terça-feira, 16 de dezembro de 2008

GISELE - O Natal de Luana Sob Outro Ponto de Vista


Parte I:

Rômulo chegava em casa com uma boa notícia para seus pais: Luana – sua prima-namorada – e os pais dela passariam aquele Natal com eles. Mas preferia não anunciar de imediato, pois, naquele momento, os pais de Rômulo recebiam visitas. Apenas alguns familiares, incluindo uma prima do rapaz, a Gisele, que, desde de bem nova, devorava-o com os olhos. Era nítido o incômodo por parte de Rômulo diante da prima. Gisele o olhava e mordia os lábios. Puxava a blusa disfarçadamente a fim de provocar-lhe ainda mais com seu decote. Decote este que já era um escândalo.

- Oi Rômulo. Tudo bom, meu filho?
Dizia seu pai, Jânio.
- Oi pai. Tudo bom. Boa noite pessoal.
Rômulo fazia um gesto com a mão a todos, mas os olhos se voltavam exclusivamente para o tórax de Gisele.
- Boa noite.
Os tios e tias o cumprimentavam sem perceberem a troca de olhares entre Rômulo e Gisele. Nunca desconfiava de nada aquela família. Para eles Gisele era a inocência em forma de menina. Vontade de mostrar os seios? E as calcinhas depositadas propositalmente na gaveta de Rômulo? Jamais! É o que pensariam.

Rômulo seguia até seu quarto. Livrava-se da camisa como se sentisse enforcado por ela. Na verdade não era bem a camisa que causava tal sensação. Os gestos sempre bem pensados de Gisele o faziam perder o fôlego. Abria a gaveta e lá estava: mais uma calcinha de Gisele, como sempre, acompanhada de um bilhete cujo conteúdo seria impróprio até para maiores. Ele guardava-a junto a dezenas de outras. Prometia a si mesmo que as devolveria numa melhor oportunidade.

- RÕMULO!
Gritava Jânio.
- JÁ VOU!
Rômulo ia até a sala.
- Sim, pai.
Rômulo chegava ofegante.
- O que houve, rapaz? Viu um fantasma?
Brincava Jânio.
- Um fantasma não o deixaria assim, titio! Deve ter visto coisa melhor! Não é mesmo, Rômulo?
Metia-se Gisele a fim de provocá-lo.
- Bem - dizia Jânio -, queremos saber se sua namorada passará ou não o Natal conosco, filho.
- Sim. Passará sim.
- Mas que maravilha! Então terei o prazer de conversar melhor com o primo Marcos também.
- Pois é, pai.
- Fico feliz!
- Namorada de Rômulo? Quem é?
Questionava Gisele.
- Uma prima nossa, Gisele. Não nos víamos há anos e...
- Entendi.
Respondia Gisele vermelha de raiva.
- Era só isso, pai?
- Sim. Já está indo dormir, filho?
- Sim. Vocês me dêem licença.
- Tem toda, filho.

Naquela sala, a família continuava com sua reunião a respeito dos preparativos para o Natal. Falavam quase todos ao mesmo tempo. Peru, bacalhau, presentes, árvore. Cada um com seu assunto. Todos desencontrados. Gisele se via solta para agir. Saía do recinto sem ser notada e partia em direção ao quarto de Rômulo.

Batia à porta.
- Pode entrar – dizia Rômulo.
- Sou eu.
- Ora, Gisele. O que quer aqui? Estou indo dormir.
- O que fez com ela?
- O que fiz com o quê?
- Com a calcinha que deixei para ti.
- Fiz o mesmo que com as outras várias. Estão guardadas para o quanto antes devolvê-las.
- Jura que irá devolvê-las, Rômulo.
Dizia Gisele levantando a barra da pequena saia. Sentava-se à beira da cama de Rômulo.
- Por favor, Gisele. Seus pais podem entrar aqui e não será nada agradável...
- Lógico que não será agradável para eles. Mas para mim...
Gisele soltava uma gargalhada, levantava mais a saia e:
- Ih! Esqueci que deixei na sua gaveta.
- Você ficou louca?
- Louca por você, Rômulo. Até quando vai resistir?
- Escuta bem o que vou lhe dizer, Gisele. Eu estou muito feliz com a Luana. Procure outro alguém para ti. Acabará me complicando.
- GISELE!
Gritavam da sala.
- Viu? Saia daqui! Anda!
Ordenava Rômulo.
- Eu vou, mas volto. E se estiver dormindo... Ai...Vai ser divertido!
- Sua louca.
- JÁ VOU!
Gisele gritava e seguia até a sala dizendo ter ido ao banheiro. Todos acreditavam.

Rômulo não tinha certeza sobre seriedade da promessa de Gisele. Permanecia acordado num misto de medo e excitação. Como ser humano, via-se tentado diante de Gisele. Para uma menina capaz de transitar entre os familiares com uma saia daquela e sem nada por baixo, invadir seu quarto mais tarde seria apenas uma amostra do que ela realmente seria capaz. Rômulo lutava contra um tesão incontrolável, mas trancava a porta. Era o mais seguro a fazer.

Parte II (Final):

No dia de Natal, Luana era paparicada a todo tempo pelas tias, prima etc. “Mas olha só que linda!” “É a filha de Marcos? Nossa! Mas está uma gracinha!” “É! Eu a vi no enterro de Arlete. Está uma menina linda!” “Está namorando o Rômulo? Mas esses jovens de hoje...”.

- Todos te adoram, Luana! Viu? Não fico surpreso com o sentimento que sinto por ti. Não se apaixonar por você é coisa impossível a qualquer ser humano.
- Pára, Rômulo. Assim eu não sei o que dizer. Fico sem graça. Pára.
- Não tem motivos para isso, Luana. Você exala simpatia pelos poros. O que posso fazer a não ser lhe comprovar isso através do que sinto?
- Vem me beijar, vem.
Luana aproveitava o momento em que estavam sozinhos à varanda.
- Que bonito!
Uma voz vinha de trás do casal. Era Gisele, também prima de Rômulo.
- Oi Gisele.
Cumprimentava Rômulo.
- Podem continuar. O beijo de vocês, assim, sob as estrelas dessa noite tão especial, está de emocionar. Vamos, continuem!
- Não entendo o que quer dizer, Gisele. É deboche?
- Não vai me apresentar nossa nova prima, Rômulo?
- Para início de conversa, Luana sempre foi nossa prima. Apenas andou afastada.
Luana arregalava os olhos. Assustada e sem entender nada da entonação de voz com que os dois se falavam, ficava calada.
- Luana, essa é a Gisele. Nossa prima.
Apresentava Rômulo.
- Muito prazer, Luana. Mas para a ocasião, acho que não devo ser apresentada como prima, mas como ex-namorada!
- FICOU MALUCA?
Rômulo gritava.
- Como é?
Questionava Luana.
- É isso mesmo, Luana. O seu namoradinho aí parece querer colecionar primas em seu currículo. Você não é a primeira, Luana. Fique sabendo. E nem eu fui! Abra seu olho!
Gisele se retirava da varanda com ar de missão cumprida.

* * *
Minutos depois, Rômulo procurava por Gisele.
- Preciso falar com você sua peste!
- Olha como fala comigo! O que foi? A Luaninha te deixou, foi?
- Cale essa boca e me escuta! Luana foi embora por sua causa! Agora, fique sabendo que se o meu namoro estiver acabado por conta disso, você sofrerá conseqüências que a farão se arrepender de cada calcinha que depositou em minha gaveta!
- Isso nunca! Deixar calcinhas para você me excita sabia?
Gisele colocava a mão sobre o peito de Rômulo.
- Tire a mão de mim, Gisele!
- Tira você!
Gisele colocava a mão de Rômulo sobre sua coxa.
- Você não vale nada, Gisele.
- Não? Então tira a mão daqui que eu quero ver.
Rômulo não tirava. Alisava as pernas de Gisele sem entender o que estava acontecendo com seu próprio corpo. Queria livrar-se de Gisele, mas sentia-se preso às tentações fincadas como estacas.
- Tira, Rômulo. Ou está gostoso? Beija-me! Anda!
- Não!
- Não? Então beijo eu!
Gisele alcançava-lhe os lábios. Os movimentos da menina eram sempre mais rápidos que qualquer reflexo de Rômulo, que, enfim, entregava-se.

Um beijo. Um beijo rápido, porém, voraz.
- Por que fez isso, Gisele?
- Por que fizemos, você quer saber?
- Eu não fiz nada.
- Fez sim, Rômulo. Acabou de me beijar.
- Você me beijou! Eu não.
- Ninguém beija só. Nós nos beijamos!
- Preciso sair daqui. Preciso falar com Luana.
- Falar o quê? “Luana, a Gisele me beijou”. É isso que vai falar?
- Deixe-me em paz, Gisele.
- Escuta, Rômulo. Se não posso ser sua namorada, se Luana é o doce que todo homem se acomoda em ter, deixe-me ser o lado bom disso tudo, Rômulo. Diga se Luana beija como eu o beijei.
- Vai para o inferno, Gisele!

Ali, nos fundos da imensa casa de Rômulo, os dois olhavam-se em silêncio. Todo o resto da família ocupava-se no falatório de sempre. Gisele desabotoava lentamente seu vestido. Tinha a idade de Rômulo, 17 anos, porém, a experiência de Gisele fazia o primo parecer uma criança de colo. Rômulo olhava para cada gesto de Gisele confundindo-se com imagens do rosto de Luana. Estava entre um amor de conto de fadas e a necessidade que era o sexo.

Ele sabia do tanto de explicações que devia à Luana. Sabia que o mais óbvio a se fazer seria partir atrás dela. Mas a fraqueza que se alojava aos membros e ao coração o faziam permanecer por longos quinze minutos diante dos seios desnudos de Gisele. Ele não acreditava no que acontecia. Encontrava-se anestesiado diante das garras de Gisele.
- Eu preciso ir. Se vista, Gisele.
- É o que quer?
- Sim. Quero falar com Luana.
- Então vá. Acho que cheguei ao meu limite também. Faça o favor de devolver-me o mais rápido possível minhas calcinhas. Seu frouxo.

Rômulo dava meia-volta. Parava. Gisele continuava com os seios amostra. Parecia saber que aquilo era o que mantinha Rômulo cada vez mais confuso sobre o que fazer.
- Vai, Rômulo! Vai atrás da Luana!
Gisele tinha o controle.
- Vai Rômulo! Vai atrás da Luana!
Gisele prendia o primo numa teia invisível.
- Vai Rômulo! Vai atrás da Luana!
Rômulo permanecia de costas para Gisele. Paralisado.
- Vai Rômulo! Vai atrás...
Num giro repentino, Rômulo voltava o rosto para Gisele. Levava os lábios até bem próximo dos da prima e:
- Se vista! E nunca mais apareça na minha frente!

Rômulo saía de casa sem dar explicações. Ia até a casa de Luana em busca de perdão. O rapaz omitiria todo o acontecido. Mas estava ciente do peso que carregaria dentro de si a cada vez que olhasse para Luana e dissesse “eu te amo”.

* * *
Mais histórias sobre Luana nas séries “Luana” e “Duas”.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A PIZZA DE NATAL

“Aniversariante não paga”, dizia a placa. Poder jantar numa bela pizzaria seria ótimo. Sem dinheiro nem para o café da manhã, às onze horas da noite, eu, de tanta fome, já perdia os sentidos. Todos lá dentro pareciam comemorar o meu aniversário. Esse era o lado divertido de nascer num dia 24 de dezembro. Mas o que aquelas pessoas faziam numa pizzaria em plena véspera de Natal? E aqueles funcionários? Aposto que o dono da pizzaria devia estar em casa com sua família. Ah! Danem-se. Eu só sabia que, por direito, teria minha refeição garantida.
- Pois não, senhor?
Recebia-me uma atendente da pizzaria.
- Uma mesa, por favor. Sou aniversariante.
- Ah! Sim! Meus parabéns! E onde estão os convidados do senhor?
- Não tenho convidados.
- Não tem? Tudo bem. Siga-me até a sua mesa, sim?
- OK.

Chegando à minha mesa, a atendente perguntava o meu nome.
- Paulo Fernando.
- OK. Aqui está a sua comanda. Será rodízio ou fará algum pedido?
- Rodízio!
- OK. Quinze e noventa.
- O que é quinze e noventa?
- O preço do rodízio, senhor.
- Você não me escutou? Sou a-ni-ver-sa-ri-an-te. Há uma placa ali fora que diz “aniversariante não paga”. Logo, eu não pago. Não é isso?
- Quase isso. Acima do “aniversariante não paga”, a placa também diz “acompanhado de no mínimo quatro convidados”.
- É? Mas eu não tenho convidados!
- Então, infelizmente, o senhor terá de pagar o valor do rodízio.
- Mas que absurdo!
- Sinto muito, senhor, mas são ordens da casa.
- Preciso de quatro convidados? É isso?
- Exatamente. O senhor não teria uma namorada ou alguns amigos? Familiares...
- Não tenho ninguém nessa cidade. Somos somente Deus e eu. Se é que ele existe.
- Bem, o senhor nasceu no mesmo dia em que o menino Jesus, senhor. Isso pode significar alguma coisa, não?
- Não.
- Por que não, senhor?
- Porque Jesus nasceu no dia 25. E eu nasci no dia 24.
- Ah! É mesmo.
- Bem, eu preciso correr atrás de meus quatro convidados, sim? Dê-me licença.
- Fique à vontade, senhor.
Eu precisava encontrar quatro pessoas a fim de comerem uma pizza. Não deveria ser tão difícil.

Ao sair da pizzaria, deparava-me com um grupo de jovens que vinha em direção à porta. Eu não tivera boas experiências com os jovens daquela cidade, mas...
- Por favor.
Eu dizia.
- Sim.
Um dos jovens me respondia.
- Vocês vão para a pizzaria?
- Sim, vamos. Por quê?
- Bem, eu gostaria de pedir um favor.
- Pois peça.
- É que hoje eu faço aniversário e...
- Meus parabéns. Chama-se Jesus?
Ele brincava.
- Obrigado, mas, não, não me chamo Jesus. Por que me chamaria?
- Nasceu no mesmo dia que ele, então...
- Não. Jesus nasceu no dia 25. Eu nasci no dia 24.
- Ah! Podes crer. Mas continue.
- Então... Aniversariante não paga a conta se trouxer quatro convidados à pizzaria. Eu pensei em vocês serem meus convidados. O que acham? Eu não conheço ninguém nessa cidade e não possuo um tostão furado. Estou com muita fome...
- Bem, por mim... O que vocês acham, pessoal?
Ele buscava a aceitação de todos.
- Tudo bem.
Eles aceitavam. Eles eram seis ao todo.

Adentrava-me à pizzaria e era atendido pela mesma atendente.
- O senhor voltou!
- Sim! E trouxe meus convidados.
- Que rápido!
- Pois é! Você tem uma mesa para nós?
- Para sete não.
- Como não?
- Não tendo, ora. Precisam esperar um pouco. Eu tenho uma mesa para seis pessoas prestes a desocupar.
Os jovens olharam para mim com olhares que, na minha cabeça, pareciam dizer “dane-se o seu aniversário”.
- Eu não posso por mais uma cadeira nessa mesa de seis?
- Nosso estabelecimento não permite. Precisaria acoplar a esta mesa uma outra de no mínimo dois lugares.
- Ora, ora.
- Tudo bem, cara. A gente espera.
Um dos jovens dizia.
- Farão isso por mim?
- Relaxa!
- Serei eternamente grato.

* * *
Depois de muitos minutos, a atendente nos aprontava uma mesa de oito lugares, como combinado.
- Venham por aqui.
Nós íamos.

Sentávamos à mesa. A atendente perguntava pelo nome de cada um. Preenchia as comandas. “Marcelo” “Lucas” “Júlio César” “Michele” “Andréia” “Viviane” “Paulo Fernando”.
- Escreva aí que sou aniversariante.
Eu dizia.
- Ah! Sim! Sua identidade, por favor.
- Está aqui.
Eu apresentava-a.
- Sinto muito, mas o senhor nasceu no dia 24 de dezembro.
- Exatamente, mas porque sente muito?
- Já passa da meia-noite, senhor. Hoje é dia 25. Feliz Natal!
- O quê? Feliz Natal? Você quer dizer que terei de pagar pela minha pizza? Feliz Natal?
- Sinto muito, senhor...
- Espere... Nós pagaremos a sua pizza, senhor. Fique tranqüilo.
Dizia Viviane, uma das jovens.
- Não, não precisam se preocupar...
- Por favor. É Natal, senhor. Estamos todos aqui porque não agüentamos tanta hipocrisia nos nossos respectivos lares. Se nós o levássemos para uma de nossas casas, talvez o senhor fosse mais mal tratado de que aqui. Deixe-nos fazer diferente.
- Viviane o seu nome, não é?
Eu perguntava.
- Sim.
- Viviane, eu estou nessa cidade há dois meses em busca de um emprego. Venho sendo destratado desde o primeiro minuto em que pisei aqui. Não é fácil pedir uma oportunidade a uma pessoa que tem idade para ser seu filho. Para mim não está sendo, pelo menos. Isso me fez criar uma imagem muito negativa do jovem urbano. Mas saiba que vocês, hoje, acabaram de acender uma luz no fim do meu túnel.
- Feliz Natal! E que a sorte lhe brilhe daqui para frente, senhor.
- Feliz Natal, meus convidados!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

SERES INVISÍVEIS

Longe da família, abandonada às vésperas do Natal pelo noivo e com uma série de frustrações pessoais, Joana entendia que não conseguiria absorver o espírito natalino naquele ano. Encontrava-se molhada de chuva, entediada e, ao fone de ouvido, João Gilberto parecia tentar alegrá-la, Mas se embaralhava ao falatório frenético de consumidores saciados. Faltavam uns oitocentos metros até a sua casa quando Joana resolvia descer do ônibus e seguir o restante a pé e sob a chuva. Não agüentava a ansiedade de estar sozinha e de desfrutar do silêncio de seu apartamento.

Joana, completamente ensopada, cumprimentava o porteiro.
- Boa noite Floriano.
- Boa noite menina. Tudo bom?
- Nem tudo.
- Vai melhorar.
- Tem que melhorar, não é?
- Claro que vai, menina.
Floriano respondia com um sorriso sincero, porém, cansado. Parecia demonstrar toda a experiência de um senhor que já passara por quase tudo nessa vida. Joana observava o sorriso e, antes de chamar o elevador, dava meia volta, seguia até a mesa de Floriano. Deixando o rastro da chuva que a molhara pelo corredor do hall de entrada do prédio, ela atirava:
- Floriano, onde passará o Natal?
- Estás olhando para a mesa de minha ceia, menina.

Encantada com a calma do senhor, Joana passava a mão sobre aquela cabeça branca e tentava:
- Floriano, sempre passei o Natal com minha família, lá no Rio de Janeiro. Há uns dois anos que passo esta data aqui em São Paulo, devido à oportunidade de emprego que me surgiu. Preferia passar com meu ex-noivo, que é daqui, e alguns amigos. Nesse Natal, não tenho mais o meu noivo e com ele foi a minha vontade de viver. Quero passar sozinha, entende?
- Entendo. Mas e os seus amigos? Por que não passa o Natal com eles?
- Sem o Eduardo não teria lógica. Os meus amigos são os amigos dele. E sei que eles estarão juntos. Prefiro não encontrá-lo. Entende?
- Sim. Entendo. E por que não passa no Rio com a sua família?
- Acho que seria bom, Floriano. Mas estou num momento em que preciso ficar sozinha. Minha família é enorme. Eles me ligarão no dia 24, como sempre fazem, e já está de bom tamanho.
- Então passará o dia de Natal sozinha?
- Sim.
- Que seja feliz do mesmo jeito!
- Obrigada Floriano.

Joana seguia até o elevador molhando ainda mais o corredor. As gotas que deixava pelo chão mais pareciam pedaços de uma alma cansada e triste, porém sem noção da força que possuía para reverter aquele quadro. Floriano ficava a observá-la vagarosa até o elevador.
- Menina!
Chamava Floriano.
- Oi.
- Se amanhã você se sentir muito sozinha, desça e passe o Natal comigo. Comeremos umas rabanadas que superarão qualquer solidão. Ah! E tenho uma TV aqui também.
- Claro!
Respondia Joana surpresa com o convite.

Joana subia até o seu apartamento pensando em quantos Natais o Floriano já havia passado sozinho. Lembrava que no ano anterior ela passava por ele no 24 com amigos, garrafas de vinho e um coração cheio de alegrias. Nem se importara com a solidão daquele senhor. Sentia que os momentos em que ela parecia quase invisível naquele ônibus lotado de pessoas felizes eram idênticos aos momentos em que Floriano vivera durante tantos Natais naquela portaria.

* * *
No dia 24, às dez e meia da noite, Joana já se encontrava tonta de sono e de tédio. Então resolvia ir até a portaria. No elevador, esbarrava em pelo menos vinte pessoas sorridentes e contagiadas pelo clima natalino.

Chegando à portaria, encontrava Floriano assistindo um tradicional especial de fim de ano.
- Floriano.
- Oi menina. Feliz Natal!
- Feliz Natal para o senhor também! Como está o movimento?
- O de sempre. Cada um mais feliz e contente que o outro.
- E o senhor? O que sente quando as vêem?
- Quer realmente saber? Triste. Não pela felicidade deles, isso seria horrível de minha parte. Mas pela diferença enorme entre a quantidade de pessoas que por aqui passam e a quantidade de cumprimentos que recebo. Sinto-me meio invisível. Entende?
- Entendo sim. Posso ficar por aqui com o senhor?
- Claro que sim, menina. Quando chegar meia-noite, abriremos um vinho para você e um refrigerante para mim. Não posso beber em serviço. – Ele sorria. – E comeremos as rabanadas que lhe falei. A D.Ângela, do trezentos e dois, faz para mim. Todos os anos. Falando nela, olha ela aí.

- Floriano, estão quentinhas, até a meia-noite estarão no ponto!
Chegava a sorridente Ângela.
- Muito obrigado D.Ângela. Este ano eu terei companhia. Conhece a Joana, do oitocentos e quatro?

Aquele Natal foi diferente para Floriano e para Joana. Fazia anos que ele não sabia o que era passar o Natal na verdadeira companhia de alguém. Ela não sabia que atrás de um senhor quase invisível estava uma pessoa tão divertida a ponto de fazê-la esquecer de tudo de errado que a rodeava. Os dois conversaram durante toda à noite, saborearam as deliciosas rabanadas de Ângela e finalizaram o papo com a promessa de repetirem a dose no reveillon. Visíveis. Um ao outro.

* * *
Conto revisado. Publicado originalmente em 21 de dezembro de 2007 no fotolog.com/lucianofreitas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

AS BUSCAS DO MÊS DOZE

Calor. Muito calor. Era assim durante todo aquele dezembro. Eu, de férias, durante o dia, aproveitava o máximo da praia. Durante a noite, caminhava sem rumo a observar o comportamento alheio. O calçadão ficava entupido de gente, que caminhava, assim como eu, sem destino. As noites quentes e o clima de final de ano me traziam certo desconforto, mas ao mesmo tempo uma sensação de estar começando uma nova fase. Não sei dizer o porquê. Na verdade eu esperava sempre por um novo amor. É verdade! Um novo amor ao fim de cada ano.

Eu, com meus 26 anos e uma bem sucedida carreira de arquiteto, objetivava para aquele dezembro encontrar uma mulher especial. Uma mulher que me fizesse esquecer de todos os meses de dezembro passados. Uma mulher que me fizesse prever todos os próximos meses ao seu lado. Uma mulher para a minha vida.

Sabia que um mês seria muito pouco para constatar tanta qualidade em uma mulher. Não se procura uma mulher para a sua vida, e sim, é a vida que coloca no seu caminho a mulher que jamais procurou. Eu tinha isso em mente. Como eu trabalhava muito, acho não tinha mesmo tempo para procurar mulheres. Pelo menos de janeiro a novembro. Porém, também não tinha tempo para que a vida me mostrasse uma. Então, dezembro era o mês escolhido, por conta de minhas férias, para que eu ou a vida chegasse a alguém especial.

No dia 23 daquele mês, eu trocava a praia pelo shopping. Embora eu detestasse tal programa em épocas de loucuras consumistas, precisava comprar alguns presentes para minha família. Não podia chegar na casa de meus pais, no Natal, com as mãos abanando.

Eu chegava ao shopping ao abrir de suas portas. Com as lojas ainda vazias, a tortura era pouco mais tolerável. Já tinha em mente tudo o que compraria. Por isso, não levaria nem duas horas dentro daquele inferno. Mas passando por uma loja de camisas, onde eu costumava comprar, uns novos modelos na vitrine me chamavam à atenção. Eu entrava na loja e logo era atendido por uma lojista que nunca tinha visto por ali.
- Bom dia! Meu nome é Natalia! Posso ajudar?
O sorriso estampado era de deixar qualquer pão-duro com a mão mais aberta. Aquela menina possuía uma áurea de simpatia impressionante.
- Bo-Bo-Bom dia – eu dizia. – Pode sim! Eu...
- Thiago!
Chamava-me Adriana, a lojista que costumava me atender.
- Oi Adriana. Tudo bom?
Eu respondia.
- Tudo bom também, Thiago. Natalia, o Thiago é meu cliente. Pode deixar comigo, sim?
Adriana tirava a Natalia de cena.
- Adriana, eu acho que não tem problema da Natalia me atender. Ela é nova aqui, não?
- Extra de Natal.
Respondia Adriana.
- Então. Eu já compro com você o ano todo, Adriana. Se não se incomodar, gostaria de ser atendido por ela, pode ser?
- Claro, claro. Fique à vontade.
Adriana dava meia-volta com nítida vontade de me mandar ir à merda.
- Olha, senhor... – dizia Natalia.
- Opa! Senhor? Eu tenho 26 anos, Natalia. Por favor.
- Desculpe.
- Diga. O que iria dizer?
- É que não quero causar situações chatas. Se a Adriana costuma lhe atender, pode ser atendido por ela. Não há problema.
- Não! Fui recebido por você e é você quem vai me atender, OK?
- Como quiser. O que deseja?

Natalia era muito atenciosa. Embora eu saiba que o que move a simpatia de um vendedor é a comissão que ele receberá com a venda, digo que nunca havia sido tão bem tratado em uma loja antes. Sem contar na beleza de Natalia, que tinha a pele bem branquinha e olhos que hipnotizavam. Os cabelos eram brilhosos e enormes, cortados de maneira cuidadosa. Um charme! Seu corpo fazia o uniforme de vendedora parecer um traje de festa. Era sem dúvida a mais bela naquela loja. E, talvez, a mais talentosa também.

Eu comprava cinco camisas com a Natalia e deixava consigo os meus sinceros votos para sua permanência na loja.
- É o que deseja? Ficar na loja?
Eu perguntava.
- Por enquanto sim. Tomara que eu fique. Preciso muito desse emprego.
- Cá entre nós...
- Diga.
- Essa loja também precisa muito de você.
- Obrigada.
- Nunca fui tão bem atendido. Que a Adriana não me ouça.
- É meu dever, senhor.
- Senhor não. Thiago, por favor.
- OK. – Ela ria. – É meu dever, Thiago.
- Fica melhor assim. A que horas você sai da loja?
- Tarde. Bem tarde.
- Eu imagino. Essa época de fim de ano...
- Pois é.
- Bem, não vou lhe atrapalhar mais. Boas vendas, Natalia. A gente se vê. Eu espero.
- Sim. Também espero.
- Espera mesmo? Pelas compras ou por mim?
Por essa ela não esperava. Ela olhava para os lados com receio e:
- Por você. Foi muito bacana o que você fez.
- Fui justo. Apenas isso. Mas não com você. Fui justo com meu coração, Natalia.
- Como assim?
- Eu quero lhe ver novamente. Conversar, lhe conhecer melhor. Há algo em você que...
- Thiago...
- Não fique sem jeito, por favor. Sei que não é a ocasião certa para isso, mas quando eu falaria a ti o quanto gostei de sua pessoa?
- Thiago...
Natalia morria de vergonha.
- Posso lhe esperar às cinco?
- Às oito.
- Fechado. Estarei frente ao shopping. OK?
- OK.

* * *
Conforme combinado, lá estava eu a esperar Natalia para uma conversa. Imaginava o quanto devia estar cansada. Tinha que pensar num lugar agradável para levá-la. Um lugar aconchegante e tranqüilo. Ela, então, chegava.
- Oi Thiago.
- Oi Natalia.
- Meu Deus, mas como você é rápido.
- Refere-se ao meu convite?
- Isso.
- Bem, se preferir, nós podemos marcar um outro dia...
- Não. Eu estou brincando. Para ser sincera eu gosto de pessoas objetivas como você.
- Eu já posso contar isso como um ponto a favor?
- Já tem muitos pontos a favor, Thiago.
- É? E como os consegui?
- Quando entrou na loja e me olhou já ganhava um. Quando gaguejou a me desejar bom dia, ganhava outro. Quando me escolheu para lhe atender, mais outro. E a cada minuto com você naquela loja tu ganhavas mais e mais, Thiago.
- Nossa! – Eu ficava sem palavras. – O que tenho a lhe dizer é que... Bem, também gosto de pessoas objetivas como você, Natalia.

Naquela noite, conversávamos um pouco sobre a vida de cada um. Todas as palavras jogadas a uma mesa do então vazio Bar Anexo me levavam a crer que Natalia era, sim, um doce de mulher. O tipo de pessoa que diz o que sente. Que transborda de coisas boas e pensamentos bons. Divertida, Natalia me fazia virar criança. Uma criança às vésperas do Natal. Ríamos muito naquela noite quente. Acabávamos de nos conhecer e parecíamos tão íntimos.
- Dá um sorriso para mim?
Ela pedia.
- Para quê?
- Dá um sorriso, garoto!
Ela insistia e eu sorria.
- Pronto! Mas o que tem o meu sorriso?
- Tudo de bom que um sorriso pode ter. E mais um pouco.
- E o que seria esse “mais um pouco”, Natalia?
- O despertar de uma vontade louca de lhe beijar, Thiago. Pronto! Falei!

Eu não conseguia classificá-la como oferecida ou como tímida. Natalia era um misto do que ambos os adjetivos tinham de melhor. Eu ainda não sabia, mas a vida, e não eu, pusera fim às buscas daquele mês doze.

* * *
Foto da capa: Janaina Muller.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A VIDA REAL - O Natal de Charles e Valéria

Tudo o que eu queria naquele Natal era simplesmente assistir a orquestra do Walter Lins, que faria uma apresentação junto ao coral de umas meninas sei lá de onde, na noite do dia 24. Uma apresentação especial, no salão do Clube dos Líderes. Apenas músicas natalinas seriam executadas. Sabia que não poderia contar com a Valéria. Àquela altura, ela estaria com a cara cheia de vinho e sem a mínima condição de sentar-se junto a mim naquele salão. Eu daria minhas bicadas também, mas pouparia os meus rins para depois da apresentação.

- Você vai mesmo ao clube, Charles?
- Vou sim, Valéria.
- Que saco!
- Por quê?
- Aquela orquestra chata com um bando de meninas chatas cantando um monte de músicas chatas.
- Acho que será bacana. Ouvi dizer que as meninas cantam muito bem, Valéria.
- Conversa. Deve ser um bando de desafinadas que apenas cativam o público por conta de sua faixa etária. Apenas isso.
- Não sei. Elas têm entre 12 e 19 anos, Valéria. Já estão bem grandinha, não acha?
- Bem... Não importa. O que importa é que eu não vou.
- OK, mas eu vou.
- Mas você volta cedo, não é?
- Claro que sim.
- OK. Faremos nosso Natal especial, Charles.
- Especial? Por quê?
- Você sabe o que quero dizer...

Claro que eu sabia. Valéria planejava adentrarmos ao dia 25 completamente embriagados e cansados de tanto trepar. Era isso que ela queria. No Natal passado, não estávamos juntos, mas me lembro bem de seu estado. Ela estava muito mal. As visitas de suas amigas nunca a fazem bem. Elas chegam sempre bem carregadas de álcool e cigarro. Eu esperava apenas encontrá-la inteira quando chegasse do clube.

* * *
No dia 24:
- Valéria, eu estou indo ao clube.
- (...)
- Valéria? VALÉRIA?
- Oi!
- Está surda?
- Não!
- Estou indo ao clube.
- OK.
Respondia Valéria com uma dicção péssima. Já estava mal.
- Tome um banho gelado, Valéria.
- Sim. Eu já vou... Minhas amigas chegam em breve.
- Você não vai beber mais com elas, vai?
- Claro. Eu estava apenas esquentando, ora.
- Céus...

* * *
Chegando ao Clube dos Líderes, acomodava-me num dos bancos e ficava a esperar pelo início da apresentação. Como eu queria estar numa daquelas cadeiras da orquestra. Eu e meu trompete. Seria o máximo.

As luzes do salão se apagavam e a orquestra de Walter Lins começava a ocupar seus lugares. Logo depois, as meninas do coral entravam em fila. Todas vestidas de vermelho e branco. Não podiam ser menos previsíveis? Eram crianças e jovens muito bonitas. Algumas possuíam os olhos tão azuis que geravam comentários entre os presentes na platéia. Como eu estava sozinho, guardava minha admiração para mim mesmo.

As meninas se posicionavam em silêncio e numa organização invejável. Na fileira da frente, as mais novinhas. Na fileira de trás, as mais velhas, com olhares mais experientes e mais seguros. Estas acabavam ofuscando as crianças por conta da beleza que ultrapassava o limite da inocência induzida por aquelas roupas ridículas.

Olhando com cuidado o rosto de cada uma daquelas jovens, deparava-me com um semblante familiar. Mas de onde eu conhecia? Eu pensava. Pensava mais. Ah! Lembrava! Tremulo, mas lembrava. Era o rosto de Larissa! A menina com quem eu sonhara tempos atrás. A menina que tinha a cara de Valéria anos mais jovem! Estava ali na minha frente! Larissa! [vide série “Elas”].

Pronto. Aquilo era o suficiente para eu não mais prestar atenção em sequer uma nota que fora executada pela orquestra ou pelas meninas. Apenas às notas daquela menina eu estava a ouvidos. Eu parecia criar uma espécie de filtro para tudo aquilo que a rodeava. Para minha visão e audição só existia ela ali naquele palco.

* * *
No fim do concerto, o maestro Walter apresentava cada músico e, logo depois, cada menina daquele coral. Eu precisava estar atento. Aquela menina era a quinta da esquerda para a direita.
- As meninas. Da esquerda para a direita. Uma salva de palmas para: Letícia, Juliana, Amanda, Sofia, Larissa...
Larissa? Eu não acreditava no que ouvia. Aquela menina era exatamente a que aparecera em meu sonho. Era muito para mim. Tinha sido tão difícil esquecê-la.

Depois de tudo, eu corria até atrás do palco a fim de ao menos chegar perto de Larissa. Eu avistava o pianista da orquestra, muito meu amigo, mas não me lembrava de seu nome.
- PIANISTA!
- Charles! Você por aqui! Esqueceu meu nome?
- Perdão... É...
- Euclides.
- Isso! Euclides! Tudo bom?
- Tudo sim. Foi bom o concerto, não?
- Foi ótimo. Tocou muito bem. Parabéns. Agora escute. Para onde foram as meninas do coral?
- Estão naquela salinha ali. Mas acredito que estejam se trocando.
- Ah! Sim! Claro. Eu queria trocar uma palavra com elas.
- Sei.
Euclides me olhava desconfiado, mas me ajudava.
- Vem comigo, Charles. No meio de tanto músico, ninguém vai se dar conta que não faz parte da orquestra. Elas virão até nós para uma foto. Aí você tenta falar com elas. OK?
- Fico te devendo essa, cara!
- Fica frio.

Euclides estava certo. Depois de trocadas, as meninas chegavam até a sala onde toda a orquestra se encontrava. Um jornal local tiraria uma foto dos dois grupos juntos. Eu estava sobrando ali. A última a entrar na sala era Larissa. Eu, na porta, esperava-a passar. Quando passou:
- Larissa?
- Oi. Sou eu?
- Sim, você. Deves saber que cantas como poucos.
- Obrigada. Qual o seu nome?
- Charles.
- Obrigada Charles.
Era impossível. A voz! Ela falando era a Larissa do meu sonho.
- Sei que está ocupada, mas precisava lhe dizer uma coisa.
- Diga.
- Não nos conhecemos, certo? Nunca nos vimos.
- Sim. Que eu me lembre, nunca o vi.
- Então. Acreditaria se eu dissesse que lhe conheço, mas através de um sonho?
- Como assim?
- Eu tive um sonho há tempos. Com você. O nome, o rosto, o cabelo, a voz, o jeito de falar. Era você, Larissa. Por isso vim aqui atrás do palco. Precisava falar com você.
- Olha, Charles. Se isso foi uma cantada, acredite, foi a pior de todas que já recebi.
- Não! Não foi uma cantada! Foi a mais pura verdade!
- Então, quando está cantando alguma menina, costuma mentir? É isso?
- Não! Não foi o que eu disse. Eu...
- Bem, deixe me tirar uma foto com o pessoal. Passar bem. Ora, ora... Sonho?
- Mas...
Que papel de babaca eu fazia.

* * *
Eu saía arrasado daquele clube. Não imaginava que a única coisa que diferisse a Larissa do sonho e a Larissa do coral fosse justamente a reação que tiveram ao me ver pela primeira vez. O que eu queria também? Que aquela menina linda me beijasse como no sonho? Sonho! Sonho!

Chegava à casa de Valéria. Ela e mais três amigas, as de sempre, bebiam como se o mundo fosse acabar no dia 25.
- Feliz Natal, meninas!
- Mas se não é o Charles!
Dizia uma das amigas de Valéria. As outras duas se beijavam loucamente e nem me viam entrar.
- Mas que putaria, Valéria!
Eu dizia.
- Sem essa, Charles! Seu preconceituoso!
Valéria dizia com a boca completamente torta e com o corpo molengo e cercado de garrafas e cinzas de cigarro. Era excitante e deprimente ao mesmo tempo. Era acima de tudo real!

Minha vontade era de sonhar. A realidade estava alta demais para mim. Sonhar com Larissa. A minha Larissa. Nada mais. Eu ia para casa.

* * *

Foto da capa por Jocelyn Durston.

Mais histórias sobre Charles e Valéria nas séries "Elas" e "Eles" e em "Visita de Emergência".