sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A MULHER QUE SEGUIA MEU MARIDO

Tatiana nem sabia direito o que realmente tinha acontecido. Recebeu a ligação vinda do hospital que solicitava sua presença, pois seu marido, Marcos, havia sofrido um grave acidente de automóvel. Para ela isso era praticamente impossível. Marcos dirigia muito bem, era sua profissão. Marcos dirigia para uma grande empresa de transportes e era tido como um funcionário exemplar. Meio sem entender, Tatiana deixou a filha de quatro anos, Clarissa, com D. Sueli, sua vizinha mais próxima, e tomou um táxi rumo ao hospital.

Pelo caminho, Tatiana pensava o quanto o amava e o quanto ficaria frágil se algo de ruim tivesse acontecido com seu marido. Junto com Clarissa, Marcos era o grande amor da vida dela. Não saberia viver um dia sequer sem ele. “Homem honesto, meu Deus. Trabalhador, carinhoso, só faz o bem. Não pode morrer, meu Pai”.

Chegando lá, em prantos, procurou notícias de seu marido na recepção.
- O nome dele é Marcos Vinícius de Alencar Neto. Sofreu acidente de carro.
- Deixe-me ver.
Respondeu calmamente a recepcionista, contrastando com a aflição de Tatiana.
- Sim. Ele está aqui sim. Vou chamar o Dr. Haroldo.
- Mas eu quero ver meu marido, não posso?
- Senhora, acalme-se. O Dr. Haroldo já vai lhe atender.
Tatiana pensou no pior e desabou em lágrimas. Um filme terrível passava pela sua cabeça. “Não pode ser, meu Deus”, pensava Tatiana.
- Senhora. O Dr. Haroldo a espera em sua sala. A primeira porta à esquerda, por favor.
Chamou a recepcionista.
Sem responder, Tatiana segue correndo até a sala.
- Como está o meu marido, doutor? Como está ele? Responde!
- Calma. Sente-se. Quer um copo d’água?
- Quero saber como está meu marido, merda!
- Tudo bem.
O Dr. Haroldo se levanta, fecha a porta de sua sala, que Tatiana sequer teve a calma de fechar e retorna à sua mesa. Tudo sob o olhar curioso de Tatiana.
- Pois bem, Dona... Dona...
- Tatiana, doutor.
- D. Tatiana! Pois bem, D. Tatiana. Seu marido não resistiu aos ferimentos e veio a falecer ainda pouco. Vi o telefone da senhora no bolso da blusa dele e pedi imediatamente que o hospital a avisasse. Eu sinto muito, D. Tatiana. Ele não resistiu até a sua chegada. Sinto muito.
- Mas como foi que isso aconteceu? Como foi o acidente? Onde foi isso?
Totalmente descontrolada, emenda uma pergunta atrás da outra.
- Olha só. Quem o trouxe foi uma moça chamada Kátia, a qual pensei que fosse esposa da vítima, pois me pediu que cuidasse bem dele e que o amava muito. Segundo ela, o acidente foi na Avenida Rio Branco, no centro da cidade. Ele teria colidido de frente a um caminhão. É tudo o que sei, D. Tatiana.

Tatiana, cismada com a tal da Kátia, enterrou o marido no dia seguinte sem saber ao certo o que tinha ocorrido. Sabia que tinha sido um acidente de automóvel no centro da cidade, só. Ainda estava muito triste e inconformada com o acontecido.

Alguns dias se passaram até que Tatiana se mexesse por informações mais concretas sobre a misteriosa mulher. A empresa onde Marcos trabalhava já havia lhe passado que realmente o acidente ocorreu, confirmando o local e tudo mais. O que a empresa não soube explicar era quem tinha o tirado do carro e o levado ao hospital, mas isso, segundo o Dr. Haroldo, tinha ficado por conta da tal da Kátia e foi atrás dela que Tatiana foi correr.

Esteve no local do acidente. Bem em frente ao ponto onde Marcos havia colidido com o caminhão havia um bar. Tatiana foi até o bar e fez algumas perguntas ao balconista.
- Bom dia. O senhor estava aqui no dia do acidente que ocorreu aqui na frente?
- Sim senhora. Por que?
- Eu sou a viúva da vítima do carro.
- Sinto muito.
- Tudo bem. Gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
- Pois não.
- Você viu quem o tirou do carro para levá-lo ao hospital?
- Vi. Foi uma moça que estava atrás do carro dele.
- O que você sabe sobre ela?
- Bem. Só sei que era uma moça vistosa e que parecia conhecer ele, pois ela gritou o nome dele quando saiu do carro desesperada para socorrê-lo.

Tatiana concluiu o que Dr. Haroldo havia adiantado, Kátia conhecia Marcos.
- Qual era o carro dela?
- Um Honda Civic cor de prata, se não me engano.
Um estalo fez Tatiana lembrar de sua irmã, Leila, que possui o carro do mesmo modelo e cor.
- Como ela era fisicamente, senhor?
- Olha, posso lhe dizer que ela parecia até um pouco com a senhora, morena, cabelos negros. Só um pouco mais alta que você.

“Não pode ser”. Tudo indicava à sua irmã. Mas o que Leila estaria fazendo ali? E por que não havia lhe avisado? Por que não permaneceu no hospital? Por que diria ao Dr. Haroldo que o amava muito? E por que daria um nome falso? Tatiana não queria acreditar que se tratava de uma amante, muito menos sua própria irmã.

*
Tatiana lembrou que no dia do enterro de Marcos, Leila se manteve longe dela todo o tempo. Na verdade Tatiana e Leila nunca foram muito unidas. Leila, irmã mais velha e melhor sucedida que a mais nova, se distanciou do restante da família logo assim que sua vida começou a prosperar devido aos intermináveis compromissos como executiva. As irmãs se falavam com pouca freqüência.

Como era sábado, saiu do bar e foi direto para a casa de Leila. Com aquele céu cinzento Leila só poderia estar em casa. Leila a atende com um rosto assustado.
- Tatiana. Você por aqui? Entre. Como você está, minha irmã?
Estranhando todo aquele inédito tato de Leila, respondeu:
- Estou indo, Leila, indo.
- Bebe alguma coisa?
- Não. Obrigada.
- Olha. Eu sinto muito não ter te dado tanta atenção lá no velório do Marcos, eu não sabia o que falar. Não sei confortar as pessoas em momentos tão tristes. Desculpe-me.
- Tudo bem, Leila. Não vim aqui para falar de velório, na verdade eu vim para falar sobre o dia do acidente. Você estava no local? Foi você quem o levou ao hospital? Diga a verdade, Leila, por favor.
- De onde tirou essa idéia, Tatiana? Eu só soube da morte do Marcos quando você me ligou, no dia seguinte pela manhã, não foi?
- (Gritando) O cara do bar em frente ao local do acidente disse que lhe viu. Viu você o levando para o hospital, sua mentirosa. O que é? Vocês tinham um caso? É isso?
- Tatiana, você está maluca? Que cara do bar? Como assim? Não estou te entendendo. Glorinha! Traga um copo de água com açúcar para minha irmã, por favor.
- Não quero merda de água nenhuma. Só quero a verdade, Leila. Foi você ou não foi?
- Tatiana. Na noite do acidente eu estava voltando de São Paulo. Que história mais maluca, irmã.

Tatiana, sem saber por que, acabou acreditando em Leila, mas ao mesmo tempo se viu ainda mais confusa sobre a tal Kátia. Contou todo o ocorrido à irmã e pediu ajuda.
- Me diga se não é estranho, Leila.
- Realmente. Do jeito que esse rapaz do bar falou, parecia mesmo se tratar de minha pessoa, mas dou minha palavra, não era eu, não havia caso algum entre eu e Marcos. Se quiser, vamos até esse rapaz e confirmamos.
- Não. Não precisa, Leila. Preciso confiar em você.
- OK. Quero te ajudar nisso, mas não sei como. O seu marido não tinha nenhum amigo o qual você possa fazer algumas perguntas? Alguém que Marcos fosse confidente.
- Tinha. O Antônio. Mas você conhece os homens, ainda mais amigos. Não vai me contar se Marcos tinha ou não uma amante.
- Quem sabe? Ele já não está mais entre nós, Tatiana. Aliás, para que se preocupar tanto com isso agora, Tatiana?
Tatiana pensou um pouco.
- Eu quero saber. Quero saber se vou dizer a minha filha que seu pai era um exemplo ou não ao longo do crescimento dela. Amanhã, procuro o Antônio.

Tatiana sabia onde Antônio morava. Foi até lá no dia seguinte e foi atendido pelo próprio.
- Boa tarde, Antônio.
- Oi! A que devo a honra de sua visita, Tatiana?
Tatiana sorriu meio sem querer.
- Preciso lhe fazer umas perguntas.
- Claro. Entre.
Tatiana mais uma vez repetiu toda a história com toda a riqueza de detalhes possíveis.
- E então, Antônio, me diga, o Marcos tinha ou não uma amante?
- Mas que pergunta difícil, Tatiana.
- Difícil por que?
- Porque eu não sei, oras.
- Vocês não eram amigos? Não trabalhavam juntos?
- Sim, mas e daí? Ele nunca me contou de amante nenhuma.
- Kátia. Chegou a ouvir Marcos falar sobre alguma Kátia?
- Sim! Bem, a Kátia que conhecíamos era a filha do patrão, o Cláudio.
- Como ela era?
- Morena, alta, cabelo preto. Uma moça muito bonita por sinal.
- Sabe qual o carro dela?
- Ela deve ter uns três carros diferentes.
- Quais?
- Um Fit, um Civic e um...
- Qual a cor do Civic?
- Prata. Por que?
- Obrigada. Já me ajudou muito.
- Não me diga que acha que Marcos tinha um caso com a Kátia.
- Isso é o que vou saber agora. Tem o endereço dela?
- Sim. Ela mora com o pai ainda.

Tatiana seguiu no mesmo dia, domingo, em direção à casa de Cláudio em busca de Kátia. Chegando lá, viu que toda a família se divertia em volta de uma enorme piscina ao som de um samba enredo do carnaval do ano seguinte. Não precisou de pistas para descobrir quem era Kátia no meio de toda aquela gente. Pelas características, a mesma se encontrava totalmente por fora de toda àquela alegria familiar, estava sentada em sua cadeira de praia com uma tristeza profunda capaz de ser notada mesmo por trás dos óculos de sol. Tatiana avistou o carro cor de prata na garagem e não teve dúvidas: Amante ou não, ela era a tal da Kátia, a mulher que seguia seu marido na noite do acidente e que disse que o amava.

Tocou a campainha. Ninguém ouviu, somente Kátia, que foi atendê-la.
- Pois não.
- Kátia?
- Sim.
- Conhecia meu “irmão”?
Mentiu Tatiana para conseguir uma confissão sem problemas.
- De quem está falando?
- Marcos. Que trabalhava para o seu pai.
Kátia retirou os óculos de sol e respondeu meio confusa:
- Sim. Conhecia. Eu sinto muito pela...
- Só me responda uma coisa.
- Sim.
- Foi você quem o levou para o hospital?
- Sim. Fui eu. Por que?
- O que você fazia atrás dele? E por que disse que o amava?
- Disse porque realmente o amava. Amava não. Ainda o amo! Tínhamos um caso. Naquele dia nós havíamos brigado e então o segui. Nós corríamos demais naquela noite e na tentativa de que eu o perdesse de vista, Marcos correu ainda mais. Foi quando ele perdeu o controle e deu de frente ao caminhão. Então o levei até o hospital e fui embora, pois sabia que sua esposa logo apareceria. Foi isso. Respeite a minha dor, pois foram anos de relacionamento.

Tatiana ficou chocada com tamanha frieza e cara-de-pau de Kátia. Não teve coragem de tomar nenhuma atitude, calou-se, virou-se e tomou o rumo de casa enquanto Kátia observava sem entender o real motivo da visita.

Chegando em casa, Clarissa perguntou: “Mamãe. Quando que papai volta de viagem?”. Tatiana respondeu:
- Filha. Que papai? Você nunca teve pai. Em compensação, acaba de ganhar uma madrinha; Tia Leila.

Conto publicado originalmente em 14 e 15 de novembro de 2007 no fotolog.com/lucianofreitas.

4 comentários:

Fabiana disse...

vou comentar o que comentei da outra vez...

"que babado!!!
já tou até vendo... essa irmã... hum... sei não...
hauhauhauhauhauhauahuah...
espero o próximo amanhã"


"achei bem bacana...
felizmente a irmã é bacana... ufa!
e o marcos... tsc tsc tsc...
se ela trivesse ficado sabendo de tudo antes...
tinha esganado o falecido!
hahaha...

mas sério... o + legal, foi q vc deixou no ar q tudo estava em volta da irrmã... q coitada, era boazinha!
vc deixou todo mundo curioso...
pelo menos eu fiquei surpresa com o final"

Anônimo disse...

não adianta, os homens não prestaaammm!!!

tá.. as mulheres tbn ficam mto por baixo, não é dona KÁTIA?
hahaha

ADOREI!

beijooo

Nathalia- UCAM

Giselly Olivetti disse...

uahauhauah Lucinanooo muito bom...q odio da Kátia...

Beijosss

se ele estivesse vivo eu ja teria o matado
auhauhauahuahauhua...

Anônimo disse...

Aprendi muito