domingo, 29 de março de 2009

E AQUELE NOSSO CAFÉ?

Em meio à poeira infinita, surgia aquele ser de ombros largos, camisa xadrez, calça jeans e botas cobertas de lama. Embora suas roupas estivessem sujas, estas em nada atrapalhavam o rosto e o olhar sedutores daquele rapaz. Com um capacete sob o braço esquerdo e um par de óculos de sol sobre a testa, ele se dirigia até o portão de uma casa.

O rapaz tentava avistar sinais da presença de alguém naquela casa, mas, diante das janelas fechadas, pensava: “não deve haver ninguém aí”. Ele reparava as ferrugens e os rabiscos de giz daquele portão. “Crianças”, ele pensava.

Resolvia então bater palmas para certificar-se de sua intuição; nada. Batia novamente. Até que:

- Já vai!

O rapaz se alegrava.

A porta se abria. Era uma senhora que aparentava uns oitenta anos, aproximadamente. O rapaz foi logo se apresentando:

- Bom dia, senhora.
- O quê?
- BOM DIA, SENHORA.
- Ah, sim, bom dia. O que você quer? – agia com certa antipatia a senhora.
- Meu nome é Pablo, sou engenheiro e trabalho na obra aqui em frente. Eu...
- Essa obra de vocês é um inferno! O que vocês têm na cabeça? Eu não consigo fazer nada com todo esse barulho!
- Senhora...
- Vocês deveriam sumir! Ninguém precisa de um novo supermercado por aqui! Seus idiotas!
- Calma! Podemos conversar?
- Que conversar o quê! Quero que sumam daqui!

Naquele momento, o rapaz já perdia as esperanças de um diálogo com aquela senhora. Eis que surgia, por trás da tagarela, uma jovem.

- O que está acontecendo, vovó?
- É esse cara! Ele é o responsável por todo esse inferno, Ingrid!
- Vovó, entre! Deixe-me ver o que ele quer, sim?

A velha entrava, para alegria de Pablo.

Ingrid era uma dessas jovens simples. À primeira vista, não provocava nenhum tipo de atração. Usava um vestido estampado com pequenas flores, que ia até o meio dos joelhos. Os cabelos estavam presos num rabo de cavalo e levemente despenteados. Com uma toalha de prato nas mãos, Ingrid parecia estar no meio de mil afazeres. Mostrava-se apressada.

- Bom dia. Em que posso ajudar? É rápido?
- Bem, meu nome é Pablo. Chama-se Ingrid, não é mesmo? Ouvi sua avó dizer.
- Sim.
- Então, eu trabalho na obra aqui em frente e gostaria de ter uma conversa com o proprietário da casa.
- Sou eu mesma.
- Ótimo. Primeiramente, gostaria de, em nome da empresa, desculpar-me por toda essa confusão. A poeira nesse período da obra é inevitável, mas lhe garanto que esse incômodo terá fim em breve.
- Tudo bem.
- Bem, em segundo, o que eu queria lhe informar é que nossa empresa possui muito interesse na compra de seu imóvel.
- Mas ele não está à venda. Esta casa é a única coisa que meus pais me deixaram.
- Tudo bem, mas você não quer ouvir pelo menos a nossa proposta?
- Não, obrigada.
- Olha, digamos que você precisasse vendê-la. Quanto gostaria de receber por esta casa?
- Nunca pensei nisso. Nem sei o quanto ela valeria. Provavelmente, um valor que vocês não poderiam pagar.
- Está enganada. Não posso dizer a ti, por enquanto, mas lhe asseguro que a empresa está disposta a comprar sua casa por uma quantia bastante animadora.
- Vender esta casa não me anima em nada, senhor.
- Pode me chamar de Pablo, Ingrid.
- OK. Mas, como lhe disse, não há o menor interesse na venda desta casa. Era só isso?
- Espere um momento, Ingrid.

Pablo pegava seu telefone celular e discava para seu chefe. “Dr. Alcindo? É o Pablo, tudo bom? Estou aqui com a dona daquela casa. Bem, ela me disse que não há o menor interesse na venda. O que eu faço? (...) Entendi. (...) Pode deixar”.

- Bem, acabei de falar com o meu chefe e...
- Não quero saber!
- Não quer escutar quanto ele oferece na casa?
- Não! Além do mais, eu...
- Olha Ingrid, eu estarei agindo contra os interesses lucrativos da empresa, mas escute: ele pensa em um teto de oitocentos mil reais!
- O quê?
- Isso mesmo, Ingrid! Oitocentos mil pela casa! Não é animador?

Na certa Ingrid não esperava um valor como aquele. Anteriormente, chegou a imaginar uns cem mil reais, o que daria para comprar duas casas daquela.

- Mas por que querem tanto assim minha casa?
- A localização dela é perfeita para a ampliação do supermercado, Ingrid. Pense bem, pois esta proposta é como um raio: dificilmente cairá novamente no mesmo local. O que acha?

Ingrid dividia seus pensamentos entre a proposta e os traços finos do semblante de Pablo. À medida que a defesa de Ingrid para com Pablo ia se dissolvendo, a jovem notava naquele rosto uma pessoa muito amiga. A voz de Pablo era serena e grave. Durante toda a conversa, Pablo soltava leves e simpáticos sorrisos. Sempre muito educado, o engenheiro pedia licença:

- Bem, a proposta está feita. Pense direitinho. Quando tiver uma resposta, me ligue.

Pablo entregava à Ingrid um cartão com o seu telefone e continuava:

- Deixe-me ir. Um abraço! Tenha um bom dia! – despedia-se Pablo.

* * *
Alguns dias se passaram, até que Ingrid, enfim, ligasse para Pablo, que, em poucos segundos, chegava à casa da jovem.

- Boa tarde, Ingrid. Tudo bem?
- Tudo. E com você?
- Também está tudo bem. E então? Pensou na proposta?
- Pensei
- E?
- Vou vender à sua empresa.
- Que bela notícia, Ingrid. Fico feliz por você e sua avó. Uma grana dessa ajuda e muito!
- Eu sei. Aceitei porque minha avó precisa de remédios caríssimos.
- Entendo. Agora escute. Quando propuser o preço ao Dr. Alcindo, diga novecentos mil, OK? Ele certamente lhe fará uma contraproposta de uns seiscentos mil. Só depois disso, você chega aos seus oitocentos!
- Se o seu chefe souber que me deu dicas de negócios...
- Rua! Na certa.
- E porque me ajudou? Nem me conhece.
- Por puro bom senso. Acredito que você e sua avó necessitem muito mais dessa grana que o Dr. Alcindo.
- Ele deve ser muito rico, não?
- Você nem faz ideia.

Depois daquele segundo encontro, Pablo notava que algo havia mudado na sua compreensão a respeito de Ingrid. A notara mais bonita e até muito atraente, já que, dessa vez, Ingrid acabara de sair do banho. Os fios molhados e soltos revelavam cachos lindos. A pele morena clara já não apresentava o suor do primeiro encontro. E o vestido de outrora dava vez a uma camiseta de malha e um short jeans nem curto nem longo, apenas no tamanho ideal para que Pablo pudesse notar a beleza daquele corpo bem definido em curvas e medidas.

* * *
As negociações foram rápidas, devido à pressa da empresa em demolir a casa. Ingrid agiu conforme Pablo a instruíra. Mas, por fim, a casa foi vendida por satisfatórios setecentos e oitenta mil reais.

No dia da mudança de Ingrid, Pablo, a fim de se despedir, ia de encontro à jovem.

- Então, hoje é o seu dia. – dizia Pablo.
- É. Com o dinheiro conseguimos comprar um apartamento aqui perto mesmo. Minha avó gosta muito desse bairro.
- Ah, é mesmo? Que ótimo! Então, ainda a verei por essas bandas?
- Sim, provavelmente.
- Então, tudo resolvido, não é mesmo?
- Quase tudo. – dizia Ingrid a olhar para o nada.
- Como assim “quase tudo”?
- Nada... Bem, para lhe agradecer, gostaria que, assim que eu estiver totalmente instalada, você aparecesse por lá para tomar um café.
- Seria uma honra. Você me liga?
- Sim, claro.
- Bem, deixe-me ir. Boa sorte em seu novo lar e...
- E?
- A gente se vê, não é?
- Sim.

O engenheiro caminhava rumo à obra e sumia em meio à nuvem de poeira.

A obra chegava ao fim, o supermercado era inaugurado e aquele café com Pablo jamais foi marcado. O engenheiro, que não tomara nota do telefone ou endereço de Ingrid, nada pôde fazer a não ser esperar. E assim, ambos permanecem até os dias de hoje – Pablo em infinito aguardo e Ingrid a passar um café para três: sua avó, ela e sua insegurança.

13 comentários:

Lucas Moratelli disse...

Os meus posts tem sido "pra dentro" mesmo. Estou pouco objetivo ultimamente.

Obrigado pelo comentário.

_
Nossa, ótimo conto!

É terrível quando ações são impedidas por insegurança.
O amor pode estar depois da curva, é necessário continuar andando.

A pobre moça morrerá fazendo café para três?

Abraço Luciano.

Nathalia disse...

geeente, ninguém quer construir um supermercado perto da minha casa não? haha

ahh, as obras... haha
sempre presentes nas nossas vidas! rs

Kayo Medeiros disse...

rapaz... 800 paus? tinha oq, ouro debaixo da casa dessa guria? brrrrr...

Luciano Freitas disse...

O valor sentimental de uma casa é incalculável. Se Pablo não tivesse dado a dica para Ingrid, na certa a casa sairia por uns 60.000,00, no máximo. Dr. Alcindo sabe o quanto aquele espaço lhe traria lucros... 800.000,00 seria um teto no caso de Ingrid "bater o pé", mas, sabendo da proposta teto, Ingrid foi além... :D

Fabiana disse...

bem legal o conto, sr. freitas!!

=)

AIRTON LEITÃO disse...

Ótimo conto, final surpreendente. Todo mundo esperando o encontro para o café e talvez algo mais.
Parabéns.

30 e poucos anos. disse...

Belíssimo texto com final totalmente surpreendente.

C. disse...

E aí, Luciano?Beleza?
Te indiquei a um selo...

www.casadobesouro.blogspot.com

Livia Queiroz disse...

owwww eita que esse café da Ingrid deve te rum gosto bem amargo neh?
O da insegurança...

Mto bom, adorei!!!!!

Lu Firmo disse...

Eu queria um café com o Pablo. Aliás, queria que eles dois bebessem café até ficarem tontos, num lugar bonitinho e colorido.

;)


Adoro aqui, já fiz um upgrade dos posts perdidos...

beijos!

jαnα ¦D disse...

Final parcialmente feliz :D Para o eminente casal, quero dizer...porque a velhinha saiu no lucro né 'oaisoaisoa, adeus barulho e olá 780 mil õ/
mas resta a pergunta...o que é feito do café da insegurança? É jogado fora? A velha toma? Um mistério... :)

Abraços
='-'=

Aninha disse...

adorei o conto, muito bonito.
pena ela não ter tido a coragem que precisava, isso acontece com tanta gente :/

bjs

Vanessa Sagossi disse...

Legal! No final não é triste nem feliz. Só, muitas vezes, real!