terça-feira, 6 de dezembro de 2011

INTERNO

Ela nunca fez meu tipo. Não mesmo. Diria até que Carina é o oposto daquilo que sempre busquei em uma mulher, pelo menos no que diz respeito à aparência. Mas basta ela dizer um “oi”. Pronto. A coisa muda de figura.

Eu conheci Carina em uma festa de fim de ano, na casa de um amigo. Não era bem uma festa, confesso, e sim uma reunião de músicos frustrados, como eu. A gente juntava alguns engradados de cerveja, os cobria com tábuas de trinta centímetros e fazíamos daquilo o “nosso palco”. Era divertido, para não dizer cômico.

Algumas pessoas levavam seus convidados, e a Carina era uma das convidadas do Nelson.

– Olá, Nelson. Espero que toque suas músicas antes de beber! – eu dizia.

– Júlio – dizia-me ele –, você sabe que minhas músicas sem álcool não têm a mínima graça!

– Por isso mesmo, Nelson! Eu quero que as minhas sobressaiam!

– Júlio, você é um fanfarrão! Mas como gosto de você mesmo assim, vou te apresentar uma pessoa muito especial! Essa aqui é a Carina!

Aquela menina reluzente de tão branca e de rosto quase sem expressão me estendia sua mão como que quisesse apertar a minha em um cumprimento “masculino”. Porém, mesmo sem me interessar pelo que via, tomei, com classe, aqueles dedos delicados de Carina e os beijei. Ela sorriu de forma singela e tímida. Na certa não esperava ação tão cordial de um sujeito cujas calças apresentavam rasgos sobre o joelho.

– Carina, não caia na conversa desse cretino, OK? – dizia Nelson em tom de brincadeira – Eu vou ali pegar umas cervejas.

– Ah, não, ele vai beber, Carina! – eu brincava.

E ela sorria. Dessa vez um pouco menos tímida. Tirava da direção dos olhos uma mecha de fios negros, longos, quase ondulados, e sussurrava:

– Engraçado...

– Engraçado? Eu? – eu perguntava.

– É.

– Você ainda não viu o Nelson no palco, Carina...

Nelson não voltou com as cervejas que prometera, e foi bem melhor assim. Carina e eu pudemos conversar e... Meu Deus... Cada palavra dita por aquela menina me provava o quão apaixonante ela era. Minhas frases eram imensas, gagas e cheias de ramificações a assuntos que nada tinham a ver com o momento. Enquanto isso, Carina era a síntese perfeita; ela soltava apenas as palavras necessárias, ora para o meu entendimento, ora para o desenvolvimento de uma paixão que já me transbordava pelos ouvidos.

– Você não vai tocar? – ela me perguntava.

– Sim. Estou escalado para subir ao palco depois do Nelson.

– Palco... – ela dizia a sorrir.

– Não zombe do nosso palco, Carina.

– Não, imagina! Eu acho tão lindo isso que vocês fazem.

– Acha mesmo?

– Sim. De verdade.

Aquela frase foi de fato a cereja do bolo, porque enquanto as meninas mais lindas da rua nos olhavam como se fôssemos assaltar suas casas e estuprar suas irmãs mais novas, Carina achava linda a nossa tarde natalina de rock n’ roll.

– É a primeira menina que escuto elogiar – eu dizia.

– Que isso... – dizia Carina levando o copo de cerveja aos lábios com as duas mãos, como se alimentasse de uma caneca de Nescau.

– JÚLIO, VENHA ATÉ AQUI! – gritava Nelson de cima do palco, bêbado feito uma porca – LARGUE O PESCOÇO DA CARINA, DESEJE UM FELIZ NATAL AOS PRESENTES E FAÇA O SEU MELHOR, SEU GUITARRISTA DE MERDA!

– Meu Deus, acho que ele bebeu demais, Júlio – dizia-me Carina.

– Desculpe-me pelo Nelson, Carina. E pelo “pescoço” também. Ele está bêbado...

– Que isso... A parte do pescoço eu gostei – dizia Carina sem muito bem me encarar, dividindo seu olhar entre o meu tórax e o chão.

Ela tinha um jeito todo seu de ser tímida e descolada, “sem sal” e encantadora, tudo ao mesmo tempo. Isso me deixava confuso e cada vez mais a fim de alcançar seus lábios.

– E que parte você não gostou?

– Da parte que você vai subir ao palco e me deixar aqui sem ter com quem conversar.

O que dizer a uma menina como a Carina numa hora dessas? Não disse nada. Só a beijei.

– LARGA A MENINA, SEU CRETINO HAHAHAHAHAHA! – gritava ainda mais o Nelson.

* * *

No dia 24, antes de ir para o Espírito Santo passar o Natal com a família do meu pai, marcamos de nos ver. Eu, atrasado, cheguei ao local com a sorte de vê-la de longe, ainda a me esperar. Ela vestia flores, da sapatilha ao singelo arco. Carina olhava para o céu e sorria, mesmo sob as negras nuvens, que anunciavam a tempestade de verão que estava por vir.

– Desculpe a demora, Carina. Eu...

Carina não me deixou completar. Acolheu-me em seus braços e me beijou o pescoço com doçura. Mesmo com a boca desocupada não emiti palavra. Quieto eu fiquei, até que cessasse toda aquela sensação estranha em meu corpo.

– Feliz Natal, Júlio – ela me disse a sorrir.

– Foi o beijo mais prazeroso que já recebi, Carina.

– Mas foi só um beijinho, no pescoço. Foi tão bom assim?

– Sim, porque, no meu pescoço, foi o único!

Mesmo não fazendo meu tipo, mesmo sem eu saber ao certo que de fato me atrai, sigo com Carina. Acho que quando alguém te acende uma paixão, das duas uma: ou esta pessoa seguiu todas as regras e padrões de conquista – agindo como uma “pessoa de série” –, ou foi simplesmente ela mesma. E é na segunda opção que a paixão tem mais chances de se candidatar ao posto de amor.

10 comentários:

Aninha disse...

Um conto fofinho, aeeeeee! rsrs
Continue com eles hahaha

bjos

Luciano Freitas disse...

hahahaha essa época do ano fico sensíveeeeel rsrs

obrigado pela leitura, Ana!

Sandro Ataliba disse...

Muito legal o conto, cara. E sua frase final é carregada de razão, pois não traz disfarces que precisam ser mantidos depois.
Abraço!

Luciano Freitas disse...

Obrigado, Sandro!

André Luiz Coutinho disse...

Muito bom o conto. A mensagem no final, por mais batida que possa ser, continua sendo uma verdade universal!

Abs!

Nathalia disse...

suspiros...

AMEI, como sempre!

Vanessa Sagossi disse...

Esse conto foi fofo demais!
(:

Camila . disse...

Esse último paragrafo me deixou sem palavras. Não sei realmente o que comentar aqui, porque tudo o que eu procuro e acredito em relação a amor, paixão e relacionamentos você já escreveu aqui.

Espero só encontrar a minha Carina, mesmo cafoninha hahahaha

http://www.papel40kg.com

Kalina disse...

daqueles contos que vc ouve sua voz interior falando um "aaahnnn" de fofura e encanto quando vai lendo...

lindo,Lu! e veio a zooey certinha na cabeça em alguns momentos hehehe

Paulo Fernandes disse...

Afina em ré, e vamos fazer um som mais pesado!
Abraços!