quinta-feira, 26 de março de 2009

O DUELO

- Quero a virgindade de sua irmã!
A frase me vinha como uma bofetada! Na certa Gustavo não sentiu – nem nunca sentirá – o peso, a pancada que aquela frase me causou. Lógico! Gustavo não tem irmã, ora. Mas eu, por azar, por destino, carregava-a sob o título de irmão mais velho a menina mais cobiçada do bairro: Viviane.

Deixe-me explicar do início. Eu estava em casa, na mais perfeita paz, assistindo a um jogo de tênis no qual eu não sabia nem o nome dos que ali atuavam. Eu apenas me sentia contagiado pelo barulhinho da bola sendo rebatida para lá e para cá. Dava-me certa moleza no corpo... Até que o telefone tocou: “Já vai!”, eu gritava inutilmente.
- Alô! – atendia ao telefone com vontade de esganá-lo.
- Humberto?
- Fala, Gustavo. Sou eu.
- Está de bobeira?
- Não!
- O que faz?
- Estou vendo um jogo de tênis.
- Desde quando você gosta de tênis?
- Gosto do barulho da bola.
- OK. Desliga essa TV e traz o seu canário para a praça.
- Para quê?
- Para disputar com o meu, ora.
- De novo? Não cansa?
- Não! Não canso! Quero vencer o seu Juquinha!
- Tenho que rir. Já está provado que o canto do meu Juquinha é o mais alto e belo canto que já se ouviu na história da humanidade?
- Isso até você conhecer o meu Cacá!
- Cacá?
- Isso! Venha até a praça. Traga seu perdedor.
- Fechado. Mas... Cacá? Por que Cacá?
- Derivado de canário. Cacá!
- Que merda. Estou indo.

Chegando na praça, avistei Gustavo e seu canário, o tal do Cacá. Eu, de nariz em pé e peito estufado, me aproximei. Gustavo exibia um sorriso de vencedor! Eu devia ter me preparado para o que estava por vir, mas a minha confiança em Juquinha...
- O que esse tal de Cacá tem a oferecer, Gustavo?
- Opa! Primeiro vejamos o que nós temos a oferecer um ao outro.
- Sim. Você tem o quê?
- Esse relógio.
Era um relógio bonito até, mas não me interessava. Mas mesmo assim:
- OK. Vai esse relógio mesmo – eu dizia.
- E você, Humberto?
- Bem, eu vou fazer o seguinte com você. Pode escolher o que quiser!
- Tem certeza?
- Só não vale a minha casa, nem meu carro.
- Aquele barraco e aquele Fusca 69? Está louco? Quero coisa melhor.
- O quê, então?
- Quero a virgindade de sua irmã!
- Ah?! Você ficou louco?
- Você disse para eu escolher o que eu quisesse! Então, quero sua irmã na minha cama!

Aqui na minha terra, aposta é aposta! Mas aquilo fora uma afronta! Minha irmã? Ela tinha acabado de completar dezoito anos! O Gustavo não tinha noção? Minha irmã?

- Olha, Gustavo, eu só não acerto um soco no meio da sua cara porque não quero receber o seu relógio sujo de sangue. Mas vamos lá! Como quiser. Você não tem chance mesmo. Vou deixá-lo sonhar um pouco. Coloque logo essa coisa feia para cantar!
- Primeiro o Juquinha, Humberto!
- Ah é? OK!
Eu estava com tanta raiva que queria acabar logo com aquilo. Rapidamente, eu desencapava minha gaiola. Juquinha cantava divinamente, e com vigor! Parecia ter ouvido a insanidade de Gustavo.

- Vai. Agora ponha essa rolinha para cantar – eu dizia –, Gustavo.
- Pra já!
Gustavo tirava a capa de sua gaiola, mas o Cacá permanecia quieto.
- Cadê o canto, Gustavo?
- Calma!
Cacá não cantava. Não dava pio. Até que:
- CANTA DESGRAMADO! – berrava Gustavo.

Então, o danado do Cacá começava aquilo que até hoje soa em meus ouvidos: um cantar forte, lindo e cheio de vibratos e ornamentos. Eu ficava boquiaberto. Não entendia o que ocorrera. Juquinha entristecia logo após.

- E então, Humberto? Quando passo a lhe chamar de cunhado?
- Nunca, Gustavo. Nem que Viviane assim quisesse!
- Olha, quanto ao querer dela eu nem quero saber. Você apostou, logo, deve colocá-la na minha mão. Trate de aprontar seus argumentos, pois ela me parece ser difícil, não?
- Tudo bem – com muita raiva eu dizia.
Como eu já disse, aqui na minha terra, aposta é aposta. Dá até morte para um sujeito que não tem palavra. Eu me retirava da praça com meu então fracassado Juquinha. Só pensava em o que dizer à Viviane.

* * *
Ao chegar em casa, avistava Viviane a preparar o jantar. Usava um short tão curto que seu tecido não seria o suficiente nem para um lenço.
- Oi Viviane.
- Oi mano.
- Por que não se veste como uma menina decente?
- Estou em casa, Humberto. Larga de ser chato. Vai cuidar do seu passarinho, vai!
- E por falar em passarinho, você adivinharia o que o Gustavo quis apostar dessa vez?
- Não. O quê?
- A sua virgindade.
- E você deve ter rido da cara dele, no mínimo.
- Não. Eu aceitei.
- VOCÊ ACEITOU ISSO?! VOCÊ FICOU LOUCO, SEU...
- Calma! Desculpe-me, mas é que eu estava confiante em Juquinha.
- E EU POSSO SABER O QUE EU TENHO A VER COM OS PASSARINHOS DE VOCÊS?
- Eu sinto muito, Viviane, mas isso não vai ficar assim. Se não quiser, não precisa... Eu dou um jeito...
- Mas nem que te matassem eu entraria nessa! Outra: eu nem posso, Humberto!
- Está “naqueles dias”?
- Não, seu idiota! Por acaso, na aposta ele falou “virgindade”, foi isso?
- Sim. “Virgindade”. Por quê?
- Pode mandá-lo esquecer. Já se foi faz tempo, mano.
- !?!?!
- Acho que terá de dar a sua virgindade para ele, Humberto. Espero que goste! Aposta é aposta.

* * *
Foto da capa por Rodrigo Rosse.

14 comentários:

Nathalia disse...

hahaha... será que o prazer dele ficou na fase dos 2 anos?
hahahahahaa

mto bom!!!!!

Kayo Medeiros disse...

Rá! SIFU!!

Blog do camelo disse...

Bacana o conto, confesso que foi o primeiro que eu li completo hehe ... geralmente tenho preguiça de ler ... vou até mostrar pra uma amiga que gosta muito de ler, meus parabéns... topa fazer uma visitinha ao meu blog?? é uma visita sem compromisso ... hehe .. espreamos vc lá .. abração

Fabiana disse...

a capa é LIIIIIIIIIIIIIIIIINDA!!!

Gui disse...

Cara que loko suas historias , parabéns , e a frase de inico ja chama atenção née .. www.conexaotoonami.blogspot.com aceito parceria 'aceita ?

zymboo disse...

Olá, boa tarde!
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jαnα ¦D disse...

oaisoaisoaisoaisoiaosi
noossa, dessa eu morri de rir! oaisoa, beem feito pra ele também né, quem mandou ficar apostando virgindades alheias por ai :D

Dayanna Louback; disse...

oeieoieeoi
adooorei :P

Mike disse...

Eita, tou te estranhando, amigo!
:P

Vai ficar famoso agora, é? É o blog alçando novos ares!
:-)

Livia Queiroz disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Ixe humberto se ferrou!!!!

hahaha
e essa Vivi daria uma bela companheira pras personagens lá do CLube da Luluzinha
huhauha

adoreiiiiiiiiiiiii

Aninha disse...

HAHAHAHAHAHAHA

muito bom!

Lucas Moratelli disse...

Ptz!

Humberto quebrou a cara duas vezes no mesmo conto.

Ótimo Luciano.

C. disse...

Te disse que estava ótimo e realmente está!
Adorei, muito bom, poderia ter continuação,né???

Gustavo é um tipico canalha Rodriguiano!

www.casadobesouro.blogspot.com

Vanessa Sagossi disse...

Uhn, mané!
Hauhauhuahua