terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

JÁ DOZE

Os garçons ainda ajustavam detalhes de algumas mesas e o barulho de talheres e copos podia ser ouvido no momento em que chegávamos ao restaurante. Era aniversário de uma velha amiga minha, a Nina, que para comemorar suas vinte e seis primaveras marcara um discreto jantar entre os mais chegados. Como meu pai estava viajando e eu não tinha com quem deixar a Daniela, minha irmã mais nova, resolvi levá-la.

– Ah, não quero ir a jantar nenhum, mano! – dizia-me Daniela horas antes de irmos.

– E você lá tem querer, Dani? Eu não quero perder esse jantar e eu não tenho com quem a deixar! Sendo assim...

– Eu posso ficar em casa, mano! Por favor! Eu já tenho doze anos!

– Como se fosse muito responsável, Dani... Você irá comigo e está decidido. Já para o banho!

E assim foi.

Assim que nos acomodamos na mesa reservada por Nina, Dani emburrou a cara e disse:

– Que legal, somos os primeiros a chegar...

Como uma menina de doze anos já tinha tão formada a ideia de que chegar ao local antes do aniversariante é um mico?

– A Nina já deve estar chegando, Dani. Deixe de ser enjoada!

Daniela me fazia uma careta, enquanto Nina apontava na porta do restaurante.

– Viu só? Ela chegou! – eu dizia.

Nina estava bronzeada de praia. Estonteante! Fazia calor naquele fim de tarde e, por isso, ela vinha com um vestido bem leve, deixando um dos ombros e boa parte do tórax à mostra. O cabelo, castanho e cacheado, vinha preso num simples – e lindo! – rabo de cavalo. Trazendo aquele sorriso inconfundível no rosto, Nina se aproximava de nossa mesa como se estivesse em um desfile de moda, com aquele longo par de pernas abrindo caminho.

– Carlinhos, que bom que você veio! – dizia-me Nina.

– Não deixaria de vir, Nina!

– Amigão, que saudade “d’ocê"! – ela brincava, fazendo referência ao tempo em que nos conhecemos, ainda na adolescência, quando Nina estava recém-chegada ao Rio, vinda do interior de Minas Gerais.

– Também, Nina, muita saudade!

– E quem é essa...? Ah, não! Não vai me dizer que é a...

– Sim, é a Dani!

– Meu Deus, Carlinhos, mas está uma moça!

– É, ela cresceu.

– Você lembra de mim, Dani?

– Não... – respondia Daniela.

– Está uma gatinha, né, Carlinhos? – brincava Nina.

Gatinha? Ainda não, claro. Daniela era só uma criança. Mas uma criança linda, isso é verdade. Embora naquele momento fizesse cara de zangada, Daniela era dona do sorriso mais cativante do mundo! Agraciada por uma singela pintinha abaixo do olho esquerdo, minha irmã era capaz de hipnotizar os adultos, que se agachavam para dizer o de sempre:

– Ela tem um sinalzinho abaixo do olhinho, que graça – continuava Nina.

Tratamos de nos sentar. E eu queria aproveitar o atraso dos outros amigos de Nina para matar a saudade, saber o que ela havia feito da vida, enfim, colocar o assunto em dia.

Esclarecendo, antes que o leitor pense, não, nunca houve de minha parte segundas intenções em relação à amizade de Nina, que morava, sim, no meu coração. Era uma verdadeira amiga.

Nina, então, me contava tudo o que vinha feito. Seus empregos, seus namoros, suas mudanças após a faculdade, suas brigas com os pais... Minha atenção estava quase toda voltada ao que Nina me dizia, porque parte desta rumava ao estranho olhar de Daniela em direção à minha amiga. Como irmão mais velho, sempre procurei observar suas ações, a fim de protegê-la e educá-la.

No momento em que Nina pedia licença para ir ao toalete, eu pude notar a direção exata das vistas de Daniela: os seios erguidos de minha amiga.

Mamãe morrera quando Daniela tinha apenas três anos, e a falta de uma referência feminina lá em casa parecia estar surtindo efeitos no desenvolvimento da menina. Meu pai era ausente demais. Restava a mim esse papel delicado de mãe.

– Dani, há alguma coisa em Nina que te incomoda?

– Ah? Não, não... Nada... – Daniela respondia meio assustada.

– Enquanto eu estava conversando com Nina vi que você não tirava os olhos dela. É feio ficar observando as pessoas, viu?

– Ih, mano, deixa de ser chato! Só tava olhando os peitos dela!

– Meu Deus, Dani! Por que ficou olhando os seios da Nina?

– São bonitos!

– Dani, não quero mais saber de você olhando os seios da Nina, OK? Nem de ninguém! Isso é feio! Se ela vir que você está olhando, vai ficar chateada com você!

– Ela já ficou chateada com você, mano?

– Não, por quê?

– Porque você também olha os peitos dela!

– Dani, fim de papo!

Nina voltava. E dizia:

– Meus amigos são uns furões! Oito horas já, e nada! Marquei às sete! Vamos pedir alguma coisa, Carlinhos? A Dani deve estar com fome! Chega de esperar...

– Sim, claro – eu dizia.

* * *

O jantar se resumiu a nós três mesmo. Ninguém apareceu, além de Daniela e eu, deixando Nina nitidamente muito triste. Um fio de lágrima chegou a brotar de seu olho direito, mas ela disfarçou e o secou.

Continuamos a conversar e lá estava Daniela com seus olhinhos brilhantes sobre os seios de Nina. Por conta disso e da língua afiada de minha irmã, eu não queria, nem por um segundo, deixar as duas sozinhas. Mas não consegui aguentar e precisei ir ao toalete.

Enquanto minha urina cortava o gelo que cobria o ralo do mictório, eu pensava se Daniela não estava falando alguma besteira para Nina, ao mesmo tempo em que me preocupava com o que aquela observação estranha de Daniela poderia significar. Como eu queria a minha mãe viva naquele momento...

Voltei à mesa e as duas estavam às gargalhadas.

– O que houve? – eu dizia – Qual foi a piada que eu perdi?

– Não fala, Nina! Não fala! – insistia Daniela.

– Ih, Carlinhos, é segredo... Não posso dizer... – dizia Nina ainda a gargalhar.

– Ah, agora vocês vão me dizer! É sobre mim, não é? – eu perguntava com medo da resposta.

– Não, Carlinhos – dizia Nina – é sobre a Dani mesmo!

Gelei.

– O que foi que você disse à Nina, Dani! – perguntava de forma séria.

– Vou no banheiro – fugia Daniela.

– O que ela te disse, Nina? O que exatamente ela te disse?

– Ah, Carlinhos, ela só disse assim: “Nina, você acha que quando eu crescer os meus peitos vão ficar como os seus, bonitos?”. Só isso. E eu comecei a rir, nem deu tempo de respondê-la. Ela riu também. Foi isso. Relaxe...

– Relaxe? Você acha isso normal, Nina? Ela tem doze anos!

– Sim, acho! Exatamente por isso, Carlinhos. Ela já tem doze anos.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

INFERNO D'ÁGUA

As nuvens negras, que há horas apontavam no horizonte, ameaçavam agora, mais perto, despejar sobre a praia a pior de todas as tempestades. Os mais seguros já haviam partido, mas os que acreditavam em mais um sonho de verão ficaram para viver um pesadelo composto por vento, areia e água, mas muita água.

Minha namorada, Silvinha, linda, se banhava sob minhas vistas no momento do primeiro estrondo. Um trovão que parecia estar ali, tomando cerveja conosco, de tão perto. Só então, sem aquele sorriso comum da estação mais quente, a areia voltava seus olhares para o céu. “Fudeu!”, gritava um. “Carai, véi!”, dizia outro. E como se estivéssemos na boca de um furioso tornado, presenciamos guarda-sóis e cangas voando sem destino. Era possível ouvir as ordens dos donos dos quiosques: “Não deixem ninguém sair sem pagar!”. Mas isso era impossível para os garçons, que eram derrubados com facilidade pelas rajadas de areia e vento.

Eu tentava avistar Silvinha na água, mas naquela altura uma confusão de gente se misturava às nuvens de areia, o que dificultava muito a minha visão. Eu não sabia para onde olhar, e meus berros por Silvinha pareciam não sair da garganta; era como se eu estivesse mudo. Até que senti a mão macia que me ganhou pelo pulso.

– Vamos! – ela me dizia.

Num misto de alívio e medo, segui com ela rumo ao estacionamento, a uns trezentos metros de onde estávamos. Os pingos grossos da chuva já nos golpeavam as costas ardidas. Todos gritavam de dor, nunca vi coisa igual! Parecíamos ser expulsos da natureza por ela mesma, chicoteados! A maioria, desesperada, atravessava a rua principal sem atenção. E, por isso, muitos foram parar sob as rodas dos carros velozes.

Consegui avistar o portão do estacionamento sendo fechado às pressas pelo dono. Corri e cheguei a tempo de entrar.

– Por que está fechando? – eu perguntava – Tem um monte de gente querendo entrar! Não está vendo a tempestade?

– Vão sair sem pagar! Não tenho nada com a chuva!

Em questão de segundos, ainda olhando para o chão, puxei do bolso uma nota de vinte e o entreguei.

– Agora abra esta merda de portão! Queremos sair daqui!

Corremos para o carro.

Abri as portas e praticamente nos jogamos para dentro do veículo. Só então percebi que...

– QUEM É VOCÊ? – eu perguntava àquela mulher.

– Perdão, moço, mas é que não sabia para onde ir! Peguei na mão do primeiro que vi!

– Meu Deus! Eu pensei que fosse minha namorada, sua doida! Argh! Precisamos ir atrás dela!

– Não podemos! Não com essa tempestade!

O pior é que aquela mulher tinha razão.

O estacionamento já tinha água cobrindo quase três quartos dos nossos pneus. O portão, ainda fechado, balançava. Eu achava que fosse a força do vento, mas era o poder da massa, que empurrava o portão a fim de arrombá-lo. O barulho da chuva não me deixava ouvir, mas com certeza aquela multidão gritava ainda mais de dor.

Até que o portão veio abaixo. As pessoas, com água na canela, quase no joelho, se atropelavam em busca de seus carros. Não era a quantidade de chuva que assustava, mas sim o peso com a qual ela caía sobre nós. Eu ligava o limpador de para-brisas a fim de enxergar melhor, porque era bem capaz de Silvinha estar entre aquelas pessoas que agora invadiam aquele estacionamento.

– Ela vai aparecer! Confie! – dizia aquela mulher.

– Por favor, cale a sua boca! Era Silvinha quem deveria estar segura, aí onde você está!

– Perdão...

Rapidamente aquela multidão ocupou seus respectivos veículos. Alguns até davam partida.

Mas e Silvinha?

– Meu Deus! Ela não veio! Eu vou até lá! – eu dizia.

– Não, por favor! É perigoso! Olha o nível da água! Espere a chuva acalmar!

– Acalmar? Você está louca? Preciso salvar Silvinha! E você fique aqui, OK?

Saí do carro e segui em direção a sei lá o quê. Não sabia para onde ir. Só sei que atravessei a rua alagada e cheguei até a areia – sabe Deus como. Os golpes da chuva pareciam ainda mais fortes sobre minhas costas. Não era possível avistar quase nada. Estava tudo “branco” à minha frente. Comecei a gritar o nome de Silvinha.

Em vão.

Sem pistas de onde poderia estar Silvinha, voltei ao estacionamento.

– Nada, não é? – perguntava-me a mulher.

– O que acha? Está vendo a Silvinha aqui comigo, por acaso?

– Também não precisa ser um grosso!

– Argh... Não vamos sair daqui, OK? Essa chuva é de verão, vai passar! E assim que isso acontecer, VOCÊ vai me ajudar a encontrar Silvinha!

– É o mínimo que posso fazer pela sua ajuda...

Todos os carros já haviam saído do estacionamento, menos o meu. Ali ficamos, aquela mulher desconhecida e eu, esperando pelo fim daquela tempestade.

Depois de pelo menos uns quinze minutos de silêncio:

– Qual o seu nome? – eu perguntava.

– Olívia. E o seu?

– Maurício. Estava com alguém na praia?

– Sim, com uns amigos. Mas me perdi deles naquela confusão. Espero que tenham conseguido abrigo...

– Você conseguiu, não é mesmo? Eles também conseguiram. Aposto.

– Assim espero...

– Só espero que Silvinha esteja bem. Que tenha se abrigado...

Chorei calado. Olívia apenas observou.

* * *

Após quase uma hora de chuva forte, tivemos condição de sair em busca de Silvinha. Havia destruição para onde olhávamos. Vários quiosques vieram abaixo, árvores tiveram suas raízes arrancadas e até alguns corpos de pessoas atropeladas foram parar na areia da praia. Tive que vestir o manto da frieza e encarar aquela difícil missão.

– Olívia, vamos verificar aqueles corpos. Silvinha é morena, tem cabelo curto, veste um biquíni azul marinho e...

– Por que vamos começar pelos mortos, Maurício? Sua namorada está viva! E deve estar abrigada em algum lugar!

– Não sei... Apenas faça o que eu digo.

Ela não estava entre os corpos, graças a Deus. E, pelo visto, nenhum dos amigos de Olívia também.

– E agora? – Olívia me perguntava.

– Não sei... E se ela se afogou?

– Você não crê mesmo, né?

– Não é isso! Eu tenho que levantar todas as hipóteses!

– Mas só levantou hipóteses negativas até agora, Maurício!

– E você tem ideia melhor?

– Tenho! Vamos voltar para o estacionamento!

– E desistir? Nunca!

– Ela está lá te esperando!

– Ah, então és uma vidente?

Sem me responder, Olívia seguia para o estacionamento. Eu ia junto.

No caminho pensei em tudo o que havia vivido com Silvinha até então. Ao mesmo tempo em que pensava em como explicar o ocorrido aos pais dela. Seria difícil...

Mas chegando ao estacionamento, Silvinha estava lá, em pé, ao lado do meu carro.

– SILVINHA! – eu gritava.

Nós nos abraçamos como se não nos víssemos há séculos.

– Silvinha, que bom que você está bem! Eu me perdi de você, e...

– Sim, eu sei disso, meu amor! Mas consegui me abrigar em um quiosque que, graças a Deus, não caiu. Fiquei pensando se você tinha se salvado...

– Nossa, que susto... Bem, essa aqui é a Olívia... Olívia?

O que pude ver no local onde Olívia se encontrava foi um clarão seguindo em direção às folhas de uma amendoeira. Antes que aquele feixe de luz se apagasse por completo, já acima das árvores, ainda pude ouvir a voz de Olívia dizendo:

– Não sou vidente, Maurício, mas quase isso.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

NOVA

Ela estava doida pela noite daquela sexta-feira. Queria cair na balada. E isso estava muito claro no balançar de seus cabelos loiros e curtíssimos. Embalada pelo som emitido por um aparelho de som portátil, ela simulava estar no meio de uma pista de dança, ao mesmo tempo em que contava o meu troco, ali, apertadinha na cabine do caixa, no depósito de doces próximo ao meu escritório.

– Meu troco está errado... – eu disse.

– Ahn? – ela respondia, ainda sem olhar nos meus olhos.

– O meu troco. Está errado.

– Ah, sim, desculpe-me! Quanto você me deu mesmo?

– Dez.

– Foi um chiclete e dois amendoins, certo?

– Certo... – eu respondia já perdendo a paciência.

Ela refazia suas contas, de cabeça.

– Está certo agora? – ela perguntava.

– Sim, agora está.

– OK! Próximo!

* * *

Chovia muito naquela noite. O meu relógio marcava oito da noite quando lembrei que combinara um chopp com um amigo no Jazz Bar. Corri para lá, debaixo de uma água tremenda. Fazendo o paletó de guarda-chuva, consegui chegar até a primeira mesa do lado de dentro do estabelecimento. Passei a vista pelas outras mesas e constatei que meu amigo Charles ainda não havia chegado.

– Um Black Label, cowboy, por favor – eu pedia ao garçom.

Gosto de beber whisky antes do chopp. É como se o primeiro me preparasse para o segundo.

Enquanto aguardava meu amigo aparecer, observava o comportamento dos presentes. Oitenta por cento ali era amante do bom e velho Jazz, que aguardavam pela voz da Mônica Lisboa. A minoria restante não passava de um bando de adolescentes fazendo um “esquenta” antes de cair para as boites vizinhas. E foi observando esses adolescentes é que avistei aquela doida que me atendera à tarde no depósito de doces.

Ela estava acompanhada de alguns rapazes. Eles riam muito. E bebiam bastante também. Na mesa deles havia uma quantidade enorme de latas de cerveja barata. “Como eles conseguem beber essa merda?”, eu pensava. Mas algo fazia com que eu não tirasse o olho daquela garota. Lembrar-me dela se enrolando com o meu troco causava-me grande irritação, mas ao mesmo tempo causava-me também uma curiosidade estranha; queria saber até que ponto ia o seu jeito abobalhado.

Chamei o garçom e:

– Ei! Está vendo aquela loirinha ali, perto daqueles rapazes de preto?

– Sim, senhor!

– Ofereça um chopp Guinness a ela. Diga que é por minha conta.

– Sim, claro.

O garçom entregou o “presente” e apontou para mim. Disfarcei. Fingi que não estava aguardando sua reação. Quando virei o rosto em direção a ela...

– Oi! – dizia-me aquela menina, já puxando uma cadeira em minha mesa.

– Oi... Você é rápida!

– Eu? Acho que não... Eu me lembro de você. Mas... Por que o chopp?

– É... Eu não sei. Gosto de proporcionar ao próximo alguns dos prazeres dessa vida.

– Beber uma Guinness, por exemplo?

– Sim, claro! Esse é apenas um dos prazeres.

– É algum tipo de publicitário, fazendo testes com pessoas?

– Não, não. Deixe eu me apresentar. Meu nome é Gilberto, mas pode me chamar de Gil. Sou contador. E você?

– Eu me chamo Norma, e minha profissão você já sabe, não é?

– Sim, claro.

Norma bebia a Guinness com tanto prazer. Meu Black Label sumira do meu copo, então a acompanhei no chopp.

Ela me parecia mais centrada e mais “cabeça” também. Vestia uma jaqueta de couro sobre uma malha branca. A calça jeans era surrada, mas um charme só. Pude notar uma pequena tatuagem sobre a nuca.

– Quantos anos o senhor tem? – ela me perguntava.

– Trinta e oito.

– Um pouco velho para mim. Casado?

– Desquitado. E você?

– Solteira. Vinte e dois anos.

– Muito nova para mim.

– Imaginava mais?

– Sim, uns vinte e três.

– Algum problema com o número dois?

– Talvez...

– Completo vinte e três amanhã, às duas da madrugada.

– Hummm... Não estará mais tão nova para mim.

– Assim como você não estará mais tão velho. Para mim.

– Vai comemorar com seus amigos?

– Sim, quer vir?

– Não. Marquei com um amigo.

– Ele não vem.

– Como sabe?

– Não sei. Só digo isso porque quero que venha comigo.

Depois dessa frase só me lembro de estar rodando o paletó em meio a uma pista de dança repleta de jovens loucos. Norma beijava seus amigos na boca, o que fazia com que eu me sentisse um velho de noventa anos.

– Por que beija seus amigos na boca? – eu perguntava à Norma.

– Ciúmes?

– Não há motivos.

– E se eu te beijar?

– Aí haverá motivos.

– Para ciúmes?

– Também. Mas me referia aos motivos que terei para te levar para cama. Já passam das duas e você já não é tão nova assim.

– É verdade. O que está esperando?

* * *

– Para onde você vai? – eu perguntava à Norma, ainda deitado na cama do motel.

– Para o trabalho, ora. O depósito abre aos sábados.

– Chefes... Feliz aniversário, menina. E se cuide.

– Já tenho vinte e três, Gil. Sei me cuidar.

– Sei que sabe. Eu te vejo na segunda?

– Claro.

– Sinto-me estranho... Sabe qual a diferença entre a sua idade e a minha, Norma?

– Sei... Deixe-me ver... É...

Ela se atrapalhava com as contas, de novo. Mas aquilo não me irritava mais. Eu concluía que Norma nascera para me irritar durante o dia. Mas enlouquecer-me por toda a noite.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

SONHOS & SONHOS

Trabalhar em uma loja especializada em gravatas nunca fora o meu sonho – e acho que o de ninguém ali –, mas até que tinha sua vantagem: na época de Natal, enquanto todos os outros lojistas do shopping dobravam seus expedientes com apenas um sanduíche na barriga, nós da Gravataria Di Paula podíamos tirar uma (longa) hora de almoço sem nos preocupar – o movimento era fraquíssimo.

Ganhávamos pouco, logicamente, mas eu, pelo menos, não ligava muito para isso; era o suficiente para pagar o curso de desenho e me vestir – eu ainda morava com meus pais, o que facilitava. Éramos um bando de acomodados, essa é a verdade. Mas a nossa paz teve seus dias contados quando o dono da loja, o Sr. Aurélio Di Paula, faleceu, deixando tudo nas mãos de seu filho Laurêncio Di Paula.

– A moleza acabou, rapazes! – disse-nos Laurêncio no dia em que assumiu a loja – Meu pai estava acomodado a vender apenas gravatas, o que o encheu de dívidas! A partir de dezembro vamos vender roupa social também! E nesse Natal vocês terão meta, OK? Serão comissionados, claro! Vocês progridem, eu progrido! Fechado?

– E o que pretende fazer para chamar a atenção dos clientes, Sr. Laurêncio? – eu perguntei.

– Já tenho tudo planejado, senhor... senhor...

– Emerson, senhor – eu o ajudava a recordar do meu nome.

– Isso! Já tenho tudo planejado, Sr. Emerson! A partir de segunda-feira esta loja será outra! E espero que vocês sejam outros também! Se é que me entendem...

Na segunda-feira seguinte, como Laurêncio prometera, lá estava a Gravataria Di Paula com araras repletas de roupas sociais. No estoque não cabia uma mosca, de tanta caixa empilhada. O astral na loja estava péssimo, pois o trabalho que nos esperava fungava os nossos cangotes.

Enquanto eu vestia o novo uniforme, em um dos novos provadores, pude ouvir a voz doce de uma mulher dizendo:

– Sim, Sr. Laurêncio, pode deixar comigo.

Saí do provador num misto de medo e curiosidade. E lá estava Ísis, a menina que de tão linda parecia estar em nossa loja por engano.

– Emerson! – chamou-me Laurêncio – Essa aqui é a Ísis. Ela ficará de Mamãe Noel aqui na loja, para chamar a atenção dos clientes durante o período de Natal, OK? Como um dos mais novos aqui, auxilie Ísis no que precisar.

Eu deveria questionar o fato do mais novo ser o responsável por tal tarefa, mas não tive coragem, porque logo pensei em todos os segundos que passaríamos juntos, sempre que Ísis tivesse algum tipo de dúvida.

– Claro, Sr. Laurêncio!

– Que bom. Então, gente – disse-nos Laurêncio –, ao trabalho!

Tratei de chegar até Ísis, mas sem antes repará-la. Um metro e setenta, eu acho. A pele alva exibia uma singela tatuagem: um anjo, na nuca. As medidas eram delicadas e estonteantemente pequenas, exceto o busto, que, talvez por fugir um pouco à regra daquele corpo, causava ainda mais atração aos olhos. Ainda tinha um rostinho de beleza rara, coberto de sardas, que deixava, diante de competição acirrada, sobressair um par de olhos, grandes e castanhos.

– Olá, Ísis. Eu sou o Emerson. Qualquer coisa, é só chamar!

– Obrigada, Emerson!

– Nada!

Após exatos três segundos:

– Emerson? – chamou-me Ísis.

– Oi.

– A que horas eu lancho?

– Bem... – eu pensava um pouco e – No mesmo horário que eu, pode ser?

– Claro!

* * *

Ideia brilhante a minha! Às três da tarde, tive a honra de descer para a praça de alimentação ao lado de Ísis vestida de Mamãe Noel – linda, diga-se de passagem. Sentamos em um café e pedimos um desses lanches baratos, para duas pessoas.

– Gostando do trabalho, Ísis? – eu perguntei.

– Odiando!

– Nossa! É tão ruim assim?

– Quer experimentar? – ela ria, mesmo diante da desgraça.

– Não, obrigado. Eu fico melhor de pinguim.

– Acha que está adiantando, pelo menos?

– Acho sim. Nunca tivemos tanto movimento. Infelizmente, mas...

– Preferia o marasmo, não é?

– Sinceramente, Ísis? Sim. Detesto trabalhar lá...

– E o que gostaria de fazer?

– Desenhar.

– Sabe desenhar?

– Estou aprendendo.

– Pode me desenhar?

– Aqui, agora?

Ísis pegava um guardanapo e uma caneta no balcão do café.

– Sim! Temos dez minutos, não é?

– Mas...

– Vamos! Comece!

Eu fiquei nervoso com a pressão de Ísis, mas pensei que seria ótimo se eu conseguisse desenhá-la naquelas condições. E consegui.

Após alguns minutos:

– Pronto! O que acha?

Ísis pegou o desenho e, boquiaberta, o observou. Até que:

– Cara! Você é demais! O que está fazendo vendendo gravatas?

– Roupas sociais, na verdade...

– Que seja! Está perdendo tempo! Eu pediria as contas agora e correria atrás do meu sonho!

– Não posso...

– Por que não, Emerson?

– Não larguei esse emprego até agora, porque meu pai sempre me disse para eu aguentar firme na Di Paula, que o que é meu estava por vir. E acho que estou começando a entender isso.

– Então acha que vai desenhar gravatas para a Di Paula, ao invés de vendê-las?

– Não é mais sobre desenho que estou falando. É sobre você! – eu disse.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

INTERNO

Ela nunca fez meu tipo. Não mesmo. Diria até que Carina é o oposto daquilo que sempre busquei em uma mulher, pelo menos no que diz respeito à aparência. Mas basta ela dizer um “oi”. Pronto. A coisa muda de figura.

Eu conheci Carina em uma festa de fim de ano, na casa de um amigo. Não era bem uma festa, confesso, e sim uma reunião de músicos frustrados, como eu. A gente juntava alguns engradados de cerveja, os cobria com tábuas de trinta centímetros e fazíamos daquilo o “nosso palco”. Era divertido, para não dizer cômico.

Algumas pessoas levavam seus convidados, e a Carina era uma das convidadas do Nelson.

– Olá, Nelson. Espero que toque suas músicas antes de beber! – eu dizia.

– Júlio – dizia-me ele –, você sabe que minhas músicas sem álcool não têm a mínima graça!

– Por isso mesmo, Nelson! Eu quero que as minhas sobressaiam!

– Júlio, você é um fanfarrão! Mas como gosto de você mesmo assim, vou te apresentar uma pessoa muito especial! Essa aqui é a Carina!

Aquela menina reluzente de tão branca e de rosto quase sem expressão me estendia sua mão como que quisesse apertar a minha em um cumprimento “masculino”. Porém, mesmo sem me interessar pelo que via, tomei, com classe, aqueles dedos delicados de Carina e os beijei. Ela sorriu de forma singela e tímida. Na certa não esperava ação tão cordial de um sujeito cujas calças apresentavam rasgos sobre o joelho.

– Carina, não caia na conversa desse cretino, OK? – dizia Nelson em tom de brincadeira – Eu vou ali pegar umas cervejas.

– Ah, não, ele vai beber, Carina! – eu brincava.

E ela sorria. Dessa vez um pouco menos tímida. Tirava da direção dos olhos uma mecha de fios negros, longos, quase ondulados, e sussurrava:

– Engraçado...

– Engraçado? Eu? – eu perguntava.

– É.

– Você ainda não viu o Nelson no palco, Carina...

Nelson não voltou com as cervejas que prometera, e foi bem melhor assim. Carina e eu pudemos conversar e... Meu Deus... Cada palavra dita por aquela menina me provava o quão apaixonante ela era. Minhas frases eram imensas, gagas e cheias de ramificações a assuntos que nada tinham a ver com o momento. Enquanto isso, Carina era a síntese perfeita; ela soltava apenas as palavras necessárias, ora para o meu entendimento, ora para o desenvolvimento de uma paixão que já me transbordava pelos ouvidos.

– Você não vai tocar? – ela me perguntava.

– Sim. Estou escalado para subir ao palco depois do Nelson.

– Palco... – ela dizia a sorrir.

– Não zombe do nosso palco, Carina.

– Não, imagina! Eu acho tão lindo isso que vocês fazem.

– Acha mesmo?

– Sim. De verdade.

Aquela frase foi de fato a cereja do bolo, porque enquanto as meninas mais lindas da rua nos olhavam como se fôssemos assaltar suas casas e estuprar suas irmãs mais novas, Carina achava linda a nossa tarde natalina de rock n’ roll.

– É a primeira menina que escuto elogiar – eu dizia.

– Que isso... – dizia Carina levando o copo de cerveja aos lábios com as duas mãos, como se alimentasse de uma caneca de Nescau.

– JÚLIO, VENHA ATÉ AQUI! – gritava Nelson de cima do palco, bêbado feito uma porca – LARGUE O PESCOÇO DA CARINA, DESEJE UM FELIZ NATAL AOS PRESENTES E FAÇA O SEU MELHOR, SEU GUITARRISTA DE MERDA!

– Meu Deus, acho que ele bebeu demais, Júlio – dizia-me Carina.

– Desculpe-me pelo Nelson, Carina. E pelo “pescoço” também. Ele está bêbado...

– Que isso... A parte do pescoço eu gostei – dizia Carina sem muito bem me encarar, dividindo seu olhar entre o meu tórax e o chão.

Ela tinha um jeito todo seu de ser tímida e descolada, “sem sal” e encantadora, tudo ao mesmo tempo. Isso me deixava confuso e cada vez mais a fim de alcançar seus lábios.

– E que parte você não gostou?

– Da parte que você vai subir ao palco e me deixar aqui sem ter com quem conversar.

O que dizer a uma menina como a Carina numa hora dessas? Não disse nada. Só a beijei.

– LARGA A MENINA, SEU CRETINO HAHAHAHAHAHA! – gritava ainda mais o Nelson.

* * *

No dia 24, antes de ir para o Espírito Santo passar o Natal com a família do meu pai, marcamos de nos ver. Eu, atrasado, cheguei ao local com a sorte de vê-la de longe, ainda a me esperar. Ela vestia flores, da sapatilha ao singelo arco. Carina olhava para o céu e sorria, mesmo sob as negras nuvens, que anunciavam a tempestade de verão que estava por vir.

– Desculpe a demora, Carina. Eu...

Carina não me deixou completar. Acolheu-me em seus braços e me beijou o pescoço com doçura. Mesmo com a boca desocupada não emiti palavra. Quieto eu fiquei, até que cessasse toda aquela sensação estranha em meu corpo.

– Feliz Natal, Júlio – ela me disse a sorrir.

– Foi o beijo mais prazeroso que já recebi, Carina.

– Mas foi só um beijinho, no pescoço. Foi tão bom assim?

– Sim, porque, no meu pescoço, foi o único!

Mesmo não fazendo meu tipo, mesmo sem eu saber ao certo que de fato me atrai, sigo com Carina. Acho que quando alguém te acende uma paixão, das duas uma: ou esta pessoa seguiu todas as regras e padrões de conquista – agindo como uma “pessoa de série” –, ou foi simplesmente ela mesma. E é na segunda opção que a paixão tem mais chances de se candidatar ao posto de amor.