segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

AS LEMBRANÇAS DE KARINA

Enquanto a árvore de Natal era montada, Karina sentia o fio de lágrima rolar sobre a bochecha. Procurava disfarçar o pranto mudo com sorrisos tímidos. Seus olhares ficavam voltados para os ornamentos que lotavam a pequena sala de sua casa. D. Laura, mãe de Karina, já percebera o sentimento da filha, mas ficava calada, preferia não tocar no assunto motivo de tal cena.

É que sete anos antes, Karina perdia seu pai num acidente de automóvel. Ainda uma criança, a menina recebeu a trágica notícia no momento em que ajudava a família a enfeitar um enorme pinheiro no quintal. É que Karina percebeu a correria desesperada de sua mãe e de seus irmãos mais velhos. A pequena, que segurava uma bola vermelha brilhante, assistia a tudo atônita. A alegria contagiante da família dava lugar a uma gritaria assustadora. Uma gota caía sobre o reflexo de seu rosto na bola.

De lá para cá, Karina, agora com treze anos, passa a chorar toda vez que monta uma árvore de Natal. Era impossível não lembrar dos momentos, embora poucos, que passara com o pai. Karina lembrava dos Natais anteriores à tragédia, nos quais recebia presentes de um Papai Noel falante e brincalhão – que era seu pai.

Separando as bolinhas para a árvore, Karina resolvia falar.

- Sete anos, não é, mamãe?

- Minha filha, esqueça isso. É Natal, tempo de alegria...

- Eu sei, eu me lembro de papai e...

- Eu também me lembro muito de seu pai, Karina. É inevitável. Mas pense o quão brincalhão ele era. Você acha que ele gostaria de te ver assim?

- Eu...

- Então? Dê-me uma bolinha azul, anda.

- Aqui.

Karina enxugava as lágrimas. D. Laura. sorria ao ver os dentes alvíssimos da filha.

- Está tão bonita a minha filha! – dizia D. Laura a fim de quebrar logo aquele clima.

E aquela mãe, apesar de levar a fama de coruja, não mentia. Karina tinha os cabelos loiros na altura do meio das costas. Eles eram tão lisos que para qualquer enfeite se manter sobre eles era um custo. Quando D. Laura lhe fazia tranças, a menina virava uma sensação; não tinha quem não comentasse. “Que menina mais linda!”, diziam. E quando sorria? Era angelical a forma como seus olhos verdes evidenciavam o brilho de sua dentição perfeita. Quando de costas, devido à sua estatura elevada em relação à idade, Karina mais parecia uma moça. Mas bastava ela mostrar o rostinho de anjo para se constatar estar frente a uma criança, na verdade. Enfim, uma menina “de comercial de TV”. Os três irmãos de Karina, todos já casados, morriam de ciúmes da pequena, que sequer beijara alguém, coitadinha. Tudo o que ela fazia era estudar, ajudar a mãe em alguns afazeres e ler. Karina lia bastante, cerca de um livro por semana, desde que se alfabetizou.

Naquele instante, um desses irmãos de Karina, o Paulo, o mais novo dos três, telefonava para a mãe.

- Mãe?

- Oi, Paulo, tudo bom?

- Sim, tudo ótimo. E vocês, tudo bem?

- Sim, tudo bem. Karina está aqui me ajudando com a árvore de Natal.

- Hum... Chorou?

- Um pouquinho, não é, Paulo? Como sempre. Mas já passou.

- Que bom. Pergunte se ela não quer ir ao shopping comigo e com Daniele. Eu passo aí em vinte minutos.

Daniele era a esposa de Paulo.

- Karina, minha filha – dizia D. Laura –, quer ir ao shopping com Paulo e Daniele?

- Que horas?

- Em vinte minutos.

- Você termina a árvore sozinha, mamãe?

- Claro. Deixe comigo.

* * *
Conforme o combinado, Paulo e a esposa buscavam Karina. Pelo caminho, o casal elogiava a roupa da menina, que se encabulava. Paulo era um irmão muito divertido, assim como fora o pai. Dos irmãos, Paulo era o que mais atenção cedia à Karina, que, logicamente, adorava sua companhia.

Nos corredores iluminados do shopping, os três conversavam, faziam compras e tomavam sorvetes. Foi quando Paulo, em meio aquela alegria toda, disse:

- Está feliz, não é, Karina?

- Sim! Adoro vocês! Adoro a companhia de vocês!

- Minha mãe me disse que você estava triste...

- Não estava triste, Paulo. Ela te disse isso?

- Sim. Disse que você chorou na montagem da árvore, como em todos os anos. Não foi?

Karina cessou o caminhar, respirou fundo, lambeu o sorvete de forma despreocupada e:

- Sim, chorei, irmão. Mas se você me trouxe ao shopping a fim de que eu esquecesse o papai, cometeu um grande erro. Para mim, é muito prazeroso lembrar dele. Ao contrário do que pensam você e mamãe, eu adoro montar a árvore de Natal.

- ...

- Olha! Que vestido lindo, irmão! Ali, naquela loja!

7 comentários:

Nathalia disse...

humft...
a karina é tão adulta, eu n conseguiria....

Luciano Freitas disse...

sempre acho que erro na mão, Nat... rs

Vanessa Sagossi disse...

Rsrsr..
Madura. Só isso. Sofrimento amadurece demais!
Muito fofo!
Mas eu quero "um natal para Luana"!!!

Nathalia disse...

rs
que nada!
sabe o q eu já reparei?
para determinadas coisas eu era mais madura...estranho, não?
depois de "velha" ficar com certos meedos, manias e coisas tão infantis...

vai saber....
rsrsrs

Aninha disse...

tão novinha e bem esperta!
como disseram, sofrimento amadurece demais, mas no caso dela não parece ter deixado marcas tão ruins..

Luciano Freitas disse...

acho que eu não me controlo na hora de colocar em meus personagens juvenis a maturidade que eu gostaria de ver na vida real..rs

Fabiana disse...

gostei! beijos!