segunda-feira, 16 de novembro de 2009

MENTIRA

Eu estava procurando um songbook do João Bosco e, por entre as prateleiras da estante, pude ver seu tórax coberto de pintinhas. Ela usava um vestido rosa bem claro com uma singela fita em laço acima dos seios. Foi tudo o que pude ver naquele primeiro momento. O interesse pelos acordes do João se desmanchou em minha mente. Eu precisava ir atrás daquela menina, ou pelo menos daquele tórax e daquele vestido.

Dei a volta na estante a fim de me encontrar com o restante daquela visão. Entre um passo e outro pude imaginar seus olhos, sua boca, seu cabelo e até sua voz. “Ela deve falar bem manso” eu pensava, mas com certeza essa parte da imaginação estava sendo influenciada pela quietude daquele ambiente.

Bem vagarosamente, cheguei a um ponto onde pude ter a visão completa daquela menina. Deus! Ela era superior a qualquer coisa que eu pudesse ter imaginado segundos antes. O cabelo ruivo estava preso num apressado coque – provavelmente por conta do calor que fazia naquele dia. Notei que as pintinhas não só cobriam o tórax, mas todo o pescoço e boa parte dos braços também. De perfil, seu nariz arrebitado me passava um certo ar de arrogância, confesso, porém, sua boca, de tão pequena, me contrariava; dava-me a impressão de estar frente à menina mais meiga do mundo.

Foi quando ela se virou e direcionou sua voz pequena a uma amiga, logo atrás dela.

- Ai, não acho!

Foi o “ai, não acho” mais necessitado de ajuda que já presenciei na vida. Mesmo não sendo para mim tal pedido, tive de me apresentar.

- Posso ajudar? – eu disse.

- Você trabalha aqui? – ela respondia a me fitar com olhos castanhos enormes.

- Não, mas posso lhe ajudar, se quiser.

- É que procuro por um songbook do...

- João Bosco – eu a completei.

- Como sabia? – disse ela espantada (e linda).

- Não sabia. Apenas chutei. É que também procuro por ele.

- Que coincidência, não? Também vai participar do concurso, então!

- Que concurso?

Ela se referia a um concurso que elegeria a melhor versão de qualquer música de João Bosco. Estava sendo organizado por uma famosa rádio de música popular brasileira, mas como não tenho o costume de ouvir rádios...

- O que você toca? – ela me perguntou.

- Violão. E você?

- Canto e toco flauta transversa.

- Que legal! E já tem alguém de harmonia para lhe acompanhar no concurso?

- Sabe que não?

Diante de tamanha coincidência não tivemos outra escolha a não ser tomarmos um café no lado de fora da biblioteca. Já com os três volumes do songbook nas mãos, nós precisávamos apenas escolher a canção. Lógico que meus olhos estavam muito mais interessados naquele corpo suado que nas melodias do João, mas....

- Veja, nem nos apresentamos! Sua graça? – eu perguntei.

- Juliana.

- Prazer. Cláudio.

- Prazer.

No meio de nossas discussões sobre o concurso, não pude deixar de notar o pingente que Juliana carregava no pescoço; trazia a letra “M”. Imaginei o quão bacana deveria ser o tal “Marcelo”, ou “Márcio”, sei lá. Isso me deixou um pouco sem saber se levaria meu desejo real à frente.

Palavras e cafés à mesa e o rumo das conversas foi do “J” ao “S”, ou seja, do João Bosco ao sexo. Só sei que em menos de duas horas eu tinha em meu apartamento um violão sobre o sofá, uma flauta transversa sobre a mesa de centro da sala e uma Juliana me mostrando na cama que não era virtuosa somente na música.

Já depois de alguns cigarros e diante de uma preguiça imensa de retornar aos ensaios, disse coisas bacanas o suficiente para arrancar de Juliana os sorrisos mais lindos e doces do mundo. Ela me perguntava coisas sobre a possibilidade de se conhecer uma pessoa tão interessante de maneira tão rápida. Eu não sabia o que responder, pois me via na mesma dúvida. Eu me casaria com Juliana naquela noite, talvez.

- O que é esse “M”? – eu resolvia perguntar sobre o pingente.

- Não imagina?

- Marcelo, Márcio, sei lá... – deveria levar um soco depois dessa.

- Tenho cara de quem carrega a inicial de um homem no pescoço?

- Mesmo que fosse seu pai?

- Mesmo assim! Pescoço é lugar de coisas que te conduz!

- Muleta, então?

- Bobo!

- “M” de quê? Responde!

- “M” de música, ora! Desligado você!

- Um pouco.

- E você? O que lhe conduz?

- Bem, acho que a música também, mas bem mais a literatura!

- Leitor eu sei que tu és, pela quantidade de livros que tens aqui, mas você escreve também?

- Sim, escrevo! Sou contista!

- Contista? “Nunca confie num contista”, dizia minha mãe.

- Por quê?

- Vocês criam histórias o tempo todo! Um bando de mentirosos da vida real!

- Não é verdade!

- Viu? Já começou!

Eu nunca tinha pensado nisso, mas por que confiar numa pessoa que inventa histórias com tantos detalhes? Seria o dom de escrever o mesmo dom de mentir? Sigo nessa dúvida que me custa a desconfiança eterna de Juliana. Nos divertimos muito, sempre, até hoje, mas sei que a ruiva não acredita em nada do que lhe prometo. Aos escritores a conquista. Aos leitores a posse!

4 comentários:

Nathalia disse...

ahahahahahhaahahahhaha
muito legal!
vou passar a pensar duas vezes no que ouço de ti... hahaha
brincando!

bjs

Fabiana disse...

parabéns, "amigon"!

beijos

juliana disse...

mtmtm bom!
adorei o nome dela...bonito ñ? juliana...
huahuahua...

Vanessa Sagossi disse...

Hauuauahuh..
Uhm, legal!
Começo a desconfiar de vc, então! ahuahuah..
Mas sério, que menina rapdinha essa!