quarta-feira, 18 de junho de 2008

MENOS UM

Já fazia um certo tempo que minha mãe lutava contra um câncer no seio e essa luta era muito minha também, já que éramos somente ela e eu nesse mundo. Meu pai sumiu de casa logo que soube da doença, o que o fez imaginar de imediato o tamanho do trabalho que o esperava pela frente. Trabalho esse que eu herdei até com um certo alívio. Meu pai nunca serviu para nada mesmo. A bebida era a única coisa que lhe arrancava algum esforço. Antes só do que mal acompanhado. Então, dos 17 aos 22 anos eu cuidei da minha mãe da melhor forma possível.

Não foi nada agradável, mas também não foi nenhuma surpresa. Eu estava descarregando um caminhão lotado de eletrodomésticos.
- Murilo!
Chamava-me a recepcionista da loja onde eu trabalho.
- Oi.
- Telefone para você. É do hospital onde sua mãe...
- Dê-me aqui. Obrigado.
Recuperei o fôlego.
- Pois não?
- Sr. Murilo Almeida?
- Sim, sou eu.
- Solicitamos o comparecimento do senhor aqui no hospital, por favor.
- O que houve com minha mãe?
Eu perguntava já com a resposta em mente.

Chegando lá eu constatava que minha mãe não havia resistido dessa vez. Era um choque e ao mesmo tempo um alívio. Saber que aquele duplo sofrimento havia se findado me fazia chorar as lágrimas que tanto tempo estavam guardadas. Era uma dor terrível. Apesar de entender que a morte era a melhor saída para a sobrevida de minha mãe, a impressão do chão se abrir sob meus pés era presente e forte.

Graças ao seguro funeral de minha mãe, me livrava das burocracias, tendo assim tempo suficiente para chorar a minha dor e pensar como seria a minha vida sem a presença de minha mãe. Um telefonema foi tudo o que eu precisei fazer para que ela tivesse um enterro digno da pessoa maravilhosa que era. Pensei que precisava avisar aos familiares. Mas que familiares? Éramos somente ela e eu. Não havia primos ou tios. Meu pai eu nem sabia por onde andava. Não havia ninguém. Dei-me mais conta disso quando me vi sentado sozinho no velório ao lado da urna florida.

Passei a noite e a manhã ali. O enterro estava marcado para as 12h. Ao lado, um senhor também era velado, com a diferença de que havia bastante gente por ali. Parecia uma espécie de festa. Algumas pessoas riam, contavam piadas. Nem todas ali estavam realmente sentidas pela perda daquele homem. As crianças, possivelmente netas do falecido, corriam sem parar. Eu observava aquilo tudo sem deixar de pensar que não havia dado um neto à minha mãe. Nem namorada eu tinha, ora. O enterro ocorreu de forma bastante rápida. Somente eu e mais três funcionários do cemitério. Dei então o meu último adeus.

No ônibus.
- Alô, Dr. Macedo?
- Quem fala?
- É o Murilo, do setor de carga e descarga.
- Olá. O que houve?
- Minha mãe faleceu.
- Oh! Sinto muito, Murilo.
- Tudo bem.
- Pode ficar em casa o restante da semana. OK?
- Muito obrigado.
- Meus sentimentos.
- Obrigado.

Meu chefe foi diferente; bastante gentil. Impressionante o poder que a morte ainda tem de anestesiar o mais bruto dos homens. Da janela da condução eu avistava a cidade se movimentando da mesma maneira de sempre. Ficava claro que a morte de minha mãe era um problema apenas meu e o fato não iria impedir que os empresários continuassem lucrando, inclusive meu chefe, que as partidas de futebol da rodada do campeonato estadual ocorressem, que a chuva deixasse de cair.

Nada havia mudado. Aquela tarde se mostrava diferente apenas para mim, que acabava de perder a única pessoa de minha vida. Um vazio enorme tomava meu peito, mas somente o meu peito. Lá fora tudo permanecia igual. Exceto o luto oficial de três dias decretado pelo prefeito por conta da morte de um tal ídolo do futebol. Não me recordava o nome dele. Só sabia que ele havia nascido na cidade, mas passou toda sua vida na Europa. Lembrava que lá no velório daquele senhor tinha um velho vestindo uma camisa preta com a foto desse jogador estampada.

Provavelmente, lá na loja, a grande maioria dos funcionários deve estar recordando os maravilhosos dribles do defunto “europeu” e nem se deram conta da minha falta. Somente quando aquele caminhão enorme chegar e notarem que eles são seis e não sete como sempre.

Ao decorrer da viagem a vida ia voltando lentamente ao normal. Via que era assim mesmo. A gente deixava um ente querido debaixo da terra e continuava a nossa vida para que outros mais tarde e nos enterrasse também. E o nosso enterro seria assim ou assado de acordo com o que você representasse para as pessoas.

Observando uma fila de trabalhadores numa manifestação que não causava nenhum tipo de atenção por parte da sociedade eu começava a pensar se não era mesmo esse o caminho que a grande maioria buscava durante toda a sua vida; a valorização de sua existência para que depois da morte seja lembrado como mais um na sala dos importantes. Caso contrário, será apenas menos um. Percebi que assim eu serei.

2 comentários:

fabi disse...

ai.
achei triste.
bjo.

Clarissa Marinho disse...

Reflete bem a resignação do brasileiro.
Gostei muito, parabéns.