quarta-feira, 25 de junho de 2008

JAZZ

Já era possível ouvir a voz poderosa de Mônica ecoando por quase todo o prédio quando a mesma tinha apenas 13 anos. Os vizinhos nunca reclamaram. A voz de Mônica agia como a felicidade adentrando em seus apartamentos. A menina era carinhosamente apelidada de rouxinol, passarinho e voz de anjo. Ela gostava. Nunca havia estudado canto. Sua escola tinha sido a velha coleção de discos de sua mãe. Lá, a menina encontrava as grandes divas do jazz americano.

Mônica ouvia diversas vezes uma mesma música até que a estivesse por inteira na memória. Quando uma pausa na vitrola era dada, os vizinhos já sabiam que a menina começaria a cantar aquela música do início ao fim e na mesma tonalidade da gravação original, já que sua capacidade vocal era absurdamente extensa. Mas Mônica não se mantinha apenas na linha vocal no disco registrada, ela improvisava em cima das complexidades harmônicas do jazz e ainda imitava os solos de trompete, sax, guitarra, piano. Executava com perfeição os vocalizes de Ella Fitzgerald. Era impressionante.

A menina franzina logo deu lugar a uma linda e estonteante mulher. Aos 19 anos, Mônica já cantava nas diversas casas noturnas da cidade. Não cantava qualquer coisa. Cantava apenas aquilo que representava igualmente um desafio para ela e um prazer inenarrável para o público que a assistia. Diversas vezes foi chamada para integrar bandas “antenadas” no cenário musical contemporâneo, mas recusava sempre por acreditar que não se faziam mais músicas como nas décadas passadas. Sentia com isso uma saudade de uma época não vivida. Por isso, cantava sempre com olhos fechados e procurava imaginar ali no palco estar diante de uma platéia em preto e branco atenta ao que ouvia e ao que sentia com isso.

O tempo passou e aos 25 anos, Mônica se via presa aos limites de alguns bares. Suas interpretações não eram aceitas em qualquer casa, porém, nas casas onde era recebida obtinha aceitação total por parte dos presentes, que freqüentavam assiduamente as suas apresentações. Em algumas ocasiões, Mônica recebia o triplo do cachê previsto por conta das inúmeras “gratificações” vindas da platéia. Ela se apresentava com um experiente guitarrista local, o Alfredo Ramos, que conhecia praticamente todos os standards de jazz, sendo assim, todos os pedidos eram prontamente atendidos pela dupla. Alfredo sorria encantado a cada nota emitida por Mônica. Era lindo de se ver.

Mônica perdia seus pais aos 27 anos em um acidente de automóvel. Ela soube da notícia através de um telefonema logo após um de seus shows. Não se conteve e desabou em lágrimas nos ombros de Alfredo, que apenas consolava-a. O caminho daquela dupla de poucos e fiéis ouvintes parecia ter findado a partir daquele momento. Mas não era do gosto de Alfredo nem de seu público.
- Mônica. Você vai superar isso. Conselho de um velho de 49 anos que perdeu os pais aos 16.
- Sei que vou, Alfredo. Mas como farei sem eles? Que forças eu terei para cantar?
- Cancelaremos os shows por tempo indeterminado. OK?
- Mas você vive disso, assim como eu. Como faremos?
- Eu me viro, Mônica. Quando estiver bem, me procure e voltaremos a nos apresentar.
- Obrigada. Não sei o que seria de mim sem você.
- Descanse. Você está no seu auge. Em breve estará pronta novamente.
- Obrigada.

Mônica seguiu os conselhos de Alfredo e passou então dois meses sem soltar a voz. Durante todo esse tempo, Mônica se manteve o mais longe possível da música, mas freqüentemente telefonava para o guitarrista. Até que um dia:
- Oi Alfredo.
- Oi menina. Como estás?
- Melhor. Já se passaram dois meses. Recebi telefonemas do Sr. Glauber, o dono do Jazz Bar. Quer que voltemos o mais rápido possível. Seus clientes parecem sentir nossa falta.
- Mas como você se sente?
- Pronta!
- Ótimo. Quer um ensaio?
- Quero um bom whisky e seus acordes, Alfredo, somente isso.
- Que bom!

Naquela semana uma faixa enorme se encontrava na frente do Jazz Bar: “Nesta sexta, Mônica Lisboa e Alfredo Ramos de volta com o melhor do jazz”.
- Olhe isso, Mônica.
Alfredo mostrava a faixa à Mônica.
- Olha essa fila, Alfredo.
- É!
Ambos não acreditavam mais o número de clientes na fila era bem maior do que de costume.

Aquele foi o melhor show de Mônica até então. Casa lotada, Alfredo tocando como nunca. A voz de Mônica dispensava comentários, parecia ainda mais precisa e clara. As lágrimas de Mônica ao cantar certas canções davam ainda mais beleza ao espetáculo. O silêncio tomava conta de todo o Jazz Bar enquanto a dupla despejava o melhor do estilo para aqueles amantes.

Depois do show:
- Alfredo.
- Diga, menina.
- Foi fabuloso hoje.
- Sim. O show foi realmente fabuloso.
- Também, mas me referia a você.
- Ora, eu sou apenas a harmonia por trás se seu talento.
- Também, mas me referia a tudo o que fez por mim até hoje.
- Mônica. Só um louco não lhe ajudaria. Você é especial.
- Você também é especial para mim.

Mônica lhe tocava os lábios com os seus lentamente enquanto Alfredo paralisava ao limpar as cordas de sua guitarra. A casa já se encontrava vazia. Apenas os garçons que arrumavam o local testemunharam a entrega de Mônica à doçura de Alfredo através de um beijo cercado de bebidas mesas vazias. Então cantava “Body and Soul” ao ouvido de Alfredo, que sorria.

***
Foto da capa: Gabriel Andrade [meinframer.wordpress.com]

3 comentários:

Anônimo disse...

ááá amei o conto de hoje!
te adoroo lu*
bjs

Janu disse...

....Quanta beleza há no desamparo!

^^
bJU

fabi disse...

muito legal! gostei!
a capa (a foto) ficou linda tbm!

parabéns.






beijos.