quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

SONHOS & SONHOS

Trabalhar em uma loja especializada em gravatas nunca fora o meu sonho – e acho que o de ninguém ali –, mas até que tinha sua vantagem: na época de Natal, enquanto todos os outros lojistas do shopping dobravam seus expedientes com apenas um sanduíche na barriga, nós da Gravataria Di Paula podíamos tirar uma (longa) hora de almoço sem nos preocupar – o movimento era fraquíssimo.

Ganhávamos pouco, logicamente, mas eu, pelo menos, não ligava muito para isso; era o suficiente para pagar o curso de desenho e me vestir – eu ainda morava com meus pais, o que facilitava. Éramos um bando de acomodados, essa é a verdade. Mas a nossa paz teve seus dias contados quando o dono da loja, o Sr. Aurélio Di Paula, faleceu, deixando tudo nas mãos de seu filho Laurêncio Di Paula.

– A moleza acabou, rapazes! – disse-nos Laurêncio no dia em que assumiu a loja – Meu pai estava acomodado a vender apenas gravatas, o que o encheu de dívidas! A partir de dezembro vamos vender roupa social também! E nesse Natal vocês terão meta, OK? Serão comissionados, claro! Vocês progridem, eu progrido! Fechado?

– E o que pretende fazer para chamar a atenção dos clientes, Sr. Laurêncio? – eu perguntei.

– Já tenho tudo planejado, senhor... senhor...

– Emerson, senhor – eu o ajudava a recordar do meu nome.

– Isso! Já tenho tudo planejado, Sr. Emerson! A partir de segunda-feira esta loja será outra! E espero que vocês sejam outros também! Se é que me entendem...

Na segunda-feira seguinte, como Laurêncio prometera, lá estava a Gravataria Di Paula com araras repletas de roupas sociais. No estoque não cabia uma mosca, de tanta caixa empilhada. O astral na loja estava péssimo, pois o trabalho que nos esperava fungava os nossos cangotes.

Enquanto eu vestia o novo uniforme, em um dos novos provadores, pude ouvir a voz doce de uma mulher dizendo:

– Sim, Sr. Laurêncio, pode deixar comigo.

Saí do provador num misto de medo e curiosidade. E lá estava Ísis, a menina que de tão linda parecia estar em nossa loja por engano.

– Emerson! – chamou-me Laurêncio – Essa aqui é a Ísis. Ela ficará de Mamãe Noel aqui na loja, para chamar a atenção dos clientes durante o período de Natal, OK? Como um dos mais novos aqui, auxilie Ísis no que precisar.

Eu deveria questionar o fato do mais novo ser o responsável por tal tarefa, mas não tive coragem, porque logo pensei em todos os segundos que passaríamos juntos, sempre que Ísis tivesse algum tipo de dúvida.

– Claro, Sr. Laurêncio!

– Que bom. Então, gente – disse-nos Laurêncio –, ao trabalho!

Tratei de chegar até Ísis, mas sem antes repará-la. Um metro e setenta, eu acho. A pele alva exibia uma singela tatuagem: um anjo, na nuca. As medidas eram delicadas e estonteantemente pequenas, exceto o busto, que, talvez por fugir um pouco à regra daquele corpo, causava ainda mais atração aos olhos. Ainda tinha um rostinho de beleza rara, coberto de sardas, que deixava, diante de competição acirrada, sobressair um par de olhos, grandes e castanhos.

– Olá, Ísis. Eu sou o Emerson. Qualquer coisa, é só chamar!

– Obrigada, Emerson!

– Nada!

Após exatos três segundos:

– Emerson? – chamou-me Ísis.

– Oi.

– A que horas eu lancho?

– Bem... – eu pensava um pouco e – No mesmo horário que eu, pode ser?

– Claro!

* * *

Ideia brilhante a minha! Às três da tarde, tive a honra de descer para a praça de alimentação ao lado de Ísis vestida de Mamãe Noel – linda, diga-se de passagem. Sentamos em um café e pedimos um desses lanches baratos, para duas pessoas.

– Gostando do trabalho, Ísis? – eu perguntei.

– Odiando!

– Nossa! É tão ruim assim?

– Quer experimentar? – ela ria, mesmo diante da desgraça.

– Não, obrigado. Eu fico melhor de pinguim.

– Acha que está adiantando, pelo menos?

– Acho sim. Nunca tivemos tanto movimento. Infelizmente, mas...

– Preferia o marasmo, não é?

– Sinceramente, Ísis? Sim. Detesto trabalhar lá...

– E o que gostaria de fazer?

– Desenhar.

– Sabe desenhar?

– Estou aprendendo.

– Pode me desenhar?

– Aqui, agora?

Ísis pegava um guardanapo e uma caneta no balcão do café.

– Sim! Temos dez minutos, não é?

– Mas...

– Vamos! Comece!

Eu fiquei nervoso com a pressão de Ísis, mas pensei que seria ótimo se eu conseguisse desenhá-la naquelas condições. E consegui.

Após alguns minutos:

– Pronto! O que acha?

Ísis pegou o desenho e, boquiaberta, o observou. Até que:

– Cara! Você é demais! O que está fazendo vendendo gravatas?

– Roupas sociais, na verdade...

– Que seja! Está perdendo tempo! Eu pediria as contas agora e correria atrás do meu sonho!

– Não posso...

– Por que não, Emerson?

– Não larguei esse emprego até agora, porque meu pai sempre me disse para eu aguentar firme na Di Paula, que o que é meu estava por vir. E acho que estou começando a entender isso.

– Então acha que vai desenhar gravatas para a Di Paula, ao invés de vendê-las?

– Não é mais sobre desenho que estou falando. É sobre você! – eu disse.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

INTERNO

Ela nunca fez meu tipo. Não mesmo. Diria até que Carina é o oposto daquilo que sempre busquei em uma mulher, pelo menos no que diz respeito à aparência. Mas basta ela dizer um “oi”. Pronto. A coisa muda de figura.

Eu conheci Carina em uma festa de fim de ano, na casa de um amigo. Não era bem uma festa, confesso, e sim uma reunião de músicos frustrados, como eu. A gente juntava alguns engradados de cerveja, os cobria com tábuas de trinta centímetros e fazíamos daquilo o “nosso palco”. Era divertido, para não dizer cômico.

Algumas pessoas levavam seus convidados, e a Carina era uma das convidadas do Nelson.

– Olá, Nelson. Espero que toque suas músicas antes de beber! – eu dizia.

– Júlio – dizia-me ele –, você sabe que minhas músicas sem álcool não têm a mínima graça!

– Por isso mesmo, Nelson! Eu quero que as minhas sobressaiam!

– Júlio, você é um fanfarrão! Mas como gosto de você mesmo assim, vou te apresentar uma pessoa muito especial! Essa aqui é a Carina!

Aquela menina reluzente de tão branca e de rosto quase sem expressão me estendia sua mão como que quisesse apertar a minha em um cumprimento “masculino”. Porém, mesmo sem me interessar pelo que via, tomei, com classe, aqueles dedos delicados de Carina e os beijei. Ela sorriu de forma singela e tímida. Na certa não esperava ação tão cordial de um sujeito cujas calças apresentavam rasgos sobre o joelho.

– Carina, não caia na conversa desse cretino, OK? – dizia Nelson em tom de brincadeira – Eu vou ali pegar umas cervejas.

– Ah, não, ele vai beber, Carina! – eu brincava.

E ela sorria. Dessa vez um pouco menos tímida. Tirava da direção dos olhos uma mecha de fios negros, longos, quase ondulados, e sussurrava:

– Engraçado...

– Engraçado? Eu? – eu perguntava.

– É.

– Você ainda não viu o Nelson no palco, Carina...

Nelson não voltou com as cervejas que prometera, e foi bem melhor assim. Carina e eu pudemos conversar e... Meu Deus... Cada palavra dita por aquela menina me provava o quão apaixonante ela era. Minhas frases eram imensas, gagas e cheias de ramificações a assuntos que nada tinham a ver com o momento. Enquanto isso, Carina era a síntese perfeita; ela soltava apenas as palavras necessárias, ora para o meu entendimento, ora para o desenvolvimento de uma paixão que já me transbordava pelos ouvidos.

– Você não vai tocar? – ela me perguntava.

– Sim. Estou escalado para subir ao palco depois do Nelson.

– Palco... – ela dizia a sorrir.

– Não zombe do nosso palco, Carina.

– Não, imagina! Eu acho tão lindo isso que vocês fazem.

– Acha mesmo?

– Sim. De verdade.

Aquela frase foi de fato a cereja do bolo, porque enquanto as meninas mais lindas da rua nos olhavam como se fôssemos assaltar suas casas e estuprar suas irmãs mais novas, Carina achava linda a nossa tarde natalina de rock n’ roll.

– É a primeira menina que escuto elogiar – eu dizia.

– Que isso... – dizia Carina levando o copo de cerveja aos lábios com as duas mãos, como se alimentasse de uma caneca de Nescau.

– JÚLIO, VENHA ATÉ AQUI! – gritava Nelson de cima do palco, bêbado feito uma porca – LARGUE O PESCOÇO DA CARINA, DESEJE UM FELIZ NATAL AOS PRESENTES E FAÇA O SEU MELHOR, SEU GUITARRISTA DE MERDA!

– Meu Deus, acho que ele bebeu demais, Júlio – dizia-me Carina.

– Desculpe-me pelo Nelson, Carina. E pelo “pescoço” também. Ele está bêbado...

– Que isso... A parte do pescoço eu gostei – dizia Carina sem muito bem me encarar, dividindo seu olhar entre o meu tórax e o chão.

Ela tinha um jeito todo seu de ser tímida e descolada, “sem sal” e encantadora, tudo ao mesmo tempo. Isso me deixava confuso e cada vez mais a fim de alcançar seus lábios.

– E que parte você não gostou?

– Da parte que você vai subir ao palco e me deixar aqui sem ter com quem conversar.

O que dizer a uma menina como a Carina numa hora dessas? Não disse nada. Só a beijei.

– LARGA A MENINA, SEU CRETINO HAHAHAHAHAHA! – gritava ainda mais o Nelson.

* * *

No dia 24, antes de ir para o Espírito Santo passar o Natal com a família do meu pai, marcamos de nos ver. Eu, atrasado, cheguei ao local com a sorte de vê-la de longe, ainda a me esperar. Ela vestia flores, da sapatilha ao singelo arco. Carina olhava para o céu e sorria, mesmo sob as negras nuvens, que anunciavam a tempestade de verão que estava por vir.

– Desculpe a demora, Carina. Eu...

Carina não me deixou completar. Acolheu-me em seus braços e me beijou o pescoço com doçura. Mesmo com a boca desocupada não emiti palavra. Quieto eu fiquei, até que cessasse toda aquela sensação estranha em meu corpo.

– Feliz Natal, Júlio – ela me disse a sorrir.

– Foi o beijo mais prazeroso que já recebi, Carina.

– Mas foi só um beijinho, no pescoço. Foi tão bom assim?

– Sim, porque, no meu pescoço, foi o único!

Mesmo não fazendo meu tipo, mesmo sem eu saber ao certo que de fato me atrai, sigo com Carina. Acho que quando alguém te acende uma paixão, das duas uma: ou esta pessoa seguiu todas as regras e padrões de conquista – agindo como uma “pessoa de série” –, ou foi simplesmente ela mesma. E é na segunda opção que a paixão tem mais chances de se candidatar ao posto de amor.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

VINHO BRANCO

Na janela, a chuva que teimava em cair. Na agulha, um velho disco do John Coltrane. Não era bem tristeza o que me tomava, mas um vazio. Imenso. O término do namoro era duro para mim, mas pior fora a infeliz descoberta de não ser o único a beijar os pequenos lábios de Sofia. Uma traição que não se apresentava asquerosa unicamente por sua existência, mas também por sua forma – era sob os carinhos de um primo meu que Sofia se contorcia com mais vontade.

O calor esperado naquele mês de dezembro só daria as caras em meados de janeiro, o que fez com que o clima de Natal me abraçasse com um pouco mais de romantismo. Enquanto o jazz de Coltrane soava por cada metro quadrado de minha sala, eu degustava um delicioso Romeo y Julieta, meu charuto predileto. Na taça de vinho, que repousava sobre a mesa de centro, sequer toquei, já que tudo naquela bebida me lembrava Sofia – havia duas taças e uma garrafa vazia no local onde a flagrara com meu primo.

Pensei em ligar para alguns amigos, precisava espairecer a mente, me divertir... Mas o telefone tocou alto, logo após alcançá-lo.

– Alô... – eu disse.

– George? Sou eu, Letícia, tudo bem?

– Oi, Letícia... Nem tanto, mas e você?

– Péssima... Mas diga, o que houve?

Pensei em me abrir. Afinal, Letícia era uma das minhas melhores amigas. Mas confesso que morri de vergonha. Imagine! Traído pela namorada e pelo primo de uma só vez! Eu não merecia aquilo, muito menos me expor à Letícia dessa forma. Resolvi ser breve, mas sem mentir:

– Sofia e eu... Nós terminamos, Letícia.

– Nossa, George, que chato isso...

– É...

– Bem, então deixe. Não vou te atrapalhar...

– Não, que isso?, está tudo bem, Letícia. Diga-me. Por que está “péssima”?

– Ai, George, você não vai acreditar... O Rodrigo terminou comigo...

– Putz...

O Rodrigo era um canalha. A verdade é que Letícia não fazia ideia do mal que acabara de se livrar.

– Pois é, amigo, perdi meu chão. Estou desesperada!

– Ora, Letícia, também não é para tanto... Isso passa, não acha?

– Não, George. Acho que vou morrer sofrendo pelo Rodrigo, essa é a verdade.

– Besteira...

Nós éramos muito amigos, mas nossos antigos relacionamentos haviam nos deixado um pouco longe um do outro. Abandonados, estávamos, então, em solidão igual. Ela precisava desabafar com seu amigo aqui, assim como eu precisava muito do ombro dela.

Como era de se esperar, nos ligamos bastante nos dias seguintes. Ela e eu, já de férias na faculdade, tínhamos algum tempo livre para isso, geralmente à noite, após o expediente de ambos – ela estagiava em uma empresa de papéis, eu em um jornal de bairro. Morávamos um pouco longe um do outro, por isso quase não nos víamos pessoalmente. Perdíamos horas ao telefone ou no messenger.

Até que um dia:

– Onde passará o Natal, George?

– Em casa, ora. Onde mais?

– Por que não passa aqui em casa? Seus pais ficariam chateados?

– Meus pais dormem o Natal inteiro.

– Jura? Meu Deus... Então, George, mais um motivo para você vir para cá!

– Mas e os seus familiares? Eu me sentiria meio out por aí.

– George, o que menos quero é encarar minha família. Vão me encher de perguntas sobre o Rodrigo, e...

– Entendo...

– Então, você vem?

– Ah, Letícia...

– Por favor, Georginhoooo!!!

– OK, eu vou, eu vou!

* * *

No dia 24, lá estava eu, cumprimentando os poucos familiares presentes na casa de Letícia. Cheguei a ver alguns deles cochichando sobre eu ser um possível substituto do Rodrigo, mas não liguei, nem comentei com Letícia. O que menos precisávamos naquela noite era de problemas. Tudo o que queria era beber algumas taças de vinho – sim, eu já havia superado um pouco a lembrança que tal bebida me trazia de Sofia – e jogar conversa fora com uma amiga que eu não abraçava havia meses.

Fomos para uma varanda. Conversamos muito e rimos mais ainda. Se no início da noite Rodrigo e Sofia dominavam os nossos assuntos, minutos depois pareciam nunca terem existido em nossas vidas. Devo confessar que assistir Letícia sorrindo daquela forma me fazia um bem enorme.

Ela estava tão linda naquela noite. Trajava calça jeans, camiseta de malha e um leve casaquinho por cima. Um rosto sem maquiagem deixava claro que Letícia não esperava ninguém especial para ceia de Natal. Mas quem disse que precisava desse tipo de vaidade? Uma boca e um narizinho de traços finos somados àqueles longos, ondulados e negros fios ajudavam a eleger Letícia a menina mais linda em um raio de quilômetros.

Já se passavam das duas da madrugada, quando seus pais e alguns tios se preparavam para dormir. Um amontoado de colchões – que tomava quase toda a sala – já se encontrava devidamente forrado para os já desanimados hóspedes de Letícia.

– Preciso ir, Letícia.

– Já, George?

– Já são duas e vinte...

– Não acha que bebeu demais para sair dirigindo por aí? Por que não fica por aqui?

Letícia, um pouco mais baixa que eu, olhava para mim fazendo, cômica e propositalmente, aquela carinha de criança triste, como se quisesse me pedir algo, mas lhe faltasse coragem suficiente.

– Imagine, Letícia! Não, não... Nem há espaço para mim nessa cama aí – eu dizia apontando para os colchões na sala.

– Não o convidei para dormir ali com eles, George...

Sem que combinássemos nada, sem que ao menos ela me revelasse onde eu dormiria de fato, fomos aproximando nossos rostos, lentamente. A cada centímetro mais próximo de seus lábios, mais nervoso eu ficava. Ora, era da minha amiga Letícia aquela respiração ofegante que arrebatava meu pescoço.

Até que, enfim, nos beijamos. Como se estivesse preso há anos, um beijo longo e com suave gosto de vinho branco.

É incrível como um beijo é capaz de mudar totalmente o seu ponto de vista sobre a pessoa beijada, logo após, ao abrir dos olhos. Não era mais a minha amiga Letícia quem estava ali à minha frente, mas a mulher que me fez relacionar o vinho às mais belas e prazerosas recordações.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

FÉRIAS, MAS SEM DEIXAR DE ESCREVER...

Olá, caro leitor. O MUITOS EM UM está de férias por tempo indeterminado. É que preciso me dedicar à minha monografia, aí já viu, né? Mas fique à vontade para ler (ou reler) contos do meu arquivo.

Obrigado pela leitura de sempre!

ALEJANDRA Y EL VERANO Final

Enquanto Lysa, muda, chorava à cama, Gabriela, embora destruída por dentro, se mantinha decidida; arrumava suas coisas de volta nas malas. Não seria fácil voltar, com menos de um dia, para a casa de sua mãe.

Lysa estava arrasada, arrependida, mas também não encontrava palavras para um possível diálogo com Gabriela, pelo menos não naquele momento de sangue quente. Concluía que esperar seria o melhor a fazer. Assistir à Gabriela arrumando as malas causava sofrimento enorme em Lysa, ainda mais pelo motivo daquilo tudo.

De malas prontas:

- Obrigado, Lysa – dizia Gabriela –, por fazer eu sair da minha casa, causar uma verdadeira guerra com a minha mãe... Para isso! Serei eternamente grata! Vagabunda!

- ...

- Não vai dizer nada, não é?

- Dizer, Gabriela? Mas dizer o quê? Eu não sei o que dizer...

- Eu imaginava...

- Eu... Eu te amo, Gabriela. Muito.

- Sem essa, Lysa. Fui.

Gabriela pegava suas malas e saía. Com o rosto ainda inchado, a menina ganhava a rua rumo à casa de sua mãe – o inferno que a aguardava.

Lysa não saía da cama nem para trancar a porta deixada aberta por Gabriela. Estava confusa, chorosa; pensava muito nos pais dela e no que eles pensariam se soubessem um terço de toda aquela história.

Soa o telefone. Achando ser Gabriela, Lysa corre para atender. Mas por coincidência, ou sentido aguçado, era sua mãe.

- Alô!

- É a sua mãe, filha.

- Oi, mamãe...

- O que houve? Estava chorando?

- Eu? Não, não...

- Não minta para mim, Lysa! Eu liguei porque meu coração está apertado... Sinto essas coisas. O que foi que houve?

Lysa se assustava com a capacidade de sua mãe, mas como contar aquela história?

- Não houve nada...

- Pode me contar, Lysa! Ou você prefere que amanhã eu vá aí com seu pai?

Lysa pensava e via que não seria tão ruim assim contá-la, desde que omitisse partes da história.

- OK... Vou contar. Meu namorado... (...) Sim, mamãe, eu tenho um namorado. (...) Não, mamãe, não é o Fred (...). Sim, mas não é o Fred. A senhora vai deixar eu concluir? OK. Então... Meu namorado, ele terminou comigo. Gosto muito dele e estou sofrendo muito. É isso.

- Mas sabe por que está sofrendo, Lysa?

- Por quê?

- Porque não me escuta e não dá uma chance ao Fred! Por isso!

- Ah, mamãe, esqueça o Fred, vai. Ele está até namorando, se a senhora quer saber!

- Viu? Bobeou, dançou, Lysa. O Fred é que é o homem certo para você...

- Mamãe. A senhora quis saber o que havia de errado comigo e eu contei. É só isso?

- Bem... Promete que vai ficar bem?

- Prometo, mamãe. Isso vai passar, OK?

As duas se despediram e desligaram.

Lysa resolvia ligar para Fred, não para seguir os conselhos de sua mãe, claro, mas porque lembrava que tinha no rapaz um grande amigo. “Talvez ele possa me ajudar”, pensava.

- Alô, Fred?

- Lysa? Aconteceu alguma coisa? Está com uma voz...

- Mais ou menos, Fred. Onde você está?

- Acabei de deixar a Tatiana em casa e estou indo para a minha. Por quê?

- Poderia passar aqui? Estava precisando conversar.

Fred pensava por exatos dez segundos e:

- OK. Chego em dois minutos.

Fred chegava ao apartamento de Lysa e, logo de cara, um abraço apertado se fazia presente, na sala. Lysa ainda trajava o vestido que escolhera para a festa. O abraço fez com que Fred colasse seu peito no decote ousado de Lysa. A verdade é que ver a amiga vestida daquele jeito – diferente de como se veste normalmente, para o trabalho –, fazia o rapaz ficar “aflito”.

- O que houve, Lysa? Em que posso ajudar?

- Fiz a maior burrada da minha vida, Fred.

- Conte-me.

Lysa contava todo o ocorrido, para o espanto total de Fred. Lysa não se via muito à vontade em contar os detalhes, mas para quê? Fred possuía imaginação suficiente para imaginar cada movimento das mãos de Alejandra sobre o corpo de Lysa – isso o excitava.

-... e foi isso. O que eu faço, Fred? – concluía Lysa.

- Olha, Lysa, você quer saber mesmo o que eu acho disso tudo?

- Claro, diga-me.

- Acho que vir para a capital não foi uma boa escolha para você.

- Como não, Fred?

- Não estou falando profissionalmente. Refiro-me ao lado pessoal de sua vida. Acha mesmo que se estivesse com seus pais você teria essa atração por meninas?

- Acho que sim. Gabriela diz que essa coisa nasce com a gente, só é preciso que alguém venha e a faça aflorar.

- Bem, não acredito muito nisso, mas... Você já pensou em ir passar uns tempos com seus pais? Um mês, quem sabe? Eu ouvir dizer que você tirará férias daqui a uns dois meses. Que tal?

- Será?

- Ficar longe de tudo isso a fará repensar melhor nas coisas, além de dar tempo do sangue de Gabriela esfriar, se é o que deseja.

- É. Acho que você tem razão, Fred. Eu amo a Gabriela, e...

- Que desperdício... – interrompia-a Fred.

- O que disse?

- Não, nada...

- Disse desperdício, Fred! Eu ouvi!

- Porra, Lysa, já se olhou no espelho? Você é a menina mais linda que eu já vi na minha vida! – se solta Fred – Você sabe que sempre fui louco por você! E você acha que foi fácil te flagrar na cama com outra menina? [vide Lysa23 – Parte 10] A Tatiana é um amor de pessoa, a gente se dá bem, mas... É por você que meu coração dispara, Lysa. É por você que... É por você que meu pau está duro agora!

Fred se levantava e saía, enquanto Lysa ficava sem ação, porém, pensativa... e excitada, como jamais antes diante do rapaz.

* * *
O tempo passou – exatas três semanas em que Lysa sequer vira Gabriela, diga-se de passagem. Tempo de muito sofrimento e saudades por parte de Lysa, que procurou se isolar, evitando contatos até mesmo com Bruna e Joyce. Até que um novo encontro, entre Lysa e Gabriela, sem querer, ocorreu.

- Lysa... – dizia Gabriela ao encontrá-la num ponto de ônibus.

- Gabriela...

- Como vai?

- Tudo indo. E você?

- Indo também....

- Achei que nunca mais nos falaríamos, Gabriela.

- Eu também achei, Lysa. Mas não resisti quando te vi. A verdade é que estou te observando faz um tempinho, dez minutos, talvez – dizia Gabriela soltando um sorriso no canto da boca.

- Está me espionando, é? – dizia Lysa a sorrir.

As duas se abraçavam. E forte. Era o tempo, enfim, cuidando de tudo.

- Ainda está chateada comigo, Gabriela? – perguntava Lysa, pois precisava saber.

- Não mais, Lysa. Já passou...

- E... Você...

- E eu o quê? Pode perguntar, Lysa.

- Você encontrou outra pessoa? Tem outra pessoa em meu lugar?

- Sim, Lysa, eu... Eu encontrei sim.

Lysa sentia uma pontada no peito.

- Aliás – continuava Gabriela – estou esperando ela aqui.

- Ah... Bem, então é melhor o meu ônibus chegar logo, porque...

- Não precisa tanto, Lysa. Você a conhece.

- Co-conheço?

- Sim... Olhe ela vindo ali.

Lysa se espanta ao concluir que Gabriela estava agora com nada mais nada menos que Joyce.

- Mas... A Joyce, Gabriela?

- Sim, Lysa, a Joyce. Por que o espanto?

- Mas... E a Bruna?

- A Bruna está com a vagabunda da Alejandra, Lysa! – dizia sorrindo Joyce, que ouvira a pergunta de Lysa ainda distante.

O ônibus de Lysa chegava e, sem sequer se despedir, ela, atônita, o tomava. Sentava num dos bancos da frente e ainda pôde ver um beijo apaixonado entre Joyce e Gabriela. Chorou ao mesmo tempo em que decidiu seguir os conselhos de Fred; iria, sim, passar um tempo no interior do estado com seus pais.

Fora um verão confuso demais para Lysa, que, na mente, misturava lembranças fortes de Gabriela, Fred e, por incrível que pareça, Alejandra – ainda podia sentir a presença da chica em seu corpo, essa era a verdade.

Distante dali, em seu apartamento, Alejandra levava Bruna à loucura com um sexo oral – sua especialidade – matinal.

- Goze, Brunita, goze! Quiero su miel en mi boca, safada! – dizia Alejandra com o rosto entre as pernas de sua presa.

[Fim]

Bem, pessoal, é isso. Muito obrigado a todos os que, durante esses quase três anos de MUITOS EM UM, vêm aqui e me prestigiam com a leitura desses humildes contos. Conforme já anunciara no Facebook e no Twitter, o MUITOS EM UM entra, a partir de hoje, de férias por tempo indeterminado, por conta da dedicação à minha monografia de graduação em Publicidade e Propaganda, que apresentarei no final deste ano.

Muito obrigado pela leitura de sempre e, quando quiserem, sintam-se à vontade para lerem (ou relerem) os arquivos do MUITOS EM UM.

Até mais!