quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A ENTREVISTA

Sentei-me e tossi umas seis ou sete vezes. Encostei minha bengala no braço direito do velho sofá da sala enquanto o nanico se acomodava no assento à frente; um jornalista recém formado. Ele retirava de sua bolsa apenas uma espécie de laptop só que bem fino, quase que como uma folha de papel. O teclado, no qual ele digitaria toda a entrevista, era apenas refletido sobre a minha mesa de centro. É, ele digitava sobre um teclado virtual. Minha empregada o ofereceu um copo d’água, apenas uma dose de três dedos, no máximo; era um luxo. Ele aceitou, logicamente.

Estava um dia muito quente e a minha paciência para entrevistas ficava ainda menor, quase inexistente diante de tal fato. Embora o ar condicionado estivesse ligado no nível máximo, a sensação ali era de uns 36º C.

- Podemos começar logo com isso, rapaz? – eu perguntava.

- Só mais um minuto... Agora sim!

Foi um alívio saber que aquele jornalista estava pronto para a minha tortura, pois tortura maior era vê-lo estabanado frente aquela “folha de papel”.

A primeira pergunta foi em relação ao fato de eu não ter publicado um único livro em toda a minha vida.

- As editoras nunca me quiseram, só isso.

- Mas o senhor sabe o porquê disso?

- Se eu soubesse jogava na loteria, meu filho.

- Seus contos fizeram muito sucesso no início do século, e fazem até hoje, mas o senhor não se sente antiquado por ainda usar o velho blog?

- Não, nem um pouco. Há quem goste.

- Mas é que nenhum escritor, mesmo os seus contemporâneos, usa mais o blog. Soube que o seu é um dos dez ou vinte blogs ativos no mundo inteiro...

- Você lê os meus contos?

- Sim, leio!

- É o que importa... Pode passar para o próximo assunto, por favor?

O nanico digitava com muita rapidez tudo o que eu dizia. O calor do ambiente aumentava conforme a entrevista se desenrolava. Minhas mãos trêmulas já respingavam suor por todo o sofá; Parkinson.

- Pode nos falar sobre alguns de seus personagens mais marcantes? – perguntava-me o jornalista.

- Houve algum que lhe marcou?

- Sim! Gosto muito daquele velhinho, o Jorge Silva, e gosto também daquela senhora, a Luana.

- É... Esses são, talvez, os meus personagens mais antigos. Já leu todos os contos desses personagens?

- Não, todos não. São muitos. Luana, por exemplo, comecei a ler faz uns três anos.

- Não leu nada, então. Pegou apenas a velhice dela, não foi?

- Sim, eu acho.

- Escrevo Luana desde que ela tinha 14 anos, rapaz.

- Eu sei disso, cheguei a ver nos arquivos do blog.

- E porque não os leu? – perguntei em tom ríspido.

Eu senti que o nanico perdia um pouco de sua paciência. Se já não bastasse o calor de quase 40º C naquela sala, aquele pobre rapaz ainda tinha de aturar a grosseria de um velho frustrado como eu.

- Não os li porque não tive tempo, Luciano.

- Tempo! Vocês jovens nunca têm tempo para nada! Só sabem beber e trepar com parceiras virtuais! A leitura...

- O senhor está me insultando!

A paciência dele agora era zero. Mesmo com o rosto rubro, num misto de calor e raiva, aquele jornalista decidia prosseguir com a entrevista:

- Você é um escritor que, durante toda a carreira, pouquíssimas vezes deu entrevista. Por quê?

- Isso é uma provocação?

- Ah?!

- É! Está me provocando!

- Não, senhor! São mais de cinquenta anos de carreira e apenas duas entrevistas publicadas. Só gostaria de saber o porquê disso!

- Está me provocando seu moleque!

Segurei minha bengala com a mão firme e, num movimento rápido, lancei-a em direção à testa do nanico. Passou raspando.

- Você é louco! – disse o jovem.

Ele pegava as suas coisas e saía da minha casa dizendo um monte de palavrões. A minha empregada chegava assustada até a sala e:

- O que houve S. Luciano?

- Nada! Pegue minha bengala e me ajude a chegar até o escritório. Acabo de ter uma ideia para o conto de amanhã.

- E que ideia é essa, S. Luciano, eu posso saber? – perguntava-me a enxerida.

- Vou contar a história de um rapaz que não sabe entrevistar...

10 comentários:

FYC disse...

Quandi falou Jorge Silva e Luana, entendi tudo! hahahaha

engraçado, mas n te vejo rabugento assim não, hein! haha

Fabiana disse...

nossa...

Kayo Medeiros disse...

Rá, muito bom! e tb não imagino que vc VÁ ser tão rabugento assim... rs.

Lucas Moratelli disse...

Adorei Luciano, adorei.

Muito criativo, mas, por favor, publique seus livros. ;)

Obrigado pelos comentários e desculpe meus sumiços daqui.

Abraço.

Janu disse...

"Um jornalista recem formado." tsc tsc tsc
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Comecei a ler e, logo no principio, pensei: "Isso é muito Lu!".
....nunca publicou livro? fala sério! q mentira!
Qdo chegou no Blog! Putz! É o Lu! Isso com certeza não há de mudar! Que surjam Twitters, Meme, facebooks, etc ....Blog é a tua cara! Não tem jeito! rs
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"Seus contos fizeram muito sucesso no início do século, e fazem até hoje"
adorei!
Quero mto ver Luana avó! rsrs
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E eu imagino vc rabugento sim! rsrs
Ainda mais com 'recém formados'!hauahaua
Acho que qdo se pensa e pesa demais, uma certa intolerancia tendendo à rabugice se cria.
Eu adoro! Conheço muitos assim q, sabendo de sua rabugice, a transformam em uma caracteristica da qual eles proprios riem.
Vide esse conto! rsrs
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Adoro!
Sempre fico com saudades qdo fico mto tempo sem vir aki...^^
Bjokas

FYC disse...

Que legaaal!
Quando tive aqui ontem, a imagem da capa não quis abrir, então entrei aqui hoje pra tentar ver a ligação entre conto e iamgem.

ADOREI! como sempre! rsrs
bjssssssssssss

C? disse...

Poxa Luciano, vc vai se tornar um escritor ranzinza assim?
HEUHEUEHUEHEUHEUEHUE

C? disse...

Poxa Luciano, vc vai se tornar um escritor ranzinza assim?
HEUHEUEHUEHEUHEUEHUE

Vanessa Sagossi disse...

hauauhuahuah...
Só vc, Luciano!

Aninha disse...

uahuahuauha, mt bom!
esse ficou bem diferente, vc ficou tão mau, é meio estranho msm te imaginar assim, e sem nenhum livro publicado?! até vc ficar velhinho assim, ja terá mts livros publicados! Uhul até Luana foi citada =)

bjos!