quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O LÍQUIDO

- Gol do Vasco! Putz, não acredito! – dizia Diogo nitidamente transtornado.

Eu degustava lentamente um Montecristo Churchill, enquanto Diogo enlouquecia com a hipótese de seu Flamengo não se manter bem no campeonato nacional de futebol. Naquele momento nossos olhares apresentavam rumos diferentes; enquanto o meu observava o transitar tranquilo das pessoas em volta daquele bar, o de Diogo se mantinha fixo na TV – no replay do gol. “Que idiotice”, eu pensava, ao mesmo tempo em que me questionava sobre o quão idiota eu deveria ser também – talvez até mais que aqueles torcedores fanáticos.

Diogo era capaz de não saber o nome do nosso atual governador, mas sabia, de ponta a ponta, todas as escalações presentes naquele raio de campeonato. Artilheiros, técnicos, número de cartões amarelos, pontos ganhos, classificação da tabela, tudo! Diogo sempre fez questão de se manter muito bem informado sobre essas coisas tão importantes às nossas vidas.

Era um domingo frio de julho e eu não sabia ao certo o motivo que me levara àquela mesa de bar com Diogo. Quando me encontro em depressão, qualquer convite para sair de casa é rapidamente recusado. Mas, sabe-se lá o porquê, naquele dia aceitei. Talvez, não sei, por causa da minha insistente vontade de morrer. É que, em depressão, posso ter concluído que ficando em casa as chances de óbito seriam mais remotas. A menos que eu cometesse o suicídio – coisa que tenho muito medo, confesso. Prefiro os acidentes, sabe? “Quem sabe um carro em alta velocidade não invade aquele bar?”, devo ter pensado.

- Gol do Vasco, foi? – eu perguntava observando o queimar de meu charuto.

- Merda! – respondia Diogo.

A minha neutralidade diante daquele entretenimento nacionalmente cultuado piorava ainda mais a fúria de Diogo, que, naquele momento, pouco se importava se, no fim do mês, seu salário não garantia sequer suas necessidades básicas – e isso eu também observava.

- Você me irrita, Luciano – continuava Diogo – Não sei por que te chamei para assistir ao jogo!

- Você me chamou para beber um pouco! Eu nem sabia do jogo, Diogo! – eu respondia.

- Inferno!

Verdade, eu me divertia com a fúria de Diogo. Mas eu ficava o tempo todo a comparar os motivos que o levam a sair do sério com os meus. Digo, que eu me recorde, a última vez em que fiquei nesse estado emocional foi quando concluí de fato que o mundo me julgava velho demais para os meus sonhos. A sensação de que o seu tempo de sonhar já passou é terrível. Ninguém me disse, mas é como se o mundo me emitisse vozes dizendo “está na hora de levar a vida mais a sério” ou “é difícil para você encarar as responsabilidades de uma vida adulta”. Eu pensava se Diogo algum dia passaria pelo que passo. Sempre concluí que não.

Sempre concluí – e nisso as aulas de filosofia me ajudaram muito – que a verdadeira felicidade está na ignorância. É! O saber te leva à loucura, aos questionamentos, ao autoconhecimento (ou à tentativa deste) e, por fim, muitas vezes, à depressão. Seria tão fácil me preocupar apenas com a posição do Flamengo na tabela do campeonato, por exemplo. Assinar sorrindo um contracheque de fome, ao mesmo tempo em que marco com os amigos uma noitada na qual toda aquela miséria será gasta com mulheres e bebidas... Deve ser bom demais. Viver um dia após o outro, só isso.

Por que diabos tenho que ficar pensando nos valores das coisas, se ninguém dá valor a nada? Por que preciso passar horas lendo, adquirindo cultura e informações que num piscar de olhos se transformam em lixo? A postura de um rapaz inteligente e sério está fadada à cafonice. Talvez porque o rapaz sério de hoje seja aquele que não leva absolutamente nada a sério. Frases que dizem que “isso” ou “aquilo” está morto são despejadas sem consequências e, pior, sem o mínimo de embasamento. Tudo isso me corrói, me deixa desarmado, confuso, sem ação.

E o Diogo? Provavelmente, nesse exato momento, deve estar acendendo um cigarro às gargalhadas frente à lama que toma a calçada de sua casa.

Naquele domingo, já à noite, chego em casa e me deparo com minha escrivaninha, que, embora desarrumada, me mostra com nitidez os meus projetos que se encontram pela metade; me alfineta. Na estante ao lado, a televisão. Mas ao lado ainda, o computador. As tecnologias, que deviam me ajudar, parecem me atrapalhar ainda mais. Não sei por que, mas, naquele instante, a imagem de uma das aulas da faculdade de Publicidade me vem à mente; uma aula chatíssima em que noto a preocupação primária do professor em preencher o tempo com informações que (essas sim) já se tratam de lixo antes mesmo de nos tocar o intelecto.

Desabei no sofá. Constatava que carro algum invadira aquele bar e que eu, infelizmente, ainda me encontrava vivo. Tentei tirar algum proveito disso, mas tudo o que me tomava era uma preguiça sem tamanho. Não uma preguiça qualquer, causa de um desgaste físico ou mental, mas uma preguiça da vida mesmo; uma sensação de mesmice que vinha desde o par de tênis que eu calçava ao infinito céu nublado que engolia minha casa. Era como se eu não fosse capaz de fazer nada aproveitável; como se o tempo passasse tão depressa que cada traço meu à caneta tivesse sua tinta dissolvida pelo futuro avassalador. Meus papéis continuariam em branco, sempre.

Quando você se sente anormal por conta de suas reflexões antes tão naturais à sua existência, é porque você já não sabe mais o porquê te tudo o que o cerca. “Qual o sentido disso tudo?”, eu pensei. Por mais sem resposta que possa parecer tal pergunta, insisti: “Qual o sentido disso tudo?”.

Deus nos deu as coisas concretas, perfeitas, lindas, mas nos deu também a capacidade de vagar pela escuridão do abstrato. E é ajoelhado nesse abstrato que sofro mais. Sofro naquilo que não posso desenhar, escrever, cantar ou musicar; aquilo que é só meu. Sofro com aquilo que insiste em viver dentro de mim – até porque lá fora não há vida capaz de compreendê-lo.

Foi quando, em meio a pensamentos que se misturavam, me veio uma imagem: uma faca desejando boa noite ao meu pulso esquerdo. Achei que já era hora de ir para a cama. E fui.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

CELINHA

Éramos feios. Meu Deus, como éramos feios naquela época. De longe, podia se enganar, achando se tratar de um grupo de jovens sadios e bonitos, aquele que nos visse sentados sobre o gramado em frente ao shopping. Mas bastava uma aproximação para a constatação de não passarmos de um bando de idiotas vestidos com malhas negras e calças jeans rasgadas – mais tarde fui saber que os alternativos nos chamavam de “mariolas”.

Zeca e eu, amigos inseparáveis, como que numa espécie de hora sagrada, comparecíamos ao gramado sempre às oito da noite. Carregando nossas bandas prediletas estampadas em verdadeiros trapos que chamávamos de camiseta, lá estávamos nós, todo santo dia, a fim de papo furado, vinho barato, som pesado e meninas.

O papo furado era certo – a quantidade de cabeças vazias naquele local era imensa –, o vinho barato também – era só o que nosso dinheiro dava para comprar –, o som pesado vinha de fitas cassetes para lá de gastas, de tanto rodarem em nossos antigos walkmans. Já as meninas... Bem, as meninas não eram das melhores. Elas fumavam muito, bebiam muito, gritavam muito umas com as outras, usavam camisetas masculinas e calças incapazes de atrair sequer um tarado na seca. Sim, as nossas meninas eram muito ruins, coitadas, mas... Fazer o quê?

Zeca e eu nunca nos envolvemos com nenhuma daquelas meninas. Exceto numa festa na casa do Franco, um amigo nosso, mas esse foi um episódio tão deprimente (além de etílico) que prefiro deixar para uma outra ocasião.

A verdade é que daquele gramado conseguíamos observar as chamadas patricinhas, que zanzavam serelepes pelo shopping. Tínhamos a noção de que vestidos daquele jeito não teríamos a menor chance com elas, mas, mesmo assim, as observávamos.

E como eram lindas as patricinhas! É engraçado concluir que nós (pelo menos Zeca e eu), ali, naquele gramado, queríamos mesmo era participar daquilo que as patricinhas participavam. Só em ter a chance de abraçar uma menina perfumada como elas... Mas a nossa cabeça estava tomada por aquele monte de besteiras que os astros do Heavy Metal nos faziam acreditar. Sim, nós acreditávamos que tais astros andavam como nós andávamos; rasgados, sujos, com a barba por fazer e com a pele de um ogro. Vê se pode! Enquanto isso, a cada dia, sabe-se lá quantos lábios doces deixávamos de beijar.

Até que, num determinado verão, o bando recebe uma nova integrante. Marcela, que mais tarde virou Celinha, na flor de seus dezessete anos, nos aparece como que perdida de uma floresta habitada por fadas alvas e virgens.

- Oi! Posso me sentar com vocês? – perguntava Celinha ao bando.

Como não poderia? Celinha era a junção perfeita do melhor dos dois extremos daquele shopping! Ela era a beleza, o charme e o cuidado de uma patricinha consumista, mas ao mesmo tempo a atitude de uma menina do gramado – pelo menos a atitude que nós meninos queríamos que as meninas tivessem.

A branquíssima Celinha me aparece com um tênis All Star cano longo, uma saia que nem sei descrever, uma camiseta preta justa, sem estampa alguma, e um cabelo que, sem exagero, é o mais belo cabelo que já vi; liso, negro, na altura dos seios, com mechas vermelhas, uma graça!

- Claro que pode! – respondemos em uníssono Zeca e eu.

Pronto. Estava determinado o marco zero do desentendimento histórico entre Zeca e eu, que, logo após a frase cordial, olhamos um para o outro num estranhamento inédito.

As meninas, logicamente, demonstraram, sem disfarce algum, todo o veneno de seus ciúmes. Mas como seria diferente? Todos! Eu disse todos! Todos os meninos do gramado não conseguiram olhar para mais nada que não fosse, ou não tivesse a ver com, Celinha.

- Obrigada. É que sou nova aqui na cidade. Cheguei nesse fim de semana de São Paulo e procurava por pessoas que, sei lá, curtissem as mesmas coisas que eu, entendem? – dizia Celinha com seu sotaque.

- Claro! – respondíamos novamente em uníssono Zeca e eu.

- Mas quem disse que gostamos das mesmas coisas que você, menina? – berrava Letícia, a mais feia do bando.

- Curtem rock, não? – dizia Celinha.

- Sim! – respondia Letícia – Mas você não parece curtir rock!

- Curto sim! Eu curto...

Celinha, então, derramou em nossas mentes uma lista de bandas que jamais tínhamos ouvido falar. Ela não curtia apenas Heavy Metal, mas todas as vertentes do Rock. Eu concluía que, além de estar completamente apaixonado por Celinha, estava também atrasado, e muito; enquanto Zeca e eu, por exemplo, discutíamos sobre a decadência do
Metallica, Celinha conhecia a fundo todos os detalhes das histórias contadas pelos discos do Rhapsody. Foi dessa forma que, mesmo sob os narizes torcidos das meninas, Celinha se juntou a nós.

Celinha passou a frequentar o gramado, mas não todos os dias. Sendo assim, as expectativas em relação a sua aparição – por parte de todos, é verdade – era diária. Zeca e eu, a essa altura, não tínhamos assunto que não fosse sobre cada pedaço de Celinha; dos lábios ao dedão do pé. E foi aí que começamos a notar que se tratava de uma disputa.

- Fernando – dizia-me Zeca –, não vê que não tem chances com Celinha?

- Por que diz isso? Acha que você tem? É isso?

- Ela se amarrou na minha, Fernando. Você sabe.

- Não, não sei. Sei que ela não tira os olhos de mim. Disso eu sei.

- É para rir, Fernando?

A verdade é que Celinha era uma menina muito carinhosa e atenciosa com todos. Seu carisma tomava os nossos corações. Com o tempo, até as meninas passaram a adorá-la, sendo Celinha, inclusive, o pivô de uma mudança radical na maneira daquelas feiosas se vestirem – algumas ficaram até bonitinhas.

* * *
O tempo passou. Zeca e eu, a essa altura, sequer nos suportávamos. Íamos para o gramado, mas em horários diferentes; ele ia mais cedo um pouco.

Até que, certo dia, eu resolvi ir para o gramado bem mais cedo, pensando numa chance (entre um milhão) de encontrar Celinha sozinha. E não é que tive sorte? Foi coisa de Deus mesmo, só pode. Naquele fim de tarde, por alguns segundos, pensei em Deus sem meus antigos preconceitos. “Deus, obrigado”, eu pensei.

- Celinha! – eu disse.

- Fernando!

- O que houve? Você cedo por aqui – eu disse.

- Nada. Vim olhar o mar, o Sol. Adoro ver o Sol se pondo.

- É bonito mesmo.

- E você? O que faz aqui mais cedo?

- Vim ver você vendo o Sol se pondo.

- Bobo. Sério. O que faz aqui tão cedo?

- Celinha, eu na verdade não sei. Acho que senti que estaria aqui também, não sei. Simplesmente vim.

Celinha percebeu a minha intenção de aproximar meus lábios aos seus e me parou com sua mão delicada sobre meu tórax.

- Fernando, qual é? Não ia me beijar, ia?

- Ia...

- Melhor não. O Zeca é muito seu amigo e...

- O que o Zeca tem a ver com o meu beijo, Celinha?

- É que o Zeca e eu estamos juntos. Mais ninguém sabe ainda, OK? Imaginei que ele tivesse contado a você, mas, pelo visto...

- Você e o Zeca? Mas ele não me disse nada... Bem, depois dessa, eu... Eu vou indo...

- Não vai ver o Sol se pondo? Comigo.

- Não. Acho que perdeu a graça. Vou nessa...

Pelo caminho pude ver o Zeca rumo ao gramado. Foi quando as peças finalmente se encaixaram; eles estavam realmente juntos. O Zeca ia mais cedo ao gramado a fim de se encontrar com Celinha.

Fiquei tomado por uma inveja mórbida por dias. Não conseguia ir ao gramado. Não conseguiria ficar ali sabendo que, minutos antes, Celinha e Zeca haviam trocado suas salivas. Daí à loucura: “Será que ela deixa o Zeca passar a mão na bunda? E nos peitos?”, eu pensava doentiamente.

Deixei de ouvir qualquer música que me lembrasse Celinha, ouvindo apenas
King Diamond – que ela odiava – bem alto. Em todos os rostos na rua era o de Celinha que eu via. Não dormi durante semanas por conta disso. Foram dias muito difíceis.

Alguns meses depois, Zeca batia à minha porta.

- Fernando.

- Lembrou que eu existo, seu filho da puta?

- Chega, Fernando! Sei que você tá puto, mas o que me traz aqui é sério.

- O que foi? Tirou o cabaço de Celinha, foi?

- Não, Fernando! Celinha foi baleada num assalto. Celinha morreu, cara! Vim te avisar do enterro de Celinha! Babaca!

Zeca, contendo as lágrimas, foi embora. Eu, sem dizer palavra, fechava a porta numa forte tristeza, mas também numa assustadora e macabra alegria. Chorava e ria compulsivamente ao som alto de
Conspiracy. Até hoje não entendo o que senti naquele momento.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

BALA PERDIDA

Alguns amigos próximos – aqueles, que cresceram com Carlos e hoje trajam finos ternos e ocupam cargos bacanas no mercado de trabalho – o perguntam sobre o que de fato lhe ocorreu na cabeça para optar por tal caminho. Claro que, diante desses amigos, as explicações de Carlos ficam ao vento. Mas, mesmo assim, acredito que posso convencer você, leitor, de que este rapaz possui motivos sérios para hoje resolver os seus problemas “na bala”.

De sua infância, além do vazio causado pela falta de um pai, Carlos guarda na memória as bofetadas, pernadas e pescoções que levou dos mais velhos. É que em sua busca incansável por um emprego que sustentasse seus sonhos de menino – por exemplo, uma pulseira de respeito, como a que seu irmão usava – Carlos passou pela mão de empregadores bastante cruéis.

O rapaz ainda se lembra de quando trabalhou por quatro dias em um lava a jato, perto de sua casa. O Sr.Alfredo, dono do negócio, lhe aplicava uma rasteira por cada cliente que reclamava de seu serviço. O pequeno Carlos logo percebeu que as rasteiras divertiam os clientes, que, ao entenderem o espírito da coisa, reclamavam sem motivo algum.

O lava a jato foi apenas um capítulo dentro dos inúmeros em que viveu. Carlos, como todo jovem, queria desfrutar de roupas “de marca” – na época, as populares camisas bordadas, por exemplo –, e sabendo que de sua casa não lhe sairia sequer um real, aceitar as propostas de trabalhos escravos disfarçados de emprego era a única saída para o rapaz.

Carlos passou por muitos lugares. Por cada litro de suor derramado, Carlos recebia grosseria, descaso e humilhação. E se já não bastasse o expediente, em casa a coisa ainda era mais feia; sua mãe e seus irmãos desconsideravam sua presença, haja vista a ausência de uma ajuda financeira considerável da parte de Carlos.

- Você me custa caro, Carlos! Muito caro! – dizia sua mãe ao acender um de seus infinitos cigarros.

Você, caro leitor, deve estar pensando que “nada justifica”. E eu lhe pergunto: Como nada justifica? Diante de uma situação dessa? Eu mesmo dou todo o apoio quando ele me diz resolver seus problemas “na bala”. Ora, sem escolaridade, sem ajuda familiar, sem oportunidades no mercado de trabalho e caminhando à base de violência e covardia, até eu optaria por tal caminho.

E assim, carregando injusto e pesado passado, Carlos se prepara para mais um dia de “ganho”. O rapaz se municia com o máximo que pode carregar. Afinal, nesse ramo nunca se sabe o que vai precisar. Enquanto Carlos se prepara, faz o sinal da cruz três vezes e pensa que, agora, seu patrão é ele mesmo; suas leis e seu ritmo é ele mesmo quem os define.

Com a preferência de atuação voltada para os ônibus, Carlos fica à espera de um. Seus olhos correm pelos veículos que passam em busca de pessoas que, segundo ele, “têm cara de ganho”.

Depois de alguns minutos, Carlos, enfim, escolhe o primeiro ônibus do dia. Entra pela porta da frente já fazendo um sinal para o motorista – que na maioria das vezes já sabe de todo o esquema e recebe até agrados.

Carlos averigua se suas balas estão prontas para a ação e:

- Desculpe incomodar o silêncio de vocês. Mas hão de concordar que vale a pena dessa vez. Senhoras e senhores, eu garanto a qualidade! É só olhar no verso e conferir a validade. É a bala de menta, é a bala de coco, não tem nada igual! Tem a bala de leite, tem de tamarindo, café e até mingau! Encontrada nas lojas do ramo, tá pra lá de dois e tal. Mas aqui na mão do camelô vai pagar um real!

Ele vende balas, caro leitor. Explicado?

* * *
Este conto foi baseado na música "Bala Perdida" de Vinicius Castro e é parte integrante do lançamento de seu CD "Jogo de Palavras".

terça-feira, 6 de julho de 2010

MEDO DO AMANHÃ

Fabrícia sempre foi uma menina apaixonante, ainda mais para um viúvo quase quarentão como eu. Doce, ela trazia a alegria de viver estampada nos olhos e no sorriso – aquela alegria, sabe?, que quase todos temos aos vinte e poucos anos. Dona de um espírito jovial ao extremo, a primeira pessoa a me fez pensar em mim de forma colorida foi Fabrícia – sim, antes dela, sempre pensei em mim como se fosse preto e branco. Mas isso é uma outra história.

Ela era estudante de Letras, com habilitação nas línguas portuguesa e francesa. Durante os seus primeiros semestres na faculdade, tive o prazer inenarrável de lecionar o francês para Fabrícia em aulas particulares, em minha casa. Muito disciplinada e curiosa, Fabrícia, sem querer, fez com que eu me aprofundasse ainda mais naquela língua, a fim de suprir tanto interesse de sua parte. Foi assim que nos conhecemos.

Embora eu sempre tomasse o máximo de cuidado para não me envolver com nenhuma das minhas alunas – principalmente as mais jovens –, devo confessar que diante de Fabrícia me senti, por diversas vezes, tentado às segundas intenções. Talvez por ser a única a levar aqueles momentos de estudo como realmente prazerosos. Tomávamos café, ouvíamos muita música francesa e conversávamos bastante também; tudo durante o horário da aula. Daí para o nosso primeiro beijo não demorou muito.

Começamos assim, nesse clima franco brasileiro, a namorar. A parte mais chata foi explicar à minha filha Aninha, na época com oito anos, que “aquela menina bonita de cabelo de cenoura” era, então, a namorada do papai. Aninha a chamava assim devido ao ruivo forte dos cabelos de Fabrícia, que, por sua vez, tinha o rosto coberto pelas sardas mais fofas que já vi. Os cabelos de Fabrícia eram lisos, um pouco abaixo do ombro. Não muito por sua beleza, mas por sua combinação de características é que Fabrícia chamava a minha atenção.

Sempre nos demos muito bem quando namorados, mas, infelizmente, entre Fabrícia e eu existia uma espécie de vácuo temporal. É que seus vinte e dois anos – contrastando com os meus trinta e sete – me causavam certa preguiça em acompanhá-la em certos assuntos que fugissem das nossas aulas; eu precisava largar o conforto do conhecimento sobre as minhas “antiguidades” e pisar em novos terrenos, que, diga-se de passagem, não me agradavam muito.

Mas Fabrícia também devia ter a mesma “preguiça”, já que não parecia muito fácil para ela disfarçar a “cara de paisagem” diante das coisas que para mim eram tão importantes. Enquanto eu caminhava vagarosamente, degustando com calma e critérios aquilo que me cercava, Fabrícia era a nova geração, a rapidez e o descarte em pessoa. Com a música francesa, por exemplo, enquanto ela devorava (e me fazia devorar também) dezenas de novas bandas a cada encontro, eu ainda cultuava os LPs do
Michel Delpech.

Foi muito chato quando, depois de quase um ano namorando, concluímos que nossas cabeças somente se encontravam quando o assunto era o estudo da língua francesa – isso talvez explique o motivo de nossa primeira transa ter sido sobre a mesa coberta de livros. Foi chato porque, mesmo diante de todas essas diferenças entre nós, eu me sentia ainda muito atraído e dependente dos carinhos de Fabrícia.

- Acha que foi um erro, Cláudio? – dizia-me Fabrícia.

- Louca! Isso nunca! Não me arrependo e nunca me arrependerei de nenhum momento que tivemos, Fabrícia.

- É que quando começamos a namorar eu não tinha noção dessa nossa “diferença”. As nossas idades e a Aninha nunca foram obstáculos para o meu gostar, entende?

- Sim, nem para mim. Eu sinto muito se, quando não estamos envolvidos nos estudos, lhe pareço um velho de sessenta anos.

- Não é assim também, Cláudio. Eu é que devo parecer uma adolescente boba quando puxo do bolso o meu iPod e o forço a digerir tanta coisa.

- Não é verdade...

E assim, nesse pedido mútuo de desculpas errôneas, decidimos terminar, sem brigas, o nosso namoro. Logicamente, Fabrícia mudou de professor particular; foi ter aulas com a excelente Olívia – coincidentemente, uma ex-namorada minha.

Algumas semanas se passaram sem que eu visse Fabrícia.

Até que certo dia, Olívia bate à minha porta.

- Oi – dizia Olívia.

Olívia é daquele tipo de mulher que não envelhece. Se não me engano, Olívia é apenas dois anos mais nova que eu, mas aparenta ser muito mais jovem.

- Olívia! Tudo bem? Entre!

- Não, obrigada. Não vou demorar.

- E o que a traz aqui?

- Deve saber que uma ex-aluna sua, a Fabrícia, andou tendo aulas particulares comigo, não sabe?

- Sim, sim!

- Então. Estou aqui para lhe dar uma notícia meio chata.

- O que foi? Diga!

- A Fabrícia faleceu nessa madrugada.

- Como? Como isso?

- Pois é, Cláudio. Não sei se você tinha ciência, mas parece que ela carregava um tumor no cérebro.

- Não, ela nunca me contou!

- Ela esteve internada na semana passada, mas parece que não resistiu a uma cirurgia. Eu... Eu sinto muito.

- Meu Deus...

- Vim te contar porque... Porque ela me falou. Ela... Ela me falou sobre vocês dois.

- Ah, sim... Obrigado, Olívia.

- Agora... Sei que não é o melhor momento, mas... Você gostou mesmo da Fabrícia? Quer dizer, vocês namoraram mesmo?

- Sim, Olívia. Mas terminamos por concluirmos que havia entre nós uma distância muito grande. Para mim, era como se eu namorasse alguém com uma sede de viver tudo ao mesmo tempo, entende?, numa correria, numa vida líquida.

- Entendo. E, pelo visto, ela tinha motivos, não é?

Olívia tinha razão. A euforia e a rapidez com que as coisas entravam e saíam da vida de Fabrícia era fruto de uma espécie de “medo do amanhã”. O porquê de Fabrícia nunca ter me dito sobre o tumor eu, a partir daquele momento, fiz ideia: ela percebeu que eu não era a pessoa certa para dividir com ela a tensão de cada dia.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

LYSA23 - Final

Em algum momento da tarde, Lysa conseguiu alguns minutos de conversa com Fred. Precisava se explicar, ou melhor, tentar alguma explicação diante do flagrante de Fred pela manhã. A verdade é que não havia o que explicar; o Fred viu e pronto. Mas Lysa sentia que devia, fosse como fosse, uma satisfação a Fred.

Antes de chegar à mesa de Fred, Lysa pensava em como começar aquele papo. Assumir a bissexualidade antes de qualquer coisa? Talvez. Sabia que não devia desculpas ao rapaz, até porque foi ele quem “invadiu” sua residência. Mas sabia que tal invasão fora por uma boa causa – Lysa tinha ciência da atual preocupação de Fred em relação à estadia de Adler, um estranho, em seu apartamento.

- Fred, nós podemos conversar agora?

- Claro, Lysa.

- Eu... Eu não sei o que dizer. Morro de vergonha só de pensar, e...

- Não precisa me explicar nada, Lysa. Que isso? Eu é que peço desculpas por ter entrado daquela forma no seu apartamento. Eu não tenho nada com a sua vida.

- É que não queria que você pensasse que eu sou uma depravada, sei lá...

- Lysa, você estava na sua casa, com a sua namorada... Repito: eu não tenho nada com a sua vida.

- Ela não é minha namorada!

- Seja lá o que for, Lysa, não importa. Pelo menos agora eu sei o motivo de nunca me dar uma chance. Eu só não entendi quando me disse que estava “completamente apaixonada pelo homem da sua vida”. Estava falando do tal estrangeiro, não foi?

- Sim, claro! Quer dizer, eu acho. Quer dizer, sei lá...

- Ah... – dizia Fred tão confuso quanto Lysa.

- Fred, aquela menina é uma amiga minha, a Gabriela. Eu... Eu não sei o que me deu naquela hora, entende? Eu sequer sei o que sinto por ela. A verdade é que... A verdade é que não tenho mais controle do que sinto.

- Eu não sei como te ajudar, Lysa. Não sei mesmo. Confesso que tudo isso me confunde.

- Eu imagino, Fred.

- Só acho que você, no fundo, não gosta nem do estrangeiro nem da sua amiga.

Aquela frase de Fred pegava Lysa em cheio. A sinceridade e a serenidade de Fred fazia com que seus olhos enchessem de lágrima. Talvez por concluir, a partir dali, que sua busca insaciável estivesse mais ligada ao sexo que à paixão propriamente dita. O strip em frente a webcam, as masturbações frequentes – tendo ora Adler, ora Gabriela no pensamento –, as noites com Adler, a entrega completa às seduções de Gabriela, os beijos nas boates... “Estou sempre pensando em sexo, essa é a verdade”, pensava Lysa.

- Bem, Fred, eu só espero que esse episódio fique apenas entre nós. Não queria que todo o escritório ficasse sabendo... daquilo.

- Não se preocupe com isso, Lysa. Morreu aqui.

- Posso confiar em você?

- Sempre pôde, Lysa. Sempre pôde.

Os dois se abraçaram, mas, pela primeira vez, se abraçaram com ternura mútua. Enquanto o abraçava, Lysa concluía no quão forte e real era aquele abraço; livre de qualquer maldade, de qualquer intenção que os levassem para a cama horas mais tarde. Lysa sentia um abraço diferente de todos os que já havia recebido, inclusive o de Adler, no aeroporto.

- Fred, eu posso te fazer uma pergunta? – dizia Lysa após o abraço.

- Sim, claro.

- Ainda sente algo por mim?

- Olha, Lysa, eu preciso confessar que, embora não seja contra, aquilo que vi hoje de manhã no seu apartamento me veio como um baita banho de água fria, entende? Ainda é cedo para mentir e dizer que não sinto nada. Ainda sinto, mas quero esquecer, de verdade.

- Eu... entendo. Aliás, eu acho que você e a Tatiana...

- A Tatiana é uma fofa. Quem sabe?

- Torço por vocês.

- Obrigado, Lysa.

Lysa voltava à sua mesa se sentindo um pouco mais leve, mas sentindo também que deixara com Fred um pedaço de si. Parte da confusão havia sido “resolvida”, mas ainda faltava o lado mais complicado de tudo: o que fazer em relação a Adler e Gabriela.

* * *
À noite, Lysa chegava em seu apartamento e encontrava Adler a preparar alguma coisa para o jantar. Por um lado se sentia feliz, por ter, a cada dia, provas da honestidade do alemão, mas sentia uma ponta de tristeza ao concluir, após um beijo, que aquele “fogo internacional” havia diminuído. Talvez por haver entre os dois a mentira, a traição homossexual – ainda mais dura de se confessar –, enfim, por estar sendo desleal àquilo que tantas vezes chamou de amor.

- Está triste, Lysa? – perguntava Adler.

- Um pouco...

- Com o quê?

- Ah, Adler, não sei. Mas me responda uma coisa?

- Diga.

- Sente a mesma coisa que sentia por mim quando chegou ao Brasil?

- Ora, mas não se passou nem uma semana! Claro que sinto! Você não?

- Eu acho que não, Adler. Eu preciso ser sincera com você. Eu... Eu acho que, na verdade, era a distância que me mantinha acesa, entende?

- Mas ontem à noite mesmo você estava, como posso dizer?, morrendo de tesão, Lysa! O que realmente houve?

- Estou confusa, Adler. Muito confusa. Eu... – Lysa respirava fundo – Eu me envolvi com Gabriela, hoje de manhã.

- Como?

- Transamos! Pronto, falei! Gabriela e eu transamos esta manhã. Ela veio aqui, me seduziu, eu não aguentei, caí na dela e...

- Meu Deus...

- E esse meu “não aguentar” é que me deixou tão confusa, Adler! Não quero te enganar, ao mesmo tempo não sei se gosto o suficiente de ti e... Enfim, estou pirando!

A confissão de Lysa fazia até com que Adler deixasse o feijão queimar. O rapaz, embora envolvido até o pescoço com suas pesquisas no Brasil, se via quase que sem motivos para permanecer naquele apartamento. “Essa menina não é normal”, pensava Adler.

- OK, Lysa. Você não me deve explicação alguma. É a sua casa, a sua vida, o estranho aqui sou eu.

- Mas, meu amor, me entenda...

- Só não me chame de amor, por favor, Lysa. Só me dê até amanhã, OK? Eu vou achar um lugar para ficar e está tudo bem.

- Não precisa sair daqui.

- Sim, preciso.

Adler já havia feito alguns contatos no Rio de Janeiro e, após alguns telefonemas, segundo ele mesmo, se hospedaria, a partir do dia seguinte, na casa de um músico que conheceu naquela manhã de entrevistas, na Lapa.

No dia seguinte, antes mesmo do acordar de Lysa, Adler saía de casa levando consigo suas roupas e outros pertences. Sobre o criado mudo de Lysa, deixava um bilhete:

Lysa,

Obrigado por tudo. Cuide-se.

Beijos.

Adler.

Lysa, morrendo de dor de cabeça, acordava, lia o bilhete e, apesar de certa tristeza, sentia um pouco de alívio. “Espero que ele fique bem”, pensava.

Mas restava a última parte de toda aquela confusão: Gabriela.

* * *
Durante todo o dia, Lysa tratou de se “enfiar” nos afazeres do escritório; queria esquecer toda aquela história. Tatiana insistia em puxar assunto sobre Fred com Lysa, mas era, educadamente, cortada por um “depois, Tati, por favor”. Nunca Lysa rendera tanto num expediente. Conseguiu não pensar em sexo, em Gabriela, em Adler ou em Fred.

À noite, morta de cansaço, preferiu não ir à faculdade. Parou num bar e pediu um refrigerante.

Durante os goles, notava que, naquele momento de relaxamento mental, pensava em Gabriela. Os beijos, as carícias e o semblante de Gabriela – naquele misto de sensualidade e deboche – não saíam da cabeça de Lysa.

Até que Lysa sente a presença de alguém a se sentar em sua mesa. Era Gabriela.

- Refrigerante, Lysa? – dizia Gabriela a sorrir.

- Gabriela, sua louca! Quer me matar de susto?

- Estava pensando em mim, não estava?

- Como sabe? – deixa escapar Lysa – Quer dizer, claro que não!

- Ah! Estava! Também só penso em ti, Lysa.

- Ah, Gabriela – dizia Lysa a acariciar o rosto da amiga –, o que eu faço contigo? Diga! O que eu faço?

- Leve-me para sua cama – dizia Gabriela a morder os lábios.

Um beijo lésbico tomou a atenção de todos num raio de metros, de tão intenso. As duas saíram correndo, tomaram um táxi e sumiram. Lysa, no meio daquela empolgação toda, nem notava que, ao atravessar a rua de mãos dadas à Gabriela, esbarrara em um outro casal que:

- Aquela ali não é a Lysa, de mãos dadas com outra menina? – dizia Tatiana.

- Sim, Tatiana, é a Lysa mesmo. Onde vamos jantar? – dizia Fred.

[Fim]