quinta-feira, 9 de abril de 2009

O SOL DE ABAJUR II - Durma Com Os Anjos


De repente, lá estava eu deitado sobre aquele chão sujo e quente. Fazia um sol de rachar, mas eu não tinha escolha; permanecia deitado. As pessoas corriam, algumas até passaram por cima de mim, outras sequer me viram. Lembro de um par de sapatos – a única coisa que eu conseguia ver daquele sujeito –, que não saía do meu lado. Eu tentava recostar meu rosto sobre o solo, mas o asfalto soltava um vapor que tornava tal ato impossível.

“Calma, gente, calma!” era o que eu ouvia de alguns. Eu, abraçado à minha mochila, apenas tentava entender o que realmente ocorrera. “Não mexa nada, OK, rapaz?”, aquele par de sapatos me dizia. “Sim”, eu, sem saber o porquê, respondia.

Outro par de calçado chegava até a mim. Dessa vez um par de tênis feminino.

- David?!

Eu reconhecia aquela voz! Era da minha amiga Bianca! Bianca Tavares, a escritora!

- Bianca?!
- Sou eu, David! O que aconteceu, meu Deus?
- Eu não sei, Bianca. Só sei que...
- Não converse com ele, moça. Deixe-o respirar. E você, rapaz, fique quieto, por favor! – dizia o “par de sapatos”.
- Sim, senhor – eu respondia.

Bianca levantava-se ficava ali ao meu lado. Um par de sapatos de um lado e um par de tênis do outro.

Em poucos minutos, toda a rua estava deserta. As lojas fechavam suas portas, os camelôs corriam com suas mercadorias e os pedestres sumiam como num truque de mágica.

Sirene! Eu ouvia uma sirene.

- Eles chegaram, graças a Deus! – dizia o senhor.
- Vai ficar tudo bem, David! – dizia Bianca.
- Calma, calma! – diziam os paramédicos que acabavam de chegar.

Eu não estava entendendo nada. Talvez estivesse perdendo a consciência, não sei.

Já na maca, imobilizado, eu pude ver os rostos das pessoas. O dono do par de sapatos era um senhor aparentando seus cinquenta anos. Bianca segurava minha mão e, como sempre, usava um par de óculos de sol. Ela estava ainda mais bonita que da última vez que a vira. “Vai ficar, bem”, ela dizia.

- Eu posso ir com vocês? – perguntava Bianca.
- Sim, pode – respondia um paramédico. – Você é parente dele?
- Sou sim – mentia Bianca.

A ambulância corria demais, eu sentia. Bianca segurava mais forte minha mão e tentava me manter acordado. Um fio de lágrima corria seu rosto até o queixo.

- O que houve? – eu perguntava ao paramédico.
- Fique calmo. O senhor foi atingido nas costas por uma “bala perdida”.
- Meu Deus...
- Mas fique calmo, estamos aqui para lhe ajudar. Já estamos chegando ao hospital, sim?
- OK...

Depois desse “OK” eu apagava.

* * *
Quando eu voltei a abrir os olhos, Bianca estava à beira do meu leito.

- Como está se sentindo? – ela me perguntava.
- O que aconteceu, Bianca?
- Descanse, David. Você foi atingido por uma “bala perdida”, no Centro da cidade. Os médicos lhe trouxeram aqui, lhe operaram e é tudo que eu sei.
- Mas... Eu não me lembro de nada disso, Bianca. Quer dizer, lembro de ti apenas.
- Não importa, David. O que importa é que está tudo bem.
- Será? Sinto-me estranho.
- Sente-se como?
- Pela metade.
- Como assim, David?
- Não sinto minhas pernas, Bianca.
- Ah?!

Naquele momento, entrava um médico.

- Sr. David?
- Sim.
- Boa noite, David. Eu sou o Dr. Cláudio Moreira e preciso ter uma conversa com o senhor, pode ser?
- Sim, claro, doutor.
- Você é esposa dele?
- Namorada... – dizia Bianca. Na certa para não ser convidada a se retirar daquele assunto.

Um misto de “calma profissional” e de certa gravidade tomava o semblante do Dr. Cláudio. Ele se sentava numa cadeira e, sem tirar os olhos de uma prancheta, começava:

- Bem, Sr. David, acho que já deve saber o que lhe trouxe a esse hospital, não?
- Sim. Levei um tiro nas costas, não foi isso?
- Sim. Você foi submetido a uma cirurgia para a retirada do projétil, que ficou alojado na...
- Doutor, me poupe dos detalhes, por favor. Eu vou voltar a andar?
- !!!
- Só me responda isso, doutor. Porque já não sinto minhas pernas! Estou paraplégico, não estou?
- Fique calmo, senhor.
- Estou ou não estou?
- Sim, infelizmente, você está paraplégico – dizia o médico meio sem jeito.

Bianca, como num sobro, dizia “não”. Senti nela um penar mudo. Como se ela estivesse escondendo milhões de gritos.

Depois que o médico saiu, Bianca ainda permaneceu um pouco ao meu lado. Com palavras que só uma escritora de imaginação fértil como a dela seria capaz de dizer, tentava me acalmar diante da catástrofe.

Eu começava a imaginar se a história do “namorada” fosse verdade. Seria tão bom...

Por fim, ao se despedir, ela dizia:

- Amanhã eu volto, está bem?
- Promete?
- Sim, prometo. Tentamos avisar alguém da sua família, mas não achamos seu celular na sua bolsa. Quer que eu os avise?
- Por favor.

Eu passava os números de alguns telefones para Bianca.

- Você vai superar isso, David.
- Assim espero. Não consigo pensar em nada... Só me vem à mente uma estrada imensa, sem fim. Estrada essa em que nunca mais poderei caminhar.
- Deixa de besteira, David... Bem, eu já vou indo. Quer que apague a luz?
- Sim, por favor, mas deixe aceso o abajur.
- Pegaste minha mania, é?
- É o tipo de sol que me lembra você.
- Bobo. Boa noite, David. Dorme com os anjos.

Ela me beijava o rosto. Gostei de sentir seus lábios, mas lamentei sentir também certa pena de minha situação.

Bianca fecha a porta. Naquele momento o sentimento de solidão se fez imensamente presente. Durante toda aquela noite eu sonhei com Bianca. No sonho, ela tinha asas de anjo, e por diversas vezes ela me salvava. Um corpo alvo que voava todo o tempo sobre mim e me tirava de todos os perigos. Lembro que em algumas vezes tentei beijá-la, mas minhas pernas pareciam presas ao chão. Era, talvez, o meu inconsciente já se acostumando com os meus novos limites.

* * *
Foto da Capa: Fabiana Romeo.

9 comentários:

Aninha disse...

coitado dele, tomare que se recupere e fique bem.
E que a Bianca continue com ele :)


bjos

Fabiana disse...

ixi.

Livia Queiroz disse...

Putzzz
Q sina, q azar, q horror, q tudo...
Muito bem escrito, embora triste.

E me parece q é o começo de um grande amor.
Será??

Tem continuação n eh??

Bjaum

Luciano Freitas disse...

continução?

um dia... sim! rs

nathalia disse...

como assim um dia?
nada disso! vai ter continuação SIM! rsrs
bem que vc falou, ficou com um ar diferente...
mas to com bons sentimentos... =)

ahh, gostei do modo como falou no inicio... vendo tudo de baixo! rs

bjsss

Rafael Garça disse...

Bacana!! Legal que eu ja tinha visitado o blog algumas vezes sem saber que era seu.
Obrigado pela visita, pelo e elogio e pela força que ta dando com a logo do programa.

Grande abraço!

Lucas Moratelli disse...

Conto denso, mas ótimo.

Sempre me surpreendendo Luciano!
_

A história me fez lembrar um livro maravilhoso que li há um ano, "Minha profissão é andar". É uma narrativa em primeira pessoa de um homem que perde os movimentos das pernas, a história é real e também bastante densa.


Concordo com a Nathalia, continuação SIM!


Abraço.

Vanessa Sagossi disse...

Tadinho dele!
Mas ficou fofo!

Araujo disse...

Poxa, que triste ):