segunda-feira, 26 de maio de 2008

QUEM VOCÊ QUISER

Os postes dançavam de tanto calor. Cada um passo em direção à sombra era dado com dificuldade e ansiedade. Gotas de suor minavam de meus poros. Elas caíam e evaporavam sobre o solo que fervia sob aquele fevereiro escaldante. Eu odiava cada dia daquele verão. Daquele e de todos os que cismavam em dar as caras antes de dezembro. As cores das meninas eram de fato um ponto positivo naquele inferno. As marquinhas de biquínis exibidos com malícia por aquelas que faziam parte daquele cenário urbano amarelado me fazia pensar que tal estação nem era tão ruim assim, mas era.

Os trabalhos no escritório se multiplicavam naquela época do ano. Parecia praga. Eu não parava um só minuto. Fedelhos entupiam as calçadas em seus passeios de férias enquanto suas mães derretiam suas maquiagens mesmo sob as marquises da cidade. Eu fazia entregas o dia inteiro. Documentos, projetos, etc. Eu pingava. Naquele dia, eu me deliciava no ar condicionado do metrô quando a minha estação infelizmente chegava. Carioca. Saltei. Em direção à saída, podia ver a claridade acima do normal que adentrava pela escada rolante. Foi quando:
- Oi senhor.
Abordava-me uma jovem linda. Estatura mediana, cintura fina. Ela usava uma calça jeans tão apertada que parecia que iria rasgar sobre aquelas médias nádegas empinadas. Ela era do tipo de menina em que tudo está no lugar certo e na medida exata. Nada sobra nem falta.
- Senhor? Eu? Estás no céu, por favor.
- Desculpe. Qual seu nome?
- Silva. Jorge Silva.
Eu adorava a forma como os americanos dos filmes pronunciavam seus nomes.
- Bom dia, Jorge. Você gostaria de receber um brinde como esse?
Ela apontava para um adesivo de uma nova marca de refrigerantes.
- Ou como este?
Apontava agora para um chaveiro com a mesma marca.
- Vem o seu telefone num desses brindes?
Perguntava.
- Não. Mas você vai experimentar o mais saboroso refrigerante.
Ela se saía bem.
- Eu já conheço esse refrigerante.
- Já? E o que achou?
- Parece com os concorrentes.
- Então. Gostaria de responder a uma pequena pesquisa? Ganhará os brindes.
- OK. E depois dos brindes? Ganho seu telefone?
- É só ir até aquela mesa ali. A Gabriela lhe fará algumas perguntas e lhe dará os brindes.
- Você não me disse seu nome.
Ela parava por alguns segundos e:
- Sheila.
- Quero seu nome verdadeiro.
- Senhor...
- Senhor está no céu. Já disse. Seu nome?
- OK. Laura.
Confessava com um pequeno sorriso.
- Agora sim. Vou até ali pegar meus brindes.
- Como quiser, Jorge.

Fui até a Gabriela.
- Pois não, senhor.
- Senhor está no céu.
- Perdão. Qual seu nome?
- Silva. Jorge Silva.
- OK. Responda minhas perguntas e receberá um brinde. OK?
- OK.
- Já conhece o refrigerante...
- Já.
- O que achou?
- Igual aos outros concorrentes.
- E o preço?
- Foi mais barato que os concorrentes.
- Quando comprar outro refrigerante, você vai optar por ele?
- Vou.
- Por quê?
- Porque é mais barato que os concorrentes.
- O que achou do nome, do rótulo...
- Previsível.
- E o que você mudaria?
- Nada.
Totalmente desanimada com a função que exercia e com as respostas dadas por mim às suas perguntas, a tal Gabriela me dava um adesivo e um chaveiro.
- Muito obrigada.
- OK.

Retornava à Laura.
- Oi.
- Oi senhor. Digo, Jorge. Respondeu a pesquisa?
- Sim.
- Recebeu seus brindes?
- Sim.
- OK. Passar bem.
- Quero seu telefone, Laura.
- Passar bem, Jorge.
- Quero seu telefone, Laura.
- Por quê?
Respondia ajeitando o cabelo.
- Porque você é a menina mais linda que cruzou o meu caminho desde que o verão começou e não tem sequer uma marca de biquíni.
- O que tem as marcas de biquíni? Não gosta?
- Gosto, mas cansei de vê-las desde novembro. Você não as tem e mesmo assim é tão linda.
- Eu tinha até o mês passado.
- Ainda bem. Seu telefone?
- Você cismou.
- Sim. Seu telefone?

Ela me deu enfim o número do telefone dela. Ia para casa pensando em seu semblante e imaginando o quão babaca eu fui. Era lógico que aquele número não era dela. No mínimo ela contou o número de idiotas lhe deram a mesma cantada e trocou os últimos dois dígitos por essa quantidade.

Às 22h, eu discava aquela fantasia.
- Alô.
- Laura?
- Sou eu.
- É o Jorge. Do metrô. Lembra?
- Claro. Estava esperando você ligar. Sheila me disse que ligaria.
- Sheila?
- Sim. Sheila. A moça que lhe abordou para a pesquisa.
- Se ela é realmente a Sheila, quem é você?
- Laura.
- Mas...
- Me encontre no Centro, agora. Pode ser?
- Mas...
- Me espere em frente ao terminal rodoviário.
- OK.

Chegava ao local indicado pela tal Laura. Calor noturno. Avistava logo a menina que eu realmente queria ver. Só que a maneira comportada e atraente da mesma dava espaço agora a uma roupa vulgar e um olhar típico de uma prostituta.
- Oi Jorge.
- Que palhaçada é essa? Quem é você afinal? Sheila? Laura?
- Lá no metrô você conheceu a Sheila, mas você não acreditou. Então resolvi apresentar-lhe à Laura, que é esta que vos fala.
- Mas... São a mesma pessoa.
- Não. Mas o outro lado de uma mesma pessoa. Se você quer sacanagem, é como Laura que me apresento. Caso contrário, serei Sheila. Mas por favor, não cite meu outro nome enquanto me pega.

Peguei forte naquela bundinha firme.
- Prazer. Chame-me de Laura então.
Ela disse.

2 comentários:

Aline disse...

:O
me chame de enila se quiser.

:)

Fabi disse...

hahahahahahaha
(rindo do comentário acima)

"pode me chamar de bond... james bond" ou silva... jorge silva.

2 em 1. sheila e laura...

beijocas.