segunda-feira, 15 de setembro de 2008

LUANA

O barulho da chuva fina que caía sobre a janela fazia o seu convite a um readormecer de Luana. O rádio relógio marcava 8h de um domingo frio e justamente por isso mais prazeroso que qualquer outro domingo daquela jovem. Com o quarto ainda escuro por conta das imensas nuvens negras, Luana abria um par de olhos que parecia clarear o cômodo. Espreguiçava-se num ritmo vagaroso combinando assim com a sua vontade de se despertar daquele episódio aconchegante.

Os talheres para o café da manhã já começavam a soar da cozinha, no andar de baixo. Marcos, o pai da menina, acordava ainda mais cedo no domingo, pois era o dia em que aproveitava a sua folga para se “dedicar” à Luana. Domingo era o dia de saber como a filha seguia nos estudos etc. Durante toda a semana, Luana via o pai somente bem à noite, o que a impedia muitas vezes de conversar sobre assuntos que exigissem um pouco mais da atenção dele.

Marcos era dono de uma pequena rede de supermercados. Patrícia, sua segunda esposa, madrasta de Luana, o ajudava a tocar os negócios. Podia se dizer até que Patrícia era a responsável pelo progresso contínuo de Marcos. Mulher de fibra. Com isso, de segunda à sexta, Luana tinha a companhia apenas de Dona Celeste, empregada da família, e de Mimi, sua gatinha de estimação. Dona Celeste era muito responsável e competente nos afazeres relacionados à Luana, porém, a menina não se sentia à vontade o suficiente a ponto de lhe confiar seus inúmeros questionamentos a respeito daquela fase tão complicada; a adolescência.

Luana sentia falta da presença de uma mãe de verdade. Ela não tinha o que se queixar de Patrícia, que por sua vez era muito carinhosa dentro do possível. Luana apenas não se sentia na condição de exigir um afeto materno de uma mulher pelo simples fato desta ter se casado com seu pai. Luana entendia os sacrifícios de Patrícia. Manter-lhe sempre em uma boa escola era um dos objetivos principais de sua madrasta.
- Marcos! Nem pense em mudar Luana de escola! Quero que essa menina se torne um ser pensante, pois daqui a alguns anos esse será o seu diferencial nesse mercado cada vez mais competitivo!
- Ora, ora. Luana herdará nossos supermercados e...
- E se ela não quiser? Pense nisso, Marcos. Não temos o direito de definir o futuro profissional de sua filha.
Patrícia de fato se preocupava bastante com Luana. Isso era visível a todos. Mas faltava o calor de uma conversa mais íntima ou aquele carinho momentos antes de se deitar. Ficava a cargo de Mimi as confidências, os problemas, as dúvidas e a troca de afeto.

- LUANA, MEU AMOR! AINDA ESTÁ DORMINDO? VENHA TOMAR CAFÉ COMIGO!
Com aquele grito de Marcos, nem que a menina estivesse morta.
- JÁ VOU, PAPAI!
Luana levantava-se despertando também Mimi.
- Bom dia, Mimi! Teve uma boa noite? Está um dia lindo lá fora, veja!
Luana levantava a gata à altura de sua janela a fim de mostrar-lhe a chuva e o dia nublado que tanto a agradava.
- Veja o céu! Está da sua cor!
A menina referia-se ao cinza rajado com preto da pelagem de Mimi, que apenas bocejava e miava.
- VENHA FILHA! FIZ ALGUMAS TORRADAS! VENHA!
- JÁ VOU! ACABEI DE LEVANTAR DA CAMA!
Luana começava a pensar nas respostas que daria às perguntas do pai. Eram sempre as mesmas. “Como vai a escola?” “Como está a Mimi?”.

Luana seguia até o banheiro. Mimi ia atrás.
- POXA LUANA, AS TORRADAS VÃO ESFRIAR!
- EU POSSO ESCOVAR OS DENTES, PAPAI? POSSO?
- MAS VENHA LOGO...
Luana praticamente arrastava-se pelo corredor em seu conjunto de moletom azul. Com o cabelo numa bagunça, Luana se olhava no espelho e desejava estar ainda na cama sob sua janela desenhada pelas gotas de chuva. Mimi parecia entender bem sua preguiça de encarar a rotina dominical. Os 14 anos pesavam na menina pelo acúmulo de assuntos sobre os ombros. A mochila escolar de Luana carregava bem mais do que cadernos e livros. Carregava também as dificuldades de relacionamento e a solidão de uma menina que buscava de maneira pacata sua felicidade, mas não sabia por onde começar. Luana calava-se diante do silêncio familiar e transferia essa ausência para o seu dia-a-dia. Era uma constante troca de vazios.

O interesse de Luana por alguns meninos sumia antes mesmo de se desenvolver, já que Mimi não dava conta dos inúmeros conselhos pedidos por Luana. Os bocejos de Mimi diante das questões eram interpretados pela menina como “esqueça-os”. Ela os esquecia com a mesma facilidade do surgimento das feridas em seu coração inexperiente. Luana tinha apenas Mimi, a chuva e as perguntas. Jamais passara pela cabeça de Luana comentar com seu pai sobre seus flertes. Marcos ainda via em sua filha a imagem de uma criança. Aquela distância causada por sua jornada de trabalho o impedia de enxergar o desenvolvimento de Luana. Algumas vezes, precisava que Patrícia o alertasse.
- Marcos. Você alguma vez já perguntou à Luana se ela tem algum tipo de namorado, coisa assim?
- Como assim? Minha filha é uma criança ainda, Patrícia. Pelo amor de Deus!
- Marcos, Luana já está com 14 anos.
- Pois é. Uma criança. Veja como ela ainda brinca com Mimi. É a inocência em forma de gente.
- Você acha mesmo? Eu acho sua filha muito calada. Eu queria ter mais tempo para ela, mas o pouco contato que temos já me mostrou que Luana não pretende se abrir comigo. Você é o pai dela. Não quer tentar?
- Posso até tentar, mas já sei a resposta.
- E qual será?
- Ela me dirá que ainda não pensa em meninos. Você vai ver.
- Ela pode até lhe dizer isso. Saber se isso é verdade é a questão.
Patrícia era uma espécie de radar para Marcos, tanto nos negócios quanto na vida familiar. Sentia-se bloqueada pelo tipo sanguíneo ao tentar ajudar nas questões de Marcos e Luana, mas estava sempre atenta.

Enfim, Luana descia para o café da manhã.
- Bom dia, papai.
- Bom dia, filha. Dormiu bem?
- Sim.
- Que bom. E então? Como vai a escola?
- Bem.
- Onde está Mimi?
- Descendo a escada, papai.
- Como ela está?
- Bem também.
- Que bom.
Logo o silêncio tomava a cafeteira, as torradas, as louças e os talheres. O limite máximo de dedicação.
- E Patrícia?
Perguntava Luana para quebrar.
- Ainda na cama. Ela merece o domingo.
- Merece mesmo. E você? Não merece também?
- Mereço. Todos nós merecemos. Mas esse é o único momento da semana que consigo conversar com você, Luana.
- É mesmo.
Que magnífica conversa.

Marcos começava a pensar nos diálogos que tinha com Patrícia a respeito de Luana. Criava um conflito interno baseado no “pergunto ou não pergunto?”. Resolvia, depois de alguns goles de café, perguntar.
- Luana.
- Diga, papai.
- Você tem namorado? Quero dizer [tosse], alguma vez na sua vida você já veio a pensar na hipótese de gostar de algum menino? Não, não é?
Luana se via sem graça.
- Papai?
Assustava-se.
- Era o que eu imaginava. Nunca pensou nisso, não?
- Claro que já!
- Claro que já?
- Sim, mas não esperava essa pergunta assim de repente.
- [Tosse] Mas espere aí, minha filha. Como assim?
- De repente. Você me pegou de surpresa.
- Não. Refiro-me a você já ter...
- Gostado de alguém? Claro que já. Papai, eu já tenho 14 anos.
Marcos parecia ouvir no fundo a voz de Patrícia dizendo “eu não lhe disse?”.
- Não imaginava que você já tivesse esse tipo de interesse, minha filha. Eu nem sei o que dizer...
- Então por que perguntou?
- A Patrícia me deu essa idéia. Disse que andamos muito distantes um do outro.
- Talvez ela esteja certa.
- Agora vejo que sim.

A mesa voltava ao silêncio. Marcos não conseguia disfarçar tamanha aflição diante da constatação de sua distância. Era como se Luana morasse a trezentos quilômetros e estivesse ali somente aos domingos. Uma mistura de ciúme e incompetência lhe tomava os olhos.
- Papai?
- Diga, filha.
- Se é o que você quer saber, eu ainda não beijei menino algum.
O alívio no rosto de Marcos era espontâneo. Ainda com medo da resposta que poderia receber, Marcos resolvia dar continuidade à questão.
- E por que ainda não beijou?
Luana com um olhar sem jeito e segurando uma enorme caneca estampada com personagens infantis, dava um gole no chocolate e respondia:
- Mimi me aconselha a esquecê-los toda vez que falo deles.
Marcos sorria e concluía que ele e Patrícia deveriam doar um pouco mais de tempo à criação de Luana. Aquela resposta doce e até certo ponto séria o mostrava que ela era uma adolescente cuja inocência ultrapassava seus limites físicos. A ausência de alguém com quem ela pudesse ser emissora e receptora de assuntos tão importantes naquela fase, omitia dos olhos de Marcos até mesmo o desenvolvimento de seu próprio corpo. Um corpo de mulher.

Após o café, Luana apanhava mais uma torrada, pedia licença, dava um raro sorriso e um beijo no rosto do pai.
- Vamos Mimi. Vamos!
Ela subia para o quarto e deixava o silêncio à mesa para a necessária reflexão de Marcos, que sorria.

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Ana Claudia Temerozo.

6 comentários:

Fabiana disse...

acabou?

bonitinho o conto...
combinou tanto com a capa... a menina até ficou com cara de luana. rs.

conto fofo.


bjos

Anônimo disse...

aaaaaaaaaaaaaaaii.. eu quero um gatito pra mim...
hahahahah
to brincando, até que os gatinhos são (passaram a ser) fofos, mas não chega a tanto.. hahahaha

mto,mto,mto fofo! ;)
tem mais?

beijooooooooo

Anônimo disse...

ahhh! esqueci...
Nathalia - UCAM

Aninha disse...

eu ja havia lido :)
e li denovo!
adoreei, ficou bem legal!
não pare de escrever ;D

bjos *:

PCN disse...

Nossa, valeu a pena ler tudo! Curti o conto, curti de verdade! Algum dia aprendo a escrever dessa forma... Ahaha

http://papeisriscados.blogspot.com/

Lucas Moratelli disse...

Volte quando quiser! :}


As capas dadas aos contos são ótimas, todas!


Ainda não li o conto, lerei agora. Espero gostar bastante!


Até Alí;