segunda-feira, 29 de setembro de 2008

PELA CIDADE - Virada de Mesa

- É simples?
- Como?
- A carta! É simples?
A atendente me perguntava.
- Não, não. Autenticada, por favor.
- OK.
Eu fitava os olhos da atendente tentando entender o porquê de Deus ser tão injusto. Esta tão linda e outra logo ao lado tão... Deixa. Olhos verdes semelhantes às bolas de vidro que enfeitavam a minha sala. A boca de tamanho ideal para sua fala suave desviava minha atenção dos olhos.
- Falta o remetente.
- O quê?
- O remetente. O envelope de sua carta está sem remetente. Preciso do remetente para enviá-la autenticada.
- Ah! Sim, claro! Dê-me aqui. Tens uma caneta?
- Aqui.
- Obrigado. Meu nome... Meu nome...
- Esqueceu seu próprio nome, senhor?
- É! Veja você. Mas seria capaz de lembrar o seu até o fim da minha vida.
A atendente sorria sem querer, mas logo se colocava séria novamente.
- Já preencheu o remetente?
- Sim! Aqui está.
Entregava-lhe o envelope.
- Três reais e vinte e cinco centavos, senhor.
Dava-lhe quatro.
- Teria vinte e cinco centavos?
- Não, infelizmente.
- Tudo bem.
- Não vai me dizer o seu nome?
- Aqui a sua notinha.
Não entendia a ênfase dada à palavra no instante. Somente no escritório eu notava que na parte superior da nota fiscal vinha impressa sua graça; Catarina.

Ficava comparando os rostos das mulheres do escritório – eu não mais fazia entregas como antigamente – com o de Catarina. Concluía que nenhuma delas chegava aos pés da nova atendente dos correios. Sentia vontade de voltar até lá, mas seria patético tentar alguma coisa durante o expediente fatídico daquela jovem. Atender toda aquela fila, ouvir um monte de grosserias e ainda as minhas indecentes propostas. Seria demais. Ela não agüentaria. Se ela estivesse há três semanas naquele emprego seria muito. Nunca a vira por lá. Enviar cartas em plena era digital nunca fora tão prazeroso.

No final de meu expediente, não pude deixar de passar na agência de Catarina. Não havia fila. Um outro atendente descia as portas anunciando o encerramento das atividades.
- Por favor. A Catarina ainda está aí?
- Estamos fechando!
Respondia-me estressado.
- Não brinca! Pensei que estivesse a dançar com esta porta pesada. Não quero enviar carta alguma, quero apenas falar com a Catarina!
- CATARINA! TEM UMA MALA AQUI QUERENDO...
- Dê mais uma palavra desse tipo sobre minha pessoa e sentirá o estrago que uma “mala” pode fazer numa cara feia como a sua!
Eu o interrompia com a mão na gola de seu uniforme.
- Ficou maluco? Eu chamo a polícia!
Nesse momento eu avistava Catarina vindo em direção à porta. Soltava aquele ser desprezível de imediato.
- Catarina!
- O que faz por aqui, senhor?
- Precisava falar com você!
- Ora, mas...
- Para onde está indo?
- Para casa, senhor.
- Primeiramente, pare de me chamar de senhor, por favor!
- Como quiser, mas...
- Está uma noite tão agradável. Podemos beber alguma coisa. Eu a levo até sua casa.
- Dirigir depois de beber?
- Um suco! Bebo um suco! Mas beba comigo, por favor!
- DEIXE A GAROTA EM PAZ, CARA! NÃO OUVIU ELA DIZER QUE NÃO?
O atendente estressado resolvia se meter. Não o dava atenção.
- Qual o seu nome?
Perguntava-me Catarina.
- Silva. Jorge Silva.
- Onde costuma beber?
- Verás. Tem um bar muito bom logo aqui, o Breu´s.
- Tudo bem, mas não vou demorar, OK?
- Como quiser, Catarina! Como quiser!

Sentávamos numa mesa no fundo do bar. Lá era mais escuro e por isso mais aconchegante também. Pedíamos nossos sucos. Na mesa ao lado, dois copos muito familiares e vazios me causavam uma certa impaciência.

Catarina se mostrava um pouco receosa nas informações que me passava sobre si. Começara naquele emprego há pouco mais de uma semana e já dizia detestar tal rotina.
- Não sei o que estou fazendo lá. Atendimento ao público não é a minha.
- Imagino que não mesmo.
- Por que imagina?
- Sei lá. A não ser pela sua beleza, lógico.
- A minha beleza? Como assim?
- O público gosta de ser atendido por belas pessoas, belos olhos.
- Você está me deixando sem jeito, sabia?
- Desculpe, mas é a mais pura verdade.

Ela me fazia lembrar a Laura, ou melhor, a Sheila [Vide “Quem Você Quiser” I e II, publicado em 26 e 29 de maio de 2008 neste blog], no seu jeito de falar. Sossegada. Soltava-se pouco. Só tive realmente impressão de se tratar de um diálogo depois de uns quarenta minutos de frases curtas e sem muita eficácia.
- Por que você voltou na agência? Não pensei que falasse sério quando o atendi pela tarde.
- Catarina. Tu tens os olhos mais belos que os meus já puderam fitar. Você pediu para eu preencher o remetente do envelope com tanto...
- Profissionalismo?
- Não!
- Profissionalismo sim, Jorge!
- Pode ser, mas veja você, como um ser humano atrai o outro sendo profissional?
- Existem as profissionais do sexo, não?
- Nem manche esses seus lábios com uma coisa dessas. Não são humanas!
- Que preconceito, Jorge!
- Desculpe. Mas é que estava me concentrando no seu poder de atração natural e você me veio falar das prostitutas... Desculpe.
- Não gosto de preconceitos.
- Também não. Pode estar certa disso.
- E se eu fosse?
- Fosse o quê?
- Uma profissional do sexo!
Pronto! De Sheila a lembrança foi até Laura num segundo. Laura! Aquele lado animal de Sheila que me... Deixa.
- Não diga isso, Catarina! Não estarias aqui. Não estarias nos correios.
- Uma ex-profissional. Por que não?
- OK! Digamos que fosse. Eu não saberia, então estaria tudo bem.
- E se eu lhe contasse?
- Contasse o quê?
- Que eu era um ex-profissional do sexo. O que você faria?
Mas que questionamento para um primeiro encontro! Sentia-me um moleque de 15 anos frente à Catarina.
- Bem... Eu...
- Não precisa responder. Ficou sem jeito, não?
- Claro. É uma questão complicada.
- Aos que têm preconceito sim!
- (!!!)

Eu tinha o dom! Eu devia ter um anjo só meu. Um anjo mau que me colocava nessas encrencas. Aquele rosto de menina virava a mesa e me colocava como caça! Daquele momento até o último gole do meu sugo de graviola eu não mais sabia o que dizer ou perguntar à Catarina. Ela se abria e me contava quase tudo sobre sua vida. O que não queria contar ela substituía por um “um dia eu te conto”. Até me disse que morava apenas com uma avó surda. Isso me dava idéias absurdas, mas me encontrava incapaz de sugeri-las. Preferia ouvi-la naquela noite de sucos!

Os dias passavam e eu não mais tinha coragem de entrar naquela agência dos correios. Conversáramos bastante naquela noite à base de frutas, mas saíra daquele bar com a impressão de conhecer Catarina menos do que antes de saber o seu nome. A jovem me deixara com mais dúvidas que conclusões a seu respeito. Seria ela uma ex-profissional do sexo, como havia suposto? Confesso que essa era a parte que mais me afastava da idéia de voltar a ver Catarina. Seus olhos tinham o poder de me hipnotizar e eu certamente cairia em tentação a amar aquela... Deixa.

[Continua]

* * *
Foto da Capa por: Gabriel Andrade [meinframer].

13 comentários:

Kayo Medeiros disse...

"-(!!!)"

só uma coisa: RÁ!

Se lascou... XP

bom, bom, muito bom! ^^

Lorii disse...

hehe !
seeu blog ta massa !
passa la no meu dpois !
bjoos

Nathalia disse...

aaaaaaaaaaaaaaahhh!
adoreeeeiii..
essas relações com contos passados são muito bem boladas...
to adorando =)

parabéénnsssss

Nathalia disse...

obs.: créditos a capa..adorei!

Fabiana disse...

ih...
se falou "um dia um te conto"...

DuDu Magalhães disse...

Nussss..


gostei da relação entre 'contos'


instigante...


http://minhainspiracao.blogspot.com/

Livia Queiroz disse...

Bom, confesso que estou curiosa pra saber s Catarina eh mesmo uma profissional do sexo!
E mais ainda pra saber qual o limite de preconceito e amor sustentará Jorge!

adoreiii

bjaum


tem post novo lá no blog tb

... Matheus ... disse...

O_O

Aninha disse...

adoreeei!!
Vou torcer pra que o Jorge se de bem dessa vez. Da outra ele se decepcionou, tadinho.

aguardo a continuação!
beijos.

disse...

to vendo k ele vai ser ferrar xD

gostei do blog
a 1º não li
agora li e gostei espero a continuação

30 e poucos anos. disse...

Ai ai ai ... profissional do sexo?
Que venha a continuação!!!

Lucas Moratelli disse...

Muito Bom!


Esperando a continuação. :}


Abraço;
Até Alí.

Stanley Marques disse...

Luciano você escreve muito, muito bem! Despertou curiosidade e ansiedade pelas continuações. Brilhante conto.

Convido-lhe a conhecer o Antologia Racional: http://www.antologiaracional.com/
parceria?