quarta-feira, 4 de junho de 2008

O LIMITE DE UM CONSCRITO

Lauro chegaria à maioridade em outubro daquele ano. Logo, como todos os jovens do sexo masculino de nosso país, Lauro se dirigia por volta das 5h para uma silenciosa e deprimente fila para de alistamento ao Serviço Militar obrigatório. “Servindo ao exército, você aprenderá a superar seus limites”, dizia Carlos, seu pai.

Ia sozinho. Era o único do ano de 1984 na sua rua. Sem companhia, chegou ainda mais calado que os outros que já ali aguardavam. Ainda estava escuro e muitos dos rapazes dormiam agachados sobre o meio-fio. Lauro ficava analisando o porte de cada rapaz na intenção de adivinhar quais daqueles serviriam ao exército e quais “sobrariam”. “Esse fica. Esse sobra. Aquele sobra, Aquele fica com certeza”, pensava Lauro.

Mais tarde, a porta do estabelecimento se abria. Lá de dentro saía uma senhora com a pior cara já vista por Lauro. Ela ficava encarregada de medir e pesar os rapazes, assim como carimbar as fichas e anotar alguns dados. Todos passaram por aquela burocracia básica, a primeira de todo o processo, com muito sono e apreensão. Atrás da ficha de Lauro, continha a data e o local onde ele voltaria a se apresentar. Seria no 3º BI, o Batalhão de Infantaria, também conhecido entre os conscritos* como “buraco do inferno”.

*Cidadãos brasileiros que, no ano que completam dezoito anos, participam do processo de seleção para o Serviço Militar.

Dias depois, Lauro se dirigia então para o batalhão indicado para uma série de exames médicos. “É nessa que eu fico. Eu não enxergo um palmo diante do nariz e sou fraco feito uma mosca. Vou sobrar”, pensava Lauro. Chegava lá e já era, assim como os outros rapazes, recebido por um soldado que saía de sua guarita para indicar o local onde esperaria pelo oficial responsável pelo processo de recrutamento.
- Por favor, para onde me dirijo?
Lauro mostrava o verso de sua ficha para o soldado.
- Não está esquecendo de nada?
- Eu disse “por favor”.
- Mas não disse SENHOR!
- E por que deveria?
Lauro não suportava os militares. Principalmente os que carregavam resquícios da ditadura sem nunca terem feito parte dela.
- Com quem você pensa que está falando?
- Com um soldado do 3º BI. Estou errado?
- Paga dez.
- Como?
- Paga dez para mim. AGORA!
Lauro, mesmo sem concordar, mas com medo daquele soldado lhe causar problemas futuros, executou as dez flexões ordenadas.
- Muito bem. Agora, o que queria saber mesmo?
- Para onde me dirijo, senhor.
- Agora sim. Vá até aquele galpão e aguarde ali junto com aqueles outros conscritos. Seu CONSCRITO!
Lauro seguia até o galpão com ódio.

As esperas eram eternas. Alguns grupos já conversavam entre si. Lauro preferia permanecer sozinho e pensar o que faria caso servisse. Na cabeça de Lauro o serviço militar era algo totalmente descartado. “Eu trabalho. Vou inventar que minha família precisa do meu salário. Eles não fariam uma truculência dessas”, pensava.

Enfim, um Sargento com uma voz rouca começava a chamar os nomes. Primeiro esse mesmo sargento fazia perguntas óbvias, inclusive se o indivíduo queria servir. A resposta de Lauro foi “não” e o motivo alegado foi o sustento de seus pais doentes. Horas mais tarde:
- Lauro Esteves da Silva.
- Aqui.
- Vem comigo.
- OK.
- OK? Você disse OK?
- Não senhor, digo, sim senhor...
- Venha logo seu mocorongo*.

*Termo usado com freqüência entre os militares, que significa “pessoa lesada”.

Lauro chegava numa sala com um amontoado de letras de todos os tamanhos na parede. “Daqui eu não saio. Sou praticamente cego”, pensava Lauro. Um outro sargento se aproximava.
- Fique aqui nesta linha.
- Sim senhor.
- Agora tape o olho direito.
- Sim senhor.
- Me diga agora as letras daquela primeira fileira.
- “A”, “Z”, “D” e “S”.
Lauro lia as maiores letras do quadro.
- Muito bom. Agora as de baixo.
As de baixo eram menores.
- “B”, “F”, “G” e “V”.
- Errado. Tente novamente.
- “P”, “T”, “C” e “W”?
- Não. Você está de brincadeira. Saia daqui e vá para aquela sala. Você está aprovado!
- Como? Não acertei a linha de baixo.
- PRÓXIMO!

Dali, Lauro passava por exames físicos, ficava nu diante de um tenente para alguns testes e levantava pesos para medir a força. De fato, Lauro não tinha a mínima condição para o serviço militar, porém, quase na hora do almoço, Lauro recebia sua ficha com uma nova data para comparecimento ao 3º BI.
- Por que isso?
Perguntava Lauro a um oficial.
- Por que o quê?
- Por que fui aprovado nos testes físicos?
- Foi aprovado porque foi aprovado. Só isso.
- Mas eu não tenho condições. Olhe para o meu corpo e diga se posso ajudar essa merda de país a ganhar uma guerra.
O Capitão Marques, que estava ao lado, ouvia a frase de Lauro.
- O que foi que você disse, rapaz?
- Merda de país! Merda de exército! Merdas! Vocês são uns merdas! Isso que são!
O capitão não pensou.
- Paga vinte!
- O quê?
- Paga trinta, conscrito.
- Não vou pagar merda nenhuma. Não sigo ordens de ninguém aqui. Não sou militar.
O capitão o agachou por meio de força e o fez executar cada uma das trinta flexões. Lauro saía do local chorando de raiva.

Mais tarde, mais calmo e já na loja de materiais de construção onde trabalhava:
- Lauro.
Chamava o S. Batista, o dono da loja.
- Sim.
- Vá até a filial da rua de trás e me traga duas cavadeiras simples, por favor.
- OK.

Na volta para a loja, Lauro, que atravessava a avenida corretamente entre o semáforo vermelho e a faixa de pedestres, era assustado por uma buzina nervosa. O sinal acabava de esverdear, porém, Lauro ainda estava no meio da faixa.
- SAI DA FRENTE, PORRA!
Lauro olhava fixamente para o motorista e descobria que quem estava ali era o Capitão Marques, o mesmo que havia o humilhado pela manhã no batalhão, que por sua vez, arregalava os olhos ao identificá-lo como “aquele conscrito”.

Lauro soltava uma cavadeira no chão que então ressoa por todo o centro da cidade. Com o braço direito, elevava a segunda cavadeira e como uma lança a arremessava contra o pára-brisa do carro. A cavadeira atravessava o peito do Capitão Marques como que num papel.

“É pai. Nem cheguei a servir e já superei um limite. Superei o limite da minha intolerância”, pensava Lauro enquanto corria da multidão enfurecida.

4 comentários:

Fabi disse...

lauro tem uma mira incrível, hein?!

;-)


*ainda bem q não nasci homem. aff.
hahahhahahahahaha.



bjos.

Priscila disse...

adoreeeiii..
concordo cm fabi ainda bem q não osu homem, mas vcs merecem né só nós mulheres q sofremos...rsrs!

bjão

Aline Ramos disse...

Mew! Que tenso.
Que pedreragem.

HSAUHuhusahuahUHUASHUa.
Adorei, sangrento.
Pelo menos as flexões deram força a ele para poder jogar a cavadeira no carro.
Tudo o que você faz retorna.


;)

Anônimo disse...

Com o braço direito, elevava a segunda cavadeira e como uma lança a arremessava contra o pára-brisa do carro. A cavadeira atravessava o peito do Capitão Marques como que num papel.
Cala a boca véio, vai aprende a ser macho, e deixa de tá inventando histórinha, seu fanfarrão !
O mundo precisando de paz e tú matando Capitão !!
Some da minha frente, vai, AGOORA !!