sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

NOVA

Ela estava doida pela noite daquela sexta-feira. Queria cair na balada. E isso estava muito claro no balançar de seus cabelos loiros e curtíssimos. Embalada pelo som emitido por um aparelho de som portátil, ela simulava estar no meio de uma pista de dança, ao mesmo tempo em que contava o meu troco, ali, apertadinha na cabine do caixa, no depósito de doces próximo ao meu escritório.

– Meu troco está errado... – eu disse.

– Ahn? – ela respondia, ainda sem olhar nos meus olhos.

– O meu troco. Está errado.

– Ah, sim, desculpe-me! Quanto você me deu mesmo?

– Dez.

– Foi um chiclete e dois amendoins, certo?

– Certo... – eu respondia já perdendo a paciência.

Ela refazia suas contas, de cabeça.

– Está certo agora? – ela perguntava.

– Sim, agora está.

– OK! Próximo!

* * *

Chovia muito naquela noite. O meu relógio marcava oito da noite quando lembrei que combinara um chopp com um amigo no Jazz Bar. Corri para lá, debaixo de uma água tremenda. Fazendo o paletó de guarda-chuva, consegui chegar até a primeira mesa do lado de dentro do estabelecimento. Passei a vista pelas outras mesas e constatei que meu amigo Charles ainda não havia chegado.

– Um Black Label, cowboy, por favor – eu pedia ao garçom.

Gosto de beber whisky antes do chopp. É como se o primeiro me preparasse para o segundo.

Enquanto aguardava meu amigo aparecer, observava o comportamento dos presentes. Oitenta por cento ali era amante do bom e velho Jazz, que aguardavam pela voz da Mônica Lisboa. A minoria restante não passava de um bando de adolescentes fazendo um “esquenta” antes de cair para as boites vizinhas. E foi observando esses adolescentes é que avistei aquela doida que me atendera à tarde no depósito de doces.

Ela estava acompanhada de alguns rapazes. Eles riam muito. E bebiam bastante também. Na mesa deles havia uma quantidade enorme de latas de cerveja barata. “Como eles conseguem beber essa merda?”, eu pensava. Mas algo fazia com que eu não tirasse o olho daquela garota. Lembrar-me dela se enrolando com o meu troco causava-me grande irritação, mas ao mesmo tempo causava-me também uma curiosidade estranha; queria saber até que ponto ia o seu jeito abobalhado.

Chamei o garçom e:

– Ei! Está vendo aquela loirinha ali, perto daqueles rapazes de preto?

– Sim, senhor!

– Ofereça um chopp Guinness a ela. Diga que é por minha conta.

– Sim, claro.

O garçom entregou o “presente” e apontou para mim. Disfarcei. Fingi que não estava aguardando sua reação. Quando virei o rosto em direção a ela...

– Oi! – dizia-me aquela menina, já puxando uma cadeira em minha mesa.

– Oi... Você é rápida!

– Eu? Acho que não... Eu me lembro de você. Mas... Por que o chopp?

– É... Eu não sei. Gosto de proporcionar ao próximo alguns dos prazeres dessa vida.

– Beber uma Guinness, por exemplo?

– Sim, claro! Esse é apenas um dos prazeres.

– É algum tipo de publicitário, fazendo testes com pessoas?

– Não, não. Deixe eu me apresentar. Meu nome é Gilberto, mas pode me chamar de Gil. Sou contador. E você?

– Eu me chamo Norma, e minha profissão você já sabe, não é?

– Sim, claro.

Norma bebia a Guinness com tanto prazer. Meu Black Label sumira do meu copo, então a acompanhei no chopp.

Ela me parecia mais centrada e mais “cabeça” também. Vestia uma jaqueta de couro sobre uma malha branca. A calça jeans era surrada, mas um charme só. Pude notar uma pequena tatuagem sobre a nuca.

– Quantos anos o senhor tem? – ela me perguntava.

– Trinta e oito.

– Um pouco velho para mim. Casado?

– Desquitado. E você?

– Solteira. Vinte e dois anos.

– Muito nova para mim.

– Imaginava mais?

– Sim, uns vinte e três.

– Algum problema com o número dois?

– Talvez...

– Completo vinte e três amanhã, às duas da madrugada.

– Hummm... Não estará mais tão nova para mim.

– Assim como você não estará mais tão velho. Para mim.

– Vai comemorar com seus amigos?

– Sim, quer vir?

– Não. Marquei com um amigo.

– Ele não vem.

– Como sabe?

– Não sei. Só digo isso porque quero que venha comigo.

Depois dessa frase só me lembro de estar rodando o paletó em meio a uma pista de dança repleta de jovens loucos. Norma beijava seus amigos na boca, o que fazia com que eu me sentisse um velho de noventa anos.

– Por que beija seus amigos na boca? – eu perguntava à Norma.

– Ciúmes?

– Não há motivos.

– E se eu te beijar?

– Aí haverá motivos.

– Para ciúmes?

– Também. Mas me referia aos motivos que terei para te levar para cama. Já passam das duas e você já não é tão nova assim.

– É verdade. O que está esperando?

* * *

– Para onde você vai? – eu perguntava à Norma, ainda deitado na cama do motel.

– Para o trabalho, ora. O depósito abre aos sábados.

– Chefes... Feliz aniversário, menina. E se cuide.

– Já tenho vinte e três, Gil. Sei me cuidar.

– Sei que sabe. Eu te vejo na segunda?

– Claro.

– Sinto-me estranho... Sabe qual a diferença entre a sua idade e a minha, Norma?

– Sei... Deixe-me ver... É...

Ela se atrapalhava com as contas, de novo. Mas aquilo não me irritava mais. Eu concluía que Norma nascera para me irritar durante o dia. Mas enlouquecer-me por toda a noite.

5 comentários:

Sandro Ataliba disse...

Muito bom o texto, bem espirituoso e criativo. Dei boas risadas com o diálogo.
Abraço

Luciano Freitas disse...

Obrigado pela leitura, Sandro!

Aninha disse...

Ainda tava no clima dos contos fofinhos de Natal, ainda bem q esse msm sendo mais moderninho foi bem feliz rs


bjos :)

Nathalia disse...

Gosteeeeeeei! =)
Mundo moderninho, não? hahaha

Clarissa disse...

gostei!