terça-feira, 6 de julho de 2010

MEDO DO AMANHÃ

Fabrícia sempre foi uma menina apaixonante, ainda mais para um viúvo quase quarentão como eu. Doce, ela trazia a alegria de viver estampada nos olhos e no sorriso – aquela alegria, sabe?, que quase todos temos aos vinte e poucos anos. Dona de um espírito jovial ao extremo, a primeira pessoa a me fez pensar em mim de forma colorida foi Fabrícia – sim, antes dela, sempre pensei em mim como se fosse preto e branco. Mas isso é uma outra história.

Ela era estudante de Letras, com habilitação nas línguas portuguesa e francesa. Durante os seus primeiros semestres na faculdade, tive o prazer inenarrável de lecionar o francês para Fabrícia em aulas particulares, em minha casa. Muito disciplinada e curiosa, Fabrícia, sem querer, fez com que eu me aprofundasse ainda mais naquela língua, a fim de suprir tanto interesse de sua parte. Foi assim que nos conhecemos.

Embora eu sempre tomasse o máximo de cuidado para não me envolver com nenhuma das minhas alunas – principalmente as mais jovens –, devo confessar que diante de Fabrícia me senti, por diversas vezes, tentado às segundas intenções. Talvez por ser a única a levar aqueles momentos de estudo como realmente prazerosos. Tomávamos café, ouvíamos muita música francesa e conversávamos bastante também; tudo durante o horário da aula. Daí para o nosso primeiro beijo não demorou muito.

Começamos assim, nesse clima franco brasileiro, a namorar. A parte mais chata foi explicar à minha filha Aninha, na época com oito anos, que “aquela menina bonita de cabelo de cenoura” era, então, a namorada do papai. Aninha a chamava assim devido ao ruivo forte dos cabelos de Fabrícia, que, por sua vez, tinha o rosto coberto pelas sardas mais fofas que já vi. Os cabelos de Fabrícia eram lisos, um pouco abaixo do ombro. Não muito por sua beleza, mas por sua combinação de características é que Fabrícia chamava a minha atenção.

Sempre nos demos muito bem quando namorados, mas, infelizmente, entre Fabrícia e eu existia uma espécie de vácuo temporal. É que seus vinte e dois anos – contrastando com os meus trinta e sete – me causavam certa preguiça em acompanhá-la em certos assuntos que fugissem das nossas aulas; eu precisava largar o conforto do conhecimento sobre as minhas “antiguidades” e pisar em novos terrenos, que, diga-se de passagem, não me agradavam muito.

Mas Fabrícia também devia ter a mesma “preguiça”, já que não parecia muito fácil para ela disfarçar a “cara de paisagem” diante das coisas que para mim eram tão importantes. Enquanto eu caminhava vagarosamente, degustando com calma e critérios aquilo que me cercava, Fabrícia era a nova geração, a rapidez e o descarte em pessoa. Com a música francesa, por exemplo, enquanto ela devorava (e me fazia devorar também) dezenas de novas bandas a cada encontro, eu ainda cultuava os LPs do
Michel Delpech.

Foi muito chato quando, depois de quase um ano namorando, concluímos que nossas cabeças somente se encontravam quando o assunto era o estudo da língua francesa – isso talvez explique o motivo de nossa primeira transa ter sido sobre a mesa coberta de livros. Foi chato porque, mesmo diante de todas essas diferenças entre nós, eu me sentia ainda muito atraído e dependente dos carinhos de Fabrícia.

- Acha que foi um erro, Cláudio? – dizia-me Fabrícia.

- Louca! Isso nunca! Não me arrependo e nunca me arrependerei de nenhum momento que tivemos, Fabrícia.

- É que quando começamos a namorar eu não tinha noção dessa nossa “diferença”. As nossas idades e a Aninha nunca foram obstáculos para o meu gostar, entende?

- Sim, nem para mim. Eu sinto muito se, quando não estamos envolvidos nos estudos, lhe pareço um velho de sessenta anos.

- Não é assim também, Cláudio. Eu é que devo parecer uma adolescente boba quando puxo do bolso o meu iPod e o forço a digerir tanta coisa.

- Não é verdade...

E assim, nesse pedido mútuo de desculpas errôneas, decidimos terminar, sem brigas, o nosso namoro. Logicamente, Fabrícia mudou de professor particular; foi ter aulas com a excelente Olívia – coincidentemente, uma ex-namorada minha.

Algumas semanas se passaram sem que eu visse Fabrícia.

Até que certo dia, Olívia bate à minha porta.

- Oi – dizia Olívia.

Olívia é daquele tipo de mulher que não envelhece. Se não me engano, Olívia é apenas dois anos mais nova que eu, mas aparenta ser muito mais jovem.

- Olívia! Tudo bem? Entre!

- Não, obrigada. Não vou demorar.

- E o que a traz aqui?

- Deve saber que uma ex-aluna sua, a Fabrícia, andou tendo aulas particulares comigo, não sabe?

- Sim, sim!

- Então. Estou aqui para lhe dar uma notícia meio chata.

- O que foi? Diga!

- A Fabrícia faleceu nessa madrugada.

- Como? Como isso?

- Pois é, Cláudio. Não sei se você tinha ciência, mas parece que ela carregava um tumor no cérebro.

- Não, ela nunca me contou!

- Ela esteve internada na semana passada, mas parece que não resistiu a uma cirurgia. Eu... Eu sinto muito.

- Meu Deus...

- Vim te contar porque... Porque ela me falou. Ela... Ela me falou sobre vocês dois.

- Ah, sim... Obrigado, Olívia.

- Agora... Sei que não é o melhor momento, mas... Você gostou mesmo da Fabrícia? Quer dizer, vocês namoraram mesmo?

- Sim, Olívia. Mas terminamos por concluirmos que havia entre nós uma distância muito grande. Para mim, era como se eu namorasse alguém com uma sede de viver tudo ao mesmo tempo, entende?, numa correria, numa vida líquida.

- Entendo. E, pelo visto, ela tinha motivos, não é?

Olívia tinha razão. A euforia e a rapidez com que as coisas entravam e saíam da vida de Fabrícia era fruto de uma espécie de “medo do amanhã”. O porquê de Fabrícia nunca ter me dito sobre o tumor eu, a partir daquele momento, fiz ideia: ela percebeu que eu não era a pessoa certa para dividir com ela a tensão de cada dia.

6 comentários:

Vanessa Sagossi disse...

Legal!

Marcelle Braga disse...

Adoreeeiiiii!!!

Yara Lopes disse...

Nossa, muito bom, meeesmo

Mary G. disse...

Fabricia te enrolou direitinho... Pobre moça. Parabéns pelo texto!

fabi romeo disse...

parabéns! :)

Aninha disse...

adorei, muito belo!