quinta-feira, 23 de outubro de 2008

VISITA DE EMERGÊNCIA

Enfim, Valéria e eu nos entendíamos. Estávamos, veja só, namorando. Ora, depois dos trinta existe isso? Namorar? Se não existe, eu faço questão de me nomear o inventor do namoro pós-trinta. Dane-se. O fato é que meu trompete não mais a irritava. Seus aplausos agora me motivavam a estudar mais aquele instrumento tão difícil. Eu já estava até conseguindo trocar algumas notas com os meus discos do Chet Baker. Eu aproveitava suas pausas bem pensadas para enfiar minhas opiniões em forma de sopro. Estava indo bem mesmo.

Havia duas semanas que eu não aparecia no Jazz Bar. Naquele momento eu preferia programas em que a chance de esbarrar com antigos e amigos fosse praticamente nula. Valéria concordava comigo, já que da última vez que esse esbarro ocorrera, com o Oscar, ela não entendera nem a si mesma. Por um lado até que foi bom, dizia ela, pois conseguira atingir um recorde em termos de masturbações bem sucedidas. Não ficava zangado quando Valéria me contava sobre esse episódio. Foi um pouco por causa dele que no momento me esquentava nas pernas dela.

Íamos ao Bar Chorado.
- Você não tem tanta intimidade com o pessoal do chorinho, Charles?
Perguntava-me Valéria.
- Não muita. Conheço alguns, mas não tenho muito assunto com eles.
- E por que vem aqui?
- Justamente por isso. Procuro lugares onde a intimidade única seja entre você e eu.
- Ai, Charles. Não fala assim, vai.
Valéria mordia os lábios insinuando algo que eu adorava. Valéria era o sexo em pessoa.
- OK. Não falarei mais. Até porque, toda vez que falo algo desse tipo saímos do bar antes da terceira cerveja.
- A cerveja, sempre a cerveja. Prefere a cerveja, Charles?
Ela perguntava ao mesmo tempo em que subia sua perna sobre a minha por baixo da mesa.
- Agora é você quem está me provocando, Valéria.
- Responde! Prefere a cerveja?
- Claro que não!
- Então?
- Então o quê?
- Por que não saímos daqui? Estou a pingar.
Valéria sabia dizer aquilo que eu queria ouvir. Como resistir?
- Raios. Vamos!
Eu pagava a conta com a mão de Valéria dentro do meu bolso a acariciar-me.
- Você não tem vergonha, não? Está todo mundo vendo sua mão aí, Valéria!
- Eu sei. É que quero ver até que ponto aquelas meninas ali na mesa resistem. Estão a babar.
- Não tem ciúmes?
- De quê?
- Delas “estarem a babar”.
- Eu não. É só o que podem fazer. Babar sobre a mesa. Eu posso muito mais. Posso babar sobre...
- Cale essa boca, o garçom está vindo com o meu troco.
- Seu safado!
Valéria ria e apertava-me com força.

No caminho, eu não sabia ainda em qual das casas iríamos terminar a festa. A cada canto escuro daquelas ruas Valéria me puxava de forma e intenção diferentes. Quase terminava o serviço antes mesmo de por as chaves na porta.
- Valéria! Espere chegarmos em casa, por favor!
- OK, mas na minha ou na sua?
- Tanto faz. A que estiver mais perto!
- Pelo sentido que estamos, a minha é a mais próxima, Charles.
- Então será na sua. Não agüentarei andar mais dois metros até a minha.
- Safado!
Valéria mais uma vez me apertava. Estava muito acesa.

Valéria abria a porta de sua casa e me puxava pelo cinto. Ela estava realmente muito louca. Despia-me com os dentes no auge de seu tesão. Confesso que também me encontrava no auge, mas do meu medo. Àquela altura de nosso namoro eu conhecia o gosto de Valéria pelo sexo voraz, mas ainda não tinha presenciado tal comportamento. O telefone tocava.
- Não vai atender, Valéria?
- Você está brincando, não?
Respondia-me sem ar e voltava ao serviço.
- Pode ser... Aaah! Pode ser importante, Valéria.
- Isso aqui que é importante, Charles!
- Concordo. Continue.

O telefone não parava de tocar. De certa forma aquilo tirava minha concentração, mas não parecia incomodar Valéria nem um pouco. E o telefone tornava a berrar.
- Chega, Valéria!
- O que foi? Não está bom?
- Está ótimo, mas ficará melhor sem essa merda de telefone berrando, não acha? Atenda essa coisa, por favor.
- OK!
Valéria levantava e se dirigia até o aparelho, na estante de sua sala.
- Alô! Pois não? É ela! O quê? Merda! Estou indo para aí!
Desligava o telefone.

- E então, quem era?
- Uma prima minha.
- Mas o que houve? Algum problema?
- Telefone tocando há essa hora, Charles. O que acha?
- Mas o que houve, Valéria?
- Minha avó materna está muito mal no hospital e, segundo minha prima, está me chamando, coitada.
- Quer que eu vá com você?
- Se não for incômodo.
- Claro que não. Vamos.

Chegando no hospital, Valéria abraçava aquelas pessoas com certa frieza. Estava nítido para mim que ela não era bem quista entre os familiares.
- Gente, esse é o Charles, meu namorado.
Ela me apresentava àquela gente e eu apenas acenava de longe. O que dizer numa hora como aquela?

- Vou lá falar com minha avó, Charles. Já volto.
- Vai lá.
Corria a vista em cada um deles sem muito cuidado na observação, da esquerda para a direita. O tédio me batia.

Alguns minutos depois, Valéria saía do leito, despedia-se do pessoal e, junto a mim, saía do hospital. No caminho:
- Que visita rápida. O que a velha, digo, sua avó queria com você?
- Encher-me a paciência.
- Com o quê?
- Ela está para morrer, então quer reunir a todos e dizer o que acha sobre cada um.
- E o que ela acha de você?
- Quer mesmo ouvir?
- Quero. Se quiser falar, é claro.
- Disse que morrerei solteirona, quer dizer, sem casar, por ser uma vagabunda e não escolher com cuidado para quem abrir as pernas.
- Ela disse isso? Por quê?
- Deve ser porque há muitos anos atrás, quando eu tinha, sei lá, uns quatorze anos, ela me flagrou com um namorado que eu tinha.
- O que vocês estavam fazendo?
- O meu namorado, nada.
- E você?
- Nada demais, mas estava com a boca muito ocupada no momento para explicar a situação, se é que você me entende.
- Sim, claro.
Valéria me assustava, às vezes.
- Ai, Charles. Vamos parar com esse papo. Vamos voltar para casa e continuar de onde nós paramos. O que acha?
- Ótima idéia. E que ninguém nos flagre, pois estará novamente com a boca bem ocupada, Valéria.
- Safado.

Já estávamos na casa de Valéria, mais precisamente nus, um por cima do outro e no meio da sala, quando o telefone voltava a nos atormentar. Colocava-a debruçada sobre sua estante enquanto a puxava contra mim pelos seus cabelos.
- Não vai atender?
- Aaah não!
- Vai sim!
- Mas você não vai sair de dentro de mim?
- Não!
- Aaah... Então eu atendo!
Ela pegava o telefone.
- Aaah... Alô!
- Valéria? Que voz é essa? Você está bem?
Era novamente a prima de Valéria.
- Nunca estive melhor! Aaah... Diga!
- Vovó Jacira acabou de falecer e...
- Aaah... É mesmo? Então, se por acaso ela ressuscitar, diga a ela que a vagabunda aqui acha que finalmente escolheu com cuidado a quem abrir as pernas! Aaah... Passar bem!
Valéria desligava o telefone e me dava ordem de que não parasse. Eu obedecia.

* * *
Mais histórias sobre Charles e Valéria nas séries Elas (Julho de 2008) e Eles (Setembro de 2008).

9 comentários:

kilder disse...

valeu pelo comentario!!! otimo dia!!

Kayo Medeiros disse...

Wow!

"conto-chanchada"!

=)

ó,bonzão ó!

Nathalia disse...

hhahhaahaha mto bom!
valéria se revelando minha genteee!
hahahaahaha

adoreiii!

Whógenor disse...

contos são muito instigantes,esse é bem peculiar pelo tema e pelo envolvimento...
belo blog
até...

jαnα ¦D disse...

Nossa, mas essa Valéria hein!E coitadinha da vovó; só estava tentando alertar a neta para o caminho de perdição que ela estava seguindo! hAUHUhuaHUAHuhauHA


Abraços.
='-'=

Fabiana disse...

pessoa "sensível", né?!
rs.

Coelho Sem Orelhas disse...

Valéria está certa. Pra que perder com velório da pessoa que antes de morrer a chamou de vagabunda.
Divirta-se Valéria!!!!

Aninha disse...

que safadeza! HAUSHAUHS;
adoreei, adoro esses contos com os personagens de contos anteriores =D

beijos ;]

Vanessa Sagossi disse...

Depois do fim primeiro conto, quem diria.. Até achava que ela era meio (como dizer?) careta (?) heheh, o segundo conto até poderia dar pistas... Mas como a Valéria se revelou.. hehe