
Como
havia dito, antes mesmo das resenhas da Road Crew e da Rock Brigade, alguns
shows começaram a “pingar” na agenda da Over Action. No dia 4 de julho daquele
frutífero 2002, tocamos no Sobradão do Rock, na Lapa, Rio de Janeiro. Nossa
primeira experiência fora do eixo Niterói-São Gonçalo.
Uma
péssima experiência.
Acho
que tocamos para Fabiana – minha namorada na época, com quem hoje sou casado –
e mais alguém que não me recordo, talvez a Mariana, então namorada do Leonardo.
Foi bem estranho tocar para menos de cinco pessoas, mas fizemos bem o nosso
papel. Não há muito o que dizer sobre esse show, sinceramente. Chovia muito e
não éramos ninguém para atrair um público sob aquele pé d’água.
Em
agosto tínhamos um show marcado para o dia 9, em Nilópolis, RJ. Esse show
estava sendo negociado por mim já havia algum tempo com Deiverson Baracho, vocalista
da banda de death metal Akael. E
sobre esse show eu tenho muito, mas muito a dizer.
Não
me lembro de como o Deiverson conheceu a Over Action, mas provavelmente foi por
meio de alguma resenha na internet ou fanzine. Ele estava organizando uma noite
de metal no Clube Ideal de Olinda, em
Nilópolis, e gostaria da presença de nossa banda no line up. Bacana! Mas o underground
também é cheio de interesses e o que a Akael queria de verdade era
conseguir, através de um esquema conhecido como intercâmbio, uma apresentação
em Niterói (ou São Gonçalo).
O
intercâmbio era uma negociação de praxe entre as bandas do underground. Funcionava da seguinte forma: Eu tinha uma banda no
RJ, mas queria tocar em SP. Então eu convidava uma banda de SP para tocar com a
gente aqui no RJ e, em troca, esta banda de SP nos arrumava um show por lá
também. Simples assim.
Deiverson
soube por mim do “nosso” Bar do Blues e queria porque queria um show da Akael
lá. Ótimo! Pedi que me enviasse o material e veria o que conseguia. De qualquer
forma, nosso show em Nilópolis já estava confirmado.
A
Akael lançara, um ano antes, um CD com nove faixas, o tenebroso Beyond The Mortal Clouds, e foi esse o
material que recebi pelos Correios para dar uma conferida. Meu Deus, o que era
aquilo? Mostrei ao restante da Over Action e tudo o que conseguimos fazer foi
rir. A gravação era ruim demais e as músicas, palavra!, eram as coisas mais
esquisitas que já ouvira!
Como
conseguir um show com aquele material? “Depois do nosso show em Nilópolis eu
resolvo isso”, pensei.
No
dia do show, mais uma vez o Santana prata do pai de Rodrigo estaria a nossa
disposição. Renato disse que sabia o caminho, então seguimos suas instruções
como se ele fosse o nosso GPS. Erramos o caminho algumas vezes e chegamos a
parar na entrada de um lugar muito sinistro, onde todos os olhares se voltaram contra
nós. “Dá ré, Rodrigo!”, dissemos.
Chegando
ao local, não pude deixar de reparar na faixa que anunciava a noite, com duas
bandas de death metal (a Akael e uma
outra vinda de SP, mostrando que os interesses de intercâmbio de Deiverson eram
mais pretenciosos do que eu imaginava) e a Over Action.
Rodrigo
parou o carro e logo avistamos um sujeito com uma camisa da Akael.
–
Ei! Onde fica o Clube Ideal de Olinda? – perguntamos.
–
Vieram para o show da Akael?
–
Sim, na verdade somos a Over Action.
– A
banda de heavy metal de Niterói? –
respondeu o rapaz meio espantado – Pessoal – disse ele agora à multidão de esquisitos
parada em frente ao clube –, é o pessoal da Over Action!
Aquelas
pessoas começaram a gritar e não dava para entender se queriam dizer “yeah!,
nós adoramos o som de vocês!” ou “bandas de heavy
metal não são bem vindas aqui!” Eu fiquei com a segunda impressão.
Chegando
ao clube, Deiverson nos recebeu e nos instruiu sobre a passagem de som e toda
aquela chatice de sempre. Notei que o palco era totalmente revestido em ardósia,
o que me fez pensar: “vamos escorregar feito pinguins e o som refletirá como
numa casa espelhada”. Logicamente, a bateria de Leonardo deslizava sobre o
palco, conforme ele atacava o bumbo. Conversávamos com a organização do evento
sobre o problema, mas a solução nos veio da plateia. Um louco arremessou um
pedregulho, quase nos atingindo, dizendo: “coloque isso na frente do bumbo,
porra!” Se o bumbo apenas deslizasse, tudo bem, mas também estava desafinado,
com a pele frouxa.
–
Porque o bumbo está tão desafinado? – perguntou Leonardo.
– É
para tocar “defão” – respondeu um débil qualquer.
A
tempo: “Defão” seria o aumentativo de death
metal. Tenso.
Depois
da caótica passagem de som, fomos dar uma volta pelo clube. Tinha uma banca que
vendia LPs antigos, uma lanchonete podre – como em todo evento underground que se preze – e um banheiro
fétido, onde tive o desprazer de flagrar um idiota berrando sozinho, como se
estivesse evocando o Diabo. Quando o sujeito me viu, não soube onde enfiar
aquela cara cheia de pó de arroz e sombra. Mijei às gargalhadas, logicamente.
O
show foi o mesmo que vínhamos apresentando na (entre nós) chamada Alone In The
Tour 2002. A galera curtiu, mas não deixou de pedir músicas de death a cada silêncio de nossas
guitarras. Um clima bem hostil, mas a gente estava lá, no ninho deles, e, como
sempre, fizemos o nosso trabalho.
Fomos
embora com a promessa de levar a Akael para um show em nossa área. Coisa que
nunca ocorreu.
[Continua]
Nenhum comentário:
Postar um comentário