sexta-feira, 30 de maio de 2008

TAPETE TESTEMUNHA

- Sei que sua resposta será "não", mas você quer namorar comigo?
Perguntei.
- Se sabes que a resposta é "não", por que perguntas?
- Porque preciso ouvir de você. De mim eu já cansei de ouvir.
- Está preparado então?
- Sim. Pode falar.
- Sim, eu quero namorar você, seu bobo.
Michele respondeu aquilo enquanto mascava um chiclete.

Michele e eu tínhamos 15 anos. Estávamos no auge de nossa ociosidade naquele dia. Estávamos de férias. Era o um mês repleto de festas juninas e o inverno, sempre o inverno, deixava aquelas tardes ainda mais atraentes. Semanas antes de eu receber aquele "sim" com gosto de menta eu notava que não era por falta de casaco que Michele ia para rua tremendo de frio. Eu sempre oferecia o meu moletom para ela. Eu ficava com frio, lógico, mas achava uma gracinha quando ela se encolhia sob aquelas mangas enormes e ficava elogiando o amaciante que minha usava para lavá-lo. Só um idiota não entenderia que era do meu cheiro que ela gostava. Mesmo assim, o "não" se repetia em meus momentos de reflexão.

Depois daquele "sim" eu me sentia mais feliz. As festas de rua tinham outro sabor. A companhia de Michele esquentava aquele frio. Depois daquele "sim", passava a conhecer os casacos de Michele. Ela passou a usá-los. Ela me conquistou com aquela imagem dela cheirando meu agasalho e depois, que já me tinha nas mãos, achava melhor ficar cada um com o seu. Ela sabia como me atrair. Ela sabia que a figura minúscula de seu corpo de 1,57m atrairia o meu de 1,78. Ela sabia que eu a pediria em namoro. Ela só não sabia que minha consciência me dizia lá no fundo que "não". Mas Michele disse "sim" e era o que importava.

Ganhávamos horas e horas ouvindo os discos da coleção de serestas do meu pai. A gente deitava no chão da minha sala e ficávamos rindo das capas e das canções. Ela brincava de imitar o Nelson Gonçalves. Eu ria muito naquelas tardes. Imaginávamos como seria o nosso namoro se fosse há décadas atrás. É claro que aquele tapete da sala presenciava coisas que a mãe de Michele jamais poderia saber. Éramos dois adolescentes descobrindo tanta coisa. Desde a voz do Nelson até os calafrios de quando nos acariciávamos.
- Eu te amo sabia?
Eu dizia.
- Não sabemos o que é o amor ainda.
- Como não? Os filmes me dizem que é exatamente assim que acontece. Você não me ama?
- Gosto muito de você, Douglas, mas não sei é amor. Sei que é muito forte.
- Diz que é amor.
- Eu digo. Eu te amo.
- Mesmo que não saibamos se é realmente amor, vamos dizer isso um para o outro sempre. Eu te amo. OK?
- OK.
Ela ria e emendava um refrão do Nelson Gonçalves.
- Boba demais você.
Eu ria também.

Até a volta às aulas ainda faltavam alguns dias. O querer de ficar naquele tapete até o fim dos dias era gigante, tanto em mim quanto nela.
- Poderia morar nesse tapete com você, Douglas.
- Eu também.
- Sua mãe já saiu?
- Já.
- Então vem cá.
Ela me puxava pelo mesmo casaco que tanto já lhe havia agasalhado e vinha com sua mão gelada até meu tórax. Arranhava-me como delicadeza e me mordia a orelha como que num pedido mudo para que eu a possuísse. E era o que eu fazia. Sempre. Colocava-me sobre seu corpo com cuidado e a deixava meio presa e meio solta. Em poucos segundos o frio já dava lugar a um calor que nem o verão mais forte era capaz de nos proporcionar. Vinha de dentro. As nossas roupas ficavam ali junto ao tapete a testemunhar nossa inexperiência. Não chegávamos nunca aos finalmente. Michele tinha medo. Eu quase morria ao ser impedido, mas o meu amor me fazia entendê-la. Michele ria ao me ver ir ao banheiro todas às vezes depois daquele calor.
- Lá vai ele.
Ela ria de mim.
- Vai rindo. Um dia não me seguro.
- É? Passará por cima do meu medo?
- Do nosso medo.
- Você também tem medo de fazer?
- Tenho. Tenho medo de um dia esse tapete contar para nossos pais.
- Seu bobo. Estou falando sério. Tem medo?
- Tenho.
- De quê?
- Diz você primeiro. De que você tem medo?
- De doer e da minha mãe.
- Eu tenho medo da sua mãe, da minha mãe e de um bebê.
- Eu também.
- Temos muito medo.
- É. Não vai ao banheiro?
- Vou.
Eu ia. E lá eu acabava com o que acabava comigo em poucos minutos.

As aulas voltaram. Como ela estudava em outro colégio, passamos a nos ver menos. Um certo dia ela me aborda na frente do meu prédio.
- Douglas. Preciso lhe contar uma coisa.
- O que houve?
- Precisamos terminar por aqui.
- Por quê? Não me ama mais?
- Não sei. Estou confusa. Eu sempre fui apaixonada por um garoto lá na escola. Nessas férias você me fez esquecê-lo sabia?
- Tudo bem. Eu fui um passa-tempo. Eu entendo.
- Não fale assim.
- Como você quer que eu aja? Você termina um “namoro” de dez dias dessa forma e como você quer que eu aja?
- Não estávamos namorando.
- Mas e aquilo tudo no tapete? Eu sonhei?
- Preciso ir, Douglas. A gente conversa.
- OK.

Eu estava chegando do colégio. Entrei na sala e dei falta do tapete da sala.
- Mãe.
- Oi filho.
- O que houve com o tapete?
- Mandei lavar. Estava imundo.
- OK. Devia estar mesmo. Imundo de mentiras.
- O que disse, Douglas?
- Nada.

3 comentários:

fabi disse...

ahhhh. tadinho do douglas.
mas gostei do conto. gostei mesmo.







bjo.

janu disse...

Humpf!

...coisas que acontecem em cada esquina....

"E viva a efemeridade da vida!"

Viva?!?!?!

Aline Ramos disse...

Aaain, que triste cara!
Mas isso na adolescência é tão comum, já fiz tantas vezes.


HuhsauhUHUHSUHua, adoro essa sua fase, os contos saem todos no ponto!

;]