terça-feira, 1 de julho de 2008

ELAS

- Um cigarro, por favor.
- Tome.
- Obrigado.
Acendia o fumo e seguia até o ponto de ônibus. Fazia muito frio naquela manhã de domingo e eu nem sabia para onde ir. Essas festas juninas costumam acabar tarde e de quebra acabam com a minha memória também. É que me debruço na barraca de bebidas quentes durante todo o evento. Fico ali me entupindo de álcool enquanto as meninas passam sem me despertar nenhum tipo de euforia. Essas meninas de hoje são atiradas demais e ao mesmo tempo transbordam inexperiência. Pela manhã me perco entre as outras barracas e sigo sem noção direção.

Eu achava que estava no lado certo da rua esperando a condução, que por conta do horário demorava demais a passar por ali, e realmente estava, mas só fui concluir isso muito mais tarde quando avistei minha casa pelo vidro embaçado do ônibus.
- Vou descer aí, motorista!
- Vai, desce.
- Pára o carro primeiro.
- Já está parado seu imbecil.
- OK.
Descia.

Trocando as pernas eu conseguia chegar até a porta e com muito sacrifício acertava o buraco da fechadura, porém, com a chave errada. Quanto mais eu forçava o giro do tambor mais a chave emperrava.
- Raios. Abre!
Até que a chave partia-se em duas na minha mão.
- Ora. Merda!
Sentei-me na soleira da porta. Deitei a cabeça pesada e latejante sobre os braços cruzados que já descansavam sobre os joelhos e dormi.

Logo o sol saia. O meu casaco de náilon já esquentava a pele exalando um cheiro de carne queimada. Já se passavam das 14h e eu ainda estava ali, sob o efeito das dezenas de doses da noite anterior e não mais na posição inicial. Estava deitado de barriga para cima correndo o risco de morrer feito o Bon Scott.

Acordei e me dei conta da merda que havia feito. Uma parte da chave estava no chão e a outra presa na fechadura. Como entraria em casa? Um chaveiro! Desses que atuam vinte e quatro horas. Mas onde arrumar um? Não tinha o telefone de nenhum deles à mão. Até que me chega Valéria, a vizinha do lado. Nossas casas tinham suas portas bem na beira da rua principal. Eu gostava de morar ali. O barulho dos automóveis estranhamente me ajudava a dormir.
- Oi Charles.
- Oi Valéria.
- A noite foi boa, não?
- Foi. Foi sim. A manhã é que não está sendo nada agradável.
- Mas já estamos na parte da tarde, Charles. São duas e quarenta.
- É. Eu sei. Então. O dia não está sendo agradável.
Ela era professora de português e suas correções me deixavam irritado.
- Mas o que houve?
- Minha chave. Quebrou. Enfiei a chave errada e de tanto forçar acabei quebrando-a. Tem o telefone de um chaveiro?
- Tenho em casa. Vou buscar.
- OK.
Já me sentia um pouco mais aliviado. A dor de cabeça continuava forte. Por sorte eu ainda tinha a chave correta nas mãos. A chave que eu havia quebrado era do cadeado da porta dos fundos, que dava para um quintal que pouquíssimas vezes na vida eu tive coragem de limpar. A chave não faria muita falta.

- Aqui, Charles. O telefone. Ele mora aqui por perto. Se você ligar agora, logo ele chega.
- Obrigado. Mas, será que eu poderia usar o seu telefone, Valéria? Estou sem fichas. Desculpe te incomodar novamente.
- Tudo bem, Charles. Entre, por favor.
Entrando na casa de Valéria notava um belíssimo arranjo de flores recém recebidas num jarro sobre a mesa da sala.
- Com licença.
- Tem toda. O telefone está ali na estante.
- OK.
Valéria agachava seus 32 anos frente à estante e ligava a TV. Ficava passando de canal em canal. Domingo pela manhã nunca havia nada de interessante pra assistir. Eu acho que ela queria mesmo era controlar o tempo que eu usaria o telefone dela.
- Alô. Chaveiro?
- Sim.
- Tenho um problema.
- Todos temos.
- Um problema com a chave da minha porta.
- Deve ser por isso que me liga, não?
- OK. É aqui na Rua Dr. Alcindo Ferreira, no número...
- 79
Lembrava-me Valéria ainda agachada trocando os canais.
- Isso, 79. Alcindo Ferreira, 79.
- E o que houve?
- Tem uma chave quebrada dentro da fechadura. Não é a chave certa. Eu enfiei uma chave errada e...
- Sei. Veio da festa junina ali do bairro bem encharcado de cana, não?
- Você é sempre engraçadinho assim?
- Estou indo para aí.
- Certo.

Desligava o telefone.
- Tudo certo?
Perguntava, Valéria.
- Sim. Ele está a caminho. Muito obrigado.
- Não há de quê.
- Esperarei por ele lá fora.
- Sente-se aí.
- Mas eu achei que você estava de saída.
- Estava. Mas desisti.
- Ah.
“TIA!”.
Um chamado vinha de um dos quartos de Valéria.
- Oi meu amor.
Valéria respondia.
- Já volto, Charles.
Pelo chamado eu começava a imaginar. Alguma sobrinha de Valéria estava em casa. Da sala eu ouvia Valéria: “Tem gente na sala, Larissa, ponha uma roupa”.

- Pronto. É minha sobrinha. Dormiu aqui em casa essa noite.
- Eu sei.
- Como sabe?
- Digo, eu imaginei. Pelo “tia”.
- Sim. Você deve se lembrar dela. É filha de Vanda. Larissa.
- Bem, eu ouvi você falando o nome dela, mas não me lembrei. Aquela pequenininha?
- Pequenininha? LARISSA, DEPOIS DE ESCOVAR OS DENTES VEM ATÉ AQUI! Vai levar um susto.
- Por que?
Larissa aparecia na entrada da sala. Uma jovem de uns 19 anos. Uma verdadeira réplica da juventude de Valéria. Passei muito tempo da minha vida apaixonado por Valéria, mas ela nunca correspondeu. Depois passou. Mas agora eu estava diante daquele passado novamente. Ali. Vivo.
- Você lembra do Charles, Larissa?
- Não.
Ela respondia sorrindo. Era impressionante. O mesmo sorriso de dez anos atrás da Valéria.
- Não deve se lembrar mesmo. Eu devia ter meus 14 anos quando a vi. Era um pedacinho de gente. Tudo bom com você?
- Tudo.
Ela respondia e pedia licença para tomar seu café na cozinha.
- Caramba! Mas é a sua cara, quando mais nova!
- É. Está uma gata, não?
- Está.
Respondia meio sem jeito.

Eu me sentia anestesiado por estar diante da imagem viva daquilo que tornou meus sonos tão difíceis durante aqueles anos. Eu, agora com 28 anos, estava novamente atraído por uma nova Valéria. Por Larissa. Do sofá onde eu estava conseguia avistar pela brecha do corredor as pernas de Larissa sob a mesa da cozinha. Eram as mesmas pernas. Passava também a ver os cotovelos, algumas pontas de seu cabelo e um pedaço do pão em suas mãos.

- Charles?
- Oi.
- O que está olhando? Parece hipnotizado.
- Pareço?
- Sim parece.
- Devo estar mesmo.
- Olhe aqui. Fique longe da minha sobrinha.
- Como?
- Isso mesmo. Mantenha distância. Nem eu nem Vanda queremos um cara como você na vida de Larissa. É o que ela menos precisa. Um cara como você?
- O que eu tenho de errado?
- Olhe para você e verá.
- Pensei que fossemos amigos, Valéria.
- E somos, mas amigos, amigos, sobrinhas à parte.
- Entendi. É porque vivo correndo atrás do aluguel. Não querem um ferrado na cola dela.
- Exatamente.
“CHAVEIRO”.
- O chaveiro chegou. Deixe-me ir. Obrigado pelo telefone.
- Não há de quê.

O chaveiro resolveu o meu problema em poucos minutos. Paguei a ele e finalmente adentrei-me. Arranquei os sapatos e me estiquei no sofá. Fiquei por ali até umas cinco da tarde. Tive meus motivos. Podia ouvir as vozes de Valéria e Larissa durante todo o momento que permaneci ali deitado. Nossas casas eram geminadas e o movimento de carros no domingo era bem menor.
- Tia. Esse Charles é o quê seu?
- Nada. Um vizinho.
- Bonitão ele, não?
- Não.
- Eu achei. Loiro. Olhos azuis. Só a barba mal feita, mas isso tem jeito.
- Não.
- Quantos anos ele tem, tia?
- 30, ou seja, velho para você.
- Não sei onde. 30 para 19 é uma diferença agradável. Não acha?
- LARISSA! Deixa sua mãe saber disso.
- OK.

No mesmo dia, à noite. Uma batida à minha porta. Acendi um cigarro e abri. Eu já esperava por isso. Era Larissa.
- Tudo bom?
Ela me aparecia com um sorriso ainda mais simpático que o de Valéria nos velhos tempos.
- Sim. E você?
- Também.
- O que houve?
- Nada. Achei que podíamos conversar.
- Sua tia não quer me aproxime de você.
- Ela te disse isso?
- Sim. Com todas as palavras. Então eu acho melhor que volte para a casa dela.
- Ela já está dormindo. Podíamos ficar por aqui mesmo.
- Um beijo. Depois vamos cada um para sua casa.
Apagava o cigarro e ia direto ao assunto.
- Como sabe que...
Interrompia-a com um beijo descuidado ainda com gosto de fumo e vodka. Ela correspondia com as unhas cravando em minha nuca.
- Me desculpe. Devia ter escovado meus dentes. Eu...
- Continue. Era exatamente isso que eu procurava em ti.
Ordenava aquela visão de uma Valéria rejuvenescida. Era a caretice da minha época com o fogo das meninas da festa do sábado. Eu me enganava sobre elas.

***
Foto da capa: Fabiana Romeo.

3 comentários:

Fabiana disse...

quem é essa aí mesmo, hein?!
muito legal, né?! hahaha.


falando sério:
essas meninas, viu...

ainda foi arrumar um fumante e pé de cana... rs.


parabéns pelo conto.
bjo.

Aline Ramos disse...

poow, o cara também era gatão!
e barbas, adoro barbas. ;)

aah, essas meninas, viu [2]
adorei o conto. mesmo, mesmo.


beijos

Janu disse...

...sempre nos enganamos!
cést la vie.

gostei moço!
bju

o.b.s.:tbm adoro barbas!
não são problema nenhuma...concedem o charme na medida certa. Um certo limiar entre o maduro e o descolado!rsrs
chega!
bj