quarta-feira, 5 de novembro de 2008

CACHORRO MORTO

Certa noite, eu sonhava que toda a cidade se encontrava sob o mar, ou melhor, todo o mar se apossava da cidade. Eu estava no pico de um monte com mais umas mil pessoas. Todos nós parecíamos loucos com tal situação. Alguns, tamanha loucura, saíam nadando sem rumo, na intenção, depois de exaustos, de descansarem de vez nos braços de Yemanjá. As crianças, cujos seus pais não conseguiam mais esconder as lágrimas de desespero, riam de toda aquela desgraça. Eu, sozinho como sempre, apenas me mantinha agachado e olhando o horizonte então completamente azul de mar a céu.

De vez em quando, lembro que chegavam até a mim alguns destroços da cidade submersa. Eu passava horas rezando para que algum objeto de minha casa, através das ondas, encontrasse meus pés, que apoiava um corpo curvado de nada poder esperar àquela altura. Alguns se aventuravam a nadar ao fundo à procura de alimentos ou simplesmente para ter noção do estrago feito pelos mares. Voltavam sempre com notícias terríveis. Lembro-me de um homem que chegou até nós dizendo que havia encontrado o corpo de nosso prefeito, que se encontrava inchado e quase irreconhecível, próximo ao prédio da prefeitura. Só em sonho mesmo, mas...

Com muita fome, resolvia também nadar para o fundo em busca de algo para comer. Ia sem a mínima noção do encontraria por lá. Sabe que em sonho, conseguimos fazer coisas humanamente impossíveis, não? Então não leve em consideração o fôlego que tive de ter para o “passeio”. Então mergulhava, mas antes, arrancava um beijo de uma loura linda que estava de pé ao meu lado. Sabe-se lá o porquê.
- Vá com Deus. Meu nome é Ângela.
Ela dizia. E eu mergulhava.

Chegava cada vez mais fundo e já avistava o prédio onde eu trabalhava, no Centro. Vendo que várias janelas se encontravam quebradas, pensava em localizar a minha ex-sala. Ia contando o número de janelas em relação aos andares do edifício até que achava o meu escritório.

Dentro da sala, um tremendo caos. Eu reconhecia os móveis e me assustava com a aparição de coisas como placas de rua e até mesmo um semáforo que violentamente ali também estavam. O corpo de Sara, minha estagiária, jazia completamente nua e inchada como o nosso prefeito. Tive nojo de seus seios, coisa antes jamais imaginada. Lembrava-me de meu frigobar, que ficava ao lado de minha mesa. Costumava ter iogurtes por lá. Mas nem sinal do eletrodoméstico, muito menos dos iogurtes.

Ia até o banheiro do escritório. Era como naqueles dias em que o vaso sanitário entupia, porém, numa proporção capaz de inundar o cômodo até o teto. Lá, um corpo de um cachorro com coleira e tudo boiava para lá e para cá entre as quatro paredes. Enojado, nadava por entre as outras instalações do escritório e depois saía pela mesma janela que entrara.

Ao sair, eu podia avistar um amontoado de automóveis, trens e embarcações unidos por suas ferragens e corpos de vítimas numa espécie de engarrafamento surrealista. Já era possível ver alguns cardumes habitando os locais onde antes se vendiam artigos de pesca. Corpos de pessoas humildes onde antes só permaneciam a alta sociedade daquela cidade. O mar misturava todos os elementos de forma artisticamente perfeita. Estava tudo sob o seu poder.

Eu chegava à superfície sem nada para ludibriar minha fome, que já me causava o triplo da dor inicial. A loura não mais estava onde a beijara. Na certa teria morrido de fome à minha espera. Foi quando acordei.

- AMOR! Acorda!
- AH!
- O que foi, Otacílio? Pesadelo?
- Sim, sim.
- Sonhaste com o quê?
- O mar.
- E o que tem o mar? Morria afogado?
- Não, Helena. Não morria afogado, mas a cidade sim.
- Como assim?
- Deixe-me lavar o rosto, sim? Ainda estou assustado.
- Vá, homem.
- Graças a Deus! Graças a Deus!
Eu lavava o rosto repetindo a frase sem parar.
- Graças a Deus o quê?
- Helena, por favor, deixe-me agradecer! Que inferno! Já lhe conto o sonho, ora!
- OK. Vou pôr o café.
- Vá.

Na mesa, eu contava o sonho, assim como acabei de contar aqui. Helena não dava muita bola ao meu sonho. Sem contar que dava gargalhada ao lembrar do cachorro morto no banheiro do meu escritório. Isso me deixava irado.
- Olhe aqui, Helena. Está rindo porque não foi você quem sonhou com coisa mais horrível.
- Ah, Otacílio. Foi só um sonho, merda. Uma merda de sonho.
- Mas tinha uma coisa boa nesse sonho, sabia?
- O quê?
- Uma mulher loura que me beijava antes do mergulho.
- Fale nessa loura novamente e lhe enfio esta faca com manteiga e tudo na sua garganta.
- Você não teria coragem, Helena.
- Sabe que não, mas não quero saber dessa loura, OK? Seu bobo.
- Disso não quer saber, não é, Helena? Bom, deixe-me ir. Quero ver se tudo está em ordem lá no escritório.
- A cidade não foi inundada, Otacílio.
- Eu sei disso. Mas o sonho pode ter sido um aviso. Algo de ruim. Sei lá.
- Começou você com seus pressentimentos. Bem, agora vá que estou esperando uma amiga pela manhã. Ela vende biquínis lindos. O verão está aí e...
A campainha tocava.
- Ih! Deve ser ela.
Dizia Helena com os olhos de uma mulher extremamente consumista.
- E eu já vou indo. Aproveito a porta aberta.

Helena abria a porta para que sua amiga entrasse e eu saísse para o trabalho. Eis que me surgia a loura do sonho. Isso mesmo. A amiga de minha esposa, que nunca vira mais linda, era a loura do meu sonho. Como podia?
- Oi! Tudo bom, Ângela?
Eu a cumprimentava sem pensar.
- De onde a conhece, Otacílio?
Perguntava-me Helena.
- Do meu sonho! É a loura do meu sonho!
- O QUÊ?
Questionavam-se ambas em uníssono. Ângela sem entender nada.

Eu chegava até Ângela e a beijava como que me preparasse para aquele mesmo mergulho. Nem me importava com a presença de Helena. Eu estava indo trabalhar, logo, buscar o sustento de minha casa. Era como que uma continuação daquilo tudo.
- Vá com Deus.
Ângela dizia pausadamente e com um semblante em total concordância com o meu beijo. Como fizera no sonho. Helena permanecia muda, boquiaberta e estática. Como o cachorro morto no banheiro.

9 comentários:

Paulim. disse...

Por um instante cheguei a pensar que Otacílio gostara do sonho... volta e meia sonho com coisas do tipo.

Não é legal.
Não mesmo...

Nathalia disse...

Poxa vida!
que imaginação hein... assustador!

e a comparação com o cachorro morto foi legal, mas me deu uma dor no coração... não pela mulher, mas pelo cachorro... amo cães...
rsrs

bjssssssssss

Kayo Medeiros disse...

meu... na boa?

O.o

Fabiana disse...

q q é?!
q tá me olhando com essa cara de cachorro morto, luciano freita?!

rs

sonhar ou não sonhar...
eis a questão!

Livia Queiroz disse...

Aaaaaaaah???

Eh neh? A Helena ficou feito cachorro morto, e o Otacilio foi um verdadeiro cachorro e vivo! Vivissimo!

aff coitada da esposa!

RJ disse...

putz, vc escreve bem heis...
e o sonho parecu "o dia depois de amanhã"... e ainda bem que foi só um sonho...

quer dizer, um pesadelo!

Aninha disse...

esses negócios de sonhos são bizarros hein oO
muuuito bom, gostei da forma que foram acontecendo os fatos.
Parabéns!

bjos.

jαnα ¦D disse...

Bá, que sonho hein! Também me senti mau pelo cachorro...E a Angela aceitou tb esse beijo.Quero dizer, ela nem conhecia ele a poucos segundos...e a Helena, coitada! Mas olha, que amiga é essa; é beijada pelo marido de uma amiga e concorda com o beijo assim? HAUHuahUHAUha,só quero ver o que espera o Otacílio quando ele voltar pra casa :D

Abraços.
='-'=

Vanessa Sagossi disse...

Rsrs..
Amei!
Muito louco!

Beijos!
(: