sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

ENFEITE DE NATAL

Eu esperava por um telefonema dela. Já se passavam das oito horas do dia 24 e não sabia ao certo onde eu passaria aquele Natal. Eu esperava por um telefonema dela. Ela me diria o que fazer. Eu já tinha descartado o Natal na casa de meus pais. Estaria à disposição dela. Onde ela quisesse estar naquele dia, eu estaria. Disse isso a ela. Ela concordava, mas com semblante de quem não gostara da idéia. Na certa ela estava mais preocupada com um Natal entre amigos. Amigos, sim, no masculino mesmo. Eram muitos. Todos homens. Nunca vira mulher para gostar tanto assim da companhia destes. Nem uma única fêmea para contar a história? Sempre homens? Eu, pacato, aceitava. Até a página dois, mas aceitava.

Eu esperava por um telefonema daquela que, com seu jeito esperto de me convencer, guiava-me por caminhos de sua própria escolha. Eu só sabia gostar, querer, amar. O resto era com ela. Transformava meu “não” em “sim” e vice-versa. Passeava de salto alto sobre meu coração. Quando não o limpava tão pontiagudo da lama que trazia neles. Meu peito era seu tapete, seu chão, seu canto reservado para as mágoas. Eu só sabia gostar, querer, amar. Tudo era com ela.

Dez horas do dia 24. O telefone tocava e meu peito latejava como que num renascer da mais profunda idéia de solidão. Somente ela me ligava. Ninguém jamais discara meu número. A menos para as notícias ruins. A morte de minha mãe foi uma delas. Caminhava emocionado em direção ao aparelho que se esgoelava a me chamar.
- Alô – eu atendia.
- Oi. Sou eu. Não fica chateado, mas não nos veremos no Natal, OK?
Ela me esfaqueava sem dó. Uma frase cortante.
- Mas...
- Vou passar na casa de uns amigos. Amanhã à noite nos vemos. Está bem?
- Amigos? Entendi. Eu vou ficar por aqui mesmo.
- É bom mesmo. Aquele concurso que tentarás tem provas em janeiro, não é? Aproveite para estudar.
- Sim. É o que vou fazer.
- Bem, vou indo. Até amanhã.
- Feliz Natal, meu amor.
- Ah... Sim... Feliz Natal.
Nunca sentira tamanho desânimo. Na verdade sentira, mas é que somente naquele momento caía pesada ficha de que eu nada era para ela. Nada.

Sentia-me como um enfeite de Natal. Ela me pusera em sua árvore de mentiras, apagava as luzes e saía com suas luminosas verdades. Eu permaneceria ali até os Dia de Reis, quando me guardaria numa caixa até o próximo Natal...

Não estudei droga alguma. Peguei uma folha em branco, uma caneta e compus uma canção.

Age como a luz negra
Faz a confusão ser um bem pra si
Adiando o não de um fim

Vive a me dizer estrelas
Que de tanto alcançá-las diz:
Seja meu pra ser feliz

O que me resta é ser
O seu enfeite de Natal
E no Dia de Reis
Você vai me colocar numa caixa e então, guardar

Sem direito a ser ou não ser
Sem direito a lhe dizer
O que sinto ou não ao ver você

Mesmo sendo assim
Leve o meu coração com o seu feliz
Pois pra mim está tudo bem

Depois, fui dormir.

* * *
Ouça Luciano Freitas com “Enfeite de Natal”.

Foto da capa por Gabriel Andrade.

7 comentários:

Kayo Medeiros disse...

Meu... sei lá, acho que é muita vontade mesmo de ser feito de capacho. Credo.

Nathalia disse...

feliz ele, não? ....

fabi disse...

depois, foi dormir!

Livia Queiroz disse...

Putzzzz...
Ki Natal o dele hein?
pelo menos caiu em si e ki bela canção, embora seja triste!

Adoreiiiii

P.S.: Andei sumida, Falta de tempo, mas to voltando aos poucos...


bjokss

Aninha disse...

poxa coitado :/
achei um belo conto, a música que ele fez me lembrou a uma do Nirvana.
Podia ter continuação =D

jαnα ¦D disse...

Bem, "coitado" em parte né...se é pra ficar com uma mulher assim, ele estaria bem melhor sozinho --'

Abraços.
='-'=

Janu disse...

Continuação!