quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

PAPAI NOEL ME DEU UM QUEBRA-CABEÇA

Dezembro já se encontrava pela metade, o que significava que pelo menos boa parte dos jovens e crianças já estava de férias. Possuída por todos aqueles sentimentos de final de ano, a mocidade enfeitava as praças, as ruas, os shoppings. Os sorrisos, os cabelos a voar, as roupas coloridas, tudo se movia numa harmonia que até nós adultos, que ainda estávamos trabalhando a todo vapor, nos sentíamos contagiados.

Pode parecer pequeno, mas o mais bacana dessa época, para mim, é poder abrir a janela do escritório e observar como tudo parece estar mais vivo que nos outros onze meses. Sim, nós temos o carnaval, mas não é a mesma coisa. Embora os outdoors apelem por estéticas de um Natal que não é o nosso, fazendo sempre o uso de figuras que remetem ao frio e de pessoas com a pele tão branca quanto os flocos de neve também explorados, o bronzeado das pessoas que passam apressadas e as pernas e costas nuas são o que predominam e o que fazem todo esse clima me tomar o peito.

Em minha hora de almoço, fui até a uma praça, aqui no Centro mesmo, assistir a uma cantata de Natal. As cadeiras enfileiradas acomodavam algumas poucas pessoas, que como eu estavam ansiosas pela pequena apresentação. Fazia um calor absurdo. As roupas brancas das crianças refletiam como espelhos. O suor que escorria daquelas testas causavam um estranho contraste ao tentarmos comparar tal cena àquelas tantas vezes vistas nos filmes americanos. Um menino chorava e reclamava.

- Essa roupa pinica! – dizia ele aos prantos.

Uma das professoras ria e ao mesmo tempo tentava acalmá-lo. Era uma mulher linda. Apesar do par de óculos e do aparelho nos dentes, aquela professora foi capaz de me chamar muito a atenção. O jeito como ela tratava as crianças, sempre com um bom humor invejável, fez com que eu sentisse vontade de ser um de seus alunos, pelo menos por alguns minutos. Foi quando avistei em meio às crianças o meu afilhado, o Lucas. Virei a cabeça e logo avistei Valéria, minha irmã.

- Valéria! Não sabia que o Lucas cantaria!

- Não? Achei que ele tivesse te avisado, Vladimir!

- Não. Vim aqui por acaso.

- Esse menino...

Nos acomodamos e conversamos um pouco sobre aquelas coisas que os irmãos conversam quando se encontram: a saúde dos pais etc.

- Valéria, aquela moça ali de vermelho é a professora do Lucas?

- É sim, a Paulinha. Ela é um amor!

- Estou vendo.

Eu a respondi de forma tão tola que:

- Ih... Já sei! Achou ela “uma gracinha”, não foi?

- Ah... E não é?

- Verdade. Ela é uma gracinha mesmo. Mas está noiva, meu irmão.

- Uma pena.

Lógico! Uma professorinha como a “Paulinha” iria estar sozinha por quê? Dos óculos e do aparelho eu já disse, mas não descrevi o restante. A Paulinha tinha os cabelos na altura do pescoço, negros, e que brilhavam como espelhos, diga-se de passagem. A pele estava levemente bronzeada, o que gerava uma combinação perfeita com as cores de sua roupa – uma calça jeans escura bem justa, uma blusa vermelha de botões e uma sandália na mesma cor da blusa.

Pouco antes das crianças subirem para o pequeno palanque montado ao centro da praça, a professorinha veio até Valéria.

- Ih, ela está vindo até nós – eu dizia.

- Comporte-se, Vladimir, deve ser para falar algo sobre o Lucas, ora.

- Espero que não.

- Palhaço!

A Paulinha chegava até nós. Devo dizer que quanto mais ela se aproximava, mais admirado eu ficava. É que eu tinha sempre o receio de que minha miopia me enganasse em relação à beleza das mulheres. Mas não tinha engano. Ela era realmente linda. O seu falar adocicado a deixava ainda mais atraente.

- Valéria! Tudo bom? – disse a professorinha.

- Tudo ótimo! Como está o Lucas? Nervoso?

- Um pouco, mas é normal.

- É, ele nem dormiu essa noite, coitadinho.

- Imagino.

- Ah! Esse aqui é o meu irmão. Vladimir, Paulinha. Paulinha, Vladimir.

- Encantado! – eu disse mais que encantado.

- Prazer – disse ela sem demonstrar o mesmo.

Apertamos nossas mãos.

- Valéria – continuava Paulinha –, queria lhe entregar o convite de meu casamento. Será dia 15 de janeiro.

- Ah! Que maravilha, Paulinha! Estarei lá, com certeza!

Elas conversaram mais um pouco e logo Paulinha voltava para o seu trabalho com as crianças.

- Posso te perguntar uma coisa, irmã? – eu disse.

- Pode, irmão.

- Você acha que um dia encontrarei um grande amor?

- Ora, por que não?

- É que quando eu acho que encontrei, descubro que alguém o encontrou primeiro. É sempre assim.

Valéria me olhou como quem pensa: “Meu irmão já está beirando os quarenta e cinco anos. Acho que não tem mais jeito. A ingenuidade o atrapalha tanto”.

Naquele dia, fui para casa carregando Paulinha no pensamento. É como se eu tivesse posse de somente duas peças daquele quebra-cabeça, que eram o visual e o falar de Paulinha. Todas as outras peças, segundo minha irmã, eu só teria acesso depois de a conhecer melhor.

Besteira minha tentar buscar as outras peças. Farei como sempre faço: num cantinho especial do coração, guardarei as duas peças junto às outras tantas encontradas.

No Natal, tive o prazer de, na casa de minha irmã, atender um telefonema de Paulinha.

- A Valéria está? – dizia-me ela com aquela voz inconfundível.

- Não, ela deu uma saída, mas já volta. Eu sou o irmão dela, Paulinha. Tudo bom?

- Ah, sim! Tudo! Bom, eu ligo mais tarde se der. É que tomarei um avião em instantes. Mas de qualquer forma, um feliz Natal para vocês, OK?

- Para você também, Paulinha.

E foi só.

6 comentários:

Nathalia disse...

ai, que coisa triste!
beirando os 45?
ééééé, tio, ta brabo! hahahahaha

Vanessa Sagossi disse...

É meio triste mesmo, Nat.
Mas é TÃO bonitinho!
Um homem ingenuo? Exite, Luciano?
Rsrsrs...

Luciano Freitas disse...

Ô... se existe...

Aninha disse...

coitado dele, mas quem sabe ano que vem Papai Noel não lhe dê um amor ao invés de um quebra-cabeça.. :)

Livia Queiroz disse...

Putz...coitado!

Mas eu conheço uma Paulinhaaaa(ki n se chama Paulinha mas... rsrsr)
Adorei o conto, apesar de ser triste, contrastando c toda a felicidade q o personagem descreve no começo!
Mto bom!!

(andei sumida por falta de tempo, mas to de ferias agora... Em breve tará Luana??? obaaaaa!)

Lucas Moratelli disse...

Poxa, que triste.

Pela descrição se ele tivesse 20 anos eu não estranharia.

Muito bom Luciano.