quinta-feira, 1 de outubro de 2009

FELICIDADES AO MAR

Estávamos à beira mar. O tempo nublado tornava a vista para o Rio de Janeiro praticamente impossível. Mas quem estava interessado no Pão de Açúcar naquele momento? Estávamos em meio a uma briga de casal. Bem, na verdade estávamos ali para um encontro romântico “às escuras”, mas tudo acabou se tornando uma baita discussão mesmo.

Evelyn era casada e mantinha comigo um relacionamento de mais ou menos seis meses. Ela trabalhava numa livraria no Centro e, de tanto eu fazer compras com ela, acabamos nos conhecendo melhor; e o resto é uma história repleta de fugas, beijos escondidos e telefonemas proibidos. Eu, solteiro, sentia que não tinha nada a perder, muito pelo contrário, pois no fundo eu sonhava que um dia ela largaria o seu marido para viver comigo. Eu teria a chance de ter aqueles seus vinte e sete anos só para mim.

Ela era uma gracinha de menina! Evelyn tinha os cabelos bem curtinhos (eu costumava a chamá-la carinhosamente de menino) que deixavam à mostra uma pequena tatuagem sob a minúscula orelha; era a representação de um parafuso. O seu rosto era de uma delicadeza tão exótica que mal consigo descrevê-lo; talvez pelo fato de eu mesmo não saber destacar aquilo que de mais bonito havia em tal semblante. Era um rosto lindo, isso eu posso dizer! Muito lindo! Ah! Ela usava um piercing também, um bastão na sobrancelha esquerda.

Naquela tarde, discutíamos justamente o porquê dela não deixar o marido para viver comigo. Ela vivia reclamando de que a vida deles não estava nada bem, ao mesmo tempo em que nós descobríamos a cada dia o tamanho imenso do nosso amor.

Em meio à discussão, eu a tomava pelas mãos e perguntava:

- O que ainda lhe mantém nesse casamento, Evelyn?

- Ora, Gilberto, não é tão simples assim!

- Vocês não têm filhos, Evelyn! É simples, sim!

- Não, não é!

- Você vive dizendo que não é feliz ao lado dele! O que falta?

- Eu ter coragem para dizer isso a ele!

- Coragem? Ele não percebe?

- Ele acha que está tudo bem, entende?

- Então você finge!

- Não, Gilberto! O que posso fazer se ele não tem sentimento? Ele não consegue me ver por dentro!

- Mais um motivo para vir comigo, Evelyn!

- OK! Dê-me um tempo, sim? Duas semanas!

- Em duas semanas eu a terei comigo, então?

- Farei de tudo! Prometo!

Duas semanas se passaram. Todos os dias eu acordava pensando que ouviria de Evelyn a notícia de que tudo estava acabado entre ela e o marido. Mas ao fim de cada dia eu concluía que a espera ainda me tomaria o peito por mais e mais tempo.

Durante as duas semanas, a pedido de Evelyn, não nos vimos e também não nos falamos. Segundo ela, a minha presença de certa forma a pressionaria.

- Não conseguirei agir sob a pressão de seus olhos, Gilberto! – ela dizia ao fim daquele encontro.

Ao final do décimo quinto dia de espera, fui correndo até à livraria.

- Evelyn! – eu a chamava.

- Estou atendendo um cliente, já falo com você.

- Não! Precisa ser agora! – eu dizia pegando-a pelo braço.

- Solte meu braço, Gilberto! Ficou maluco?

- Quero saber o que resolveu da sua vida! Da nossa vida, aliás!

- Não posso falar agora, Gilberto! Espere a hora do almoço!

- Não! Nem mais um minuto, Evelyn!

- Você quer saber mesmo?

- Sim!

- Agora?

- Claro!

- Lá vai: eu não me separei ainda! Pronto! E nem vou me separar!

- Por quê?

- Não tenho coragem! É isso!

- Não tem coragem de ser feliz, é isso?

- Não tenho coragem de fazer o meu marido infeliz! É isso!

- Mas está nos fazendo infeliz! Já pensou nisso?

- Penso em nós dois todo o tempo, mas entenda a delicadeza da situação, Gilberto!

- Delicadeza? O seu marido não me parece delicado com você, pelo que me diz! Por que tem que agir com delicadeza?

- PORQUE ELE É PARAPLÉGICO E SÓ TEM A MIM! ENTENDEU?

O berro de Evelyn fez a livraria parar. Eu, sem ação, soltei seu braço e dei meia volta.

Entendi ali que Evelyn se sentia responsável demais pelo marido; e o fato dele ser paraplégico agravava ainda mais a situação. Imaginei, apesar da ausência de detalhes, um homem em sua cadeira de rodas, dependente do trabalho de sua esposa e incapaz de perceber a infelicidade que o cercava. Imaginei também o fardo pesado que Evelyn carregava. Valeria atirar a verdadeira felicidade de duas pessoas ao mar pelo sorriso de uma, mesmo que um sorriso de raízes falsas?

Eu ali era apenas uma válvula de escape. Tratei de sumir. Nunca mais li um livro também.

6 comentários:

Fabiana disse...

seus contos andam... DIFERENTES!

Nathalia disse...

poxa...
eu crente que era um conto fofinho quando vi a capa... hahaha

ah,mandei pro seu e-mail do gmail, tá?
não deu pra mandar pelo hotmail porque não o tinha aqui e eu passei a amanhã toda desesperada aqui (vc vai entender o porquê no e-mail...)!

beijos

Aninha disse...

tbm pensei que fosse um conto fofinho..

gostei, apesar de não ter gostado muito do rumo que as coisas levaram, queria que terminasse bem, para todos.
Bem fofa a capa e gostei do nome que deu à personagem, Evelyn, o mais diferente que ja vi em seus contos.


bjo

CAMIS disse...

As vezes na vida, a gente mesmo faz sacrificos semelhantes pelos outros.
Principalmente pra ver a felicidade daqueles que de alguma forma zelamos.

Podia ter sido um conto fofinho, mas este esta mais real. GOSTEI!

www.teoria-do-playmobil.blogspot.com

jαnα ¦D disse...

É, a capa engana. No fim, a mulher fica com marido por pena...inicialmente, achei uma atitude altruísta, mas na verdade, é algo bem injusto. Ela deveria ter sido sincera com o marido desde o primeiro momento ao invés de arrumar um amante e piorar ainda mais a situação ;x
Mas eu gostei do conto :D

Abraços
='-'=

Vanessa Sagossi disse...

Caracoles!
E como é radical: "nunca mais li livro também"
Sem comentários por hoje..

bju