terça-feira, 2 de setembro de 2008

ELES

Charles acordava com a sensação de sempre: ser o homem mais fracassado de toda humanidade. Todos os dias, a presença de seu trompete sobre a mesa da sala o fazia pensar no quão tolo diante de mim ele havia sido naquele mês de julho. Sonhar tanta coisa impossível depois daquele porre e ainda me contar tudo foi o auge de suas derrotas. Lógico que a imagem e as palavras da imaginária Larissa continuavam a lhe perturbar. Setembro já dava suas caras e ele não conseguia desapaixonar-se daquela menina que nem existia. Os últimos meses não haviam sido muito agradáveis à sua mente confusa. Ele entendia cada vez menos o sexo oposto.

Eu resolvia, talvez por causa daquela confusão toda de sonhos e amores, distanciar-me por uns tempos. À noite, quando ele saía para fumar o seu cigarro, não mais me via em minha porta. Era melhor assim mesmo. Ele não tinha cara de olhar em meus olhos depois de demonstrar seus sentimentos daquela forma imbecil. E além do mais, ele precisava de tempo para se concentrar no rosto de Larissa que frequentemente o vinha, porém, parecia se apagar com o passar dos dias. O que Charles mais queria naquele fim de inverno era encontrar alguma menina com as características de Larissa. Aposto. Seria ótimo para ele àquela altura.

Eu, sempre tão amiga de Charles, me via numa situação chata. Para não dizer confusa. Embora fosse um fracasso em forma de gente, Charles era um tanto quanto tentador. Resistir à forma rústica de Charles não era uma tarefa fácil para as mulheres. Pelo menos até ele abrir a boca. É que o pessimismo exagerado que o rodeava espantava qualquer garota de sua vida. Ele calado, um monumento. Falando, um intelectual mal compreendido. Falando de si mesmo, um homem assustador. Mas havia algo nele. Algo que me confundia.

Desde julho que não mais ouvia sua corneta. Corneta não! Trompete. Ele sempre me corrige. Acho que o fato de ter experimentado o gosto de se sentar numas das cadeiras da orquestra do Clube dos Líderes, em seu sonho, o fez desistir de vez da música. Charles soprando aquilo é uma agressão sonora. O maestro Walter Lins jamais o contrataria. Charles parecia estar condenado a assistir os seus ídolos locais no Jazz Bar por toda a vida. Sem sequer apresentar-se por lá profissionalmente.

Charles desde pequeno foi muito solitário e sempre preferiu fazer as coisas do seu modo. Não me lembro de vê-lo tendo aulas com nenhum professor além dos que não se podiam fugir, durante o ensino fundamental e médio. De lá para cá, Charles se mostrara autodidata em tudo o que resolvera fazer. Bem, no trompete ele ficou devendo. E na arte da conquista também. As mulheres que passaram pela vida de Charles foram como relâmpagos em noites de verão. Algumas até amigas minhas, que acabavam me contando tudo sobre o jeito esquisito de tratá-las entre quatro paredes. “Ele é bom e ruim ao mesmo tempo. Ele é como uma máquina automática. Você liga-o e ele desliga sozinho após o serviço. Não dá um pio”.

Nesses dias em que eu resolvia me manter afastada de Charles, pretendia mostrar-lhe também que se ele realmente me amava, deveria lutar pelo o que queria. Mesmo sem saber se eu cederia ou não aos beijos de um cara como ele, como amiga eu queria vê-lo lutar realmente por algo que quisesse muito. O desânimo com o qual Charles encarava o meu silêncio só me fazia entender que na verdade ele não me amava. Ele um dia havia me amado. Quando era jovem. Jovem como a Larissa.
Depois de alguns dias, eu mesma não resistia à minha própria frieza. Tinha de falar com Charles. Então eu ia até sua casa.
- Charles!
Ele não dava sinal de vida.
- Charles?
- Sim.
Respondia com voz de sono. Eram 11h da manhã. Ele abria a porta.
- Bom dia.
- Bom dia Valéria. Está viva?
- Sim. Você é que me parece meio morto. Como sempre.
- Como?
- Deixa para lá. Vai fazer algo esta noite?
- Não.
- Quer sair? Tem show da Mônica Lisboa no Jazz Bar e eu achei que...
- Achou que poderíamos ir juntos?
- Olha, não é nada do que você está pensando, Charles. Eu só acho que precisamos conversar, não?
- Eu não estou pensando nada, Valéria. Eu passei dois meses sem sequer ouvir um bom dia seu. O que houve? Você está chateada com o que lhe falei naquele dia? Disse que a amava. E você? O que fez? Sumiu! Mesmo dividindo comigo uma mesma parede.
Eu ficava muda por uns segundos.
- Sentiu minha falta?
Eu arriscava.
- Eu disse que te amo. O que você acha?
- Acho que você ama a minha juventude. Acho que ama a Larissa.
- Aquilo foi um sonho. Só isso.
- Mas me lembro de como entrou na minha casa procurando-a. Parecia sedento por ela.
- Ela na verdade era você, Valéria.
- Não quero discutir. Quero conversar. Vamos ao Jazz Bar hoje à noite ou não?
- Sim. Eu a chamarei às 21h. OK?
- Estarei esperando.
Sentia que não havia feito uma boa escolha ao tentar me aproximar de Charles. Ele parecia magoado. Mas era preciso.

Às 21h, pontualmente Charles batia à minha porta. Eu atendia.
- Você está linda, Valéria.
O Charles me dizendo aquilo era tão estranho, mas eu gostava.
- Obrigada, mas estou vestida com o de sempre.
- Pois é. Está sempre muito linda. Nunca lhe disse?
- Pára Charles. Por favor.
- Tudo bem, tudo bem.
- Você me parece melhor do que mais cedo. O que houve? Gosto de lhe ver assim.
Na certa era por estar próximo a um possível beijo meu.
- É que me sinto muito bem em noites como a de hoje.
- E posso saber o que há de especial em noites como a de hoje?
Lógico que era por causa de minha companhia no bar que ele mais freqüenta.
- As bebidas de cortesia do Jazz Bar! Sexta-feira são duas cervejas grátis! Bom, não?
- !!!
De fato um troglodita. Boçal. Eu estava errada sobre eles.

- Sim. Claro.

[Continua]

5 comentários:

Anônimo disse...

assim não dááá!!!
caraa, vc ta aprendendo a parar os contos na hora certa vendo novela?
hahahahhahah
continua amanhã, néé?
=)
ADOREIIIII!
beijoo

Nathalia- UCAM

janu disse...

Amanhã??
Eu ouvi um amanhã???
tsc tsc tsc

bju

Fabi disse...

hahahahahahahahahaha
"de fato um troglodita. boçal"
além de tocar corneta (okok. trompete) ainda faz grosseria com a amada?! hahahahahahahhahahahah

po, charles!
vamos ver se amanhã vc melhora, né?! rs.

bjo.

Giselly Olivetti disse...

Olha so.. concordo com uma unica coisa...odiava quando alguem falava que trompete era corneta...
poxa trompete é trompete!

Mas que cara boçal...ridículo!
Eu bateria a porta na cara dele e ia sozinha!
auhauhauahuahauhauha..

ADOREI luuuu!!1

Beijoss

Yara Lopes disse...

Nossa você é bom...
Quer ser jornalista?
Escreve bem de verdade,é interessante a criatividade, tambem gosto de escrever, mas não estou tão bem assim como você...
Parabéns