segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O NATAL DE LUANA

Parte I:

No início de dezembro, Luana já pensava como seria o seu Natal. Não queria passar a data como nos anos anteriores, apenas com o pai, Marcos, e a madrasta, Patrícia. Rômulo, primo e, agora, namorado de Luana, tentava convencê-la a passar o Natal com ele, na casa de seus pais. Luana sabia do imenso corre-corre do pai na administração de seus supermercados, naquela época do ano. Ofício que sempre privou Luana de conhecer o restante daquela enorme família. Se não fosse a morte da prima de Marcos, a Arlete, talvez, Luana e Rômulo jamais tivessem se conhecido [vide série “Duas”].

- Acho que o primo Marcos não se importaria de você passar o Natal comigo.
Dizia Rômulo.
- Meu pai gosta muito de você, Rômulo, e vem aceitando nosso namoro como jamais pensei que fosse. Mas não sei até que ponto me autorizaria a passar o Natal longe dele.
- Pois é. Por isso queria que seus pais também fossem para lá.
- Isso seria ótimo, mas você não tem idéia da imensidão de trabalho que meu pai acumula nesse período do ano. Meu pai sai cedo de casa e só chega bem tarde. Às vezes, vira até a noite no escritório. Estou acostumada a vê-lo chegar em casa, no dia 24 de dezembro, quase às onze da noite. Trocamos os presentes, conversamos um pouco e vamos todos dormir. Sempre foi assim.
- Nossa. Um Natal meio chato, não?
- E como. Mas entendo o lado dele. É o trabalho dele. É o que nos mantém. Tenho muito orgulho de meu pai.
- Eu também teria, Luana.

Naquele dia, Rômulo insistia ficar na casa de Luana até a chegada de Marcos, a fim de conversar com o primo-sogro sobre seus planos para o Natal.
- Rômulo, meu pai chegará muito tarde e, provavelmente, muito cansado. Não sei se conseguirá. Outra: Celeste vai embora daqui a pouco. Não sei se meus pais vão gostar da idéia de nos encontrarem aqui sozinhos.
- É. Eu também acho. Farei o seguinte, Luana. Ficarei aqui até sua empregada ir embora. Caso ele chegue antes, ótimo. Caso contrário, darei um jeito de falar com ele em uma outra hora.
- Isso. Mas enquanto ele não chega...
- Ah?
Rômulo, rindo, fingia não entender.
- Vem me beijar, vem?
Luana e Rômulo caíam no sofá. Quase sem querer, Rômulo sobre Luana. Celeste logo aparecia na sala para uma interrupção.
- Luaaana!
O nome da menina, dito de forma séria por Celeste, já era o suficiente para que o clima fosse quebrado na hora.
- Rômulo, não faz isso.
Dizia Luana a brincar, dando uma leve tapinha no braço do namorado.
- Foi você quem me puxou, Luana.
Eles riam da situação e voltavam a conversar.

Marcos e Patrícia, para a sorte de Rômulo, chegavam em casa antes de Celeste sair.
- Oi filha! Oi Rômulo!
Diziam o casal.
- Chegou cedo, papai.
- Só passei aqui para pegar uns documentos. Patrícia irá ficar, mas eu ainda volto para o escritório.
- Você teria um tempo para mim, primo?
Perguntava Rômulo.
- Um tempo não, mas um tempinho sim. Pode dizer.
- É que estava conversando com a Luana sobre vocês passarem o Natal lá em casa, esse ano. O que acha?
- Olha, Rômulo, eu agradeço o convite, mas eu acho um pouco inviável. Luana já deve ter lhe explicado o porquê, não?
- Sim, sim. Explicou. Mas eu tenho uma idéia. A Luana podia ir antes lá para casa. O senhor e sua esposa poderiam chegar lá quando desocupassem do supermercado.
- A idéia me parece boa. Mas não queria chegar lá justo na hora da ceia. Seria um pouco desagradável.
- Que isso, primo? O senhor é da família! Não tem essa.
- OK! Fica combinado assim. Eu dou um jeito de levar Luana antes. Eu e Patrícia passamos por lá quando estivermos livres.
- Ótimo! Todos lá em casa adorarão a notícia de que passarão o Natal conosco, primo.
- Fico feliz, Rômulo. Agora me deixe ir. Até mais.

- Viu, Luana? Fácil.
- Você... Você tem um dom de convencer, sabia disso?
Dizia uma Luana tomada de felicidade.
- Eu? Quem me dera. Se eu tivesse mesmo, convenceria a lua a vir até aqui iluminar os nossos beijos. Bem aqui na sala.
- Fofo.
- Deixe-me ir, Luana. Missão cumprida. Beijos!
- Beijos!

* * *
No dia 24 de dezembro, tudo corria como combinado. Marcos deixava Luana na casa de Rômulo por volta de seis da tarde, na promessa de tentar retornar com Patrícia antes das onze.
- Luana, comporte-se por aí.
Dizia Marcos antes da menina saltar do carro.
- Eu sei, papai.
- Eles são nossa família, mas há anos não os vemos. Então, toda educação ao falar e ao tratar cada um deles, entendido?
- Fala como se eu fosse uma mal-educada. Cruzes!
- Sei que não és. Mas não custa ressaltar. Se tu és bem-educada é porque eu lhe friso isso todo o tempo.
- Pode deixar, papai. Estarei lhe esperando, OK? Beijo!
- Beijo, filha. Fica com Deus. Até mais tarde.
- Até.

Parte II (Final):

À noite, a família de Rômulo já estava toda presente para a ceia. Luana era paparicada a todo tempo pelas tias, primas etc. “Mas olha só que linda!” “É a filha de Marcos? Nossa! Mas está uma gracinha!” “É! Eu a vi no enterro de Arlete. Está uma menina linda!” “Está namorando o Rômulo? Mas esses jovens de hoje...”.

- Todos te adoram, Luana! Viu? Não fico surpreso com o sentimento que sinto por ti. Não se apaixonar por você é coisa impossível a qualquer ser humano.
- Pára, Rômulo. Assim eu não sei o que dizer. Fico sem graça. Pára.
- Não tem motivos para isso, Luana. Você exala simpatia pelos poros. O que posso fazer a não ser lhe comprovar isso através do que sinto?
- Vem me beijar, vem.
Luana aproveitava o momento em que estavam sozinhos à varanda.
- Que bonito!
Uma voz vinha de trás do casal. Era Gisele, também prima de Rômulo.
- Oi Gisele.
Cumprimentava Rômulo.
- Podem continuar. O beijo de vocês, assim, sob as estrelas dessa noite tão especial, está de emocionar. Vamos, continuem!
- Não entendo o que quer dizer, Gisele. É deboche?
- Não vai me apresentar nossa nova prima, Rômulo?
- Para início de conversa, Luana sempre foi nossa prima. Apenas andou afastada.
Luana arregalava os olhos. Assustada e sem entender nada da entonação de voz com que os dois se falavam, ficava calada.
- Luana, essa é a Gisele. Nossa prima.
Apresentava Rômulo.
- Muito prazer, Luana. Mas para a ocasião, acho que não devo ser apresentada como prima, mas como ex-namorada!
- FICOU MALUCA?
Rômulo gritava.
- Como é?
Questionava Luana.
- É isso mesmo, Luana. O seu namoradinho aí parece querer colecionar primas em seu currículo. Você não é a primeira, Luana. Fique sabendo. E nem eu fui! Abra seu olho!
Gisele se retirava da varanda com ar de missão cumprida.

Rômulo não sabia o que dizer, a princípio. Luana ficava estática. Não sorria, não chorava. Não dizia absolutamente nada.
- Luana, não acredite nessa garota, por favor. Eu posso lhe explicar tudo.
- Rômulo, não precisa me explicar nada. Eu não tenho nada com o seu passado. Mas também não gostaria de ser mais uma prima que o Rômulo pegou. Você tem noção do que você significa para mim? Do que seu beijo foi para mim?
- Ela é maluca, Luana. Sempre se insinuou para mim. Eu nunca tive nada com ela. Acredite em mim. Ela está com ciúmes de você.
- Olha, Rômulo, seja lá o que for, ouvir aquilo tudo não foi nada fácil. Quero ir embora.
- Não! Por favor! Não vou te perder por causa dessa mentira. Nem que eu faça a Gisele vir aqui e desmentir tudo.
- Não estou terminando nosso namoro, Rômulo. Só quero ir para casa.
- Mas...
- Por favor. Amanhã, se quiser, você passa lá em casa para conversarmos.
- Como vai fazer?
- Vou ligar para o meu pai e pedir que venha me buscar.

* * *
Sem entender nada, Marcos e Patrícia buscavam Luana, que se encontrava cabisbaixa, completamente o oposto da menina que Marcos ali deixara horas antes.
- O que houve, minha filha?
- Nada, papai.
- Nada? Você me liga com uma voz péssima, me pede para buscá-la antes da hora e agora me diz que não houve nada?
- Marcos – interrompia Patrícia –, a gente se despede de seus familiares, dá alguma desculpa e pronto. Em casa, sim, se Luana quiser, conversaremos.
- OK.

Já em casa, Marcos desabava sobre o sofá. Patrícia assistia Luana subir calada até o seu quarto.
- Não quer conversar, Luana?
Perguntava Patrícia.
- Quero. Só vou trocar de roupa.
- OK. Estaremos aqui.

Minutos depois, Luana descia com Mimi, sua gata, no colo. Vestia roupas de dormir e parecia mais exausta que o pai e a madrasta.
- O que aconteceu, filha?
Perguntava Marcos.
Luana contava todo o ocorrido. Parecia prender um choro que acumulava forças.
- Então quer dizer que o Rômulo é o pegador da família.
Dizia Marcos furioso.
- Não, papai. Quer dizer, eu ainda não sei. Eu não quis que ele explicasse nada na hora. Só quis vir embora. Senti-me muito mal.
- Mas se esse garoto pensa que isso vai ficar assim...
- Marcos – dizia Patrícia –, ainda não ouvimos o Rômulo. Calma.
- E precisa? Bem que eu desconfiava. Muito educado e todo cheio de palavras... É por essas e outras que não faço a mínima questão de me unir a eles. Família. Argh! Luana, eu não quero mais saber de você com o Rômulo. Estamos entendidos?
- LUANA!
Rômulo gritava do portão.
- Era só o que me faltava. O que mais esse garoto quer? Mande-o embora, Patrícia.
Dizia Marcos.
- Não. Deixe o garoto entrar. Para todos os efeitos, nem trair a Luana ele traiu. Vamos ouvi-lo.
Dizia Patrícia, que ia até o portão recebê-lo.

* * *
- É tudo mentira da Gisele, Luana. Por favor, acredite em mim! Primo! – dirigia-se a Marcos – Você é homem e sabe como age uma mulher tomada pelo ciúme...
- Opa! Tire-me dessa, Rômulo. Eu não vou ajudá-lo em seus argumentos. Eu não.
- Rômulo e Luana, Marcos e eu estaremos na cozinha. Fiquem aí e conversem.
Aconselhava Patrícia.

- O que tem para me dizer, Rômulo?
Perguntava Luana.
- Olha, Luana, eu posso sair daqui sem o seu amor, sem o seu carinho, sem a sua confiança. Eu posso sair daqui sabendo que nunca mais a terei como a tive. Posso sair daqui tendo você apenas como prima novamente. Mas precisa acreditar que nada do que a Gisele disse é verdade. Como já lhe falei, a Gisele é doida por mim. Sempre foi. Ela não aceitou toda a forma carinhosa como meus familiares lhe trataram. Ela não tem nem um décimo de sua simpatia e de sua beleza. Mais: Ela não tem um centésimo da importância que tu tens na minha vida! Luana, eu te amo! E me dei mais conta disso ao vê-la partir lá de casa. Acredite em mim! Eu nunca tive nada com aquela louca e nem com prima alguma!
- Isso também não importa, Rômulo. Acredito em você. E passado todos nós temos. O mais importante de tudo isso foi o que acabou de me dizer. Que me ama. Só não quero mais ter que cruzar com aquela menina novamente. Só isso. E espero estar fazendo a coisa certa.
- Provarei com o tempo que está, Luana.
- Como largou sua família no meio da ceia? O disse a eles?
- Não disse nada.
- E eles?
- Não me importa. Só você me importa.
- Ai, Rômulo! Vem me beijar, vem.

Marcos e Patrícia ouviam tudo da cozinha.
- Ah! Fizeram às pazes! Que lindos!
Dizia Patrícia sorridente.
- Vou respeitar a decisão de Luana, Patrícia. Mas ficarei de olho nesse garoto.
- Bem, feliz Natal, meu amor.
- Feliz Natal, Patrícia.

Na sala:
- Feliz Natal Rômulo – desejava Luana.
- Feliz Natal, Luana. Eu te amo.
- Eu também.
Eles se beijavam.

* * *
Foto da capa: Ana Claudia Temerozo.
Mais histórias sobre Luana nas séries "Luana" e "Duas".

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

AQUELE NATAL

Às 11:30h do dia 24 de dezembro, eu chegava até a janela de meu quarto após uma noite mal dormida. Cabeção, meu grande amigo, já se encontrava debruçado à sua, ao lado da minha. Cabeção estava em silêncio. Apenas observava o meu rosto, que não estava nada bem. Com os olhos bem vermelhos, a face ainda amassada pelo travesseiro e o cabelo feito um ninho, eu olhava para o lado e me dava conta da presença dele.
- Fala, Cabeção.
- O que houve com você? Está com uma cara horrível.
- Dormi pouco. Quando preguei os olhos, já deviam ser mais de quatro.
- Vai lavar esse rosto. Melhora.
- Já vou, mas me espera aí. Eu já volto. Preciso falar com você.
- OK.

Eu lavava o rosto, escovava os dentes e penteava o cabelo de forma rápida. Passava na cozinha, abria um pacote de biscoito recheado e voltava à janela.
- Pronto – eu dizia.
- Está melhor.
- É. Nada como uma água gelada na cara.
- É. Mas diga. O que você queria falar comigo?
Perguntava Cabeção.
- Ah! Sim. Lembra da Silvana? Lá da rua 14 de Outubro.
- Aquela que você andou dando uns beijos?
- Isso! Aquela gracinha.
- Sim. O que tem ela?
- Eu liguei para ela, essa noite.
- E?
- Forcei a maior barra para nos vermos, mas me parece que ela não engoliu minhas palavras.
- Eu te conheço, Douglas. Você deve ter falado um monte de merda.
- Juro que não. Eu realmente estou louco de saudades dela.
- Daqueles seios deliciosos, você quer dizer.
- Pára. É sério. Ontem, eu acordei com imensa vontade de beijá-la. Não parei de pensar nisso um instante. Então, à noite, eu resolvi ligar para ela.
- Mas o que você disse a ela?
- Ah! Quer saber, Cabeção? Dá um pulo aqui. Vamos jogar um pouco.
- OK. Vai ligando essa geringonça que você chama de videogame.
- É? Geringonça? Pois fique sabendo que, na década passada, o Super Nintendo foi o melhor videogame de 16 bits no mercado. E...
- Basta! Estou indo para aí.
Cabeção me cortava. Aquilo renderia um discurso imenso.

A minha mãe preparava mil coisas ao mesmo tempo para a ceia de Natal. O cheiro de todos aqueles ingredientes trazia às mentes minha e de Cabeção lembranças do Natal passado.
- Você estava com a Silvana no Natal passado, não?
Perguntava Cabeção enquanto forçava os botões do joystick.
- Sim. Estava. Lembro que morri numa boa parte de minha mesada com o presente que dei a ela.
- Lembro dela por aqui no dia 25. Estava uma gata.
- Opa!
- O que foi? Você não está mais com ela, Douglas.
- Mas a fiz uma proposta para voltar. Isso faz com que eu exija de você um pouco mais de respeito para com ela.
- Respeito? OK! Respeito àqueles seios maravilhosos! Isso sim.
- Cale a boca, Cabeção, e jogue! O meu boneco vai morrer por sua culpa. Atira! Atira!
- Estou atirando, merda!

Nós dois passávamos todo aquele dia ensolarado dentro no quarto. Era impressionante a capacidade que tínhamos de jogar e jogar aqueles jogos sem parar. À tarde, eu roubava algumas rabanadas preparadas por minha mãe, a fim de matarmos a fome.
- Vocês não vão almoçar? Já passam das duas!
Perguntava minha mãe.
- Não. Essas rabanadas já são um almoço!
- Mas não acabe com elas, por favor. É para a ceia, Douglas.
- OK.
Eu me apossava de quatro. Duas para mim e duas para Cabeção.

- Seu celular tocou, Douglas – dizia Cabeção assim que eu voltava ao quarto.
- Quem era?
- Eu sei lá.
- Deixe-me ver. (...) Ih! Adivinha.
- Silvana?
- Ela!
- Vai retornar?
- Agora não.
- Por que não?
- Na última fase de Sunset Riders? Ela espera um pouco.
- Isso – dizia Cabeção mordendo uma rabanada. – Mas está uma delícia a rabanada de sua mãe!
- Sempre está!

* * *
À noite, Cabeção aparecia na minha casa, como de costume.
- E aí? Vamos dar uma volta? A galera deve estar toda lá no bloco C.
- Não posso, Cabeção. Meus familiares começarão a chegar para ceia e...
- Entendi. E a Silvana? Ligou para ela?
- Liguei sim. Pegue duas cervejas lá na cozinha para a gente, vai. Eu te conto o que aconteceu.
- Já é!
Cabeção ia até a cozinha, abria a geladeira e alcançava duas latinhas, as mais geladas, e voltava correndo para me ouvir.
- E então? Diga.
- Bem – eu dizia –, primeiramente eu me desculpei por não ter retornado a ligação de imediato.
- Disse a causa? Ou seja, o videogame.
- Claro que não, Cabeção! Disse que estava a ajudar minha mãe com a ceia.
- E ela?
- Achou-me fofo.
- Canalha.
- Deixa-me falar, Cabeção!
- OK! Fala.
- Ela disse que me ligara a fim de conversar mais sobre a minha proposta. Conversamos. Eu estava mais criativo no fim da tarde, então, acho que me saí melhor do que ontem à noite.
- Mas ela aceitou ou não, merda?
- Disse que pensaria e, caso aceitasse, estaria na praça por volta de uma da madrugada a me encontrar.
- E se ela não aceitar?
- Não estará na praça.
- Assim? E você vai correr o risco de um bolo desse? Está na cara que ela não vai. Quer te fazer de otário, Douglas.
- Será?
- Caso ela aceite, o que é muito difícil, e apareça na praça, nossa, será um natal farto, não? Aqueles seios...
- Cabeção! Mais respeito!
- Mas você ainda nem pegou!
- Mas está marcado, ora. Ficou maluco?
- Sim. Maluco por aqueles seios. Não adianta, Douglas. Só vou ter algum respeito quando me disser que estão juntos novamente. E firme!
- Seu prego. Você não vale merda alguma.
Eu dizia. Nós ríamos.

* * *
Depois da ceia, eu me dirigia até a praça. Voava em minha bicicleta. Oswaldo, o porteiro, nem me via. Imaginava Silvana cheirosa e levemente embriagada de vinho. Imaginava-a sentada em um dos bancos daquela praça deserta, abrindo um sorriso ao ver me aproximar. Eu sorriria também.

Ao chegar à praça, eu não via ninguém. Dei voltas e voltas por toda sua extensão a fim de encontrar tudo aquilo que imaginara no caminho, mas nada. Apenas suava feito um porco com o calor que fazia naquela noite. Àquela altura, nem sabia se queria mais encontrá-la. Até que:
- Oi.
Era ela. Silvana tinha os seios médios para grandes e eretos como lanças. O cabelo, numa tonalidade ruiva, estava preso numa imensa trança. Usava uma curtíssima saia jeans e uma camiseta folgada que deixava a mostra suas marcas deixadas por aquele sol de dezembro. O rosto ligeiramente maquiado trazia na boca um batom leve.
- Eu temia que não aparecesse.
Dizia Silvana num sorriso que me fazia voltar no tempo.
- Eu também temia. Acho que até mais do que você. Mas eu gostei do seu jogo. Senti-me numa última fase, sabe?
- Não, não sei. Não curto games.
Eu tinha o dom de mandar mal.
- Você está linda e eu suado feito um mendigo.
- Não importa. Importa é que provaste a mim que me desejas.
- Você nem sabe o quanto, Silvana.

Nós nos beijávamos e deixávamos aquele calor infernal tomar conta de nossos corpos. Aquela nossa volta teve um início lindo, mas não duraria muito. Duas semanas depois, eu já estaria sozinho novamente e a desejar uma outra menina: a Lívia. Coisa que nem gosto de lembrar. Mas essa história eu já contei, não? [vide “Aquele Verão”].

* * *
Mais histórias sobre Douglas em “Tapete Testemunha” I, II e “Aquele Verão”.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O NATAL DOS LOPES

A família Lopes mantinha uma tradição há mais de duzentos anos. Ela possuía uma imagem da Virgem Maria esculpida em madeira por um artista português. Essa imagem ficava sempre sob a guarda da primeira Maria de cada geração. Até então, Maria do Carmo Lopes, vinte e oito anos, tinha a posse daquela imagem, que não podia ser vendida ou doada, mas sim, estar à disposição para a posse da primeira Maria da geração posterior a dela.

O destino, até então, provera apenas homens na família Lopes. O que dava o direito de Maria permanecer com a imagem. Imagem esta que era cuidada com muito carinho. Devido à idade da peça, a mesma devia ser privada de deslocamentos. Se possível, apenas na passagem de posse. Maria se sentia feliz em ter a escultura da Virgem Maria em sua sala. Filha de pais muito religiosos, a moça tinha um apego muito especial pela peça, além de sentir até um pouco de medo de perdê-la.

Na nova geração dos Lopes, havia Carlos, de quatro anos, Tadeu, de sete, Lucas, de oito, Jorge, de nove, e, o mais velho, Roger, de dezoito. Roger era um jovem que sempre se mostrara problemático. Se já não bastasse a sua homossexualidade, o que afrontava toda uma família firme ao catolicismo, Roger também era usuário de drogas e garoto de programa desde os dezesseis. Vivia longe da família, na casa de uns amigos de mesma profissão. Os pais de Roger não conseguiram segurar as rédeas do menino. Perderam o controle da situação quando ele ainda tinha quatorze anos. Mas na verdade Roger já nem era considerado membro dos Lopes. Já não aparecia para a família há dois anos.

No dia 20 de dezembro, Roger telefonava para sua mãe, Cassandra.
- Mãe?
- Roger? Está vivo? O que houve? Só pode ser problema.
- Não houve problema algum, mãe! Houve solução!
- Fala logo que eu estou com pressa. Não tenho tempo para ficar de papo com pervertidos feito você!
- E nem eu com velha beata!
- Ah?
Espantava-se Cassandra.
- Escuta. Vou passar o Natal aí com vocês. Ouviu?
- Era só que me faltava! Você? Aqui conosco? Não perca seu tempo, garoto. Não é bem vindo aqui!
- Você vai fechar a porta para mim?
- A ceia nem será aqui, este ano, Roger.
- Vai sim que eu já sei!
- Quem lhe disse?
- Meu primo Jorge!
- Olha, fique longe do Jorginho! Ele é uma criança! Deixe só o pai dele saber que esteve com ele!
- Não enche! Não sou pedófilo! Escuta! Eu tenho uma novidade para vocês!
- E o que é?
- Surpresa, mamãe! No dia 24 a gente se vê. Vai preparando a família para a minha presença, OK?
- Não sei se aceitarão você aqui.
- É o que veremos. Tchau!
Cassandra não sabia o que fazer. A presença de um filho como o Roger na ceia de Natal seria um problema.

No dia seguinte, Cassandra ligava para Maria:
- Maria, aqui é a Cassandra. Tudo bem?
- Conheço sua voz, prima. Diga.
- Adivinhe quem me telefonou.
- Quem? Não me diga que...
- O Roger!
- Meu Deus! E o que ele queria?
- Quer vir passar o Natal conosco.
- Nossa!
- Eu tenho medo. Ele pode vir sob efeito daquelas porcarias que ele usa, sabe? Ele já sabe que a ceia será aqui em casa. Estou te ligando para perguntar se podemos transferi-la para a sua casa.
- Claro que sim, Cassandra. Sem problemas. Avise a todos.
- Está bem.

* * *
No dia 24, toda a família Lopes se reunia na casa de Maria. A felicidade reinava naquela casa. As crianças brincavam e os adultos conversavam e se divertiam com as histórias da mãe de Maria, D. Iolanda.

Batidas na porta.
- Eu atendo.
Prontificava-se Maria, que abria a porta.
- Oi prima!
Cumprimentava um Roger totalmente travestido de mulher.
- Minha nossa! Roger?
- Roger não, prima! Maria do Socorro! Operei!
- O quê?
- Dá licença, prima.
Roger invadia a casa de Maria do Carmo com um ecoante “feliz Natal”.

Todos permaneceram em silêncio. Não sabiam o que dizer a respeito da transformação de Roger.
- O que foi? Perderam a língua, foi? Ou deixaram cair na sacola da igreja? Operei!
- ESCUTE AQUI, ROGER!
Gritava Maria do Carmo.
- Roger não! Já falei! Agora sou Maria do Socorro. E a propósito, segundo a tradição familiar, acho que aquela imagem da Virgem Maria ali me pertence, não?
- NÃO FALE BESTEIRA! VOCÊ NÃO É MARIA! NUNCA SERÁ! NEM LOPES VOCÊ É MAIS! VOCÊ É ROGER! UM ROGER QUALQUER!
Berrava Maria do Carmo.
- É mesmo? Então vamos ver quem vai me impedir de levar esse toco de madeira portuguesa!

Naquele instante, começava uma briga onde eram todos contra Roger, que tentava chegar até a imagem a todo custo. Vendo-se na desvantagem, o travesti puxava uma navalha de dentro da bolsa e ameaçava toda a família.
- QUEM VAI QUERER ABRIR UMA BUCETA NA CARA? QUEM?
Gritava Roger. Todos permaneciam distantes e quietos, porém, revoltados.

Roger, andando para trás, chegava até a imagem. Pegava a Virgem Maria quase a deixando cair, para susto de todos.
- Calma gente! Vocês acham que eu vou dar um mole de quebrar essa grana? Isso deve dar para um fim de semana coberto de neve, se é que vocês me entendem.

Roger ensaiava uma fuga ameaçando a todos. Ao chegar de Roger à porta, Maria era tomada por uma ira jamais vista. Num salto, alcançava a imagem nas mãos de Roger e a puxava com força. Roger, num reflexo, rasgava-lhe o rosto com sua lâmina. Maria gritava de dor, levava as mãos à bochecha ensangüentada e largava a imagem, que se quebrava ao chão. O filho da Virgem Maria, menino Jesus, não mais fazia parte da obra. Separavam-se na queda. Como Roger do colo dos Lopes.

Roger saía correndo e deixava apenas os pedaços. Pedaços da carne facial de Maria do Carmo, pedaços de uma tradição e pedaços de uma ceia natalina.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

SEGUNDO TEMPO II (Final)

Atendendo a pedidos, posto hoje, dentro de Contos de Natal, a continuação de "Segundo Tempo". Espero que curtam!

Leia AQUI a Parte I

Depois de ver que sua amiga Pâmela não havia dado a mínima para as provas que tinha contra seu noivo, o Glauber, Adalberto resolvia distanciar-se. Que papelão. Com fotos comprometedoras da traição de Glauber nas mãos, teve de se contentar com a silhueta sensual do casal pela janela. Não estava certo. Glauber tinha uma amante e Pâmela sabia disso. Porém, a moça parecia não querer enxergar tal punhalada. Ou não se incomodava com a dor que esta causava. Punhalada? Dor? Na verdade não havia dor alguma! Ela aceitava e pronto!

Adalberto não via Pâmela há dois dias. Pâmela sabia o motivo de seu sumiço, mas mesmo assim resolvia ligar para o amigo a fim de explicações.
- Adalberto?
- Oi. O que quer?
- Calma! Apenas conversar.
- Comigo não, Pâmela, por favor.
- Quer dizer que o ocorrido vai prejudicar a nossa amizade, Adalberto?
- Esse “ocorrido” foi a maior vergonha e decepção de minha vida, Pâmela. Fique sabendo disso.
- Decepção por quê? A traída não sou eu? O cafajeste não é o Glauber? Você é apenas o meu amigo. Não tem motivos para se envergonhar ou se decepcionar.
- Ah! Eu não acredito no que estou ouvindo. Você chama o seu próprio noivo de cafajeste e se chama de traída assim, na maior naturalidade?
- Ora, Adalberto, eu...
- Não diga mais nada, Pâmela. Se você acha que merece tal destino, siga em frente. Case-se com esse cara.
- Está falando como alguém que tem ciúmes.
- Estou falando como alguém que lhe ama!
- Como é?
- Isso mesmo que você ouviu! Eu te amo, Pâmela!
- Você só pode estar brincando.
- Eu? Brincando? Não! Não mesmo! Você é quem brinca o tempo todo, Pâmela. Está brincando inclusive com a sua felicidade.
- Espere aí. Se você me ama, por que nunca me disse?
- Porque nunca tive a oportunidade de estar junto a ti sem que você tocasse no nome de seu noivo. Além disso, nossa amizade estava correndo por caminhos que tornariam cada vez mais difíceis tal declaração.
- E por que escolheu esse momento para dizer?
- Acho que um dia você precisaria saber.
Pâmela ficava em silêncio. Foram exatos trinta segundos de silêncio total.
- Não vai falar nada?
- A gente se fala, Adalberto.
Ela desligava.

Adalberto não sabia o que pensar. Não sabia o que Pâmela tinha achado de sua declaração. Poderia ter findado uma amizade ali mesmo, naquele telefonema, naquela frase. Dizer “eu te amo” nunca é normal. Ou é bom ou é ruim. Depende de quem ouve. Mas essa resposta Adalberto não tinha. Tinha apenas o silêncio de Pâmela na lembrança. “Dane-se também”, pensava Adalberto.

* * *
Dias depois, Pâmela ligava novamente para Adalberto:
- Adalberto?
- Diga.
- Nossa, que frio você.
- Diga.
- Dizer o quê, Adalberto?
- Ora, só se telefona para alguém quando há a intenção de dizer algo, não?
- É que eu quero saber se vai passar aqui amanhã. Para a ceia de Natal. Como sempre faz.
- Não creio.
- Não crê em quê? Não crê que venha ou não crê no nascimento de Jesus Cristo?
- Não creio que esteja me convidando, Pâmela.
- Não creio que vá negar, Adalberto!
- Pois creia.
- Não creio!
- O Glauber estará aí?
- Não.
- Nisso eu creio.
- Por quê?
- Porque ele nunca está aí! A menos que queira satisfazer suas necessidades sexuais.
- ADALBERTO! ISSO É JEITO DE SE FALAR?
- Não. Mas também não é jeito de se agir com a própria noiva.
- Olha, o convite está feito. Caso queira aparecer, apesar de tudo, será bem vindo.
- Passará sozinha?
- Sim.
- E por que o Glauber não estará contigo?
- Passará com a família dele.
- Sua futura família, não?
- Não mais. Eu não queria lhe dizer, mas nós terminamos.
- Sério?
- Sim.
- E por que não queria me dizer?
- Eu queria, mas não com palavras.
- E queria com o quê?

* * *
No dia 24 de dezembro, Adalberto, ofegante, tocava sua campainha de Pâmela. Pâmela abria a porta e o olhava com olhos arregalados e com um sorriso surpreso no rosto! No aparelho de som: A Charlie Brown Christmas do Vince Guaraldi.
- Mas esse CD é aquele da trilha sonora do especial natalino do Snoopy! Que nós amamos!
Dizia Adalberto assim que a porta se abria.
- É SIM! VOCÊ VEIO!
Dizia uma Pâmela transbordando de felicidade.
- Sim! Agora me diga que não há mais Glauber na sua vida, mas não com palavras. Diga-me como pensara dizer!
- OK!
Pâmela puxava Adalberto pela blusa para dentro de sua sala. Laçava-o com as pernas, como fazia com o ex-noivo e o beijava com desejo voraz. Ao caírem no sofá, o cotovelo de Adalberto esbarrava na árvore de natal de Pâmela. Bolas e lâmpadas natalinas espalhavam-se pelo chão a enfeitar uma cena de amor inédita aos dois.

* * *
- Não entendi, Pâmela. Éramos amigos até eu dizer que lhe amava.
- Pois é.
- E o que a levou a terminar tudo com o Glauber? Repensou nas fotos que eu tirei?
- Não! Pensei nas palavras que me disse. Com Glauber eu tinha um bom sexo, carinho e a promessa de uma vida estável. O que me fazia relevar os seus deslizes. Porém, eu não ouvia um “eu te amo” desde que noivei. Você me fez dar conta disso. Agora me beija, anda!

Adalberto e Pâmela amavam-se ao som de temas que os remetiam a lugares mágicos. Era como se lembranças de uma antiga e bela amizade fossem levemente apimentadas pelo tesão mútuo.

[Fim]

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

NADA MAU PARA UM NATAL

23 de dezembro. Jorge e Cícero preparavam-se para o recesso de fim de ano da empresa onde trabalhavam. Todo o setor administrativo somente estaria de volta ao trabalho no mês de janeiro. Jorge já não pegava em serviço algum desde meados do mês corrente. Já Cícero, cumpria alguns trâmites a fim de se manter ocupado às vistas de seus superiores.
- Cícero, meu caro, o que está fazendo em pleno último dia de expediente do ano?
- Cumprindo o expediente, logicamente, Jorge.
- Você é um prego mesmo. As outras salas trocando presentes de amigo oculto e nós aqui tendo que aturar o barulho de seu teclado infernal.
- Jorge, eu não posso trabalhar sem usar o teclado. Ainda não inventaram silenciadores de teclas. Então, sugiro que arrume algo para fazer.
- Já arrumei.
Jorge ia até sua mesa, esticava as pernas sobre ela e ficava a apreciar o traseiro de Aline, a estagiária, que se encontrava à janela.
- Jorge, eu me referia a trabalho.
- E observar essa gostosura que é a Aline não dá um trabalho danado, Cícero? Procure uma imperfeição nesse corpinho. É trabalhoso, meu caro.
- Faça o que você quiser.

Aline acendia um cigarro e olhava para trás. Sabia que Jorge estaria a observá-la, como sempre.
- Está sabendo do sorteio, Jorge?
Perguntava Aline.
- Que diabo de sorteio?
- Parece que vai rolar um sorteio para decidir quem se vestirá de Papai Noel no dia 25. Só para os homens, é claro.
- Papai Noel? Dia 25?
- Deixe que o explique, Aline – Cícero interrompia – Todo final de ano, a empresa faz uma caridade a um orfanato aqui de perto. Um funcionário, devidamente sorteado, se veste de Papai Noel e distribui alguns presentes às criancinhas de lá.
- Ora, Cícero, não é mais fácil escolher o mais gordo? Aqui ao lado tem um que deve pesar uns duzentos quilos. O Wilson.
- Pois é, Jorge, mas seria injusto o Wilson ser o Papai Noel todo ano. E além do mais, a fantasia de Papai Noel possui enchimentos o suficiente. Dessa forma, até o magricelo de Sandro, do RH, pode facilmente ser o sorteado.
- Quando eu trabalhava no setor de entregas, não ouvia nem falar dessa tradição.
- É que somente uma determinada camada da empresa participa dessa tradição, Jorge.
- Entendi. O fato é que eu odeio criancinhas. Mais ainda nessa época do ano. São pidonas demais.
- Eu adoraria vê-lo de Papai Noel, Jorge.
- Dizia Aline.
- Algum tipo de fetiche, Aline?
Perguntava Jorge imaginando a estagiária vestida sensualmente de Mamãe Noel. Uma Mamãe Noel avassaladora.
- Não. Apenas uma vontade louca de...
- De?
- De dar umas boas risadas.
- Aline, fique sabendo que... Deixa.

O sorteio estava marcado para o fim do expediente, às cinco da tarde. Jorge almoçara pensando o quanto seria incômodo vestir-se com aquela roupa quente naquele calor que fazia. Os enchimentos deviam ser de espuma. Isso! Poderia inventar uma alergia à espuma ou ao tecido da fantasia. Cetim, provavelmente. Pronto! Resolvido.
- Pronto! Resolvido, Cícero!
- O que foi?
- Caso eu seja sorteado, eu posso inventar algum tipo de alergia, e...
- Todos dizem o mesmo, Jorge. Não seja tolo. Além do mais, acho que você não vai querer se queimar diante da diretoria da empresa. Caso seja sorteado, simplesmente cumpra o seu papel. Papel de Papai Noel. Viu? Até rimou.
- Vai para o inferno, Cícero. As chances são mínimas. Não vou me preocupar.
- Não precisa mesmo, Jorge.

* * *
Findado o expediente, todos se reuniam na recepção do edifício para o tão temido sorteio. O diretor da empresa mencionava algumas palavras:
- Caros funcionários. Como em todos os anos, estamos aqui reunidos a fim de, por intermédio de sorteio, escolher a pessoa que terá o prazer de entregar presentes, no dia 25, às crianças do orfanato São Sebastião. É preciso lembrar que essas crianças não têm o mesmo carinho e a atenção que seus filhos. Sendo assim, espero que o sorteado deste ano, assim como em todos os outros, aceite com muito amor a tarefa que lhe será entregue. OK? Vamos ao sorteio.

O diretor tinha em mãos um saco no qual depositava papéis com os nomes de cada um dos funcionários.
- Bem, pelo menos o sorteio é bem justo. Os nomes dos diretores também estão no saco.
Dizia Jorge a Cícero.
- É.
-
E O SORTEADO DESTE ANO FOI...
Dizia o diretor.
- Deus...
Rezava Jorge.
-
JORGE SILVA! Onde está o Jorge Silva?
- Aqui!
Lamentava o pobre Jorge.
- Que delícia, Jorge! Estou pensando seriamente em ir lhe ver vestido de bom velhinho.
Aline o provocava.
- Para o inferno, Aline!
- Vai ser bom, Sr. Jorge. Parabéns.
Dizia Wilson ao seu lado.
- Obrigado.
Jorge tinha vontade de surrá-lo. Cícero ria da cena.

* * *
Na manhã do dia 25 de dezembro, Jorge chegava ao orfanato se coçando horrores. Ele descobrira que realmente era alérgico ao tecido da fantasia. Cetim. Um calor infernal e um Jorge que, por conta da tarefa, não bebera quase nada no dia anterior. Jorge só pensava o quanto seria bom se as provocações de Aline tivessem um fundo de verdade. Aquela delícia num uniforme sexy-natalino seria demais.

- PAPAI NOEL!
Gritavam as crianças.
Jorge permanecia calado. Até que um menino chegava até o “Papai Noel” e resolvia apalpar-lhe.
- Ele sempre faz isso. Ele nos pergunta se Papai Noel é realmente gordinho.
Explicava uma das funcionárias do orfanato.

Jorge vira no menino coisa que jamais prestara atenção. A solidão que aquela criança carregava transformava-se em uma alegria contagiante ao apalpar a pança do Papai Noel.
- Ele é gorducho!
Dizia o menino.
- Sim... Eu sou...
- Dá um abraço, Papai Noel?
Jorge agachava-se e abraçava o menino que o tateava a todo instante.
- Você trouxe meu presente?
- O... O que foi que você pediu mesmo?
- Eu lhe pedi uma bola, Papai Noel.
- Ah sim! Uma bola.
Jorge entregava-lhe a única bola do saco, mas percebia que o menino simplesmente abraçava o presente ao invés de chutá-lo, como faria qualquer menino.
- Esse... Esse vai ser goleiro.
Brincava Jorge.
- O Paulinho é cego, senhor.
Explicava a funcionária do orfanato.
- (...)
Jorge entregava suas tímidas lágrimas de vez.

* * *
Na volta para casa, o celular de Jorge tocava. Era Aline.
- Como foi no orfanato, Papai Noel?
- Aline, se não estiver disposta a realizar uma fantasia sexual de um senhor exausto, pode desligar.
- Então, OK! Tchau, Papai Noel. Até janeiro.
Aline desligava sem perder o bom humor.
- Dane-se.
Dizia Jorge a si mesmo.

* * *
Já no andar de seu apartamento, Jorge se deparava com Aline à sua porta. Ela carregava uma bolsa enorme nas mãos.
- Que diabos faz aqui, Aline? Você...
- Ah! É assim? Então eu vou embora!
- Não! Fique! Como sabia onde eu morava?
- Não é difícil quando se trabalha na mesma empresa, Jorge.
- Ah sim! Claro!
- Trouxe um bom vinho. Você deve estar seco, não?
- De tudo que você possa imaginar. Seco de tudo. Mas não estaria disposta a matar todas as minhas securas. Então, eu aceito apenas o vinho.
- Apenas o vinho? Eu venho disposta a ser uma Mamãe Noel e você vai aceitar apenas o vinho?
- O quê?
- Convide-me para entrar, Jorge, e eu lhe mostro o seu presente.

Que belo Natal o de Jorge. Aline, a estagiária mais gostosa que já passara naquela empresa, lhe proporcionara prazeres que nem Sheila e Laura juntas [vide “Quem Você Quiser” I e II] seriam capazes. A sua manhã no orfanato o libertava da implicância que tinha com crianças. Ele estava inclusive disposto a adotar o Paulinho.

O sorteio, as gozações, o calor, o cetim, a alergia. Tudo correra bem e estivera a seu favor naquele Natal. Ele refletia.

* * *
Mais histórias de Jorge Silva nas séries “Quem Você Quiser” e “Pela Cidade”.