segunda-feira, 27 de abril de 2009

3

- Oi. Demorei? – eu dizia.
- Não. Acabei de chegar. Tudo bom? Sente-se! – respondia-me Érica.
- Ah, que bom.

Eu puxava uma cadeira.

- Por que escolheu esse restaurante? – eu perguntava.
- Para ser secreto.
- Sim, mas não precisava ser tão escondido? Demorei a achar.
- Não importa. Importa é que estamos aqui.
- É.

Enquanto preparávamos nosso diálogo, eu passava os olhos naquele local. Era bem requintado. Não só as mesas, mas todo o restaurante possuía um tom avermelhado. Um aspecto que caminhava entre o sombrio e o aconchegante.

- Bem, vamos ao que interessa? – dizia-me Érica.
- Sim, claro. O que você tem para me contar?
- O problema não está bem no que vou lhe contar, sabe? Mas no que vamos fazer a partir de então.
- Você está me deixando preocupado.
- OK! Vou ser direta. Jonas, eu estou esperando um filho seu!

Aquela frase me vinha como um projétil. Senti meu corpo gelar e minha garganta secar.

- O quê? Você ficou maluca?
- Você sabe que não, Jonas! Temos história o suficiente para que isso seja palpável.
- Mas não pode ser! E o remédio? Não vinha tomando?
- Vinha. Quer dizer, andei esquecendo em alguns dias...
- Alguns dias? Como que você me faz uma coisa dessas, Érica?
- Escute aqui, Jonas, eu não sonhei com um filho seu, se é o que quer saber! Não agora.
- Meu Deus...
- Mas sabe que eu te amo e...
- Ora, a merda já está feita! Temos então é que acabar com essa história sem que sua irmã suspeite de nada!
- Deixe-me ver se entendi. Você quer “acabar com essa história”, não é? Então, você quer abortar o nosso filho?
- E você tem alguma outra ideia, Érica?
- Sim! Tenho! Por que não sumimos daqui? Nós três!
- Pirou de vez... Alô! Acorde, Érica! Eu sou casado com a sua irmã! Esqueceu?
- Por isso mesmo! Ou você quer que tenhamos o nosso filho na frente dela?
- Meu Deus... Se Eliza descobre isso, Érica...
- Ela não vai descobrir. Escondemos o nosso romance há mais de seis anos, Jonas!
- Um romance, Érica! Mas um filho?

Na minha cabeça, só vinha o rosto ingênuo de Eliza, minha esposa. Naquele momento, tive inveja daquela calma que ela possuía. Pois se eu tivesse tal qualidade, jamais teria me envolvido com Érica. Ali, naquele momento, eu só pensava que, com essa mesma calma, Eliza passaria a ignorar a mim e a sua irmã. Seria o silêncio mais duro de suportar. Senti, naquela hora, o amor adormecido que sentia por Eliza transformar-se numa monstruosa presença.

- Jonas, nós podemos pensar melhor na ideia. Ninguém nos achará por aqui. Temos tempo. Tome alguma coisa.
- Não quero tomar nada. Onde está o exame?

Eu perguntava na intenção de desmascarar uma possível farsa. Mas...

- Aqui! – ela dizia.

Ela me mostrava um exame positivo.

- Merda!
- Não fale assim, Jonas! É nosso filho!
- Vou-me embora.
- Espere aí, Jonas! Aonde você vai?
- Para casa! Para minha esposa!
- E quanto a mim?
- Érica, entenda! Eu não posso! O que Eliza irá pensar? O que a sua família irá pensar?
- No que você pensava quando me levava para a cama, Jonas?
- Não complique as coisas, Érica!
- Não estou complicando! Quero saber o que via em mim! Um passatempo?
- Seis anos, Érica! Há seis anos que estamos enganando sua irmã! O que você esperava? Um casamento entre nós dois?
- Mas por que você nunca deixou que eu me aproximasse de nenhum outro rapaz? Por que dizia que tinha ciúmes de mim? Por que me dizia que eu era o seu verdadeiro amor?

E eu realmente dizia tudo aquilo. Érica tinha tudo que Eliza não tinha. Seis anos mais jovem que sua irmã, Érica me levava a estágios sentimentais que Eliza jamais me levara. A libido presente naqueles seus vinte e quatro aninhos foi capaz de me tornar no mais escroto dos homens. Um cara indigno do amor de Eliza. Uma bosta ambulante. Uma bosta que trepa com a própria cunhada.

- Está bem, Érica. Você espera que eu assuma uma vida ao seu lado, é isso?
- É o que eu sempre esperei. Eu repito: eu não programei essa criança! Eu juro! Mas...
- Espere sentada, Érica. Adeus.

* * *
Eliza me esperava no portão de casa.

- Oi amor. – eu dizia.
- Amor? Faz um filho na minha irmã e me chama de amor, seu cretino?
- Do que está falando?
- Não se faça de desentendido!

Eliza enfiava a mão no bolso de meu paletó e puxava um bilhete.

- Aqui a prova! – ela dizia.
- Prova de quê? – eu dizia sem saber que raio de bilhete era aquele.
- Érica deixou no seu bolso sem que você percebesse! Ela me ligou ainda pouco contando tudo. E disse que, como prova de que você esteve com ela, eu acharia esse bilhete.

Era um bilhete feito num panfleto do próprio restaurante. Érica já o tinha pronto e colocara em meu bolso logo assim que cheguei ao encontro. Ela só o pegaria de volta caso eu assumisse aquela criança.

Eliza, eu sei que não sou digna de seu perdão, nem mesmo de um olhar seu. Mas escrevo esse bilhete, não só para provar o quão cafajeste é Jonas, mas também para me despedir.

Dizia o bilhete.

Eliza, naquele momento, tentou entrar em contato com Érica, mas já era tarde. Sua irmã envenenara-se logo após o telefonema que fizera à Eliza.

Foi uma dor terrível. A ausência do corpo de Érica e do companheirismo de Eliza me veio como uma avalanche. Eu, que tinha dois amores, perdi-os de uma só vez... E pior: com um possível terceiro.

10 comentários:

jαnα ¦D disse...

Nooossa, não esperava por esse final oO Mas bem feito pra ele! ´aosioaisoaisoais, acho que estou sendo cruél :~

Abraços.
='-'=

Nathalia disse...

engraçado como SÓ depois da "cunhamante" dizer que está esperando um filho seu, ele sente a graaande presença da esposa...

ai, homens... "num guento"

Fabiana disse...

luciano está se superando nos babados! hahaha

agora chora, "seu fulano"
rs


beijos

Lucas Moratelli disse...

E se foram todos. x(

Solidão merecida.

Gostei da descrição do restaurante!

Ótimo conto Luciano.

Abraço.

BóRiO...Que segue! disse...

Li o conto e adorei meu caro!
Não vou deixar um comentário porque é a minha primeira passage, e não costumo opinar! ^^
Pretendo passar mais vezes!Muito bom! Abraço

C. disse...

Caros amigos e amigas da CASA DO BESOURO, venho aqui dando avisar que essa casa encontra-se novamente aberta e reformada.
Nova URL, novos contos, nova fase!
Voltei e dessa vez foi pra ficar.

www.conto-um-conto.blogspot.com

Mariene Amaral disse...

Waw!
Muito bacana o texto.
Belo fim para um cafageste afinal.

Livia Queiroz disse...

Putzzzzzzzz
fortissimo esse!

caramba, ainda to digerindo a cascata de acontecimentos!

Fodssssssssss


Mto bom cara!
Adorei

Aninha disse...

coitada delas, quem tinha que morrer era ele, safado!

Vanessa Sagossi disse...

Que covardee!
Cara de pau!