto trazia um nariz arrebitado e fino. Sem qualquer tipo de maquiagem, os olhos, a boca e as bochechas formavam um conjunto que passeava entre o meigo e o malicioso. Um rapaz que descia atrás dela inclinava-se levemente a fim de ver o semblante que carregava toda aquela beleza. Eu tinha a visão que ele procurava e vice-versa.

Lá estava ela, a poucos degraus de nos tornarmos próximos. O quê? Uns trinta centímetros, creio eu. As escadas que nos carregavam eram coladas uma na outra. Erro da arquitetura ou não, o que importava era que eu seria capaz de beijá-la ao passar por mim. Olho no olho. Seria difícil resistir.

Ela se aproximava mais e mais. Seu perfume eu já conseguia sentir. Aquele rapaz atrás dela já fazia tremenda cara feia ao notar que nosso interesse era comum. Ela vinha! E vinha! E vinha! Quando, de repente: as escadas pararam. Juntas. Bem na altura onde nossos corpos estavam ao lado um do outro. Então, ela soltava para si mesma:
- Ai, que saco!
- Você está descendo. E eu, que estou subindo?
Eu dizia a ela.
- É. Sorte minha.
Ela dizia sorrindo.
- É. Azar o meu.

Ela começava a descer os seus degraus e eu, a subir os meus. Foi quando eu parei e:
- Não quer fazer essa sorte ser nossa?
- O quê?
Ela se virava com uma face confusa.
- É – eu dizia ao subir –, me espere aí em baixo. Vamos tomar alguma coisa.
- Ela não respondia ao meu convite. Continuava a descer.
- Perdi.
Eu dizia a mim mesmo em voz baixa.

Ao chegar no piso superior daquele shopping, eu olhava para baixo. Esperava vê-la rebolar uma saia minúscula, mas não. Ela estava com uma calça bem larga, que, mesmo assim, acusava o volume perfeito de suas nádegas. De braços cruzados e com um sorriso no rosto, ela mexia os lábios dizendo:
- [Não vamos tomar nada?]
- [Claro!]
Eu respondia da mesma forma.

Eu descia até lá e, antes que dissesse algo, ela:
- Você é normal?
- Por quê?
- Nunca recebi um convite desses dessa forma.
Ela dizia numa simpatia que me deixava até confuso.
- É. Eu achei que não teria outra oportunidade de...
- De?
- De medir o tamanho de sua trança.
- Seu bobo. Seu nome?
- Celso. E o seu?
- Maria Eduarda.
- Lindo nome. Vamos ali, naquele quiosque?
- OK. Você é quem manda. Não conheço nada por aqui.
- Não é daqui?
- Dessa cidade não.
- Ah.

A partir dali, conversamos, tomamos um café e comemos um pedaço de bolo de laranja. Ela era musicista. Eu não esperava. Violinista solo de uma orquestra.

Eu tive de ser direto. Tive de dizer o motivo pelo qual não tirei os olhos dela durante todos aqueles intermináveis segundos.
- Você é a coisa mais linda que eu já vi.
- Que você já viu?
- Sim! E agora, depois desse nosso papo, vejo o quão bacana tu és. Agora, me responda uma coisa.
- Diga.
- Por que aceitou o meu convite? Não achou muito afoito.
- Olha, Celso, vou te contar uma coisa: Antes de eu me tornar musicista profissional, de me apresentar nos melhores teatros do Brasil e do mundo, eu era muito criticada por ser calma demais. Eu esperava muito as coisas acontecerem. Hoje, quando me entrevistam em revistas e programas especializados, afirmam que a tranquilidade foi e é a minha melhor qualidade, pois “eu soube esperar a minha vez”. Já que fui “descoberta” somente aos vinte e três anos. E eu me gabava por isso...
- E o que tem isso a ver com o meu convite repentino? Já sei. Acha que eu deveria ter “esperar a minha vez”.
- Não. Eu me gabava com as palavras da imprensa a respeito de minha tranquilidade. Gabava-me até o momento em que você me fez aquele convite. Agora, nesse instante, passo a dar razão às críticas que me faziam.
- Por quê?
- Porque não devemos mesmo esperar por nada. Por uma carreira, por um sonho, por uma viagem...
- Por um beijo. – eu a interrompia.
- É – ela dizia –, por um beijo.
Eu a beijava...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

CICLOS DA CIDADE

Chuva de verão. Um verdadeiro pé d’água, para falar a verdade. Maldita hora em que a bobina de fax foi acabar. Bobina reserva! Eu sempre falo em bobinas reservas, mas a Sra. Marta não me escuta. Há anos que aquela velha ocupa a chefia, mas, mesmo assim, ainda não aprendeu que precisamos de suprimentos reservas. Isso evitaria a minha gripe, por exemplo. Uma tremenda guerra para comprar uma merda de bobina de papel. Queria saber se a Sra. Marta enxugaria as minhas meias. Ódio.

Mas aquela ida à rua serviu para uma coisa muito boa. A caminho da papelaria, antes daquela chuva pegar a todos de surpresa, ao passar por uma rua tomada por camelôs, eu me deparava, primeiramente, com um sorriso de deixar qualquer um louco. Era de uma vendedora que expunha CDs falsificados sobre uma barraca de madeira gasta.

A princípio fora apenas o sorriso, mas, conforme eu observava cada parte daquela mulher, notava que se tratava de uma beldade em meio a todo aquele clima de ilegalidade e incertezas.

Eu parava. Bem em frente à papelaria, eu parava. Fitava aquela coisa linda de longe. Observava cada movimento seu. Cada ajeitada naquele cabelo. Ah! O cabelo! Eram negros, ondulados e enormes. A pele era morena, bem queimada de sol. Possuía cicatrizes em um dos braços. Passava-me a idéia de uma vida bem difícil.

Era a única mulher naquele monte de barracas amontoadas. Chamava a atenção de todos que passavam. Além de mulher, linda! O rosto, mesmo suado, exibia beleza rara. Nariz, boca, olhos, tudo perfeito. Olhos verdes! Dá para acreditar? Usava uma roupa típica daquela estação. Trabalhar sob aquele sol não devia ser nada fácil. Short jeans curto e uma blusa branca de malha enrolada na altura dos seios. Um belo par, aliás. Médios e firmes.

Quando me dava conta, já estava ali paralisado por bons minutos. Merda! A bobina de papel, eu pensava. Entrava na papelaria e comprava logo duas. A Sra. Marta entenderia o que eu queria dizer com bobinas reservas.

Ao sair da papelaria, o céu já não era mais o mesmo. As nuvens haviam tomado conta de tudo e já davam sinais da quantidade de água que desceria. Um estrondo chamara minha atenção para o cinza que agora abafava. Um trovão de dar medo.

Eu resolvia seguir até o escritório antes que a chuva caísse, mas as nuvens foram mais ágeis. Mandavam gotas que, ao caírem no chão, criavam rodas maiores que o meu dedão do pé, eu calculo.

Então, eu corria. Em vão. A chuva pegava a mim e as merdas das bobinas de papel. Eu passava correndo entre os camelôs, mas, mesmo naquele sufoco, me lembrava de procurar por aquela que me prendera a atenção momentos antes. Até que eu ouvia um deles gritar:
- PEGA TUDO, FERNANDA! ESTÁ MOLHANDO OS CDS!
- ESTOU TENTANDO!
Respondia Fernanda completamente enrolada ao tentar equilibrar a barraca com a mão direita e carregar umas sacolas com a esquerda.
- VEM! VEM! VEM!
O sujeito a chamava para debaixo de uma marquise.

Eu já não mais corria. Pensava em ir até a marquise onde Fernanda estava. Fernanda e todos os camelôs daquela rua, que, com seus corpos e produtos salvos da chuva, já sorriam e zombavam uns dos outros. Zombavam também de Fernanda ao perceberem o que alguns pingos d’água conseguiram fazer. É que, sem sutiã, Fernanda ficava com os mamilos expostos, por conta da transparência que tornou sua blusa molhada.
- O que é isso, hein, Fernanda?
Dizia um.
- Que delícia, hein, Fernanda?
Dizia outro.
- Meu Pai do céu, Fernanda! Isso é um assalto? Aponte essas armas para lá!
Dizia um outro.
Fernanda se tapava e respondia-os com certo conformismo com a espécie masculina e um pouco de gozação. Não parecia se irritar com aquilo. Na verdade, pareciam todos irmãos sob aquela marquise.
- Seus ridículos!
Dizia Fernanda torcendo parte da blusa.

Eu resolvia ir até eles. Permaneceria lá até o fim do toró.
- Aqui tem uma vaga para mais um?
Eu dizia me direcionando à Fernanda.
- Tem, sim, moço. Chega aí.
Dizia-me uma simpática Fernanda.

Encolhia-me para caber ali. Ficava ao lado de Fernanda. Nossos braços se tocavam e eu sentia uma enorme vontade de abraçá-la. Eu notava que seu short se encontrava bem molhado também. A água da chuva que caía sobre a rua respingava em nossas pernas. Fernanda passava a mão nas dela, a fim de secá-las. Ao se agachar, reclamava do botão do short, que machucava sua barriga.
- Droga de botão!
Dizia Fernanda desabotoando-o.
- Ih! Vai tirar a roupa, Fernanda?
Dizia um dos camelôs.
- Vai sonhando – dizia Fernanda –, seu babaca.
Todos riam. Até ela.
- Tenham mais respeito, por favor!
Para que eu fui falar aquilo?
- Como é?
Dizia-me o piadista.
- É isso mesmo! Mais respeito com a moça, cara!

Os olhos de todos eles franziram-se para baixo. Focavam-me como seu eu fosse uma caça. Fernanda também me olhava, mas com ar de admiração.
- Meu irmão! Você vai entrar numa comigo?
Dizia um deles segurando um pedaço da madeira de sua barraca.
- Fale novamente com ela dessa forma, para você ver!
Eu respondia.
Eu não sabia o porquê daquelas minhas frases. Eu estava pronto para virar patê na mão daqueles homens. Fernanda apenas me olhava. Soltava um sorriso discreto antes de:
- Deixem o cara em paz! Ele só está sendo legal.
Dizia Fernanda firmemente.
Todos se calavam.

- Obrigado.
Eu dizia baixinho à Fernanda.
- Por que fez aquilo?
- Por que fiz o quê?
- Discutiu com eles por minha causa.
- Ora, é que você é a única mulher aqui no meio. Às mulheres devemos respeitar...
- São todos amigos, moço. Não tem maldade. Não se preocupe.
- Desculpe, mas...
- Não, tudo bem. Eu gostei do que você fez. É raro. Pelo menos na minha vida.
- Não devia ser, não é mesmo?
- É...
Fernanda abaixava a cabeça.
- Está toda molhada e...
- É. Eu sei. E sem sutiã.
- Desculpe-me. Eu nem havia reparado.
- Sei que reparou. Não precisa fazer tipo, moço.
- Bem, eu...
- Você...?
- Eu queria te oferecer a minha camisa. Afinal, a chuva vai passar e você terá que voltar a trabalhar. Não poderá atender as pessoas com um dos braços a tapar os seios.
- Não precisa. Vai secar logo. E outra: Eu espero que um desses aqui me empreste uma camisa.
- Se são seus amigos, emprestarão.
- Como eu disse, eu espero.
Fernanda ria. Parecia não se importar muito.
- Posso lhe dar uma idéia?
- Pode.
- Deixe-me pegar no seu cabelo.
- Para quê?
- Verá.
Eu aproveitava seus fios enormes e os dividia matematicamente em duas mechas, uma para cada lado do rosto.
- Fará tranças no meu cabelo, moço?
- Não precisa.
Eu continuava. Ajeitava as mechas bem acima de cada seio de Fernanda, que me fitava sem parar.
- Pronto – eu dizia –, pode tirar o braço da frente deles.
Fernanda emitia um lindo sorriso de gratidão ao notar que seus seios estavam salvos da transparência. Ela se olhava no vidro de um carro estacionado à nossa frente e:
- Você é cabeleireiro?
- Não. Só sei dizer que seus cabelos são lindos.
Eram um pouco mal tratados, mas eram, sim, lindos demais.
- Nunca usei os cabelos assim. Acredita? Sempre prendo ou jogo eles para trás.
- Passe a usar! Está linda.
- Obrigada.

A chuva terminava. Os camelôs começavam a voltar aos seus postos. Fernanda permanecia comigo sob aquela marquise.
- Você trabalha por aqui?
Perguntava Fernanda.
- Sim.
- Eu vendo CDs. Piratas, mas...
- Eu vi.
- Não quer levar um?
- CD? Não. Não sou muito chegado à música.
- Está bem.
- Levaria você. Para mim.
- Não está pensando que eu sou uma...
- De maneira alguma. A quero para mim, não a quero para a minha noite.
- Você é estranho.
- Por quê?
- O que viu em mim?
- O que talvez ninguém jamais tenha visto.
- Mas você nem me conhece.
- Não nos conhecíamos e, veja só, já salvei seus seios das maldades alheias e lhe mostrei um jeito ótimo de usar seus belos fios.
Fernanda ria.
- Vai para o seu escritório. Deixe-me trabalhar, vai, moço.
- Tudo bem. A gente se esbarra.
- Sim, se esbarra.

* * *
Uma semana depois, eu lia no jornal que ali, naquela mesma rua, acontecera uma tragédia. Num duro confronto com guardas e policiais militares, dois camelôs haviam sido mortos. Entre eles, uma mulher.

Eu largava o jornal e saía correndo para lá. Meu coração dizia que era Fernanda a mulher citada na matéria. Só podia ser ela. Era a única mulher ali.

Ao chegar àquela rua, via que apenas alguns camelôs permaneciam com suas barracas. Em meio àqueles olhares temerosos, porém, batalhadores, uma barraca chamava a minha atenção: a de CDs. Atrás dela, uma menina com a cara e os cabelos idênticos aos de Fernanda, mas aparentando pelo menos quinze anos mais nova. A idéia de uma vida ainda mais difícil me voltava à mente.

* * *
Obrigado pelo selo “Seu Blog é Roxie”, Casa do Besouro!

Eis o selo.

Aqui estão as regras para os blogs que indiquei:

1) Exibir a imagem do selo "Seu blog é ROXIE!" e escrever essas regras abaixo dele.

2) Colocar quem te deu o selo nos seus blogs indicados (amigos).

3) Escrever 5 coisas que são ROXIE (1ª sobre música, 2ª sobre televisão e cinema, 3ª três países que gostaria de conhecer, 4ª três cores favoritas e 5ª três Hobies)

4) Indicar 10 blogs que você ache ROXIE.

5) Avise aos indicados.

1) Colocando.

2) Colocado.

3) Bossa Nova, Musicais, Índia, Alemanha e Japão.

4) Indicados (Não são 10, mas...):

http://queiroz19.blogspot.com/
http://liu-loren008.blogspot.com/

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

QUATRO MAIS UM V (Final)

- Fale, Caroline. O que a gente não sabe sobre o dia do sequestro?
Atirava Carlos.
- Sim. Eu vou falar.
Caroline se recompunha das lágrimas e começava:
- Naquela quinta-feira, eu tinha acabado de almoçar com você, Carlos, no Centro da cidade. Logo depois, fui para casa. Ao descer do ônibus, já na minha rua, ouvi a voz de um homem que vinha logo atrás e puxava minha mochila. Ele disse “Espere aí, menina, você poderia me dar uma informação?” Ele não queria informação alguma. Queria apenas se aproximar e me render. Havia um carro do outro lado da rua nos esperando. Com uma arma na minha cintura, ele me levou até o carro. Havia mais dois homens dentro do veículo. Foi quando me dei conta de que estava sendo sequestrada. Eles me levaram até o cativeiro e logo depois me pediram o telefone dos meus pais para que pudessem pedir o resgate. Como meus pais estão na Bahia, achei que seria muito difícil os localizar. Então dei o celular do Carlos para que eles pudessem fazer o contato, porém, nem imaginava que Carlos conseguiria o dinheiro, quis apenas ganhar tempo, sei lá. Acho que me matariam se soubessem que não pegaram uma princesa cheia da grana, mas uma menina de renda normal. Durante o tempo em que fiquei no cativeiro, fui amordaçada e tive minhas mãos amarradas. Um deles fazia os contatos pelo telefone, outro me apontava uma arma todo o tempo e outro não tirava as mãos do meu corpo. Alisava-me, me beijava e me lambia... enfim.

Carlos sentia seu rosto queimar de raiva e ciúmes, mas preferia não interromper Caroline, que continuava:
- Eu apenas chorava. Sentia ódio deles e ao mesmo tempo não sabia por quanto tempo aquele pesadelo duraria. Até que aquele animal que me tocava resolveu que transaria comigo. Não tive como evitar. Estava amarrada. Naquela situação pensei que estava tudo perdido. Um homem imundo por cima de mim enquanto um outro me apontava uma arma e o som da voz de um terceiro que não parava de falar ao telefone.

Thiago e Sabrina não tinham sequer expressões faciais. Estavam pasmos. Caroline continuava:
- Até que o ouvi falando “A aí, playboy? Arrumou a grana? (...) Certo. Estarei esperando por você”. Logo pensei que finalmente estaria salva. Carlos havia arrumado um jeito de me tirar dali, eu pensava. Alguns minutos se passaram e eu apenas esperava o momento em que Carlos adentrasse pela porta e me arrancasse debaixo daquele ser desprezível. Ouvi uns passos estranhos na sala daquela casa e uma voz que dizia “Resgate. Venho em paz”. Era o Ciro. Um deles disse “Quem é você, coroa?”. Dessa frase em diante não ouvi mais nenhuma voz. Apenas os três tiros certeiros que Ciro distribuiu em cada um dos bandidos com um tipo de um revolver silencioso, não sei direito. Ciro foi tão certeiro que com o barulho da queda dos dois primeiros corpos, o que estava sobre mim se ergueu para ver o que havia de errado. Este recebeu uma bala no meio do crânio.
- Então o Ciro salvou você dessa forma? Ele matou os seqüestradores? Mas e o dinheiro do resgate?
Perguntava Carlos.
- Dentro da mala ele carregava sua arma junto ao dinheiro do resgate. Ele não entraria ali indefeso sem saber com quem estava lidando. Ele foi para pagar ou matar. Pois bem, depois de ter assassinado os três sequestradores, Ciro veio até a mim, se apresentou como chefe de Carlos, explicou tudo o que aconteceu e me fez uma proposta.
- Proposta?
Perguntavam Carlos, Thiago e Sabrina em uníssono.
- Sim. Ciro me tira do bolso uma foto de sua primeira esposa, esta falecida há mais de quinze anos. Eu olhei a foto e vi meu rosto nela. Foi impressionante ver uma pessoa tão idêntica a mim numa foto tão antiga. Então ele disse “Olhe Caroline. Isso só pode ser uma obra divina. Vi você hoje no restaurante com o Carlos e não acreditei. Você é exatamente igual a minha primeira esposa, Sueli, meu único amor. Sueli foi morta por um câncer em 1990. E agora, acabo de lhe salvar disso tudo. Não poderia deixar de lhe pedir... Um beijo”. Eu realmente me peguei tomada por um sentimento de gratidão e de alívio tão grande por ele ter me tirado daquela situação que, confesso, senti uma espécie de atração momentânea por Ciro. Então... o beijei.
- NÃO ACREDITO, CAROLINE!
Interrompia Carlos possuído pelo ódio.
- Calma Carlos. Eu achei que nunca mais precisaria cruzar com esse cara na minha vida. Mas agora ele é quase um de nós, não me deixa em paz um minuto. Vocês notam como ele me deseja? Eu precisava contar isso a vocês. Desculpe-me, Carlos. Mas eu não sabia que um simples beijo iria se tornar nesse pesadelo. Desculpe-me, por favor.
- SIMPLES BEIJO? VOCÊ É UMA VAGABUNDA!
Atacava Carlos.
- Calma gente, calma.
Tentava Thiago.

Carlos saía da mesa em disparada sem dar explicações aos outros três e seguia em direção à casa de Ciro.

Chegando lá, era recebido por Milena, a empregada de Ciro, que levava um empurrão de um irado Carlos.
- Onde está o Ciro?
- O que é isso? O que houve?
- Onde está o canalha do Ciro?
Ciro aparecia na sala.
- O que é isso, garoto?
- Não me chama de garoto, seu filho de uma puta! Por que você fez aquilo? Gostou da Caroline, não é? Ela é a cara da sua defunta, não é? Ela me contou tudo!
- Garoto, você está me desrespeitando na minha casa. Não vou admitir uma coisa dessas!
- O que você vai fazer? Vai me matar, assim como você fez com aqueles três no dia do sequestro?

Na mesma hora, adentravam Caroline, Thiago e Sabrina. Caroline gritava por Carlos bem no ápice da confusão, no momento em que Ciro puxava uma pistola da gaveta, apontava para Carlos e disparava um tiro. Atendendo ao grito de Caroline, Carlos se virava para trás se desviando sem querer do tiro de Ciro, que atingia em cheio o peito de Caroline.

Transtornado, Ciro disparava um tiro em cada jovem, todos certeiros, inclusive em Milena. Por último, tomado pelo mais terrível choro, acabava por compor um cenário mórbido em meio à beleza natural de Búzios - punha seu crânio como alvo e atirava.

[Fim]

Conto publicado originalmente entre 09 e 13 de outubro de 2007, no fotolog.com/lucianofreitas.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

QUATRO MAIS UM IV

Sentado com os óculos de sol, um laptop no colo e uma lata de cerveja na mão esquerda, Ciro parecia uma miragem, uma aparição diante de Carlos.
- Dr. Ciro?
- O que foi, garoto? Viu um fantasma? E sem essa de doutor.
Thiago e Sabrina se olhavam e entendiam tudo. Aquele era o chefe de Carlos. O tal que resgatara Caroline.
- Não vai me apresentar seus amigos, Carlos?
- Claro. Esses são Thiago e Sabrina. Gente, esse é o doutor..., digo, Ciro.

Cumprimentavam-se e logo iniciavam uma conversa inaugural sobre a beleza local. Carlos ficava calado e com medo de perguntar, mas estranhava encontrar Ciro na mesma cidade e praia. Na verdade ele não sabia nem onde situava a casa de praia do chefe. Poderia ser em Búzios também. Por que não?

Caroline saía da água e vinha caminhando de maneira angelical em direção aos amigos na areia. Ajeitava os longos cabelos negros. As ondas batendo em câmera lenta faziam um pano de fundo maravilhoso para o andar de Caroline. Ciro percebia sua chegada. Desviava a atenção das frases chatas de Thiago e Sabrina e passava a observar a menina que se aproximava. Carlos assistia aquilo com muito ciúme, mas se segurava. Afinal, o velho não teria a menor chance.

Quando Caroline chegava até o corpo de Carlos, que se encontrava em pé a sua espera, abraçava-lhe e dava de cara com Ciro. Arregalava os olhos e soltava em voz baixa:
- O que esse homem está fazendo aqui?
- Não sei, amor. Não sei.
Respondia Carlos também em voz baixa.
- Mais que merda. Esse cara aqui também?
- Caroline. Foi ele quem lhe salvou. Já se esqueceu?
Caroline abaixava a cabeça e ficava em silêncio. Ia até Ciro, o cumprimentava e agradecia a pedidos de Carlos.
- Não há de que, Caroline. O que importa é como você está. Você está bem?
- Sim, estou. Mas prefiro não tocar no dia de ontem.
- Como quiser, Caroline.
Concordava Ciro lentamente enquanto analisava cada curva de Caroline. Thiago e Sabrina assistiam a tudo calados.

- Vocês aceitam almoçar lá em casa?
- Obrigado. Mas não precisa, Ciro.
Respondia Carlos.
- A Caroline é quem vai responder. Quer almoçar lá em casa, Caroline?
Caroline pensava e respondia com um pouco de frieza - Sim, por que não?
Carlos não entendia a atitude de Ciro, muito menos a de Caroline. Começava a suspeitar de que algo não cheirava bem naquela cena.
- Ótimo. Minha casa fica logo ali, assim que vocês quiserem ir, me avisem.
Carlos e Caroline ficavam sérios e sem jeito enquanto Thiago e Sabrina se mostravam ansiosos com o convite.
- Não estou gostando nada disso.
Dizia Carlos a Thiago.
- Ora, Carlos. Vamos almoçar na casa do magnata. Deve ter tudo do bom e do melhor na casa dele. Imagina.
- Não, Thiago. Não é disso que eu estou falando. Estou me referindo ao jeito com que Ciro vem tratando Caroline.
- Não vai me dizer que está com ciúmes. Aquele coroa?
Duvidava Thiago em tom de deboche.
- Não sei não, Thiago.

No caminho, iam Carlos, Thiago e Sabrina no banco traseiro e Caroline no banco do carona, ao lado de Ciro a pedidos do mesmo.
- Sabe, Caroline? Seu namorado é um de meus melhores funcionários.
Caroline apenas sorria sem querer.
- Tem nas mãos um garoto de ouro.
Carlos nunca havia dito, mas odiava ser chamado de garoto, ainda mais por Ciro. No meio de um monte de frases tediosas de Ciro, apenas Thiago e Sabrina se interessavam.

Chegavam à casa de Ciro e lá conheciam Milena, sua empregada.
- Milena trabalha comigo há anos. A levo para onde vou. Eu e minha família não vivemos sem ela. Não é mesmo, Milena?
- É sim, doutor. Os jovens vieram para o almoço?
- Sim. Prepare algo enquanto papeamos na varanda.
Respondia Ciro.
- Sim, doutor.

Pronto. Começava ali uma série de quatro dias em que Carlos, Caroline, Thiago e Sabrina não fariam nada sem a presença de Ciro. Ele os convidava para programas e se convidava para os programas dos jovens. Carlos se via sem graça de negar ao chefe, mas já no primeiro dia de viajem se encontrava entediado com a presença de Ciro. Praia, almoços, jantares, festas locais, tudo era com a companhia de Ciro, que pagava praticamente todas as despesas. Se não bastasse a companhia indesejável, Ciro não desgrudava de Caroline com suas frases maliciosas. Carlos já não aguentava mais. Thiago e Sabrina também não.

* * *
No terceiro dia, domingo, os jovens se reuniam na pousada onde se hospedavam para terem uma conversa sobre a presença de Ciro.
- Não dá mais, Carlos. Essa viagem está se tornando a viagem nossa e do Ciro.Começava Thiago.
- Pois é. Eu também estou odiando. Não aguento mais as histórias desse velho.Emendava Sabrina.
- Sim. Eu concordo. Mas é meu chefe. Como posso destratá-lo? Ele é uma mala, mas...
Explicava Carlos.
No mesmo momento, Caroline começava a chorar.
- O que houve, Caroline?
Perguntava Carlos.
- Preciso contar uma coisa a vocês. – Respondia aos prantos Caroline – É sobre o dia do sequestro e sobre o Ciro também.
Carlos, Thiago e Sabrina emudeciam de olhos arregalados.

[Continua]

Conto publicado originalmente entre 09 e 13 de outubro de 2007, no fotolog.com/lucianofreitas.