segunda-feira, 13 de julho de 2009

A FILHA

Assim que o sinal soava, Tatiana, diferentemente de todo o restante da classe, guardava lentamente o seu material escolar. O colocar daqueles livros tão bem cuidados na mochila já cheia de manchas e remendos era calmo, quase sombrio. O bom estado de seus livros se devia à seriedade com que a menina levava seus estudos, ainda na quarta série. Já a mochila tinha como causa de seu aspecto gasto um desleixo materno. A mãe de Tatiana estava mais interessada na quantidade de cervejas estocadas na geladeira.

Conforme as crianças desciam euforicamente as escadas da escola rumo ao portão, Tatiana os seguia a passos lentos, mantendo certa distância. Tatiana não via necessidade de tamanha pressa. Não para ela. Pressa de quê? Pressa para quê? Os momentos de paz que vivia eram justamente aqueles que naquele momento se acabavam por conta do soar daquele sinal. A escola era o porto seguro daquela menina que apanhava da mãe sem motivos e com certa frequência. Ir para casa significava o início de mais um dia de inferno familiar.

Já na rua, Tatiana deixava para trás toda uma imensidão de crianças que abraçavam e beijavam seus pais. Os sapatos, já tão gastos quanto a mochila, se arrastavam pelo trajeto que, por Tatiana, não precisava ter objetivo. “Eu poderia ficar andando e andando até o início das aulas de amanhã”, pensava Tatiana todos os dias durante o caminho de volta para casa.

Mal pusera os pés dentro de casa e Tatiana já escapava por pouco de uma garrafa que voou em sua direção como um tiro. Uma voz de homem também habitava aquela casa junto aos gritos de sua mãe.

- Seu canalha! Tome! – dizia sua mãe àquele homem.

Mais uma garrafa voava.

Depois que o pai de Tatiana faleceu, assassinado pela própria esposa, o inferno da menina passou a ter personagens que mudavam quase que diariamente. As aventuras “alcoólico-amorosas” de sua mãe se davam às claras. A menina presenciava tudo, dos beijos às garrafadas, o que causava em sua mente confusão tamanha. Como diferenciar o amor da fornicação? Mãe, pai, padrasto, casos, namoros, sexo... Tudo se apresentava de forma direta, porém, complexa demais para o entendimento de Tatiana.

O rapaz da vez – alvo das garrafadas – passa por Tatiana e nem a enxerga; tropeça na menina e sai cambaleando.

- Mãe?
- O que foi, peste? Já chegou da escola?
- Quem é ele?
- Não te interessa, filha do cão! Interessa essa louça aí na pia para você lavar! Vá!

Tatiana, ainda com a mochila nas costas, apanhava um pequeno banco que usava como degrau até a pia. Sobre ele, ela lavava os restos de uma manhã cheia de álcool, cigarro etc.

A mãe de Tatiana, completamente embriagada, abria mais uma cerveja e, com os pés sobre a mesa de centro da sala, assistia à TV.

- Mãe, o que tem para o almoço?
- Não fiz nada, Tatiana! Se vire aí!
- Mas...
- O QUE É? MAS O QUÊ? QUER APANHAR, NÃO É? – gritava aquela mulher que já se aproximava com um pedaço de condutor de gás de cozinha.
- Não, mãe! Com essa borracha não! Por favor!

As súplicas de Tatiana, como sempre, não a livraram das surras. As pernas, já sem espaço para novos hematomas, tremiam a cada golpe.

Depois de arriar a menina sobre o vermelhão do chão da cozinha, a mãe de Tatiana acendia um cigarro e voltava para a TV. Tatiana olhava para suas pernas e pensava seriamente se ainda as teria até os seus quinze anos. A impressão era a de que mais cedo ou mais tarde sua mãe as arrancaria durante uma dessas surras. Na sua cabeça ainda infantil e sem muitos critérios para avaliações como essas, pensava o quão seria difícil ir até a escola sem as suas pernas. Então, decidida, falou para si:

- Não vai arrancar as minhas pernas!
- O que foi que você disse? – perguntava sua mãe já se preparando para mais uma dose de violência.
- Você não vai arrancar as minhas pernas!

Foi quando sua mãe, num trocar de pernas sem fim, chegava até Tatiana com um dos braços já erguido, pronto para mais um golpe, que a menina, ao ver uma das garrafas quebradas ao chão, se apossou de um grande pedaço de vidro e o arremessou sem mirar. Mesmo assim, foi certeira ao atingir um dos olhos da mãe.

- AAAAAAAAAAAAI! SUA FILHA DO DEMÔNIO! EU VOU TE MATAR!

Com o olho jorrando sangue entre a mão que a tapava, aquela mulher não sabia o que fazer. Não enxergava Tatiana, mas tinha o desejo de matá-la a qualquer custo.

A menina se posicionava atrás da mãe e, malignamente, assistia todo aquele sofrer como que num camarote em chamas. Chegou a esboçar um sorriso.

Um vulto negro às gargalhadas aparecia ao lado de Tatiana.

- Merecido, não? – dizia aquele vulto de silhueta chifruda e esbelta.
- Ela vai me matar... Minha mãe vai me matar!
- Não se preocupe, Tatiana. Seu pai está aqui!

A menina olhava para o vulto e, sem espanto algum, passava, talvez, a entender o porquê de ser tantas vezes chamada de filha do cão pela mãe. De certa forma se sentia mais leve agora.

8 comentários:

Kayo Medeiros disse...

Legaaaaaaaaaaaaal! \,,/

=)

jαnα ¦D disse...

ADOREI! De novo: por essa eu não esperava! Muito bom mesmo :D

Abraços.
='-'=

Camis disse...

Genial,Luciano.
Não tenho mais o que dizer!

Lucas Moratelli disse...

Literalmente a filha do cão.

hehe

Odeio violência, mas nesse caso a mãe mereceu!

E pensar que esse tipo de violência contra criança é tão comum.

Gostei muito Luciano, abraço.

Dayanna disse...

ai que bizaaarro ;~
rss


mas gostei ;*

Fabiana disse...

nossa... 2:10 da manhã... só consegui parar pra ler agora! mas sei que vc vai entender o dia de hoje (ou melhor, de ontem! rs)

ai, que medo!
haha... como sempre, vc cheio das coisas diferentes!

Aninha disse...

UAU!

Livia Queiroz disse...

nussssss

não sei o que dizer...


simplesmente fantastico!