quarta-feira, 20 de maio de 2009

CRY ME A RIVER

Quando perguntavam a Lúcio se ele gostava de música, a resposta era “depende”. Porque de fato dependia de qual música estavam falando, já que ele só gostava de uma única: “Cry me a river” de Arthur Hamilton.

Em seu pequeno acervo musical, Lúcio possuía quase todas as diferentes interpretações da referida música. Desde Julie London, Ella Fitzgerald, Joe Cocker até o Aerosmith. Para Lúcio, esta composição era o mais belo standard de jazz existente no planeta e por isso fora tantas vezes gravado por diversos intérpretes.

Além da melodia incrível, a letra era o que também chamava a atenção de Lúcio, que conheceu tal música na exata situação colocada nos versos da mesma. Uma ex-namorada o havia pedido perdão após ter tripudiado de seu amor. Um amigo lhe apresentou “Cry me a river” coincidentemente no dia do tal pedido. Foi assim:

- Lúcio. Sei que você não gosta de música, mas ouça isso aqui.
- Já disse que não ligo muito para esse tipo de expressão, Célio.
- Se você não gostar desse disco, eu mudo de nome.
- OK.

Tratava-se do LP Julie is her name da Julie London, de 1955. O disco abria com a canção que depois da primeira audição tornava-se para Lúcio a música de sua vida. Todo o restante do álbum o soava comum como todas as outras melodias que ouvia no cotidiano. A partir daí, o jovem viciado em livros passou também a colecionar discos que continham qualquer versão de “Cry me a river”.

Todas as versões o faziam chorar. E chorava um rio ao lembrar-se que Daniela não mais estava em sua companhia. Pensava que a música era cantada agora no intuito de fazê-lo chorar de arrependimento por não ter perdoado Daniela. Fez esforço para aprender a tocar o velho violão de seu pai, mas apenas os acordes de “Cry me a river”. Cantava-a diversas vezes por dia. Lúcio era já um mestre em “Cry me a river”.

Lúcio se via no meio de tantos discos empoeirados e fotos amareladas de Daniela. Já se passavam três anos após o último contato, mas ainda havia esperança por parte de Lúcio de que um dia iriam se encontrar novamente. O número do telefone de Daniela era escrito nas faces dos discos para que se lembrasse de ligar para ela quando ouvisse “Cry me a river”. Mas isso nunca acontecia. Medo era o que sentia. Medo de ouvir na voz de Daniela os versos que diziam “Agora você diz que me ama. Bem, para provar que sim, venha e chore-me um rio. Eu chorei um rio por você”.

Num certo dia, Lúcio tomava coragem e resolvia ligar para Daniela. Três anos. A dúvida era se o número ainda permanecia com ela. E permanecia.

- Alô.
- Pois não?- É da casa de Daniela?
- É ela quem está falando, Lúcio.

Assustado:

- Ainda lembra de minha voz?
- Claro que sim.
- Faz tanto tempo que não nos falamos.
- Por sua causa. Não recebi o seu perdão até hoje.- Pois é. Fui um idiota. Podemos nos ver?
- Claro. Quando?
- Hoje. Pode ser? Você ainda mora no mesmo local?
- Sim. Passa aqui às nove. Pode ser?- Sim. Às nove.

Lúcio desligava o telefone sentindo-se bem melhor. Levantava a agulha da vitrola e desligava-a. Eram cinco da tarde, mas o rapaz já se encontrava em total ansiedade.

21h. Lúcio batia à porta de Daniela. Enquanto esperava-a, notava o quanto tinha mudado a fachada daquela casa. Nos tempos em que namoravam, as manchas de umidade tomavam conta de toda sua frente. Agora, via que estava limpa e com nova pintura. As janelas também; eram sujas e agora brilhavam.

- Oi, Lúcio.

Daniela estava linda como sempre. Nada havia mudado. Parecia um retorno ao passado.

- Você está linda, Daniela.
- Você também, continua lindo. Entre. Vamos até o meu quarto. Preciso lhe mostrar umas coisas.

Chegado lá, Lúcio se deparava com uma imensa coleção de discos.

- Daniela! Pelo que sei, você, como eu, não era muito chegada à música. Estou certo?
- Sim, mas depois que me deixou, Célio, nosso amigo, me apresentou um disco...
- Um disco da Julie London?
- Como sabes?
- Ele fez o mesmo comigo também.

O efeito causado por “Cry me a river” foi igual em ambos. Na verdade, Célio sabia que isso iria acontecer. No dia em que o amigo apresentou-lhes a canção, o mesmo estava de partida para a França.

- Lúcio. Veja o que ele deixou dentro do meu disco – dizia Daniela –, esse bilhete:

Vocês dois nasceram um para o outro. Chore um rio por ele e deixe que ele chore um rio por você. Mas depois das lágrimas, o perdão virá por parte dos dois. Ninguém será culpado de nada.

Ao som do disco que ocasionou o reencontro, um beijo tomava conta do quarto de Daniela.

Chegado em casa, o desligado Lúcio vai até o disco que Célio lhe dera. Havia um bilhete idêntico amassado no fundo da capa. Lúcio fecha os olhos e agradece a Célio pelo feito.

* * *
Conto publicado originalmente em 21 de abril de 2008 e retirado para participação de concursos literários.

8 comentários:

Fabiana disse...

eu ADORO esse conto!!

jαnα ¦D disse...

Que lindoooo! Simplesmente, adorei. Final super feliz, fofo demais **

Abraços
='-'=

Nathalia disse...

aaaaaai que saudade desse conto!
lembra do CD? rs
adorei!!!!!!!!

Livia Queiroz disse...

Lindooooooooo

vou até escutar essa musica
hahahaha


adorei...

Livia Queiroz disse...

Escutei algumas versões dessa música!

Fica um Dica: Escute a Versão de Susan Boyle

Aninha disse...

que conto lindo *-*
nossa, ainda não havia lido, tbm vou escutar essa música rs
:)

Vanessa Sagossi disse...

Triste e romantico! *.*

Vanessa Sagossi disse...

Triste e romantico! *.*