domingo, 29 de junho de 2008

A ORDEM DOS FATORES ALTERA O PRODUTO

“Faz 38º C no Rio de Janeiro. Está do jeitinho que o carioca gosta. Sabadão, dia de pegar aquela praia...”. Assim anunciava o locutor de uma rádio jovem às 9h da manhã. As ondas eram ouvidas através de um rádio velho que Celso, um menino de rua do Centro da cidade, havia achado em algum depósito de objetos que não mais serviam a algum indivíduo participante – diferentemente de Celso – da sociedade. O menino ouvia aquela voz tomada por uma maneira jovialmente forçada e já entendia, apesar de seus 12 anos de idade, que nada do que ali era dito direcionava-se à sua pessoa. Não que Celso fosse proibido de freqüentar a uma praia, mas sendo quem ele era, um excluído daquela troca de informação entre emissor e receptor, não possuía o conceito de que sábado era um dia para curtir, já que o menino tinha coisas muito mais importantes para fazer do de que se bronzear na areia. Era preciso decidir o que fazer durante o dia para ter o que comer à noite.

Celso nasceu na rua e foi criado nela. Sua mãe, e de mais cinco, também teve o mesmo histórico. Celso não tinha como fugir do destino daquela família. Devido à exclusão que se encontrava, não havia o que fazer a não ser sobreviver dia após dia. Um dos recursos que estavam disponíveis para a sua sobrevivência e de todos que se encontravam na mesma situação naquela concentração de seres invisíveis era entre outros o uso da violência para quebrar o bloqueio entre eles e os seres visíveis. Roubar para se vestir, para se drogar, para comer, para se agasalhar. Tudo o que era conseguido pelas pessoas inclusas de maneira simples era para Celso objetivo que necessitava de um ato transgressor para se alcançar. Não teria o que jantar se não deixasse alguém do outro lado do bloqueio sem um maço de cigarros, por exemplo, seja por meio de esmola ou furto.

Enquanto o rádio transmitia as dez músicas teoricamente mais pedidas pelos ouvintes – que se encontravam na faixa etária dos 14 aos 35 anos, os dois lados da cidade se movimentavam de acordo com suas condições. Celso esperava pela bondade de um grupo de jovens que se alimentavam numa lanchonete antes de partirem para mais um dia de surf.
- Tio. Paga um lanche pra mim?
- Tenho cara de tio, moleque? Vai trabalhar que você lancha!
Aqueles jovens faziam parte do outro lado da cidade, o lado daqueles que por se enquadrarem no sistema, possuírem condições de se instruir e consumirem aquilo que a burguesia precisa para crescer e colocar na sociedade mais indivíduos como eles mesmos, são inclusos socialmente.

Desse mesmo lado, havia num apartamento de luxo próximo dali, Lídia, uma empresária que também ouvia a rádio repetindo os refrões americanos que nada queriam dizer ao embalo daquele ritmo dançante que remetia exatamente àquilo que ela era, fútil e vazia. Arrumava-se para se encontrar com algumas amigas no shopping e fazer valer a sua participação social no consumismo exacerbado que mantinha os interesses da minoria em alta.

Celso quando na vida de pedinte era visto como problema apenas quando insistia em permanecer na porta das lanchonetes em busca de uma alma caridosa. Os donos dos estabelecimentos não gostavam. Aquilo afastava a clientela. E afastava mesmo, já que a figura de Celso pedindo um salgado e um refresco trazia à tona a real situação em que se encontrava aquela cidade. Situação esta que ninguém ali estava muito a fim de presenciar àquela hora da manhã. Mesmo assim “era melhor pedir do que roubar”, já que dessa forma quem quisesse ajudar ótimo, quem não quisesse que deixasse o Celso ali com fome à espera do próximo bonzinho. Assim, a violência se fantasiava em paz e todos ali na lanchonete poderiam tomar o seu café tranquilamente.

“É. Pedir não está dando muito certo hoje”. A partir daí, Celso se vê forçado a “caçar”. Munido de seu velho canivete, se coloca próximo a um semáforo de pouca movimentação. Ali, era bem capaz de Celso não conseguir apenas um café da manhã, mas o suficiente para se alimentar e se drogar por uma semana inteira.

Celso, integrante da classe excluída e invisível da sociedade. Lídia, importantíssima parte da classe de condições contrárias a de Celso. As vidas dos dois estavam prestes a se cruzarem por poucos segundos. Lídia parava no semáforo e falava ao celular. Celso nem pensou.
- Perdeu.
Com a lamina no pescoço de Lídia, Celso recolhe a bolsa, o celular e um colar da vítima e sai em disparada cruzando vielas e sumindo dos olhos de quem ousou persegui-lo.

Já longe do local do crime e mais seguro, Celso vasculhava a bolsa de Lídia à procura de algo que lhe servisse. Via-se diante de alguns livros que sua distância da alfabetização o impedia de identificar. Imediatamente os mesmos foram jogados ao lado para que a busca se tornasse mais fácil. A desfeita daqueles livros ajudava Celso a avistar uma carteira de couro legítimo com uma boa quantia em dinheiro e cartões de crédito no fundo da bolsa.

O ato cometido por Celso foi apenas um na enorme cadeia da violência, que tem seu início na atitude mais cruel que é a forma como o poder lida com a educação do nosso país. A ausência dos livros o ajudava ali a enxergar o que precisava naquele momento, quando anos antes daquela cena acontecer, outros livros poderiam ter ajudado-o a ter hoje o que precisa sem ser o ator da mesma.

Celso é, antes de ser um infrator das regras sociais, uma vítima das próprias regras que infringe para sobreviver no lado da cidade onde se encontra sem muitas escolhas ou chances.

A EDUCAÇÃO É A BASE DE UMA SOCIEDADE, MAS A CONSCIÊNCIA DE QUEM TEM O PODER DE CONDUZI-LA E DISTRIBUÍ-LA É QUE DEFINE O ESTADO DA MESMA!

4 comentários:

Fabi Romeo disse...

combina com seu trabalho...

mas confesso q NADA justifica o roubo...


bjo.

janu disse...

"Um dos recursos que estavam disponíveis para (...) todos que se encontravam (...) naquela concentração de seres invisíveis era entre outros o uso da violência para quebrar o bloqueio entre eles e os seres visíveis."

Forte!
...

bju

Aline Ramos disse...

Respondendo por você a Fabi!
Seu conto não justifica o roubo, mas mostra o que levou a tal ato!

Uauu, gostei mesmo. Ainda mais da parte sobre a elite fútil, representada por Lídia. Nossa, isso que mais me revolta ultimamente, sério. Ver alguém 'normal' se transformando nisso é tão frustrante!


E parabéns pelo prêmio!
;)

JANU disse...

Já falei q tu arrasou com o banner?

BJU