segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O PRESENTE

As Meninas

Na minha adolescência, quando o fim de ano se aproximava, uma coisa estranha me tomava o peito e a alma. Não sei explicar, mas acho que acontece com todos nós nessa fase da vida. Acho que tem a ver com aquele misto de alegrias gerado pelas férias escolares, pelo verão, aquela coisa toda. Sei que a impressão era a de que tudo mudava; o clima, o astral das pessoas.

Nessa época do ano, na fase das aulas de recuperação da minha escola, quando o uniforme – que era um verdadeiro “ultraje” à feminilidade das meninas – já não era obrigatório, nós, meninos, costumávamos ter diversas surpresas. É que sem a obrigatoriedade da calça jeans, do tênis preto e da tradicional camisa polo – sem falar no jaleco –, as meninas, bem à vontade, coloriam o pátio com suas camisetinhas, shortinhos e sandalinhas.

Claro que durante o ano tínhamos oportunidades de vê-las sem uniforme, mas nada comparado aos trajes de verão. Elas exibiam suas marquinhas de biquíni e, a fim de refrescarem a nuca, prendiam seus cabelos em rabos de cavalo, tranças e coques.

Lamentávamos algumas “baixas” também; as meninas mais inteligentes (não, não eram as feiosas da sala, muito pelo contrário) não precisavam de recuperação. A Karina, por exemplo, a mais gata de toda a escola, aluna da minha classe, só tirava boas notas. Então... Se quisesse encontrar com Karina em dezembro, que fosse à praia.

Mas, no final do último ano do ensino médio, num desses períodos de recuperação, mas precisamente no dia quinze de dezembro, estávamos numa roda de papo, aguardando pela divulgação do resultado final, quando:

- Gente, Karina me ligou hoje! – dizia Rafaela – Ela disse que vem aqui ver a galera!

Rafaela era a melhor amiga de Karina, andavam sempre juntas.

- Nossa! – eu dizia aos meninos – Imaginem a Karina como deve estar, bronzeadinha...

Rafaela nos olhou com uma pontinha visível de ciúme, mas logo se refez.

Na roda estávamos Rafaela, Bianca, Laura, Gabi, Elaine, Pedro, Flávio, Bruno e eu. Nós, meninos, observávamos, ali, jogando conversa fora, a beleza de cada uma daquelas meninas.

Eu tinha lá a minha a queda por Rafaela. Mas era aquela queda de adolescente, sabe? A gente não consegue manter o foco numa queda só, então acaba tendo quedas por várias meninas... Mas confesso que a queda era, sim, mais intensa por Rafaela.

A Rafaela era uma branquinha que, desde o ensino fundamental, sempre sonhei em namorar. Mas namorar mesmo! Palavra! Durante os cinco anos em que estudei com ela, não destacaria as qualidades de seu corpo muito bem feitinho e nem de seu rosto angelical, mas sim as qualidades de uma alma rara. Rafaela era amiga de todo mundo. Não tinha como não se apaixonar por ela, porque era uma menina linda, gente finíssima e confiável. Ah, e aquela coisa toda de inocência também, que Rafaela, diferentemente das demais meninas, deixava transparecer.

A menina

Por conta do jeito de ser de Rafaela, nunca havia tido oportunidade concreta de lhe dizer o que sentia. Ela parecia sempre tão desencanada em relação a namoros... Não sei explicar, mas era bem difícil levar uma conversa com ela às segundas intenções, porque ela não dava chances para que isso ocorresse. E aquele final de ano, por ser o último na escola, teoricamente, era a chance restante de dizer, enfim, o que sentia por Rafaela.

- Ih! Olha a Karina lá! – dizia Rafaela ao avistar a amiga.

Rafaela ia de encontro à Karina. As duas se abraçavam e vinham, de braços dados, de encontro ao grupo. Meu Deus, como descrever Karina naquela tarde?

Karina, bronzeadíssima, vestia um short verde guerra e uma camisetinha branca, bem leve. Seus cabelos lisos e loiros estavam presos numa trança que se portava sobre o seio esquerdo. O que mais me chamava atenção era a rigidez de suas coxas, que não eram exageradamente grossas, mas apenas grossas e lindas. Ora, Karina já era uma deusa sob o ridículo uniforme escolar, o que esperávamos?

Bianca, Laura, Gabi e Elaine emudeceram diante do nosso emudecer. Karina, ali, daquele jeito, era como uma miragem para nós.

Já era de se esperar que toda a atenção dos meninos se voltasse para Karina. E não foi diferente.

Com Pedro, Flávio e Bruno bajulando Karina, era a vez de Bianca, Laura, Gabi e Elaine tratarem de dar uma volta – talvez até para estudar um pouquinho, não sei. Foi quando me senti à vontade para, finalmente, chegar à Rafaela com as minhas reais intenções.

- Rafa! – eu dizia.

- Oi.

- Eu queria... Eu queria te contar uma coisa. Eu...

- Pode falar, Marcelo.

- Aqui não. Venha, vamos dar uma volta. Eu te conto pelo caminho, pode ser?

- Ah, Marcelo, o que é? Não estou a fim de ficar andando debaixo de sol! Fala!

- Olha, Rafaela, sem essa, vai... Durante cinco anos você criou inúmeras situações, nas quais eu sempre me vi sem armas para dizer que...

- Que o quê?

- Que eu te quero!

Rafaela ficou sem ação. E eu não sabia se olhava nos olhos dela ou se esperava por uma resposta olhando para o chão. Mas lembro que preferi olhar nos olhos, porque, no fundo, estava tomado por uma curiosidade imensa: a de saber como reagiria Rafaela diante de uma declaração como aquela.

- Você está falando sério, Marcelo?

- Estou.

- Eu não sei o que te dizer, porque...

- Não precisa me dizer nada agora, se não quiser. Aguardei cinco anos... Acho que posso aguardar mais alguns dias. Só não quero te perder de vista, Rafaela.

- OK...

A verdadeira menina

O resultado final foi colocado no mural e logo constatamos que todos nós havíamos sido, finalmente, aprovados. A felicidade foi geral, porque ninguém ali gostaria de passar mais um ano naquela escola; pensávamos em faculdade etc...

Em meio àquele misto de alívio e saudade precoce, abraçávamos uns aos outros, mas, nitidamente, evitávamos, Rafaela e eu, de nos abraçarmos, como se, calculadamente, nos programássemos para nos abraçar por último.

Quando não havia mais quem abraçar, fui em direção à Rafaela, que parecia esperar mais do que um simples abraço da minha parte. “Beijo ou não beijo? Beijo ou não beijo?”, eu pensava enquanto me aproximava.

Antes do abraço, acariciei de leve seu rosto, fui ao seu ouvido e:

- Vou ficar esperando o seu “sim”.

- Então – ela dizia –, sim.

Seus lábios ainda faziam aquele aceite quando os meus, afoitos, os tocaram, proporcionando a todos uma imagem inédita: o beijo de Rafaela.

A partir daquele momento, foi como se quiséssemos recuperar os cinco anos de silêncio mútuo. Mútuo, sim, porque logo Rafaela me confirmaria que também, por cinco anos, esperou por um sinal meu.

O sentimento recíproco é bom demais, mas na adolescência a coisa é ainda mais forte e incontrolável. Nossos encontros eram bailados ao som da descoberta; eram intensos. Ali eu sabia que, na verdade, eu não sabia nada a respeito de Rafaela. A inocência e a infantilidade que sempre relacionei à Rafaela se desmanchavam nos beijos que trocamos nos dias seguinte, até o Natal, quando:

- Marcelo – dizia-me Rafaela, pelo telefone, em pleno dia vinte e quatro –, eu quero te dar um presente. Pode vir aqui em casa agora?

- Mas agora? São duas da tarde ainda!

- É que meu presente pode, digamos, se desfazer, se não for dado agora...

- Bem, se você diz... Estou indo para aí.

Fui pelo caminho tentando decifrar o que de fato poderia se “desfazer”, mas sem sucesso.

Cheguei ao portão do prédio de Rafaela e toquei o interfone. Falei com o porteiro, que logo me deu permissão para subir.

Chegando à porta de Rafaela, toquei a campainha conforme ela me pedira: dois toques curtos.

- Entre! – ela dizia lá de dentro.

Entrei. E encontrei Rafaela a atingir o ápice do ineditismo; estava completamente nua. O pior é que Rafaela sabia fazer tudo aquilo, e parecia muito experiente ao dizer:

- Mas um pouquinho e o seu presente, ó, “puft”, já era, Marcelo...

- Mas... o que é o presente em si, Rafa?

E Rafaela, então, respondia, deixando bem claro o quanto eu a desconhecia:

- Meu tesão, Marcelo!

8 comentários:

Kayo Medeiros disse...

Hahahahahahaha... adoro como os contos de natal nunca são tão bonitinhos como aparentam! Tá excelente! Mas ó, "trança" de cabelo é com Ç, viu? ^^

Luciano Freitas disse...

Hahahaha, é que "trança" e "transa" acabam sendo muito próximas para mim e as confundo! rsrs Corrigido! Vlw!

Kayo Medeiros disse...

Ahaaaaam. Não quero nem imaginar que tipo de "ligação" vc faz entre tranças e transas. XD

Luciano Freitas disse...

Hahah, é melhor mesmo. rs

Aninha disse...

Eu já estava esperando um final todo bonitinho, e, como disse Rafaela, "puft" hahaha

bjs

Nathalia disse...

UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAU, rafela mega danadinhaaaa!
hahahah
que saudade desses contos!
beijoo

Vanessa Sagossi disse...

Meu Deus, que menininha é essa???????????????????????????

Beijo
Vanessa

Thais Lima disse...

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