segunda-feira, 25 de agosto de 2008

ANZHELA KUTUZOVA - Uma Criança no Cerco a Leningrado

Os dias mais terríveis de minha infância em Leningrado, na antiga União Soviética, foram entre setembro de 1941 e janeiro de 1944, quando eu ainda criança presenciei barbaridades enquanto os alemães invadiam nosso país e realizavam um verdadeiro cerco em nossa cidade. Durante esse período, um milhão de pessoas entre civis e militares morreram de fome, frio ou por doenças.

Lembro de quase sempre não ter nada para comer e de presenciar a morte de pessoas diariamente, o que fazia até mesmo nós crianças sentirmos na pele a gravidade da situação. Adolf Hitler e sua Operação Barbarossa foram cruéis durante os 900 dias em que o cerco se manteve. Quase nada chegava à Leningrado, pois os alemães capturaram os principais terminais rodoviários, o que nos deixava somente a escolha de comer pães à base de celulose ou gelatina preparada a partir de tripas de animais mortos.

Eu ouvia muito os adultos falarem em tal “rodovia da vida”, que somente mais tarde eu viria entender que se tratava do lago Ladoga que, por conta do frio intenso, congelava e servia de estrada para milhares de pessoas a fim de fuga ou de busca de suprimentos. Mas muitos ali também morriam por ataques da força aérea alemã. Meus pais nunca se arriscavam. Não na “rodovia da vida”, mas chegaram a invadir cemitérios atrás de carne humana fresca. A fome era devastadora, a ponto de movimentar um tráfico ilegal de cadáveres que manteve uma boa parte da população viva por um tempo, inclusive minha família.
- Anzhela!
Gritava meu pai.
- Tome. Divida com seu irmão.
Meu pai entregava-me uma tigela de carne sem dizer o que era.
- É carde de quê, papai?
- Anzhela, coma. Apenas coma.
Só mais tarde, ainda em cerco, tive o desprazer de imaginar que por muitos dias almocei e ainda iria almoçar os corpos de minhas amigas que a fome faziam sumir da vizinhança. A morte se tornava presente na cidade desde o primeiro ataque sofrido, em setembro de 1941. Os rostos das crianças de Leningrado possuíam o vazio de seus olhares famintos e temerosos. Poucos brincavam.

Depois de um tempo, guardas passaram a ocupar os arredores dos cemitérios da cidade a fim de conter o canibalismo de um povo desmoralizado com aquela guerra. A luta pela sobrevivência convivia lado a lado com a ansiedade de notícias favoráveis ao exército soviético. A cada inverno que se passava, sabíamos das inúmeras baixas do exército alemão, que não havia se preparado para a nossa estação mais fria e principalmente para a lama que impediam cada vez mais o seu avanço.

Meu pai e minha mãe foram recrutados para defender a cidade contra os invasores. Até minha avó teria participado da grande mobilização que Leningrado havia iniciado. Eu os assistia trabalharem sem parar. Eles pareciam incentivados com as palavras da jornalista Olga Berggolts, que através de seus poemas, pelo rádio, encorajava os moradores da cidade para que resistissem à miséria e à depressão. Meu irmão, Aleksey, mais novo que eu, não agüentaria até o fim do cerco. Não o devoramos, mas lembro de meu pai negocia-lo em outro cadáver. Assim, a refeição seria um pouco menos desagradável.

Tínhamos motivos de sobra para sermos crianças sérias e introspectivas. Uma família de vizinhos nossos não conseguiu se adaptar àqueles 900 dias e morreram todos. A filha de deles, Valeryia, se afastava quando me via com minha tigela de visual não muito agradável. Eu chorava a cada mastigada, porém, os rostos fechados de meus pais não me davam coragem para questionar o tipo de vida que levávamos. Mas algo dentro de mim me avisava que seria passageiro. Eu só não esperava que aquele inferno durasse tanto.

Em 1943, soubemos de uma ofensiva significativa por parte do exército soviético aos alemães, causando enormes baixas nazistas. Eu particularmente não entendia muito bem, mas o que diziam é que, após esse ataque, os comandantes das frentes alemães pediam a Hitler permissão para retirarem suas tropas, mas o ditador negava.
- Papai! Onde está mamãe e vovó?
- Não resistiram à fome, Anzhela.
Dizia meu pai com olhos cheios de água e repetindo alucinadamente “quando isso vai acabar meu Deus?”.

A essa altura, papai era um amontoado de ossos ambulantes. Eu já me acostumava com as notícias de mortes vizinhas como que no ato da respiração. Sabe-se hoje que morriam em média três mil pessoas por dia. Eu morria de medo, mesmo estando na maioria do tempo inconsciente por causa dos bombardeios contínuos, da fome e do frio.

Em janeiro de 1944, outra ofensiva contra os nazistas, que já se encontravam esgotados pela guerra, e mais ainda pelo frio e pela resistência do povo de Leningrado. Era o fim do cerco. O exército de nosso país acabava de vez com os alemães. Os alto-falantes da cidade anunciavam o fim do cerco. Os que ainda tinham forças, depois de quase três anos de fome, luta e sangue, comemoravam aquele momento histórico.
- Anzhela. Acabou! Acabou!
Gritava meu pai gastando o pouco de força que ainda restava em seu corpo magérrimo.
- Iremos comer comida de verdade, a partir de agora, papai?
- Sim filha, sim.
Com um enorme ferimento nos fracos braços, papai me abraçava e derramava em cada lágrima o orgulho de toda a família Kutuzova, mesmo restando apenas eu e ele.

Hoje, com 73 anos, sinto-me um pouco mal em ter me alimentado da carne de meus irmãos soviéticos, mas sinto em meu sangue o orgulho daqueles que, de algum lugar, avistaram nossa força contra o exército alemão. Eu me sentiria uma alma honrada se soubesse que minha carne havia servido de alimento para a resistência do povo de Leningrado. Dessa forma, os mortos naquele inferno permanecem vivos em nossa vitória.

4 comentários:

Janu disse...

Excepcionalmente lindo!
"(...)o orgulho daqueles que, de algum lugar, avistaram nossa força(...)"

Anônimo disse...

ai..que triste!
=/

Lucianoo, parabénssss!
não esqueci do seu aniversário, mas realmente n tive tempo de entrar na net na quinta.
TUDO de melhor, vc merece!
beijoss

Nathalia - UCAM

Fabiana disse...

setembro de 1941 - o cerco de leningrado (atual são petersburgo).
eca! a "maior" e "mais feroz" campanha militar da história,em outras palavras, foi "rápida" e fulminante.

voltando pro seu texto... legal.


beijos.

Vanessa Sagossi disse...

Nossa, Luciano!