terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CRISE DOS QUATRO

Antes de me envolver em um namoro sério, ouvi algumas vezes os mais velhos falarem sobre uma tal “crise dos quatro anos”. “Quando um namoro chega a esta idade, este passa por uma recaída e pode até acabar de vez”, diziam. Como eu, com quinze anos, no auge da minha adolescência, estava mais interessado em provar das mais diversas bocas ao invés de colar em apenas uma, nunca dera importância à “crise”, mas, de alguma forma, guardara aquelas palavras.

O tempo passou e, aos dezenove anos, um pouco mais maduro, já me via completamente preso a um sentimento que me tomava por completo. Milena me pegara de jeito, essa é a verdade. Das dezenas de bocas de outrora, a de Milena era a que melhor me acolhia. E a beleza, que esta carregava, com meiguice, em cada centímetro do corpo?

Milena passava um pouco longe da preferência nacional, é verdade; não havia fartura em seu corpo! Milena era magra e de medidas delicadas. Sendo assim, não possuía bumbum grande, porém, exibia uma linda cintura e um quadril bem desenhado. Os seios eram pequenos, mas o suficiente para valorizar sua a elegância. O legal é que seus dezessete anos eram bem nítidos; Milena não possuía nada que nos enganasse sobre sua idade, nem para mais, nem para menos. Por fim, aquele sorriso, que fazia questão de nascer entre suas longas, castanhas e onduladas mechas, junto àqueles olhos amendoados e às pequeninas sardas, formavam a cereja de um bolo chamado Milena.

Nosso namoro foi uma love story. Sabe quando tudo se encaixa? Sabe quando até mesmo os maldosos olhares alheios são aniquilados pela constatação de estarem diante de um casal nascido para a eternidade? Era assim. Por mais que um rapaz achasse Milena uma coisinha, ao testemunhar o nosso carinho avassalador e mútuo, este pensava duas vezes antes de qualquer atitude. Com as meninas, a mesma coisa.

Tudo vinha às mil maravilhas. Falávamos em casamento, acredita? Pois é, falávamos. Mas eis que nos surge aquilo que há anos ouvira dos mais velhos: a crise dos quatro anos de namoro. O tempo passou e as descobertas entre nós, antes tão empolgantes, não existiam mais. Era como se eu soubesse tudo sobre Milena. A criança ganha um brinquedo novo, explora todas as suas possibilidades de diversão e enjoa. Não é assim que acontece? No meu caso, porque no caso de Milena nunca existira um brinquedo e – depois concluí – muito menos uma criança enjoada.

- Milena, eu acho que não sinto mais o que sentia por ti – eu disse.

- Não me ama mais? – disse-me Milena meio sem entender.

- Será que foi amor, Milena? Sempre achei que o verdadeiro amor não acabasse nunca...

- Duvida de seu próprio sentimento agora?

- Sim, porque ele acabou. E se este sentimento acabou, é porque não era amor, Milena.

- OK, “grande conhecedor dos sentimentos”. Vou sofrer muito, sei disso, mas vejo que não posso mais mirar meu amor em alguém que sequer sabe o que este significa! – disse-me Milena nitidamente desapontada.

Engoli seco, confesso. Mas eu precisava daquele “tempo”, até mesmo para poder descobrir o que eu realmente sentia por Milena; amor ou simples costume?

Eu estava, sim, disposto a voltar àquela vida de solteiro, sabe? Sair com os amigos, voltar a experimentar aquelas bocas e, quem sabe?, encontrar um verdadeiro amor. Mas em algum momento – provavelmente num daqueles de meditação –, lembrei que aqueles mais velhos, que falavam sobre a crise, falavam também numa coisa mais ou menos assim: “o relacionamento sério é um trabalho árduo de conquista diária”. O fato é que minhas saídas com os amigos não renderam em nada. Sentia-me estranho em meio àquela banalização de sentimentos; sentia que uma saudade, mesmo que ainda tímida, tomava aos poucos meu coração.

Passados dois meses, eu constatei que aquela saudade, que então já me tomava todo o corpo e a mente, estava unicamente relacionada à Milena e aos nossos quatro anos de namoro. Fui atrás dela.

Chegando à casa de Milena, toquei a campainha. Ela abriu a porta e, sem dizer palavra, mais linda do que já era, me alcançou os lábios num beijo que marcou não apenas o nosso retorno, mas o início da fase mais linda de nosso namoro. Nos redescobrimos ao mesmo tempo em que descobrimos que nossas antigas descobertas foram apenas um aperitivo para as descobertas que estavam por vir.

Após os dois meses de “separação”, concluí que Milena ainda sentia por mim tudo o que sempre sentira. A monotonia da relação estava, na verdade, instalada na minha mente, e não na dela. Eu queria aquela novidade de quatro anos atrás, mas a merda é que eu não soube, no momento, entender que uma pessoa como Milena nunca se esgota em novidades; eu é que estava cansado em explorá-las.

9 comentários:

Nathalia disse...

e o nó na garganta bem no meio do trabalho? rs
vc é demaaaaaaaais!
(depois de dois minutos pensando no que escrever...)
brigada!

beijoooooooooooooooooo

Cacilhας, La Batalema disse...

Quando me casei, falaram de uma tal crise do 1º ano… depois da crise dos 3 anos… depois 5 anos… depois 7 anos… depois 10 anos…

Já estou casado há 14 anos e a relação vai muito bem, obrigado, a despeito do mau agouro dos familiares.

[]’s
Cacilhας, La Batalema

Vanessa Sagossi disse...

Oi, Luciano!
Esse até que foi fofinho!! :)
Cheguei a pensar que a Milena iria incorporar uma dessas meninas malucas! Rsrs..

Beijo,
Vanessa

Luciano Freitas disse...

hahahaha, Vanessa, nem sempre há espaço para o meu lado Rodriguiano rs Vlw pela visita!

Lucas Moratelli disse...

Eita, saudade dessas histórias!

Quando ele foi na casa dela eu estava esperando a recusa, mas que bom que o fim foi feliz. :)

Mas então, amei "O PANETONE"! Não podia ser melhor. Inicio, começo e fim divinos.

Parabéns Luciano.
Bom começo de ano.

Hanny Saraiva disse...

Oh,que belo. Mas a Milena nem questionou ele mais? Isso que é amor contista...

Aninha disse...

Nossa, adorei!
Acho que todos casais passam por isso né, o importante é saber lidar, e nesse caso, eles souberam!

Posta mais contos!!!

bjs.

Anônimo disse...

Estou neste momento a passar uma fase muito semelhante, mas numa situação inversa, ou seja, é ela que têm dúvidas do sentimento que nos uniu durante 4 anos. O que me resta é ir viver a minha vida e quando ela perceber os seus verdadeiros sentimentos por mim, estarei disposto a ouvi-la, mas sem estar com falsas esperanças.

Anônimo disse...

Nós Estamos nesse momento também, porém ela que está confusa, ela pediu um tempo mas não quer terminar, mesmo depois de eu ter cogitado algumas vezes a possibilidade, precisa de espaço sem as cobranças que eu (sempre) fazia dela, e quando conversamos sobre isso, eu acabei exagerando monstruosamente demais, falei baboseiras, fiz idiotices, e só me dei conta da cagada que fiz dois dias depois (ontem), fui relendo as conversas e tudo mais, percebi onde eu errei, e isso me ajudou a superar esse tempo sem ela.
Ela mora em outra cidade, 140 km de distância, estou agora há 3 dias sem falar com ela o dia todo, depois de 4 anos de contato todos os dias, conversas, conselhos, mensagem de bom dia, beijo de boa noite pelo celular, ta fazendo muita falta pra mim, acredito que não muito pra ela porque eu cansei ela muito nesse fds, algumas amigas me disseram, "Olha, eu sou mulher, e sei que depois disso tudo, daqui alguns dias ela vai esfriar a cabeça, vai sentir sua falta e te procurar pra conversar, dê tempo a ela, se é isso que ela quer e precisa"; Agora estou aqui me segurando para não mandar mensagens pra ela, estou aqui contando o tempo pra que esse tempo passe logo e eu possa novamente chamar ela novamente de minha (não como propriedade) mas, de minha mulher.

Eu fiz muitas cagadas, deixei a emoção gritar e sufocar ela, num momento em que o que ela mais precisava era paz, e ela ainda foi complacente comigo, e só ficou em silêncio...

Aliás eu estava até pesquisando onde comprar as alianças de noivado... Trabalho com RH e com tatuagem, e estou procurando me mudar pra cidade dela o quanto antes...

Estou aqui, tentando me manter no meio, do sim e do não...
Claro que, o vínculo ainda é muito grande, e eu sei que em breve isso vai se resolver, para o lado que for, vai ser melhor para os dois, só quero cultivar a amizade dela, costumávamos ser os melhores amigos, mas o externo foi afetando o interno dos 2, e falando por mim, o meu interno acabou explodindo em cima dela...

Ela tem muita importância pra mim, quero poder reconhecê-la como você também fez!

Obrigado pelo texto, me ajudou a me concentrar e entender no que eu errei!