segunda-feira, 25 de maio de 2009

MÓVEL pt.1

Certo dia, por volta de meio-dia, André – cidadão de classe baixa, montador de móveis das Casas Bahia – ao garfar sua humilde marmita, sentiu-se tonto por alguns segundos. Viu tudo à sua volta girar numa velocidade inicialmente crescente e depois decrescente.

Conforme o mundo parava de “rodar”, André identificava, aos poucos, um cenário estranho: seus amigos, que naquele depósito também almoçavam, pareciam paralisados.

- Meu Deus, que tonteira foi essa? – dizia André com a mão à cabeça.

Sem obter colocação de nenhum de seus amigos, André concluía o surreal: todos eles estavam realmente paralisados. Uns com o garfo à boca, outros boquiabertos como se fossem comentar alguma coisa. Uma visão, acima de tudo, bizarra.

- Gente, o que houve com vocês? – dizia André.

André, que mastigava um bife de rigidez ímpar, passava os olhos nos amigos e, depois de exatos cinco segundos, largava sua marmita no chão e corria desesperadamente até o lado de fora do depósito.

- GILMAR! GILMAR! – André entrava na sala do supervisor de estoque a berrá-lo.

André notava que Gilmar também se encontrava paralisado. Corria então para loja. Descia as escadas num misto de confusão e nervosismo. Até que:

- Meu... Deus...

André avistava todos como estátuas. Como acreditar no que suas vistas lhe mostravam?

- Eu devo estar sonhando! Não é possível!

André observava as poses de cada uma daquelas pessoas. Lojistas e clientes, não escapou ninguém. Pensava, já embarcando naquela loucura, que somente o seu local de trabalho teria sido atingido por aquele “mal”. Porém, ao olhar as dezenas de TVs nas prateleiras – sintonizadas no mesmo canal –, notava que a âncora do telejornal também paralisara e, como ela, toda sua equipe, pensava André.

- Mas o que é isso, meu Deus? Está todo mundo feito um bando de árvores?

André voltava até o depósito e lá estavam seus amigos da mesma forma: como manequins. Ele corria então até à rua em busca de ajuda. Mas quem iria lhe ajudar, se, ao pisar o lado de fora da loja, avistou todo um centro urbano paralisado?

Barulhos de batidas de carro e até da queda de um avião tomavam a audição confusa de André. Logo ele entendia-os, já que paralisados de uma hora para outra, os motoristas não poderiam frear seus automóveis, assim como os pilotos de avião também não poderiam posar suas aeronaves.

André tentou pensar em quantas coisas estranhas poderiam ter acontecido com aquela paralisação na qual, pelo que parecia, somente ele se livrara.

Durante todo o resto daquele dia, André caminhou pelo Centro da cidade à procura de alguém móvel, mas sem sucesso. Por vezes estranhou aquele caos, mas não pelo caos em si, mas pela ausência de vozes humanas. Tudo o que se ouvia eram ruídos produzidos apenas por tudo aquilo que os humanos criaram.

A noite caía e, ainda sem entender o real motivo daquela loucura, André tomava sua primeira atitude a seu favor: retirou uma moça de um carro, colocou-a sentada no banco do carona e foi dirigindo até em casa.

André precisou dar uma volta imensa até o destino, já que várias vias estavam tomadas por veículos virados e até alguns incêndios. Dirigiu durante toda aquela noite à companhia daquela mulher.

- Ô mulher, me diga o que aconteceu! Por que vocês todos ficaram assim? – perguntava André sem respostas.

O silêncio daquela mulher com aquele sorriso que não saía do rosto parecia mais um deboche.

- Por que só eu me mexo? Explica, mulher! Explica! Explica!

Já em frente sua casa:

- Quer saber? Vou levar você comigo! Não vou dormir só, esta noite!

André carregou-a sobre as costas. Avistou uma vizinha na janela a “expiar”.

- O que está olhando, sua fofoqueira? – dizia André, que notava então a invalidez de sua frase.

A vizinha ali permanecia.

- Diabos. Também está paralisada – concluía André.

André entrava com a mulher ainda nas costas.

Ao colocá-la em sua cama, André se sentava numa cadeira e dizia a si mesmo:

- Se está todo mundo parado e somente eu me mexendo, eu posso fazer o que eu quiser, ora! Posso beber toda a cerveja do bar do Dedo Torto, me dar o luxo de não trabalhar amanhã... Posso beijar essa mulher, posso chupar os peitos dela, posso pegar um carro do ano, posso pilotar até um carro da Fórmula 1 se eu quiser! Ô meu Deus, obrigado por esse caos!

[Continua]

* * *
Foto da Capa: Renato Tavares.

4 comentários:

Fabiana disse...

que conto diferente!

Nathalia disse...

que conto diferente! (2)
gostei!

sabe o que é mais legal? ontem vc me disse o nome do conto e eu ADORO esse jogo de ler e depois parar e ver que tudo faz sentido...rs

é bobo, mas eu gosto mesmo! rs

Sam disse...

Luciano, MUITO bom!
Sou seu fã,cara...
Vou ler os outros xD

www.alternativa-vida.blogspot.com

Vanessa Sagossi disse...

Caracoles, só pode ser um sonho!