segunda-feira, 16 de junho de 2008

JEITO PARA O NEGÓCIO

Certo dia, eu, folheando um álbum de fotografias de minha infância, me vi diante de minha pessoa há mais de vinte anos atrás vestindo uma camisa do Fluminense. Logicamente a idéia de tirar uma foto minha e de meu irmão com aquele uniforme só poderia ser de meu pai. Meu irmão e eu, ali, sem saber o real significado daquela camisa, posamos felizes.

Lembrei de quando meu pai, louco pelo esporte, chegou a casa com a notícia de que começaríamos na escolinha de futebol do Clube Cinco de Julho, no bairro onde morávamos (onde eu ainda moro). Meu irmão reagiu com bastante animação. Eu, para ser sincero, não lembro da minha reação, só lembro de sairmos para comprarmos chuteiras, shorts e camisetas para aquilo. Na mesma semana, minha mãe se encarregou de nos inscrever. Inscritos, começamos a comparecer às aulas de futebol do Alderico, vulgo Tio Aldo.

O Tio Aldo é um personagem não muito importante nessa história. Ele mantinha na escolinha os seus dois filhos; Alderico Júnior, o mais velho, e Rafael. Ambos muito ruins de bola, mas eram filhos do professor. Fazer o que? Parecia mais uma escolinha montada para que os seus filhos aprendessem a jogar futebol. E nós? Bem, não se joga futebol sozinho. Precisava de cobaias.

Chegando lá na escolinha, íamos nos reunir com o grupo de meninos que ali permaneciam à espera do apito para início das atividades. Antes que este fosse soado, o papo não poderia ser outro; futebol. “Qual o seu time?” Lembro de rirem de meu irmão e eu por sermos “torcedores” do fluminense, pois para aquela molecada, time era flamengo, o resto era... Ah. Sei lá.

O apito dava o sinal de que devíamos ir para o centro daquele campo de areia, que naquele tempo me parecia tão grande. Não sei por qual motivo, Tio Aldo me disse que eu jogaria de centro-avante. OK. Mas o que seria um centro-avante?
- Você vai atacar pelo meio!
- Está bem.
Respondi sem entender muito.

Ao meu irmão foi passada uma posição de defesa. Acho que por ele possuir um corpo mais desenvolvido que o da grande maioria ali. Lembro que meu irmão já tinha músculos onde em mim sobravam ossos.

Quando o treino começava, eu procurava estar onde a bola estava, não me preocupando muito com a definição dada por Tio Aldo. Lembro de meu pai falando e rindo, provavelmente já certo de que eu não levava o mínimo jeito para o negócio: “Ele corre o campo todo, o danado”. Meu irmão, pelo contrário, já demonstrava uma boa desenvoltura com a redonda. Eu notei logo essa situação quando reparei que meu pai, que jogou futebol durante toda a sua vida, dava uns toques para o meu irmão e para mim apenas alguns sorrisos.

Além da minha total falta de domínio com a bola, eu notava também que algo estava errado. Centro-avante é atacante. Atacante que num faz gol? Achava que eu poderia estar é na posição errada. Isso, somado a imensa vontade de vestir uma camiseta de manga comprida e diferente daquele bando de crianças que vestiam verde, me fez querer jogar no gol. É. Virar goleiro.
- A baliza é muito grande para você, meu filho!
- Mas eu quero ser goleiro, pai! Minha mãe pode até fazer um blusão de goleiro para mim.

Minha mãe, costureira de mão cheia, aceitou a idéia. E deve ter pensado: “O garoto é tão ruim na linha, quem sabe?”. Ela aproveitou-se de alguns tecidos que suas freguesas deixavam aos montes e escolheu um especial para fazer o meu blusão; um verde. Na verdade, a cor pouco me importou. O legal é que tinha espumas no cotovelo e nos ombros, eu acho. Não tinha luvas. Mas eu era doido para usá-las. Eu era tão magrinho e pequeno que não faziam luvas para o meu tamanho.

No primeiro dia como goleiro, foi aquela alegria. Alegria dos meninos que já previam o que ocorreria com aquela tampinha defendendo o gol. Os risos tomaram conta do campo. Acho que meu irmão tomou as minhas dores, não lembro. E quem encararia meu irmão? Um soco dele bem dado faria um belo estrago.

Nos treinos do Tio Aldo, quando findava o primeiro tempo, os times trocavam de campo, porém, os goleiros permaneciam. O que fazia o goleiro jogar com os dois times durante o jogo. Na verdade eu nunca entendi direito o por quê disso. Mas tudo bem. Isso me forçara a no primeiro treino como goleiro engolir quatro frangos, dois de cada time. Eu era zoado pelos dois ataques e levava bronca das duas defesas. Incrível.

Aos poucos fui entendendo que não adiantava eu insistir naquilo. Meu irmão sim. Já mostrava habilidade ao driblar com facilidade o Alderico Júnior. Eu ria. Tio Aldo não. A minha carreira terminou quando ao fazer uma das minhas raras defesas, caí com as mãozinhas sobre um monte de cacos de vidro jogadas na beira do campo. Cortei-as. Lembro que sangrou bastante. Nunca mais quis voltar para a escolinha.

Meu irmão seguiu em frente. Aquele amontoado de crianças pernas-de-pau já estava pequeno para ele. Eu não me lembro bem da ordem dos fatos, mas lembro que aos poucos, meu irmão foi jogando em tudo que era time dali do bairro e de bairros vizinhos também. Telerj, Lira, Henrique Lage, Tio Sam, Viradouro e tantos outros. Inclusive enfrentando o Cinco de Julho, onde o Alderico Júnior era capitão. Esses jogos foram os mais legais que assisti. No campo, Allan, meu irmão, versus o Alderico, que, coitado. Allan firmou-se na posição de volante e era bacana o ver jogar. Meu pai o incentivava demais e o acompanhava também.

Antes dos times de bairro, aos quinze anos, Allan foi chamado para jogar em São Paulo, no time do Guarani. Foi uma grande alegria para o meu pai vê-lo ali diante de um procurador que administraria a vida profissional dele, que àquela altura já jogava como gente grande. E eu? Eu já tinha largado o futebol antes mesmo de começar e ouvia tudo aquilo deitado de barriga para o chão no meio de lápis e hidrocores. Eu desenhava e sonhava em aprender violão. A MTV no canal VHF ajudou a milhares de adolescentes como eu a querer tocar aquilo.

Meu irmão foi para São Paulo, mas não ficou lá nem dois dias. As condições não eram boas e ele desanimou. Voltou para casa um Allan um tanto quanto desiludido com a carreira de atleta. Meu pai não se conformou no início e até chegou a dizer que não correria mais atrás de nada para ele. Vocês acreditaram? Nem eu. Logo depois estavam os dois por aí fazendo testes em outros clubes.

Foi quando ele completou dezoito anos e resolveu que entraria para o curso de Geografia da UFF. Prestou vestibular, foi aprovado, cursou, formou-se e hoje leciona a matéria em diversos colégios. Simples assim!

E eu? Aos dezesseis, meu pai finalmente resolveu pagar um curso de violão. Até comprou o meu primeiro instrumento com R$ 70,00 - um Málaga que até hoje está no meu quarto -, mas sob a seguinte frase: “quero ver se vai tocar essa coisa mesmo”. Passou na minha cabeça que se meu irmão já teria desistido da carreira que meu pai sempre sonhou para ele, não seria eu que teria feio diante de um simples instrumento de madeira e náilon. Em seis meses já me apresentava nos recitais do curso com composições minhas. Mas isso não era importante. O violão só foi levado a sério anos depois, quando recebi meu primeiro cachê como músico. Então ouvi: “Até que você levou jeito para o negócio”.

Sigo ainda nas confusões de minha vida e tomando cada cena dessa descrita como lição de como devemos ser persistentes num caminho só, como fez meu irmão, mas o quanto é necessário que pisemos um pouco em cada caminho, como eu venho fazendo ainda sem sucesso.

2 comentários:

fabi disse...

uaaa! eu li o rascunho! lá lá lá!
eu ADOREI esse texto/conto/coisas de infância... muito divertido!
só o final que não foi lá tão animado, mas faz parte... acho q a vida é realmente uma eterna confusão, que se não fosse tão complicada talvez não tivesse a menor graça, né?! quem sabe...

beijocas.

JANU disse...

Ei!
Não achei 'confusão'.
Achei um perfeito retrato da frase tão clichê:" Podemos ser qualquer coisa...ou nada!"rs

"Sigo ainda nas confusões de minha vida e tomando cada cena dessa descrita como lição de como devemos ser persistentes num caminho só, como fez meu irmão, mas o quanto é necessário que pisemos um pouco em cada caminho, como eu venho fazendo ainda sem sucesso."

O difícil é saber: que caminho?
Então vamos pisar! ^^

Bju grande!

P.S.:não sei pq isso me lembra música de LH!