quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A TATUAGEM

Hugo ainda guarda no peito um pouco do momento de ira vivido naquele dia; Daniela, sua esposa, chegava em casa com aquela “surpresa” sobre o seio direito: uma singela borboleta azul. O fato é que os seios de Daniela já chamavam por si a atenção alheia; não pelo tamanho – eram médios –, mas pelo formato perfeito e pelas pequeninas pintas que estes carregavam; uma graça.

Hugo nunca imaginou uma tatuagem no corpo de Daniela, que sempre se mostrou uma menina muito conservadora e recatada para tal “ousadia”. Hugo tinha verdadeira adoração pelo corpo de sua esposa. “Seu corpo, Daniela, não merece tatuagem ou qualquer uma dessas coisas que o deforme”, costumava dizer Hugo.

- Você ficou maluca, Daniela?! – dizia Hugo diante do susto – Uma tatuagem nos peitos?! Nem me consultou!

- Amor, eu quis fazer surpresa!

- Isso lá é surpresa, Daniela? Uma borboleta bem no meio dos peitos? Diga! Ficou louca?

- Não gostou? – dizia Daniela já cabisbaixa.

- Claro que não! Que decepção...

- Só você vai ver, amor – tentava convencê-lo Daniela – Não o mostrarei a ninguém, eu prometo.

Hugo, ágil, analisava rapidamente tal promessa e concluía que dentro desta havia uma grande vantagem ao seu ciúme quase doentio: os decotes – comportadíssimos, diga-se de passagem –, vez em quando usados por Daniela, estariam, por ela mesma, terminantemente proibidos.

- Você promete? – dizia Hugo mais controlado.

- Claro, meu amor! Uma tatuagem dessa a mulher só deixa à mostra a quem ela realmente ama!

- Tudo bem, Daniela, eu aceito a sua tatuagem, vai – dizia Hugo ainda mais convicto de que a borboletinha azul tinha lá o seu pró: ninguém jamais poria os olhos sobre os belos seios de sua esposa.

Alguns dias se passaram e Hugo já havia, inclusive, aprendido a gostar daquela tatuagem. As noites do casal acabaram que apimentadas pela tal borboletinha azul. “Que babaca eu fui, Daniela”, dizia então Hugo sobre a tatuagem.

Mas o tempo passou e, assim como em muitos relacionamentos conjugais, as diferenças daquele casal passaram a prevalecer sob o teto em que viviam. Hugo, após ser promovido a um cargo de chefia na empresa em que trabalhava, passava a chegar mais tarde em casa – quase sempre de pileque. Os carinhos do rapaz davam aos poucos lugar a uma agressividade leviana. Adjetivos chulos como “safada”, que nunca fizeram parte do vocabulário de Hugo, marcavam agora presença quase que constante nas discussões do casal.

Cansada de tal tratamento, Daniela resolvia pagar na mesma moeda; sob a dica de uma amiga, caía de cabeça num mundo até então desconhecido: as salas virtuais de bate-papo. E passava então a marcar encontros às escondidas durante as tardes, enquanto Hugo trabalhava.

Até que certo dia, Hugo, coberto de segundas intenções, almoçava com uma cliente num pequeno e aconchegante restaurante, no Centro da cidade. A tal cliente – uma mulher de quarenta porém enxuta –, por sua vez, se derretia sobre as palavras do rapaz. Este, transbordante de galanteios, pegava as mãos delicadas daquela mulher a fim de beijá-las, quando, sem querer, avistava, numa mesa ao fundo, Daniela a conversar com outro.

A primeira reação de Hugo foi uma paralisia total; não acreditava no que vira e sequer pensava no risco de seu próprio adultério. A segunda reação foi o pranto, ao notar que, além de aparentar muito envolvida com o papo, Daniela exibia aos olhos do outro, através de um ousado decote, a borboletinha azul.

4 comentários:

ARAÚJO disse...

Um conto no estilo Rodriguiano, construído na medida certa, com ingredientes contemporâneos. Genial, como sempre consegue ser.

Nathalia disse...

TOMOU, hugo?

adorei!

Vanessa Sagossi disse...

Ah, triste.
Bjs

Yara Lopes disse...

Bem feito pra ele.
Ram, ciumento