domingo, 6 de dezembro de 2009

O DIA DO NASCIMENTO

Naquele ano, eu passaria o Natal sozinho. É que eu estava em São Paulo a trabalho, e minha família é toda do Rio. Não tive escolha. Estava fotografando umas modelos para uma revista que já deveria estar pronta em meado de dezembro. Mas estava sendo bom para mim, já que eu estava recém separado de minha esposa, e esse clima todo de fim de ano costuma abalar minhas estruturas sentimentais – a distância veio bem a calhar.

No dia 24, fiz algumas fotos durante a manhã, mas às onze horas dispensei toda a equipe e fui direto para o hotel. Diferentemente do Rio, eu acho, em São Paulo choveu e fez até frio. Por isso, passei a tarde assistindo TV e dando goladas num vinho que comprara pelo caminho. A TV, claro, estava um porre. Desenhos bíblicos, filmes com temas natalinos, programas de auditório em versões especiais... Senti falta foi do cheiro de rabanada, que sempre tomava minha casa nos tempos em que morava com mamãe.

Anoiteceu. Como eu não estava a fim de passar o Natal na cama de um hotel, fui para a rua em busca de alguma alma solitária como a minha. Uma das modelos chegou a me convidar para dar um pulo na casa dos pais dela, mas achei que seria mais xarope ainda; inventei uma enxaqueca.

Passei por um bar pouco movimentado. Havia alguns casais e algumas pessoas sozinhas também. Eu entrei e logo avistei um bumbum pequenino a rebolar. A menina caminhava em minha direção; vinha do balcão com duas cervejas nas mãos.

- Chegou na hora certa, cara – ela dizia.

- Hora certa para quê?

- Para me ajudar com isso aqui – ela se referia às bebidas.

- OK.

Sentamos então em uma mesa que acabava de esvaziar. Numa noite de Natal, o que eu perguntaria àquela menina, a fim de começar um papo? O óbvio, claro:

- Por que passas o Natal sozinha?

- Porque sou sozinha. E na verdade prefiro assim.

- Então, deixe eu me retirar...

- Não, fique aí, cara. Eu me refiro à família. Bando de hipócritas.

- Algo de errado com sua família?

- Com todas as famílias, não? Elas ficam alienadas com todo esse comércio do Natal, se sentem forçadas a agirem de forma “agradável” com você. Como se nós devêssemos ser bons uns com os outros somente em dezembro.

- A minha família não é assim. Não estou com eles porque estou aqui a trabalho, mas...

- Carioca?

- Sim. Como soube?

- O excesso de “S”.

Começava então ali uma discussão na qual, de um lado, eu lutava para prová-la de que ainda existia amor entre os seres humanos, e, do outro lado, ela insistia em dizer que o mundo estava destinado a sumir em meio à guerra.

A conversa foi ficando cada vez mais fervorosa. Ela não aceitava o meu ponto de vista e, entre um cigarro e outro, me chamava de alienado.

- O que você faz da vida? – ela perguntava.

- Sou fotógrafo.

- Sabia! Você contribui para toda essa mentira natalina!

- Sim, talvez, mas é o meu trabalho, ora! Fotografo modelos lindas! Inclusive, você poderia ingressar nessa carreira!

- De fotógrafa?

- Não! De modelo!

Ela era uma menina linda! Magra, alta, uns vinte e três anos, no máximo. Cabelos maltratados e pintados de vinho, sim, mas isso tinha até como corrigir. Suas pernas eram longas e bem torneadas; estavam escondidas numa calça jeans bem justa, mas consigo perceber uma estrela até coberta em chamas. Ela ainda calçava um tênis e vestia uma simples blusa de malha.

- Você está me chamando de... – ela dizia com raiva.

- De linda, ora!

Ela então segurou a garrafa no intuito de me acertar a cabeça. Segurei sua mão a tempo e lhe disse:

- Olha, você pode me acertar essa garrafa na testa e continuar com a sua teoria de guerra entre os povos. Mas se preferir, você pode me dar um beijo e, dessa forma, concordar comigo que ainda exista amor no fim do frasco.

Ela me olhou com olhos de... Ah, se eu tivesse com a câmera! Olhou-me com olhos de paixão! Aquela menina de semblante de poucos amigos não ouvia um pedido daquele havia anos, no mínimo. Convidou-me para conversar porque viu na minha blusa da Lacoste um distintivo de alienação. Mas suas palavras de ódio não foram suficientes.

No dia 25 de dezembro daquele ano, nua em minha cama, nascia uma nova menina; não uma salvadora, como Jesus, mas uma salva!

6 comentários:

Kayo Medeiros disse...

Tá, beleza, nem tudo no Natal é ruim e tudo mais... Mas também dizer que ela foi "salva" não é um pouco de exagero não? Dexa a menina não gostar de natal na dela, credo... =p

Luciano Freitas disse...

Não sei se me entendeu, Kayo, mas não é o Natal em si ;)

Nathalia disse...

nossa, luciano, realmente o conto foi meeeeega desenvolvido, hein
hahahahaha
adorei!

e o kayo n entendeu o espírito da coisa...rs

beijos

Vanessa Sagossi disse...

Caracoles, Luciano...
SEm comentários. Quer dizer, não tenho comentários.
:0

Fabiana disse...

parabéns pelos contos natalinos, amigo lu!

grande beijo

Aninha disse...

muito bom, Lu!

bjo.