quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

PANE

Tudo parecia normal. Apenas mais um dia de trabalho, de stress, de calor. Eu chegava no prédio onde trabalho e encontrava as mesmas pessoas que todos os dias esperam pelo mesmo elevador. O mesmo “bom dia” falso de sempre escorregava daquelas bocas abertas e cansadas da rotina, mas era sempre bem recebido – antes falso que nada.

O primeiro elevador a aparecer lotou depressa, sobrando apenas uma mulher do décimo oitavo andar e eu, que descia no vigésimo segundo. Sendo assim, restou a nós aquele sorriso sem graça e aquela frase mais sem graça ainda: “É sempre na nossa vez, não é?”. Claro que não é assim, mas a gente acaba sempre falando dessa forma, como se fôssemos ali o azar em pessoa.

Logo aparecia outro elevador. Eu era o primeiro da fila, mas, por educação, deixava aquela mulher tomar a cabine na minha frente. Só tínhamos nós dois ali mesmo, que diferença faria?

Encarar a subida de um elevador sempre foi para mim uma experiência muito angustiante, ainda mais quando na companhia apenas de uma mulher linda como aquela. Eu não me sinto bem com aquele silêncio que impera, fico com vontade de puxar um assunto, sei lá. Sei que num elevador a última coisa que as pessoas querem é alguém puxando assunto, mas eu penso diferente. Tenho noção de minha chatice – ainda bem –, mas fico chateado comigo mesmo se não puxar um assunto qualquer.

Todos os dias aquele mulher tomava o elevador comigo, mas naquela condição, ou seja, apenas nós dois na cabine, nunca ocorrera. Sim, ela era uma das mulheres mais lindas que daquele edifício. Para ser mais sincero, eu me casaria com ela a qualquer momento. É verdade.

Ouvira de bocas alheias que seu nome é Beatriz. Morena, alta e com os cabelos ondulados e castanhos, Beatriz carregava no rosto uma combinação perfeita entre seus olhos azuis bem claros, um nariz atrevido, uma graciosa pinta um pouco acima da bochecha direita – que mais parecia um toque cuidadoso de Deus – e uma boca pequena e atrativa. O corpo de Beatriz era realçado por uma calça jeans bem justa e uma blusa bem solta, mas que não deixava de revelar a forma delicada de seus médios e rijos seios.

Pelo menos naquele dia eu vestia o meu terno de melhor corte, ou seja, estava à altura daquela beldade ao meu lado. “Tudo conspira para um assunto”, eu pensava.

- Calor, não é, menina? – eu dizia ajeitando o nó da gravata.

- Muito – dizia Beatriz olhando para frente.

- Se continuar assim, eu....

- Ai, aperta o dezoito para mim? Esqueci! – ela me interrompia.

- Sim, claro – eu atendia o seu pedido.

- Obrigada.

Na altura do décimo primeiro andar, aquilo que jamais imaginávamos aconteceu. O elevador deu um tranco, apagou suas luzes e parou.

- Ai, meu Deus! – dizia Beatriz já demonstrando certo desespero.

- Fique calma – eu dizia –, fique calma. Existe um botão de emergência por aqui e logo alguém virá nos tirar daqui. Fique calma.

- ENTÃO APERTA LOGO ESSE RAIO DE BOTÃO!

- Ei, ei, ei... Espere aí! Se não percebeu, está escuro aqui!

Eu abria o meu celular a fim de clarear o painel da cabine e achar o botão de emergência. Logo eu o achava e o apertava três vezes.

- Pronto. Agora é aguardar.

Beatriz nada dizia.

Um telefone localizado acima dos botões da cabine começa então a soar. Eu atendo.

- Alô!

- Aqui é da manutenção, senhor. Em que andar está e quantas pessoas estão aí com você?

- Acredito estar na altura do décimo primeiro andar e só há mais uma pessoa aqui comigo.

- OK. Mantenham-se calmos. Já estamos indo até aí?

- OK.

- O que eles disseram? – dizia Beatriz.

- Disseram que já vêm.

- Graças a Deus!

Dez intermináveis minutos se passaram sem que ouvíssemos sinais de socorro. Durante esse tempo tentei distrair Beatriz comentando que nunca, em quase dez anos trabalhando naquele edifício, presenciara tal problema.

- Eu morro de medo de ficar no escuro – dizia Beatriz.

- Fique tranquila. Não há o que temer. Quer segurar minha mão?

Beatriz, como uma flecha, pegava em minha mão e logo depois se agarrava em meu braço.

- Calma, Beatriz.

- Espere aí – dizia ela –, como sabe meu nome?

- Boa pergunta. Acho que ouvi alguém lhe chamar e, sabe-se lá o porquê, guardei seu nome.

- Guardou meu nome. Sei. E qual o seu?

- Fábio.

- Prazer, Fábio – dizia Beatriz um pouco mais tranquila.

- O prazer está sendo meu, Beatriz, em te conhecer. Pena ser em situação tão...

Começamos então a conversar naquele breu.

Não lembro bem em que ponto da conversa nós estávamos, mas lembro de sentir seus lábios já mexendo bem próximos aos meus. “Eu não posso me aproveitar dessa situação”, eu pensava, mas como não sentir vontade louca de beijar aquela boca maravilhosa? Nossos perfumes já se confundiam resultando numa fragrância que parecia nos estimular ao pecado.

Até que nos beijamos. Foi lindo, porque o silêncio agora fazia com ouvíssemos o barulho estimulante daquele beijo inusitado.

Por vezes ouvira dizerem “ela não dá mole para ninguém aqui do prédio”, mas naquele momento a coisa se mostrara diferente. Sentia que o medo de Beatriz acabava por neutralizar aquela barreira que ela demonstrava em relação aos homens que tanto a fitavam.

Não fomos muito longe no nosso “primeiro encontro”, até porque o local não permitia muita criatividade. Mas foi bom sentir sua mão por vezes passar sobre a fivela do meu cinto numa espécie de conflito entre o “posso” e o “não posso”.

Alguns minutos depois, finalmente, as portas do elevador se abriam. Feixes de luz adentravam a cabine interrompendo um último selinho entre nós. Os rostos dos operários da manutenção surgiam com ar de enorme interrogação. “Não eram duas pessoas?”, se perguntava um deles, acho que por estarmos tão juntos.

Ao sairmos de lá, resolvíamos subir o restante dos andares pela escada mesmo.

No décimo oitavo andar:

- Eu fico aqui – dizia Beatriz – Obrigada por me acalmar, Fábio.

- Foi um prazer, acredite. A que horas você larga?

- Às cinco. E você?

- Também! Podíamos, sei lá, tomar alguma coisa depois do expediente? Calor, não é, menina?

- Claro! – ela ria.

Chegando ao escritório, procurei logo o Juca.

- Juca – eu dizia –, você não vai acreditar quem subiu comigo no elevador. Melhor: quem ficou presa comigo no elevador, cara.

- Quem?

- A Beatriz do dezoito! Ela e eu nos...

- Fábio, quantas vezes precisaremos dizer a você que essa menina faleceu em Angra dos Reis, no final do ano? Procure um médico, rapaz. E rápido.

7 comentários:

Nathalia disse...

ok. vc me assusta as vezes...
ahahahaaha
ótimo, como sempre!

beijos

Kayo Medeiros disse...

Tem alguém precisando de uma garota URGENTE. credo...
Molestado por um fantasma! Oo

Vanessa Sagossi disse...

Ah, tadinho delee!! Que tristeee!! Estava até ficando feliz...
Muitos homens dos seus contos só se ligam em garotas americanas ou europeias (agora sem acento!!), cadê as brasileiras?

Luciano Freitas disse...

Como isso, Vanessa? Garotas americanas ou europeias? rs Acho que você não deve estar lendo com atenção as descrições (quase obrigatórias rs) das garotas desse blog. A Vitória, do conto A SOLUÇÂO, por exemplo, quer mais brasileira que aquilo? Minhas personagens são TODAS brasileiras, sempre! rs. Agora, o que posso fazer se somos um caldeirão de misturas? rs

Obrigado pela visita de todos! :)

ALIMAC disse...

Noooooooussa! Que isso, Luciano?
Mórbido hein x)

Aninha disse...

- medo oO

Lucas Moratelli disse...

Eita! Cara, que viagem.
Esses apegos...

Ótimo Luciano!
Abraço.