domingo, 31 de janeiro de 2010

PERFUME PROIBIDO

Os fins de semana eram os dias mais felizes da minha vida. Sim, os fins de semana costumam ser os dias mais felizes de todos nós, eu sei. Mas não era pela ausência de um expediente ou algo do tipo, até porque eu sou o que chamamos de “do lar”. Sendo assim, qualquer dia, em relação a trabalho, para mim é igual. Na verdade, os sábados e domingos tinham o sabor dos sábados e domingos de minha adolescência, porque eu ficava à espera da pessoa amada, entende?

Às três da tarde, sagradamente, eu tomava um bom banho, vestia uma roupa legal, passava um perfumezinho e o esperava chegar. O coração batia sempre muito forte, como na adolescência mesmo. A vontade de que o ponteiro menor atingisse o quatro de uma vez era tamanha que eu o vigiava a cada minuto passado. Logo o cheiro do perfume de Felipe anunciaria sua chegada adentrando o meu quarto de forma avassaladora, pelo basculante. Eu dava um salto da cama e ia até a porta.

Até aqui a história seria perfeita. Mas o que ocorre é que quem atende prontamente ao toque da campainha é minha filha Liana. E eu preciso sempre presenciar aquele beijo apaixonado e longo entre os dois. Que ódio! Pois é, eu ainda não disse, mas o Felipe é namorado da minha filha. Não gosto nem de pensar, mas aquele moreno lindo pode um dia vir a ser meu genro. OK, eu explicarei essa história melhor.

Meu nome é Lídia, tenho trinta e seis anos, sou casada e tenho duas filhas: Liana, de quinze anos, e Laura, de dez. Meu marido... Bem, não vale a pena falar sobre o meu marido, pois tudo o que ele sabe fazer na vida é trabalhar, ganhar dinheiro e dormir, mais nada. A minha filha mais nova, a Laurinha, é uma criança doce e inocente, por isso também não vou falar muito sobre ela, a coitadinha, que não tem sequer noção do meu “problema”. Falarei sobre Liana.

Até os seus quatorze anos essa menina só me deu alegria. Andava comigo para cima e para baixo, éramos como irmãs! Minha filha, modéstia à parte, é, como posso dizer?, bem feita de tudo, sabe? Cabelos lisos e muito bem cortados na altura do pescoço e um corpo de deixar qualquer homem de queixo caído. Apesar de ser novinha, preciso confessar, Liana é um mulherão. Assim como eu fui quando jovem.

Digo que até os seus quatorze anos foi tudo muito bacana porque foi aí que ela começou a namorar o Felipe, seu primeiro namorado, inclusive. Até aí tudo bem. Afinal, quem não namora? Mas tinha que ser o Felipe?

Quando o vi pela primeira vez tive plena noção do que sentira Liana ao conhecê-lo. Uma quentura me tomou o corpo de forma que nem na minha juventude senti igual. Felipe era um rapaz de apenas dezoito anos, mas, meu Deus, que rapaz. O seu olhar, eu nem sei explicar, é capaz de nos despir de tão sexy. Moreno e dono de um corpo dotado de todas as curvas e traços que uma mulher pode imaginar existir num homem, Felipe era como uma miragem. Um espetáculo de rapaz, resumindo.

“Não posso sentir isso pelo namorado de minha filha, não posso”, foi o que pensei no exato momento em que o conheci. Foi tudo muito rápido. Sentia-me apaixonada, rejuvenescida, viva, o que não sentia há tempos ao lado de meu marido.

- Oi D. Lídia, tudo bom? – Felipe me dizia quando fomos apresentados.

- Tudo bom! Quer dizer que é você o namoradinho de Liana, não é? – eu brincava a fim de disfarçar o meu desejo de fugir dali com ele no colo.

Então. Eles já namoram faz pouco mais de um ano. E eu posso dizer que durante todo esse tempo venho pensando coisas terríveis a respeito de tal relacionamento. Por vezes sonho que Liana me confidencia o fim daquele romance, ou que Felipe me possui em minha cama às vistas de Liana e de meu marido. Enfim, coisas que sinto até vergonha de contar, mas que, infelizmente, frequentemente eu penso. Não depende de mim. Os pensamentos simplesmente me tomam a mente.

Numa dessas chegadas de Felipe à minha casa, Liana não estava – fazia um trabalho da escola na casa de uma amiga. Foi só o perfume de Felipe tomar meu quarto que, num salto, como de costume, cheguei até a porta da sala. Dessa vez, sem Liana para interromper o meu prazer, abri a porta para ele, que se apresentava acabando de vestir a camisa.

- Está calor, Felipe, não precisa se vestir. Você já é de casa – eu dizia.

- D. Lídia! – respondia um Felipe sem jeito – A Liana está?

- Liana foi fazer um trabalho na casa de uma amiga, mas logo estará de volta. Entre.

Liguei a TV, o deixei à vontade na sala e fui até a cozinha buscar dois copos de suco de melancia. Na volta, encostei a porta do meu quarto para que meu marido não acordasse de sua tradicional hibernação de domingo.

- Trouxe um suco para nós – eu dizia.

- Obrigado, D. Lídia.

- Pare com essa coisa de “D. Lídia”, Felipe. Só Lídia, ora.

- Tudo bem.

Antes mesmo de Felipe tocar aqueles lábios inexperientes no gelado copo de suco, minha imaginação já criava situações que é melhor eu nem expor aqui. Na TV, um desses programas dominicais exibia corpos femininos a se lambuzarem numa espécie de gincana machista. Notei um volume crescente na bermuda de Felipe, o que me deixou num estado que nem preciso dizer, não é?

Não aguentei. Juro que me concentrei, mas não aguentei. Tomei o copo de suco de suas mãos e o agarrei como se o mundo fosse acabar naquele momento. Felipe, assustado, se desviava de meus lábios como se fossem venenosos.

- O que é isso, D. Lídia? – ele dizia, mas eu parecia não ouvir e ao mesmo tempo em que insistia naquela loucura.

Até que de Felipe recebi um soco no meio do nariz, que imediatamente danou a sangrar. O rapaz levava as mãos à boca demonstrando arrependimento, enquanto eu, sem entender direito o que ocorrera, apenas chorava em silêncio – morria de dor.

- D. Lídia – dizia Felipe –, me perdoe! Eu não queria...

Foi quando escutei o barulho das chaves de Liana à porta. “Meu Deus, estou perdida”, pensei.

- O que está acontecendo, mãe? – perguntava Liana.

Felipe não sabia onde enfiar a cara, muito menos o que dizer à minha filha. Como explicar tal situação?

- Não foi nada, filha – eu dizia –, foi um acidente. Felipe acertou sem querer o copo em meu nariz, e...

- Como isso, mãe?

A minha história poderia até convencê-la, mas a cara de espanto de Felipe parecia entregar tudo. Saí de cena. Fui para o meu quarto com um medo enorme de Felipe contar toda a verdade. Mas, pelo visto, ele não contou. Aquele episódio lamentável está enterrado em nossas mentes.

Nunca mais tive coragem de olhar nos olhos de Felipe, é verdade. Hoje, quando seu perfume adentra meu quarto, eu corro para o banheiro e me masturbo loucamente. Isso é vergonhoso, eu sei, mas, sim, ainda sou apaixonada pelo namorado da minha filha, confesso.

Os fins de semana passaram a ser os dias mais terríveis de se encarar. Isso porque já ouço vir da sala sons de um sexo escondido, mas que sinto medo de interromper. Mais até do que uma preocupação materna, sinto raiva.

7 comentários:

Nathalia Costa disse...

nossa! que horror...
gostei mas n gostei, entendeu? hahaha
pior que isso deve acontecer...

rsrs
beijooos

Kayo Medeiros disse...

hmmm... estranho, muito estranho...

Aninha disse...

Nossa, muito bom!
Mas é um daqueles que contos que fazem com que eu me sinta meio mal.. o/

Luciano Freitas disse...

Bom ver quando o propósito é alcançado! rs!

Obrigado pela leitura de sempre, pessoal!

Fabiana disse...

morra de raiva em "perfume proibido"! hoje... no muitos em um!

Vanessa Sagossi disse...

Ai, Luciano!!!
Que coisa triste. Que mulher loucaaa!
Mas no fundo acaba sendo engraçado esse fingimento da sociedade..

Yara Lopes disse...

Nossa, que coisa mais dooooida