quinta-feira, 15 de outubro de 2009

NATURALMENTE

Cabisbaixo, cheguei do trabalho e pus um antigo disco do Chet Baker para tocar. Era dezembro; fazia um calor infernal e, por isso, pus duas garrafas de Stella Artois no congelador e fui para o banho. O trompete de Chet parecia me dizer alguma coisa. Com suas frases lentas e repletas de pausas, dizia-me “calma, rapaz” – logicamente, eu o obedecia.

Sem perceber, sentei-me no piso do box; deixava a água gelada cair sobre minha cabeça. Aos poucos, o sentimento de solidão que me tomara toda a tarde dava lugar a uma espécie de conforto. Sentia-me do lado de dois grandes amigos: o Chet, que tocava para eu ouvir, e a água, que me acariciava o corpo como uma mulher pronta a me satisfazer.

Os dezenove minutos do lado A daquele disco se findavam. O silêncio então me fez levantar daquele banho interminável. Sequei-me e, ainda enrolado na toalha branca coberta de mofo, pus o lado B para tocar. Fui ao congelador e notei que as cervejas estavam prestes a congelar – adoro quando isso acontece. Retirei as duas garrafas de lá e as levei comigo à mesa da sala.

Não fumo, mas nesse dia acendi um cigarro do maço que um amigo meu havia esquecido lá em casa. Sem saber como tragar, puxava pouca fumaça e logo a expulsava, passando bons minutos a observar o seu caminho rumo ao teto. Um dos cigarros eu simplesmente deixei queimar sem sequer o levar à boca. Observando-o, refleti e filosofei comigo mesmo sobre o curso natural das coisas. Por que simplesmente não deixamos “queimar”? Por que precisamos sempre tomar atitudes para que as coisas aconteçam conforme queremos? Na verdade tudo isso estava ligado a uma só pessoa: Bruna. Vou contar.

Bruna e eu éramos amigos de infância e, de forma muito natural, viramos o casal de namorados mais apaixonado do sistema solar. Estudamos juntos, cursamos a mesma faculdade e entramos para o mercado de trabalho de forma competitiva – ela e eu trabalhávamos em empresas quase inimigas. Eu jamais imaginei que tal fato fosse atrapalhar o nosso relacionamento, mas foi exatamente o que ocorreu.

Bruna fora promovida a um cargo de extrema confiança e, logo no dia seguinte à posse, passou a agir de forma muito estranha. Perguntava-me muito profundamente sobre os meus afazeres profissionais – coisa muito rara até então. Inocente, respondia a todos aqueles questionamentos; estava movido pela confiança que tinha em Bruna.

Semanas depois do “interrogatório”, a empresa em que Bruna trabalhava usava de uma estratégia de marketing que pôs meu chefe de cabelo em pé. Informações empresariais que jamais deveriam ser fornecidas foram postas por mim sobre a cama onde gozamos tantas e tantas vezes. Fora o meu erro crucial.

Até então, onde eu trabalhava, ninguém sabia sobre o meu relacionamento com uma concorrente. Mas a partir daí tudo veio como uma avalanche, que me acertava violentamente.

Perdi o emprego. Minha carreira fora manchada pelo coração gélido de Bruna. Sou hoje taxista, com muito orgulho, mas com um pouco de rancor, claro.

Onde eu estava mesmo? Ah, no cigarro! Eu o observava queimar quando o telefone danou a tocar. Levantei a agulha do toca discos e:

- Alô.

- Thiago, sou eu!

- O que foi, Bruna?

- Podemos conversar? Servi de isca naquela história toda! Estou tão envergonhada... Fui despedida e...

- Olha, se você quer minhas desculpas, está desculpada, mas se quer voltar a se deitar na minha cama, eu espero que não vire uma taxista também!

- Thiago, eu ia dizer que estou montando um negócio próprio e queria que você fizesse parte dele! O que acha?

- Não, mas mesmo assim, muito obrigado pelo convite. Boa noite.

Desliguei o telefone, desci a agulha do toca discos e passei a me sentir mais leve. A vida parecia estar voltando ao seu curso natural. Até o mofo de minha toalha sumira de forma mágica. Pus uma roupa, aumentei o som e fui até a garagem lavar meu carro. A segunda cerveja descia ainda mais saborosa.

* * *
Foto da Capa: Weeping-Willow.

6 comentários:

Aninha disse...

Pois é, aqui se faz aqui se paga..
Bela capa!

bjos

Kayo Medeiros disse...

Na boa, inocente demais o cara também. Essas coisas não se conta nem pra mãe... XP

jαnα ¦D disse...

Bem feito, essa Bruna tomou no meio da cara 'aoisoaisoaiosioais Mas realmente, esse cara foi bem ingênuo :p

Abraços
='-'=

Fabiana disse...

só de ter chet baker, o conto já fica naturalmente (pescou?!) legal!

"não, mas mesmo assim, muito obrigado pelo convite. boa noite" adorei! rs

FYC disse...

ai que delíciapoder falar isso: bruna, vtnc! eeeeeeeeeeeeeeeeeee

hahahahahahaha

Vanessa Sagossi disse...

HAuauahuhuahu...
Caracoles!