quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O PLANO

Como quase todo músico, eu costumava passar horas nas lojas de instrumentos musicais; ficava de papo com os lojistas – que, em sua maioria, também eram músicos –, experimentando os lançamentos, discutindo sobre discos etc. Na verdade, era apenas em uma loja que eu costumava fazer isso, quase que diariamente: a loja do S. Lázaro, a Lázaro Som.

S. Lázaro era um senhor de quase noventa anos; herdara a loja de seu pai, um dos primeiros proprietários de loja de instrumentos musicais da cidade. S. Lázaro quase não parava na loja, mas todo mundo sabia quem ele era. Com a cabeça bem branca, ele chegava com seus passos lentos, dando bom dia a todos, e logo saía, com o mesmo bom dia.

A gente sempre escutava histórias de que S. Lázaro era um exímio violonista. Porém, nunca ninguém o vira tocar de fato. “Dizem que esse aí arrebenta no violão de sete cordas”, era o que diziam. “Das duas uma: ou S. Lázaro era de fato tudo o que diziam, ou era um mestre do marketing pessoal”, eu pensava. Até que, num certo dia, eu resolvi provocá-lo.

- S. Lázaro, por que o senhor não tira uma casquinha desse novo Di Giorgio sete cordas que chegou na loja? – eu perguntei.

- Ficou maluco? – reprimiu-me um dos lojistas – Que intimidade é essa?

S. Lázaro olhou para mim, abriu um sorriso, no canto da boca, e:

- Afine-o que eu já volto.

Toda a loja ficou eufórica, porque, enfim, veríamos S. Lázaro tocar violão. Afinamos o Di Giorgio e o esperamos com ansiedade.

Quando voltou, S. Lázaro pegou o violão e disse:

- Façam silêncio, sim?

Fizemos.

Então, S. Lázaro começou a dedilhar um choro maravilhoso, num misto inteligentíssimo de técnica clássica e popular. Ficamos todos boquiabertos.

Quando S. Lázaro terminou de tocar, disse-me:

- E você? Toca?

- Toco, sim, senhor, mas não tão bem...

- Toque, por favor.

Toquei. Mas naquele momento, pressionado pelo olhar do velhinho e sem muita experiência nas sete cordas, executei um número simples, quase medíocre.

- Precisa de umas aulas, filho! – disse-me S. Lázaro – Minha neta é uma excelente professora!

- Sua neta? – questionei-o, pensando se tratar de uma criança.

- Não se assuste, rapaz. Ela tem a sua idade.

- Sei... – eu disse, ainda achando humilhante.

- Ela sabe tudo o que eu sei. Ligue para ela – disse-me ele, me dando um cartão e saindo da loja como um Deus das sete cordas.

* * *
Chegando em casa, liguei para a neta de S. Lázaro.

- Alô.

- Oi! É a Andréia?

- Sim, sou eu!

- Boa tarde. O seu avô me deu o seu cartão. Eu gostaria de tomar aulas de violão de sete cordas.

- Ah... Violão de sete cordas... Sei... Esse meu avô...

- Não entendi.

- Qual o seu nome?

- Plínio.

- Plínio, é o seguinte: eu não dou aula de violão, não sei sequer sacudir um chocalho, para você ter ideia da minha vocação musical.

- Mas...

- O meu avô acha que eu preciso de um namorado e fica por aí distribuindo cartões, que ele mesmo faz, para rapazes que ele diz “parecer boa pessoa”. Peço desculpas...

- Não, que isso? Mas o seu avô, hein... Bem, pelo menos sei que “pareço boa pessoa”, né?

- Isso é.

E, desculpe perguntar, mas... Esse plano do seu avô já funcionou alguma vez?

- Não, porque os rapazes acabam... desistindo.

- E... Você acha que precisa mesmo de um namorado?

- Não com a gravidade de vovô Lázaro. Acho que mulher nenhuma precise de um namorado. O namoro é algo natural, assim como a solidão também é.

- Ele me disse que tens a minha idade. Vinte e cinco?

- Vinte e três.

- Bem, eu não sei quanto a você, Andréia, mas eu estou com vontade de levar o plano de seu avô a sério.

- Então insiste em ter aulas de violão comigo? [risos].

- Façamos a vontade de S. Lázaro!

Resumindo, conversamos ao telefone por horas. Marcamos um encontro naquele mesmo dia, à noite. Nos conhecemos. Ela era linda, mas linda de morrer! Branquinha, cabelos castanhos e curtinhos. Boca carnuda, num batom de tom claro; corpo delicado, estatura mediana.

Depois de muito conversarmos num bar:

- Nossa, seu avô é um maluco – eu lhe disse.

- Por quê?

- Achar que uma menina linda como você precisa de ajuda para arrumar um namorado.

- Ai, o vovô... Ele acha que preciso de um namorado para me distrair até a minha...

- Não entendi.

- Deixe para lá.

- Não, me explique, por favor!

- Bem, Plínio, eu sofro de câncer... E, embora possa não parecer, tenho meus dias contados.

- ...

- Agora você vai fazer como todos os outros: pedir a conta, dizer “nós nos vemos por aí” e...

- Engana-se. Seu avô está certo. Você precisa de alguém que divida com você esses dias, que eu nem acredito que sejam poucos. Alguém que possa ser mais que a ajuda de seus familiares.

Andréia começou a chorar e:

- Que merda, Plínio! Eu acho que... Eu acho que gostei de você! Por que não foi como os outros?

- Não fui porque também gostei de ti! E por que diz “que merda”?

- Porque você não merece uma enferma!

Sequei suas lágrimas, levantei aquele rosto fino e beijei a boca como há anos não era beijada.

* * *
S. Lázaro morreu alguns dias depois – ele não andava bem de saúde. No velório, a viúva me disse que, antes pouco de morrer, sentindo muitas dores, S. Lázaro disse: “Diga ao Plínio que cuide de Andréia”.

Infelizmente, com o falecimento do avô, o câncer da neta piorou de forma assustadora. Mas eu estava lá, firme, ao seu lado, até o dia de sua morte, um mês depois.

4 comentários:

Kayo Medeiros disse...

AHAM.

Tá vendo, gente que escreve conto fofinho é assim: até quando as pessoas morrem, morrerm fofinhamente. XD

Nathalia disse...

aaai, que triste e que lindo tb...
=/
adorei ver dois contos em uma mesma semana, andava com saudades! rs

beijo

Vanessa Sagossi disse...

Oi, Luciano!
Mas que história mais fofinha!!!! :)
Adoreiii!

Bjs!

Aninha disse...

Muito bonito realmente, mas triste tbm...

bjs.