segunda-feira, 7 de julho de 2008

ELAS V

No dia seguinte, quinta-feira, jurava-me não colocar a cabeça do lado de fora de casa. Eu queria um tempo para pensar em tudo o que estava acontecendo e nos rumos que minha vida, até então sem fortes emoções, estava tomando desde domingo. Desde que avistei Larissa. Tudo o que eu precisava era de alguém mais experiente que eu para me dar umas tapas na cara e colocar-me no prumo novamente. Serginho. Pensava logo no Serginho por conhecer a sorte que aquele baterista tinha com as mulheres. Então o telefonava.
- Serginho?
- Opa.
- É o Charles. Tudo bem?
- Sim, claro. Como vai?
- Bem também, mas precisava conversar com você.
- É sobre a pequena?
Como ele sabia?
- Como sabe?
- Experiência, só isso.
Eu sabia que ele era o cara certo.
- Pois bem, podemos tomar uma cerveja no Jazz Bar essa noite?
- Claro. Eu estarei acompanhando o guitarrista Alexandre Guedes, lembra dele?
- Claro que lembro. Então mato dois coelhos. Faz tempo que não o vejo.
- Passa lá então, no intervalo e depois do show nós conversamos. OK?
- OK!

O Alexandre Guedes na verdade era uma mala sem alça. Eu não gostava muito daquele cara, mas não queria estragar o clima do telefonema com Serginho. Eu esperava com muita fé que Alexandre não ficasse muito no nosso pé. Não queria falar de Larissa com ele por perto. Não tinha intimidade o bastante com ele como com Serginho. Mas uma coisa não se podia negar, o cara era uma fera nas seis cordas. Valia vê-lo tocar, ainda mais com o Serginho na bateria. Seria uma noite perfeita para negar a presença de Larissa. Estaria rodeado de músicos que eu gosto e com uma ótima chance de entender tudo aquilo que se passava entre Valéria, Larissa e eu.

Durante o dia, eu ficava a escutar alguns diálogos entre Valéria e Larissa através de nossas paredes geminadas. Pelo visto os ânimos tinham se acalmado e a paz parecia reinar naquela casa de mulheres loucas. Mas o que Larissa realmente tinha falado à Valéria eu ainda não sabia. Eu esperava que fosse exatamente aquilo que havíamos combinado, de que não nos veríamos mais, a fim de que ela permanecesse por aqui até o fim de julho. Mas eu só ouvia conversas que nada tinham a ver com o caso.
- Tia.
- Oi.
- Está passando aquele filme que você disse que iria ver.
- Qual era mesmo?
- Não sei. Acho que é alguma coisa com “chocolate”, sei lá.
- É! “A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE”! EU AMO ESSE FILME! JÁ ESTOU INDO.
Ora, nada que me fizesse realmente entender o desfeche da confusão do dia anterior. Queria saber o que ambas definiram a respeito do que sentem por mim. Mas era notável que estava tudo bem entre elas. Isso que importava.

Era quase noite quando eu escutava Valéria dizendo que ia à rua comprar cigarros e pão. Escutava a porta se abrir e depois fechar com força. Então contava 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7... Até que minha porta era batida. Eu abria. Era Larissa. Não precisei contar nem 10 segundos.
- Oi Larissa.
- Oi Charles.
- Seja breve, não podemos deixar que Valéria nos veja.
- É que conversei com minha tia. Ela parece ter entendido que não mais o verei.
- Então você fica até o fim de julho?
- Fico. E fico com você, meu amor.
- Que bom!
- Vamos nos ver mais tarde?
- Hoje não, Larissa. Marquei de assistir uns amigos tocarem no Jazz Bar e...
- Posso ir com você?
- É melhor não. A discussão entre nós três ainda é recente. Não podemos dar bandeira para sua tia, lembra?
- Mas é que não me agüento de vontade de te beijar e...
Então eu a puxava para dentro de minha sala e saciava nossas vontades de entrarmos um no corpo do outro pela boca. Batia a porta com os pés segurando Larissa por aquela cintura, mas ela me jogava sobre o sofá. Ela me olhava como se estivesse pronta para ficar a noite inteira ali comigo.
- Larissa! Sua tia foi ali na padaria, não?
- Sim.
- Ela já deve estar voltando.
- Me beija.
Então a beijava mais e mais. Seu agasalho e sua camiseta já se encontravam ao chão. Sem parar de me beijar, posicionava as mãos sobre o elástico de um mini-short querendo abaixá-lo. Eu saía das garras de seus lábios, abria os olhos e avistava uma Larissa alvíssima e nua da cintura para cima.
- Menina! Se vista, por favor.
- Não quer?
- Claro que quero, mas...
- Então me beija.
E começava novamente já com o mini-short na altura dos joelhos e deixando à mostra uma calcinha verde clara comportada que Larissa parecia não querer mostrar.
- Essas calcinhas de velha.
Ela falava rindo enquanto a tirava do corpo.
- PARE!
- Por que, Charles?
- Agora não! Se Valéria chegar e não lhe encontrar virá bater aqui em casa na certa. E se nos pega nesse estado?
- Tudo bem.
Larissa se vestia e eu aos poucos me arrependia do que acabava de sugerir. Na minha vida, algumas mulheres me decepcionaram ao tirarem suas roupas, mas Larissa não. Desnuda, Larissa era capaz de fazer qualquer homem perder a cabeça e desprezar qualquer tipo de conseqüência. Até a morte eu seria capaz de enfrentar para descobrir cada canto daquele corpo, mas não fui capaz de enfrentar sequer a possibilidade de Valéria aparecer. Por que?
- Não fique triste, por favor, é para o nosso próprio bem, você sabe.
- Eu sei Charles. Deixe-me ir. O vejo amanhã?
- Sim. Vê.
- Espero que me procure.
- Procurarei. Prometo.
Larissa saía da minha casa mais uma vez me deixando em frangalhos com meus próprios conceitos sobre as mulheres, principalmente sobre Valéria e Larissa.

Às 21h eu fechava a minha casa com um cigarro na boca e uma carteira quase vazia no bolso rumo ao Jazz Bar. Chegando lá, Serginho se encontrava na porta já sob efeito de algumas doses de whisky e conversando em voz alta com alguns de nossos amigos músicos. Eu já começava a pensar que não seria mais uma boa idéia falar sobre as mulheres com Serginho naquele estado.
- CHEGOU O HOMEM DO TROMPETE! DÁ UM ABRAÇO AQUI!
- Serginho! Você não iria tocar essa noite com o Alexandre?
- E vou!
- Nesse estado?
- É quando toco melhor, meu amigo. Aqui não tem o maestro Walter!
- De fato.
- Quer conversar sobre a pequena?
- Não sei se você está em condições.
- É quando converso melhor.
- Falado. Vamos até aquela mesa. O Alexandre não está aí, está?
- Não. Não chegou ainda. Aquela “estrelinha”.
- Ótimo.

Contava tudo, exatamente tudo que havia ocorrido do domingo até então ao Serginho. Sentia que em certas partes da história Serginho ensaiava um cochilo, mas em outras parecia um lobo selvagem a imaginar o corpo de Larissa.
- E então? O que você acha que devo fazer?
- Sinceramente?
- Claro!
- Coma as duas. Essa Valéria e a pequena!
Eu sabia que não seria uma boa idéia aquele papo com Serginho.
- Fala sério?
- Eu comeria. Um sexo animal a três. O que acha?
- Você está bêbado, Serginho.
- Lhe diria a mesma coisa se estivesse sob efeito da água mais pura de Petrópolis.
- OK! Estou indo.
- Não vai ver o show?
- Não! Tenho duas mulheres para comer essa noite. Esqueceu? Vai para o inferno!
Eu saía do Jazz Bar sem nenhuma solução para toda aquela situação.

Eu havia deixado de me encontrar com uma Larissa coberta de desejos para tentar esclarecer a minha mente com o bêbado do Serginho. Encontrar-me com Larissa naquela noite significaria mergulhar no mais profundo abismo das minhas incertezas, mas conversar com Serginho me fez permanecer na borda do mesmo abismo sem retroceder sequer um passo.

sábado, 5 de julho de 2008

ELAS IV

Na quarta-feira eu acordava com batidas fortes à minha porta. Eram contínuas e cada vez mais fortes. Eu nem havia me recuperado do que ouvira de Larissa na noite anterior, já que não era chamado de amor por uma mulher havia pelo menos uns 30 anos, nada pior para um trintão, e já me esmurravam a porta anunciando problemas.
- Já vai! Já vai!
Procurava meu par de chinelos e seguia até o impaciente.
- Pois não?
Eu abria a porta ainda com os olhos fechados por conta da luz da manhã. Eu só conseguia enxergar um quadril atraente vestido com uma calça familiar.
- Acorda Charles.
A voz denunciava logo antes de qualquer tentativa minha de adivinhar.
- Oi Valéria. Bom dia.
- Bom dia. Precisamos conversar.
- Mas a essa hora da manhã?
- Quanto mais cedo melhor.
- Tudo bem, entre.
- OK.
- Deixe-me escovar os dentes e jogar uma água no rosto, sim?
- Vai lá.
Eu seguia até o banheiro já imaginando o assunto de nossa conversa; Larissa. “No mínimo a garota deve ter contado à tia com aquela carinha de inocente que me chamou de amor ontem à noite. Estou ferrado”.

Valéria acendia um cigarro dos meus, como sempre, ligava minha TV, como sempre, e ficava passando de canal em canal, como sempre também. Nós já nos conhecíamos há anos. Com a gente não tinha cerimônia. Professora de língua portuguesa, Valéria sabia me corrigir em todos os meus erros da fala, porém, tinha péssimos hábitos de educação, pelo menos comigo.
- Pronto. Pode falar. O que lhe traz aqui à essa hora?
- Você já deve saber.
- Não. Não sei.
- Ora, Charles. Você acha que eu nasci ontem?
- Não. Eu nem estaria aqui para achar isso.
- Ridículo.
- Desembucha.
- É sobre a Larissa.
Eu sabia.
- O que tem ela?
- Sei que estás doido para se aproximar dela.
- Como sabe disso?
Eu tentava ganhar tempo enquanto acendia um cigarro.
- Acha que não noto a maneira como você a olha?
- Mas quando eu a olho? Nunca a vejo. Só à noite, quando vocês sentam na porta de casa, mas quando eu saio para fazer uma fumaçinha vocês entram, não?
- É sobre isso mesmo. Desde que a viu no domingo, tu passas a fumar um cigarrinho quanto estamos ali fora.
- Ora, Valéria, eu sempre fiz isso durante quase toda a minha vida.
- Está louco.
- Você é que nunca me reparou. Eu sempre saio por volta de umas 20h para fumar na porta de casa há mais ou menos 15 anos e a vejo sentada na sua, sendo que você sempre está acompanhada por um de seus amigos etc.
- Não me diga que nunca o reparei. Você mora do lado da minha casa, ora.
- Pois é. E não repara. Agora vem me dizer que passei a ter esse costume unicamente para notar a sua sobrinha? Faça-me o favor.
- É isso mesmo.
Valéria parecia querer que eu soltasse alguma coisa através da raiva. Ela queria me ver com raiva. Até então eu nem sabia se Valéria tinha conhecimento dos meus encontros com Larissa.
- E se fosse? Qual seria o problema? Sua sobrinha é uma graçinha e qual mal teria se eu resolvesse admirá-la?
- Não quero você perto da Larissa. Não com essas intenções.
Ela conseguia o que queria.
- E QUE OUTRAS INTENÇÕES EU TERIA COM A GOSTOSINHA DA SUA SOBRINHA?
- Eu sabia! Vou avisar a Vanda que Larissa voltará para Porto Alegre ainda essa semana!
- Mas, meu Deus! O que você pensa que eu sou? Um monstro, Valéria?
- NÃO!
- Então por que todo esse estardalhaço por causa de minha aproximação com Larissa? Você está maluca? Pirou?
- NÃO QUERO QUE ELA TENHA COM VOCÊ AQUILO QUE EU NÃO TIVE!
- Ah?
- É isso mesmo.
Naquela hora eu gelava.
- É isso mesmo, Charles, - dizia Valéria -, você acha que não sei que sempre foste caído por mim? Acha?
Eu ficava mudo. Preferia ouvir.
- Durante nossa adolescência você deu todos os sinais de que morria de amores por mim. Aquilo me balançava, porém, meus pais sempre diziam que você não era um rapaz que merecesse um coração de nenhuma de suas filhas. Meus pais sonhavam com casamentos milionários, como foi o de Vanda e César Augusto. Mas eu não tive a mesma sorte. Hoje, com 32 anos, estou longe de agradar meus pais.
- Quer dizer que nunca me deu chances por eu ser pobre?
- É.
Eu definitivamente não sabia nada sobre elas.
- Que ótimo. Nosso tempo acabou.
- Espere.
- Diga.
- Eu ainda balanço com você.
- Não me venha com essa, Valéria, por favor.
Eu a conduzia até a porta.
- É sério. Isso que demonstro na verdade é ciúme de Larissa. Nem sei por que lhe apresentei a ela no domingo.
- Apresentou porque tinha que apresentar. Agora vá.
- Não. Diga-me que não tentarás nada com Larissa. Diga.
- Não.
- Não o quê? Não tentarás?
- Não. Não atenderei o seu pedido.

- TIA!
Larissa adentrava à minha sala.
- Volte para cama, Larissa.
Respondia Valéria.
- VOCÊ PENSA QUE NÃO OUVI A CONVERSA DE VOCÊS?
Pronto. O circo começava a pegar fogo.
- Ouviu o quê, Larissa?
- COMO ASSIM O QUÊ, TIA? OUVI VOCÊ DIZENDO QUE TENS CIÚMES DE MIM COM CHARLES.
- Não, Larissa, eu...
- POIS FIQUE SABENDO QUE O AMO. SE VOCÊ NÃO SOUBE VALORIZAR O SENTIMENTO DE CHARLES QUANDO PODE, DEIXE-ME FAZÊ-LO.
- Como assim “o ama”?
- ISSO MESMO QUE VOCÊ OUVIU.
- Larissa, pare de gritar!
- NÃO. AGORA ESCUTE! EU E CHARLES ESTAMOS JUNTOS. ENTENDEU? JUNTOS!
- Mas... Escondidos de mim?
- Ora, Valéria, eu não sei o que dizer.
Eu interrompia.
- Não há nada a dizer, Charles. Larissa voltará para Porto Alegre amanhã mesmo. Deixe Vanda saber disso!
- NÃO VOLTO. NEM QUE EU FIQUE AQUI NA CASA DE CHARLES, MAS SÓ VOLTO PARA CASA NO FIM DE JULHO. SE VOLTAR!
- Charles. Faça alguma coisa. Olha no quê você transformou minha sobrinha.
- Eu?
Via-me diante de total confusão. Se eu já não entendia as mulheres, aquela cena era o ápice de meu desconhecimento. Ia então até Larissa.
- Valéria, vá para casa. Deixe-nos um minuto, por favor.
- Tudo bem.
Valéria saía pela porta com os olhos cheios de lágrimas.

- Larissa. Não precisava todo esse alvoroço.
- Como não, Charles? Ela dizendo que tem ciúmes de mim. Querendo atrapalhar um sentimento tão forte que eu nem sei direito ainda como lidar. Eu estou lhe amando, Charles. O fato de minha tia dizer que ainda “balança” por ti me deixou furiosa.
- Eu entendo.
- Me amas?
- Olha Larissa...
- Me amas?
Eu não sabia o que responder e ao mesmo tempo não queria negar uma pergunta daquela num momento daquele.
- Amo, Larissa. Amo.
- Então vamos para Porto Alegre.
- Mas...
- Mas o quê?
- Larissa, mal nos conhecemos. E além do mais, toda minha vida está aqui. Outra. O que Vanda diria? As coisas não são assim tão fáceis.
- O que você tem aqui? A orquestra do Clube dos Líderes? Você é a pessoa mais especial que eu já conheci, além de tocar trompete divinamente. Aposto que lá você teria o valor que merece.
- É cedo para falarmos nisso. Só me promete uma coisa.
- O que você quiser.
- Vá para a casa de sua tia e faça as pazes com ela.
- Mas...
- Por favor. Ela é o que nos separa, mas é também o que nos manterá junto até o fim de julho. Entende?
- Sim. Você está certo.
- Diga que não me verás mais. Manteremos nossos encontros. Eu prometo.
- Está bem.

Larissa batia fechava a porta e me deixava ainda mais confuso que minutos antes. Eu estava diante de duas loucas que de domingo para cá só me fizeram confundir mais minhas conclusões sobre o sexo feminino. Sendo mais direto, eu estava completamente enrolado num emaranhado de sentimentos e revelações que no final só me faziam querer os braços de Larissa ainda assim. Eu me enganava mais e mais.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

ELAS III

Na terça-feira, como todas as terças, eu me dirigia até o galpão do Clube dos Líderes para mais um ensaio da orquestra do maestro Walter. Chegava lá com o sono de sempre, mas também com a alegria de nunca. Larissa estava de fato mexendo comigo de uma forma que nenhuma outra mulher havia até então.
- Boa noite, Walter.
- Atrasado de novo, Charles.
- Boa noite, Walter?
- Boa noite, Charles, mas está atrasado de novo.
- Desculpe, Walter. É que...
- Não me interessam mais de suas desculpas. Sente-se aí. Estávamos TENTANDO ensaiar “But Not For Me” que, caso não se lembre, possui trinta e seis compassos de solo de trompete, segundo meu arranjo. Estou certo, Charles?
- Sim, você está certo, mas esteja certo também de que farei o melhor solo de trompete para “But Not For Me” que você já ouviu.
- Uau! Mandou ver.
Falava baixinho o Serginho da bateria.
- OK, Charles. Sente-se e acompanhe-nos.

Logo nas primeiras notas da música, a campainha do galpão é soada.
- Aaaaaaaaah!
Walter ficava furioso quando isso ocorria no meio de uma música.
- Serginho, vá ver quem é e, antes de qualquer coisa, dê uma bronca no surdo que não notou que há uma orquestra ensaiando.
Serginho era o músico que ficava mais próximo ao portão, por isso, sempre sobrava para ele. O baterista seguiu então até lá pronto para esbravejar, mas...
- Oi!
- Pois não?
Já respondia um Serginho molenga.
- O Charles está aí?
- Sim, mas estamos no meio de um ensaio e...
- Ótimo. Posso assistir? Sou amiga dele.
- Bem...
- Obrigada!
Era Larissa. De maneira angelical a menina aparece frente à orquestra dando um tchauzinho simpático unido a um sorriso que desbancou o maestro Walter na hora.
- Posso saber o que a jovem está fazendo aqui?
Perguntava Walter com uma delicadeza inédita.
- Sou amiga do Charles. Posso assistir o ensaio?
Walter olhava para mim e depois de volta para Larissa.
- Tudo bem. Desde que fique bem quietinha. OK?
- OK!

Eu não sabia o que fazer. Pedia licença a Walter e ia falar com Larissa.
- Você tem 30 segundos, Charles.
- OK.
Pegava Larissa pelo braço.
- O que está fazendo aqui? Como sabia que...
- Você me disse que ensaiava nas terças à noite, então lhe segui. Se eu lhe pedisse para me trazer não iria aceitar.
- OK. Agora sente ali e fique quietinha. O maestro é um chato.
- Está bem.

- Pronto Walter.
- OK. Vamos recomeçar.
Então recomeçávamos “But Not For Me”. Aquela música linda do Gershwin George estava assassinada ali naquele arranjo cafona do Walter. A terceira idade merecia algo melhor que aquilo e era bom que Serginho segurasse bem o ritmo, pois eu estava determinado a “quebrar tudo” no meu solo. Os trinta e seis compassos em branco na partitura escrito “solo de trompete” me animavam a chegar até lá. Com Larissa e seu olhar encantado eu me sentia ainda mais confiante com o improviso. Nos compassos que antecediam o solo, podia ouvir Serginho atacar a caixa mais forte no intuito de chamar minha atenção. Eu olhei.
- Quebra tudo que eu seguro. A menina é uma gracinha.
Dizia Serginho parecendo já saber da minha intenção de exibir-me para Larissa. Serginho era um ótimo observador. Sacava tudo.
- Pode deixar.
Então começava meu solo. Serginho ainda olhava para Lúcio do contrabaixo e com um olhar raivoso parecia dizer “segura firme”. E era preciso mesmo, já que eu adiantava, atrasava e às vezes fritava a melodia tema com as notas que me vinham à mente. Feito a Mônica Lisboa lá do Jazz Bar (vide conto “JAZZ” de 25/06/08 nesse blog). Eu dava uma olhadinha para Larissa ali sentada e ela parecia ainda mais maravilhada com minhas “piruetas”.
- Manda, manda.
Dizia Serginho para que eu oitavasse a nota final do solo. E eu oitavava.
- Mandou!
Serginho ria ao tocar.

Findada a música, Walter levava a mão à cabeça e soprava forte. Um silêncio tomava conta do galpão. A orquestra estava à espera do aval do maestro.
- Charles.
- Sim, maestro.
- Tens sorte de tocar aqui.
- Por que diz isso?
- Tive que segurar esse bando com minha batuta porque seu solo o conduzia ao erro. Somos uma orquestra que toca em bailes da terceira idade do Clube dos Líderes, e não um trio do Jazz Bar. A orquestra não se resume a você, ao Serginho e ao Lúcio.
- Maestro, a orquestra segurou muito bem, na minha opinião e...
- COMO ESPERA QUE ALGUMA DAQUELAS VELHAS GORDAS DANCE COM VOCÊ E O SERGINHO FAZENDO CAMBALHOTAS COM O MEU ARRANJO?
- Desculpe, Walter.
- PRESTEM MAIS ATENÇÃO NOS MEUS ARRANJOS. EU NÃO PERCO MINHAS NOITES ESCREVENDO ESSAS PARTITURAS PARA VOCÊS VIREM AQUI E TOCAREM O QUE QUISEREM!
Larissa estava horrorizada.
- Tudo bem, Walter.
Eu concordava com o coração queimando em ódio.

No fim do ensaio, Serginho chegava até a mim.
- Que velho filho de uma puta.
- Deixa. Ele é o dono dessa merda mesmo. É proibido ousar por aqui.
- É mesmo. Mas, mudando de assunto, quem é a pequena?
- Uma amiga.
- Amiga? Sei.
- Sim. Uma amiga. Agora me deixe levá-la daqui.
- OK. Olha...
- Oi.
- Ela se amarrou no solo. Tenho certeza.
Eu ria.

Chegava até Larissa com um ar de derrotado. Tinha certeza de que ela havia admirado minha participação no ensaio, porém, aquela bronca de Walter me deixava cabisbaixo e sem coragem para nada.
- Oi Larissa. Vamos embora daqui.
- Sim, mas vamos porque temos coisas melhores a fazer do que ficar por aqui, só por isso. Você foi brilhante. Está a muitos anos luz à frente dessa orquestra.
- Pode até ser. Mas não gostei de levar uma bronca do Walter na sua frente.
- Charles, a bronca eu nem lembro mais. Lembro somente de quando você se levantou da cadeira e executou o melhor solo de trompete para “But Not For Me” que eu já ouvi.
- Nem o Chet Baker?
- Charles Baker!
Eu ria.

Saíamos dali e fomos direto ao Jazz Bar. Queria mostrar a ela a voz da Mônica Lisboa. Ela se apresentava todas as sextas-feiras com um guitarrista que eu admirava muito também, o Alfredo Ramos. Como se tratava de uma terça-feira, ficamos apenas ouvindo as gravações dos shows dela que rolavam no som ambiente do bar durante os outros dias da semana.
- É. Ela tem uma voz linda, Charles. E “quebra tudo” também.
- Sim. Isso sim. Se eu fosse aqueles coroas largava os bailes do Clube dos Líderes e vinha para cá.
- O seu maestro ia ficar louco.
- E eu sem dinheiro. Melhor deixar como está.
- Isso. Deixa como está, meu amor.
- O que disse?
- Meu amor.
Eu permanecia calado. Após repetir o que disse, Larissa me beijava o rosto. Eu me enganava novamente.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

ELAS II

Leia a primeira parte de ELAS aqui: http://muitosemum.blogspot.com/2008/07/elas.html

Fazia frio naquela segunda-feira. O mês de junho estava no fim e já demonstrava mais ou menos como seria o meu mês de julho, pois com a aparição de Larissa na minha vida, ou seria de relembranças ardentes de um inexistente relacionamento com sua tia Valéria, ou seria repleto de problemas por conta da proibição imposta pela própria tia de nos "conhecermos melhor".

Na noite passada, Larissa foi para casa já altas horas da madrugada. Valéria tinha um sono pesado e isso facilitou o restinho do meu domingo. Pude vasculhar cada cantinho dos lábios de Larissa ainda na minha porta.
- Vamos entrar. Está frio aqui fora.
- Não. Minha tia não pode nem saber que lhe beijei. Eu sei bem o que pretende com minha entrada à sua casa. Não quero dar razão à idéia de minha tia.
- E que idéia ela faz de mim?
- Ah, não sabe?
- Imagino.
- Esquece. Vem, me beija.
- OK.

Foi bacana. Tínhamos marcado de nos encontrar na segunda-feira no centro da cidade. Ela inventaria alguma desculpa para Valéria e eu estaria esperando-a no ponto final do 345. Eu pretendia levá-la a algum local onde pudéssemos conversar. Queria que ela soubesse o quanto e o por quê que sua fisionomia fazia sentir-me tão bem, mas corria o risco dela achar que na verdade era à Valéria que eu depositava o meu desejo. E na verdade era. Não tinha sido uma boa idéia. Conversaríamos sobre coisas banais. É mais prático e menos perigoso. Não podia deixar escapar uma princesinha daquela por conta de um passado que nem existiu.

Eu estava vendo TV quando da minha sala ouvia Larissa.
- Tia. Vou tomar um banho e vou dar um pulo lá no centro.
- Vai fazer o quê lá?
Questionava uma já desconfiada Valéria.
- Dar uma volta. Um shopping. Sei lá.
- Mas nesse frio? Que animação.
- Adoro frio.
- Trouxe casaco?
- Trouxe.
Eu já estava de banho tomado. Arrumei-me e parti para o local combinado.

Eram 17:15h e o céu exibia um fim de tarde bastante agradável. Apesar do vento frio de cortar, meu corpo permanecia quente por causa da vontade louca de sentir o lado agora não tão obscuro de Larissa. E pensar que aquela menina de sorriso singelo que apareceu na sala de Valéria no domingo estaria no dia seguinte prestes a me dizer coisas que nem a tia nem a mãe dela poderiam sequer imaginar. Pelo menos naquele momento eu desejava muito que Larissa me dissesse coisas contrastantes com aquele seu olhar inocente.

Ela chegava. Vestia um moletom azul marinho, calça jeans clara bem justa e com os cabelos presos num rabo de cavalo que a deixava menos parecida com a tia, melhor, a deixava ainda mais bonita. Fiquei anestesiado por uns segundos analisando cada centímetro de sua delicadeza aparente naquele caminhar à minha direção. Para retirar uma possível poeira de seu bumbum redondo e comprimido pelo jeans, Larissa se retorcia inclinando a ponta do pé direito e dobrando o pescoço para trás, dava duas tapas no alvo de meus olhares e já vinha rindo e dizendo: "Que ônibus sujo, meu Deus". Eu ria também.
- Demorei?
Dava um pulinho na minha frente e perguntava.
- Imagina. Ouvi você falando com sua tia e me mandei logo depois.
- Então demorei.
- Digamos que eu tenha me adiantado.
- OK. Para onde vamos? Não conheço nada da sua cidade, Charles.
- Eu conheço um lugar onde podemos conversar e...
- Conversar? Vejo que tia Valéria erra sobre você.
- Então está atrás de um cara grosso com gosto de fumo no beijo?
- Não é bem assim. Acho que o homem pode ser sensível, mas sem deixar largar o modo rústico de ser.
Eu me enganava sobre elas sempre.
- Que bom. Então vamos conversar. É um barzinho muito aconchegante logo ali.
- OK. Vamos.

- Uma cerveja, por favor.
Eu pedia.
- Uma água. Sem gás.
Ela pedia.
- O que traz uma princesa sulista a essa cidade imunda do sudeste?
- Minha mãe está passando por momentos muito difíceis com meu pai e então sugeriu que eu passasse as férias de inverno aqui com minha tia. Ela prefere estar sozinha com ele para resolverem seus problemas conjugais.
- Lembro da sua mãe. Vanda.
- Pois é.
- E quando vai embora?
- No fim de julho.
- Teremos então um mês para nos conhecermos melhor?
- Sim. Se minha tia deixar.
- Ela não precisa saber.
- Não é assim. Queria que ela aceitasse caso ficássemos juntos durante esse período.
Enganava-me novamente.
- Acho difícil Valéria aceitar um relacionamento entre nós. Para ela eu não passo de um sujeito sem futuro.
- Me faça descordar. Mostre-me que é mais do que isso.
- Preciso? Creio que não seja bem um futuro que você espera de mim.
- Erra na crença.
Enganava-me novamente com as mulheres.

Naquele início de noite eu contava toda a minha vida àquela guria e podia ver, assustado, os olhos dela brilharem. Na certa deve ter achado super atraente um cara perder os pais aos 17 anos viver a vida perambulando em bicos musicais que pouco lhe rendiam. Eu não gostava de falar sobre minha carreira musical fracassada com ninguém. Os bailes da terceira idade nos quais eu tocava trompete sob o comando da batuta do Maestro Walter Lins não me deixavam muito à vontade. Na verdade eu me envergonhava e muito com eles. Eu só vestia aquele terno azul anil já nos clubes. Só apareciam vestidos os músicos que possuíam automóvel. Eu não seria louco de andar feito um palhaço no 702. Seria o fim dos finalmente.

- Tocaria para eu ver?
- Trompete?
- O que mais você toca?
- Deixa para lá.
- Tocaria para mim?
- Sim, mas o trompete é um instrumento melódico, ou seja, sem alguém acompanhando ficaria meio chato.
- Eu posso acompanhá-lo.
- Você é musicista?
- Sim. Não sou profissional, mas estudei onze anos de piano.
- Nossa. Mas onde arrumaríamos o piano?
- Depois a gente pensa.
Ela falava cada frase como num filme em câmera lenta. O rosto perfeito ficava apoiado sobre as duas mãos na bochecha e os cotovelos sobre a mesa.
- Vamos dar uma volta?
Eu emendava para espantar o silêncio que a gigantesca admiração de Larissa proporcionava cada vez que ela fazia aquela cara de quem estava imaginando uma vida ao meu lado.
- Vamos.
Durante todo o papo, a única coisa que ela me disse sobre sua vida é que gostava de cantar ainda com os cabelos molhados do banho frente ao espelho. "É a coisa mais interessante sobre mim". Eu ria.

De braços dados caminhamos pelo centro sem se incomodar com a correria daqueles que não tinham a "sorte" de trabalhar apenas em alguns finais de semana, como eu. Bem no meio do calçadão, Larissa me pára.
- Me beija?
- Aqui?
Referia-me à rua.
- Não. Aqui!
Ela colocava minha mão em seus lábios referindo-se com um sorriso à boca. E que boca. Eu a beijava sem o fumo e a vodka do dia anterior e ela parecia mesmo assim gostar ainda mais.

Pela primeira vez eu conhecia uma mulher que me aceitava do jeito que era. Eu sentia que não precisava me esconder atrás da orquestra do Walter quando ela estivesse no baile a fim de me ver tocar. Sentia que a minha barba por fazer não a incomodava e, o melhor, sabia que cada história de derrota que eu contasse a ela me traria em troca um sorriso encantador, com apenas o mês de julho de validade, mas encantador.
- Tem certeza de que isso lhe renderá algo para guardar para sua vida?
Eu perguntava.
- Que profundo.
- É sério. Está sendo importante para você ou apenas uma história de mais umas férias escolares de inverno?
Eu insistia, pois queria saber até que ponto eu também poderia me entregar aos encantos de Larissa.
- Quer mesmo saber? Está sendo o inverno mais importante de toda a história das minhas estações. Está bom para você?

***
Foto da capa: Fabiana Romeo

terça-feira, 1 de julho de 2008

ELAS

- Um cigarro, por favor.
- Tome.
- Obrigado.
Acendia o fumo e seguia até o ponto de ônibus. Fazia muito frio naquela manhã de domingo e eu nem sabia para onde ir. Essas festas juninas costumam acabar tarde e de quebra acabam com a minha memória também. É que me debruço na barraca de bebidas quentes durante todo o evento. Fico ali me entupindo de álcool enquanto as meninas passam sem me despertar nenhum tipo de euforia. Essas meninas de hoje são atiradas demais e ao mesmo tempo transbordam inexperiência. Pela manhã me perco entre as outras barracas e sigo sem noção direção.

Eu achava que estava no lado certo da rua esperando a condução, que por conta do horário demorava demais a passar por ali, e realmente estava, mas só fui concluir isso muito mais tarde quando avistei minha casa pelo vidro embaçado do ônibus.
- Vou descer aí, motorista!
- Vai, desce.
- Pára o carro primeiro.
- Já está parado seu imbecil.
- OK.
Descia.

Trocando as pernas eu conseguia chegar até a porta e com muito sacrifício acertava o buraco da fechadura, porém, com a chave errada. Quanto mais eu forçava o giro do tambor mais a chave emperrava.
- Raios. Abre!
Até que a chave partia-se em duas na minha mão.
- Ora. Merda!
Sentei-me na soleira da porta. Deitei a cabeça pesada e latejante sobre os braços cruzados que já descansavam sobre os joelhos e dormi.

Logo o sol saia. O meu casaco de náilon já esquentava a pele exalando um cheiro de carne queimada. Já se passavam das 14h e eu ainda estava ali, sob o efeito das dezenas de doses da noite anterior e não mais na posição inicial. Estava deitado de barriga para cima correndo o risco de morrer feito o Bon Scott.

Acordei e me dei conta da merda que havia feito. Uma parte da chave estava no chão e a outra presa na fechadura. Como entraria em casa? Um chaveiro! Desses que atuam vinte e quatro horas. Mas onde arrumar um? Não tinha o telefone de nenhum deles à mão. Até que me chega Valéria, a vizinha do lado. Nossas casas tinham suas portas bem na beira da rua principal. Eu gostava de morar ali. O barulho dos automóveis estranhamente me ajudava a dormir.
- Oi Charles.
- Oi Valéria.
- A noite foi boa, não?
- Foi. Foi sim. A manhã é que não está sendo nada agradável.
- Mas já estamos na parte da tarde, Charles. São duas e quarenta.
- É. Eu sei. Então. O dia não está sendo agradável.
Ela era professora de português e suas correções me deixavam irritado.
- Mas o que houve?
- Minha chave. Quebrou. Enfiei a chave errada e de tanto forçar acabei quebrando-a. Tem o telefone de um chaveiro?
- Tenho em casa. Vou buscar.
- OK.
Já me sentia um pouco mais aliviado. A dor de cabeça continuava forte. Por sorte eu ainda tinha a chave correta nas mãos. A chave que eu havia quebrado era do cadeado da porta dos fundos, que dava para um quintal que pouquíssimas vezes na vida eu tive coragem de limpar. A chave não faria muita falta.

- Aqui, Charles. O telefone. Ele mora aqui por perto. Se você ligar agora, logo ele chega.
- Obrigado. Mas, será que eu poderia usar o seu telefone, Valéria? Estou sem fichas. Desculpe te incomodar novamente.
- Tudo bem, Charles. Entre, por favor.
Entrando na casa de Valéria notava um belíssimo arranjo de flores recém recebidas num jarro sobre a mesa da sala.
- Com licença.
- Tem toda. O telefone está ali na estante.
- OK.
Valéria agachava seus 32 anos frente à estante e ligava a TV. Ficava passando de canal em canal. Domingo pela manhã nunca havia nada de interessante pra assistir. Eu acho que ela queria mesmo era controlar o tempo que eu usaria o telefone dela.
- Alô. Chaveiro?
- Sim.
- Tenho um problema.
- Todos temos.
- Um problema com a chave da minha porta.
- Deve ser por isso que me liga, não?
- OK. É aqui na Rua Dr. Alcindo Ferreira, no número...
- 79
Lembrava-me Valéria ainda agachada trocando os canais.
- Isso, 79. Alcindo Ferreira, 79.
- E o que houve?
- Tem uma chave quebrada dentro da fechadura. Não é a chave certa. Eu enfiei uma chave errada e...
- Sei. Veio da festa junina ali do bairro bem encharcado de cana, não?
- Você é sempre engraçadinho assim?
- Estou indo para aí.
- Certo.

Desligava o telefone.
- Tudo certo?
Perguntava, Valéria.
- Sim. Ele está a caminho. Muito obrigado.
- Não há de quê.
- Esperarei por ele lá fora.
- Sente-se aí.
- Mas eu achei que você estava de saída.
- Estava. Mas desisti.
- Ah.
“TIA!”.
Um chamado vinha de um dos quartos de Valéria.
- Oi meu amor.
Valéria respondia.
- Já volto, Charles.
Pelo chamado eu começava a imaginar. Alguma sobrinha de Valéria estava em casa. Da sala eu ouvia Valéria: “Tem gente na sala, Larissa, ponha uma roupa”.

- Pronto. É minha sobrinha. Dormiu aqui em casa essa noite.
- Eu sei.
- Como sabe?
- Digo, eu imaginei. Pelo “tia”.
- Sim. Você deve se lembrar dela. É filha de Vanda. Larissa.
- Bem, eu ouvi você falando o nome dela, mas não me lembrei. Aquela pequenininha?
- Pequenininha? LARISSA, DEPOIS DE ESCOVAR OS DENTES VEM ATÉ AQUI! Vai levar um susto.
- Por que?
Larissa aparecia na entrada da sala. Uma jovem de uns 19 anos. Uma verdadeira réplica da juventude de Valéria. Passei muito tempo da minha vida apaixonado por Valéria, mas ela nunca correspondeu. Depois passou. Mas agora eu estava diante daquele passado novamente. Ali. Vivo.
- Você lembra do Charles, Larissa?
- Não.
Ela respondia sorrindo. Era impressionante. O mesmo sorriso de dez anos atrás da Valéria.
- Não deve se lembrar mesmo. Eu devia ter meus 14 anos quando a vi. Era um pedacinho de gente. Tudo bom com você?
- Tudo.
Ela respondia e pedia licença para tomar seu café na cozinha.
- Caramba! Mas é a sua cara, quando mais nova!
- É. Está uma gata, não?
- Está.
Respondia meio sem jeito.

Eu me sentia anestesiado por estar diante da imagem viva daquilo que tornou meus sonos tão difíceis durante aqueles anos. Eu, agora com 28 anos, estava novamente atraído por uma nova Valéria. Por Larissa. Do sofá onde eu estava conseguia avistar pela brecha do corredor as pernas de Larissa sob a mesa da cozinha. Eram as mesmas pernas. Passava também a ver os cotovelos, algumas pontas de seu cabelo e um pedaço do pão em suas mãos.

- Charles?
- Oi.
- O que está olhando? Parece hipnotizado.
- Pareço?
- Sim parece.
- Devo estar mesmo.
- Olhe aqui. Fique longe da minha sobrinha.
- Como?
- Isso mesmo. Mantenha distância. Nem eu nem Vanda queremos um cara como você na vida de Larissa. É o que ela menos precisa. Um cara como você?
- O que eu tenho de errado?
- Olhe para você e verá.
- Pensei que fossemos amigos, Valéria.
- E somos, mas amigos, amigos, sobrinhas à parte.
- Entendi. É porque vivo correndo atrás do aluguel. Não querem um ferrado na cola dela.
- Exatamente.
“CHAVEIRO”.
- O chaveiro chegou. Deixe-me ir. Obrigado pelo telefone.
- Não há de quê.

O chaveiro resolveu o meu problema em poucos minutos. Paguei a ele e finalmente adentrei-me. Arranquei os sapatos e me estiquei no sofá. Fiquei por ali até umas cinco da tarde. Tive meus motivos. Podia ouvir as vozes de Valéria e Larissa durante todo o momento que permaneci ali deitado. Nossas casas eram geminadas e o movimento de carros no domingo era bem menor.
- Tia. Esse Charles é o quê seu?
- Nada. Um vizinho.
- Bonitão ele, não?
- Não.
- Eu achei. Loiro. Olhos azuis. Só a barba mal feita, mas isso tem jeito.
- Não.
- Quantos anos ele tem, tia?
- 30, ou seja, velho para você.
- Não sei onde. 30 para 19 é uma diferença agradável. Não acha?
- LARISSA! Deixa sua mãe saber disso.
- OK.

No mesmo dia, à noite. Uma batida à minha porta. Acendi um cigarro e abri. Eu já esperava por isso. Era Larissa.
- Tudo bom?
Ela me aparecia com um sorriso ainda mais simpático que o de Valéria nos velhos tempos.
- Sim. E você?
- Também.
- O que houve?
- Nada. Achei que podíamos conversar.
- Sua tia não quer me aproxime de você.
- Ela te disse isso?
- Sim. Com todas as palavras. Então eu acho melhor que volte para a casa dela.
- Ela já está dormindo. Podíamos ficar por aqui mesmo.
- Um beijo. Depois vamos cada um para sua casa.
Apagava o cigarro e ia direto ao assunto.
- Como sabe que...
Interrompia-a com um beijo descuidado ainda com gosto de fumo e vodka. Ela correspondia com as unhas cravando em minha nuca.
- Me desculpe. Devia ter escovado meus dentes. Eu...
- Continue. Era exatamente isso que eu procurava em ti.
Ordenava aquela visão de uma Valéria rejuvenescida. Era a caretice da minha época com o fogo das meninas da festa do sábado. Eu me enganava sobre elas.

***
Foto da capa: Fabiana Romeo.